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Surgem depois outros sistemas de
escrita, denominados estilografia, em que a cravação ou
relevo da letra se faz por meio de traços / 488 / seguidos e não de
pontos. Foi seu dedicado promotor o conde de Beaufort, tendo por
seguidora Mademoiselle Mulot.

Lorenz, inventor do sistema usado em
Espanha, era filho da Catalunha, berço do ensino dos cegos. A
escrita de Lorenz é a letra comum estilografada. O inglês Moon
adoptou a linha em relevo, mas seguiu um alfabeto convencional.
Vemos portanto que Hauy e Barbier
deram a base de todos os sistemas – a cravação, o relevo. Braille
aproveitou a ideia, mas afastou-se de Hauy, e como cego só cuidou da
leitura dos cegos, sem pensar no proveito que haveria em torná-la
acessível aos videntes.

Por fim o médico catalão Aniceto
Mascaró, de Gerona, licenciado em medicina e cirurgia pela
Universidade de Barcelona, e que em 1870 veio estabelecer-se em
Lisboa, onde por muitos anos exerceu a clínica oftalmológica,
começou desde 1889 a dedicar-se à tiflologia, isto é, ao estudo da
pedagogia dos cegos.
Aproveitando o que havia de bom nos
sistemas inventados, o Dr. Mascaró criou o seu sistema de escrita
para cegos e videntes, e fundou na rua do Alecrim, n.º 20, o seu
Instituto Médico-Pedagógico Mascaró, para habilitar os cegos e
todos os anormais à frequência das escolas comuns dos videntes,
assim como para formar professores idóneos, dos cegos e videntes.

Neste sistema de escrita, porém, os
pontos picotados obedecem à regra de definir o mais possível a letra
comum, maiúscula, marcando-lhe o principio, o meio e o fim, ou só o
princípio / 489 / e o fim, sendo ligados pela evolução ou traço
impresso a preto, como os pontos, de modo que o vidente lê numa
escrita deste sistema, como em qualquer livro vulgar.
Eis conseguido o supremo ideal! A
escrita Braille, carecendo a iniciação prévia no alfabeto, ou a
chave da leitura, só serve para cegos ensinados no seu sistema, os
quais tacteando com os dedos os sinais convencionais nela traçados,
conseguem lê-la com rapidez. – «Mas, diz-nos o Dr. Mascaró, a
escrita para cegos e videntes permite que a mãe ensine o filho cego
a fim de que possa frequentar as aulas comuns».

Leigues, ministro da Instrução pública
de França, reconheceu, e assim o declarou ao próprio Dr. Mascaró,
que o seu sistema representava o aperfeiçoamento / 490 / do de
Braille e como demonstração de apreço concedeu-lhe as palmas da
Academia. Em 1900, no Congresso de Paris trezentos votos o
aprovaram.


O eminente tiflólogo J. Cuningham, de
Paisley, declarou que este processo tão simples e engenhoso fazia
honra ao seu inventor.
Escusado será encarecer as vantagens
desta / 491 / escrita, que para nós tem ainda a recomenda-la o facto
de ter nascido em solo português, embora de um autor estrangeiro,
mas de nação vizinha e irmã na raça e no sentir. É um invento
português.
Estes sistemas de escrita em relevo
aplicam-se igualmente à notação musical. Braille deixou memória
imorredoura na sua perfeitíssima musicografia.
Muitas outras análogas na base do
processo dos sinais em relevo estão porém em uso.
No Instituto Nacional dos Cegos de
Madrid (que é de cegos e só por cegos dirigido, apenas com
protectores ou patronato) ensina-se a musicografia Abreu.
O Dr. Mascaró tem também a sua, que
mereceu em 1900 do conselho escolar do Conservatório de Lisboa
parecer favorável, atendendo a que todos os sinais e notações se
assemelham aos da música usual, dispensando a pauta e as claves,
formando portanto um método de fácil compreensão.

O distinto crítico e musicógrafo Sr.
Ernesto Vieira também se tem dedicado com especial predilecção ao
ensino musical dos cegos, obtendo na Academia dos Amadores de / 492
/ Música os mais lisonjeiros resultados, dignos de registo e de
admiração, em alunos que hoje exercem com proficiência o ensino da
música. É autor de uma musicografia igualmente notável.
Cada sistema tem seus adeptos. A
França conserva o culto de Braille, que se estendeu ao Brasil, onde
o director do Instituto Benjamin Constant, o Sr. Brasil Silvado, se
manifestou brailista, com tendências pronunciadas para o ensino
misto de cegos e videntes. Em Espanha domina o sistema Lorenz e
entre nós, onde o sistema de Braille tem tido seguidores, o de
Mascaró tem produzido óptimos resultados.
Perfilhou-o com prazer o sábio
Provedor da Misericórdia de Lisboa, o falecido Dr. Tomás de
Carvalho, alma grande, sempre aberta a todas as ideais generosas e
boas, quando a pedido do Dr. Garcia Peres, de Setúbal, albergou na
Misericórdia um cego, remunerando o professor Barreiros, que ali o
ia leccionar, bem como a outros que depois aproveitaram igual
protecção. Este benefício, porém, cessou.
Um dos discípulos do Dr. Mascaró, o
cego Lobo de Miranda, tendo sido devotadamente leccionado pelo
falecido general Cláudio Chaby e pelo sábio lente da Universidade de
Coimbra Sr. Dr. Bernardino Machado, apostolo da instrução popular, e
ambos entusiastas pelo sistema Mascaró, foi nomeado professor de
videntes na Escola Normal de Lisboa, cujas aulas frequentou com as
melhores classificações.
Muitos operários cegos se acham hoje
trabalhando livremente, em concorrência com os videntes, em diversas
oficinas de escovas e pincéis, nas dos asilos de Santo António e de
D. Maria Pia, assim como no ofício de cesteiros, sob a direcção de
outro cego Adolfo A. Lobato.
Infelizmente Aniceto de Mascaró y Cós,
acometido de súbita doença em plena sessão do Congresso médico de
Lisboa, no momento em que mais uma vez ia usar da palavra em
reuniões publicas internacionais, para defender com tenacidade
inabalável a causa do ensino dos cegos, morreu a 25 de Abril ultimo,
sem / 493 / ter conseguido ver a definitiva vitória do seu método.
Toda Lisboa estimava o bondoso e
caritativo oftalmologista, que fora o primeiro a fundar em Portugal,
sem auxílios oficiais, a clínica e o ensino gratuito dos cegos,
exercendo a sua missão filantrópica com uma dedicação sem limites.
Filho da Catalunha (onde nascera em
1842, em Liadá), dessa província onde predominam o carácter vivo e a
actividade febril, Mascaró, que enriquecera na América, conservou
sempre essas qualidades características da sua origem, e sob um
aspecto original, conquistava as simpatias pela graça insinuante,
fina e vivaz que nunca perdia nem mesmo nos momentos de mais acerbo
azedume.
O Dr. José Lourenço da Luz dizia que
se todos os espanhóis fossem Mascarós estaria feita de há muito a
união ibérica.
Nenhumas contrariedades, que as teve e
muitas, o demoveram da sua paixão filantrópica. A protecção e o
ensino dos cegos eram o seu desinteressadíssimo enlevo. – «Os cegos
não vêem, dizia ele, mas imaginam; e como os povos da Península são
muito ricos em imaginação, os meus cegos hão-de ver na mente o que a
sensibilidade dos dedos descobre na escrita».
Como o soldado morreu no seu posto de
combate, advogando no congresso a causa de que era estrénuo e
devotadíssimo apóstolo!
Sirvam estes singelos períodos do meu
artigo de modesta homenagem de saudade pela inesperada morte do
dedicado benfeitor dos cegos, e meu bom amigo Dr. Aniceto Mascaró.
O seu sistema realiza o ideal moderno
do ensino misto de normais e anormais. É no dizer do próprio autor,
o aproveitamento do processo natural, que pode afirmar-se foi sempre
o sistema português, isto é a auto-dedicação na luta pela
vida.
É um método simples, espontâneo,
afectivo, amorável, belo como o método português e como a
Cartilha Maternal!
É útil a convivência promíscua de
cegos e videntes na escola e na oficina. O companheiro vidente
empresta ao companheiro cego a sua vista, e o seu auxílio a todo o
momento. Desta sorte o cego distraído do isolamento das trevas como
que vê pelos olhos dos camaradas de trabalho e recebe a instrução
das coisas, a noção do mundo exterior que desconhece.
É por este processo natural e
espontâneo que tantos cegos aprenderam ofícios, artes, ciências.
Admirou-os el-rei na sua viagem ao
Algarve ao vê-los trabalhar nas fábricas de rolhas a par dos
videntes; assinalou-os em igual mister o Sr. Baldaque da Silva, em
Sines; temo-los nós todos visto hábeis sineiros, cesteiros,
corticeiros.
Quantos exemplos de notável acuidade
intelectual não derivada de ensino poderiam apontar-se. Não falando
na bíblica história da cegueira de Tobias, inspiradora do soberbo
quadro de Botticeli, nem na lenda, / 494 / hoje contestada, da
bárbara mutilação infligida ao célebre general grego Belizário,
lenda de que aproveitaram as artes e as letras, nos quadros de Van
Eyck e de Gérard, no romance de Marmontel, na tragédia de Jouye na
ópera de Donizetti, mesmo nos dramas ignorados e simples da vida
contemporânea abundam exemplos notáveis. Citarei alguns, como o de
um idoso empregado do deposito de materiais do Sr. Sabido, na rua de
S. Bento, o de um conhecido vendedor de jornais espanhol, Manuel
Criado Fernandez, que costuma estanciar na rua da Betesga, dando
notáveis provas de esperteza na sua vida activíssima, e ainda o de
um cego que vive na Arrentela, de nome Augusto Catraeiro, o qual,
tendo perdido a vista em tenra idade, exercia o mister de barqueiro,
conduzindo sozinho o seu bote no Tejo, em carreiras do Beato a
Cacilhas, e manifesta em muitos outros factos extrema penetração de
sentidos e uma percepção fácil do mundo exterior que o cerca.
Em misteres mais elevados são dignos
de menção o falecido Silva Campos, que durante muitos anos exerceu o
lugar de escrivão da nobreza do reino, o Sr. Brito e Cunha, que
vítima de um desastre continua a dirigir com proficiência a sua
fábrica de produtos químicos, e o Sr. Dória, da Covilhã, que dirige
uma tinturaria.
E quantos mais! Músicos e professores
vemo-los exímios. No conservatório de Lisboa deixou memória ilustre
o conhecido cego João Nepomuceno de Seixas, falecido em 1873, o qual
ali regeu a cadeira de rudimentos e de recta pronuncia; como músicos
são exemplos dignos de registar aqui o Sr. Leon Jamet, músico da
real câmara, o afinador da casa Neuparth e do conservatório Sr.
Francisco Lorente, e o célebre violinista brasileiro Luís Margutti,
professor do instituto dos cegos do Rio de Janeiro, onde muitos
outros professores são igualmente cegos.
E deste instituto brasileiro muitos
antigos alunos têm constituído família, vivendo independentes, e
mantém até um deles, Cesário Lima, um externato de videntes de ambos
os sexos, muito frequentado.
O Magasin pittoresque de 1854
fala-nos com elogio de um português de nome Diogo Álvares, que
apesar de cego, tinha tão bonito talho de letra que os seus escritos
se guardavam como preciosidades.
*
* *
Os esforços dos tiflófilos têm sido
constantes em favor desta causa sacro santa. Quase todos os anos se
reúnem em congressos e conferencias, nos principais centros da
Europa culta, a discutir processos, a relatar e aquilatar
resultados. Vemo-los em Paris, em 1878 e 1889, em Bruxelas em 1902,
em Milão em 1901, e por fim, em Edimburgo, nos fins de Junho do ano
passado.
Entre nós a propaganda tem sido
intensa. A “Revista Mascaró” tem fornecido elementos de
leitura e ensino aos cegos e videntes, e publicado na escrita do seu
director poesias, como a alma minha de Camões, trechos do D.
Quixote, etc., impressos em cartão, ou em seda, e até em lindas
placas de porcelana, havendo nestas a tradução do soneto de Camões
em catalão e em latim. Esta última versão é do malogrado e sapiente
Dr. Santos Valente, e as chapas de porcelana dedicadas ao Dr. Tomás
de Carvalho.
Poderiam registar-se entre muitas
outras diligências / 495 / empregadas para o ensino dos cegos, as
escolas profissionais de cegos de Lisboa e Porto, de acção restrita,
o “Jornal dos Cegos”, impresso para propaganda entre
videntes, o grande número de esmolas e donativos que por disposições
testamentárias distribuem à Misericórdia de Lisboa e outros
institutos.
E para fecho desta resenha muito
incompleta, cumpre dizer que obedecendo ao pensamento simpático de
tornar prático e efectivo o ensino misto de cegos e videntes, pensa
o actual director geral da Instrução Pública, o Sr. Cons.º Abel de
Andrade, em organizar a admissão e ensino dos cegos nas escolas
primárias do reino, onde já actualmente os recebem, habilitando o
professorado a tão profícuo e louvável intento.
Muitos directores de colégios
particulares e de estabelecimentos industriais de Lisboa e Porto
ofereceram ao Ministro do reino a concessão de entrada livre nas
suas aulas e oficinas a todos os cegos do país que as queiram
frequentar. Assim se evitam ao Estado as despesas da criação e
manutenção de asilos e escolas, e se procura manter, na máxima
liberdade, sem encarceramentos humilhantes, as infelizes crianças.
Não terminarei este artigo, que vai já
extenso, porque o interesse excepcional de assunto tão pouco
conhecido por certo da maioria dos leitores, me compeliu a
alongá-lo, sem chamar a atenção de quantos fizerem a honra de me
ler, para esta sacro santa cruzada do Patronato dos cegos, que
deveria implantar-se de uma maneira prática, simples, afectiva, pela
cooperação dedicada de todos, promovendo-se a vida livre, harmónica,
completa dos anormais, a quem se devem abrir todas as aulas, todas
as oficinas, todos os recreios e distracções de que os videntes
gozam e aproveitam, numa comunidade fraternal, verdadeira aspiração
de supremo conforto e amparo a esta classe infelizmente numerosa de
desvalidos.

Nem é fácil de presumir a quantos
infelizes esta abençoada propaganda poderá aproveitar! Não existe
uma estatística oficial dos cegos indigentes e não indigentes
existentes por todo o país, além dos
150 que se acham internados em asilos e
hospícios. De uma tentativa, feita em 1904 e na qual se confessa a
insuperável deficiência do trabalho, calcula-se haver no reino mais
de 4500 cegos indigentes e de 2700 não indigentes, sendo 895 menores
de 21 anos.
Tais são os números que uma imperfeita
estatística nos acusa, inferiores por certo à triste verdade, com
respeito à população cega do país, a bem da qual forçoso se torna /
496 / envidar todos os esforços da caridade, dispensando-lhes a
protecção na indigência e o ensino, o amparo intelectual e moral de
que todos eles carecem.
Esta cruzada santa é dever que a todos
cumpre, mas muito especialmente aos médicas, aos institutos
especiais onde os cegos são tratados, albergados e protegidos. Aos
médicos sem a menor dúvida, quando mais não seja, como muito
espirituosamente dizia alguém, pelo dó e comiseração que devem
merecer-lhes todos os que eles deixaram cegos.
Tal foi o caso célebre que nos conta
Pedro Dufau no seu magnífico livro – Os cegos, publicado em
Paris em 1850. Passou-se na Catalunha que, como se vê, tem sido o
berço de notáveis ensinadores dos cegos. O célebre cego Jaime Isern,
de Mataró, depois músico notável, e autor de uma famosa musicografia,
fora durante algum tempo tratado por um médico distinto, depois seu
biógrafo, que debalde tentou arrancá-lo à cruel cegueira.
Desanimado, vista a impossibilidade da cura, este médico
bondosíssimo dedicou-se de corpo e alma a ensinar o seu doente,
procurando por este modo, já que por outro o não conseguira,
remediar a desventura de Isern.
Reconhecido ao inapreciável benefício
da instrução, que lhe abriu uma vida nova, dizia Isern que o seu
médico lhe proporcionara – «um beneficio que le pareció tan
apreciable como la aquisición de la vista por la que en vano hizo el
viaje.»
Comovedora frase que bem nos pinta o
inefável prazer do cego quando pela educação consegue entrar no
convívio do pensamento, na vida da Humanidade.
VICTOR RIBEIRO
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