UM QUADRO

À D. Áurea e ao Dr. Artur Moniz

A primeira coisa que me feriu a retina, ao entrar, um dia, em uma casa onde fui de visita a uma amiga, foram duas crianças muito mimosas que se achavam assentadas ao longo do tapete imenso que se estendia defronte da mobília de jacarandá e onde surgia bem no centro, bordada em alto-relevo, a figura de um leão com a juba eriçada, a boca aberta, sanhuda e feroz como se estivesse prestes a morder. O sol muito alegre, sol de verão, ao meio dia, tremente de esplendores, doirava fortemente, luzindo toda a sala, onde os objectos muito modestos adquiriam cores diferentes, tomando aspectos belíssimos aos reflexos dos vidros azuis e vermelhos que ornavam as bandeirolas das janelas, indo esses raios celestes banhar de claridade as cabeças das duas pequenitas que, unidas em um só grupo, tinham nos lábios um desses sorrisos que os pintores desenham rodeados com um belo e magico fulgor de luz, simbolizando a auréola divina. Muito lindo, realmente, esse místico painel, onde a alvura de uma se confundia com o moreno da outra, entrelaçando-se ao mesmo tempo os cabelos louros com os cabelos cor de ébano, muito longos, espalhados docemente em cachos que esvoaçavam por cima de ambas, brincando e pulando com a viveza e o encanto que elas mesmo possuíam.

Nas visões do meu passado, vejo ainda com a mesma limpidez esse quadro luminoso da primavera de uma criança de seis anos, prestes a fenecer debaixo da acção brusca de um acontecimento que lhe veio ferir o coração!

Quando me aproximei para beijá-las, notei que a morenita, a mais moça, sorria contente, porem ao mesmo tempo desconfiada; seus olhares de felicidade exprimiam também constrangimento. A outra sorria como ela; entretanto, dentro dos olhos azuis profundamente pensativos, tremia melancolicamente uma lágrima prestes a se derramar!

Sem compreender de momento aquele estertor paralisante, adivinhei logo pela claridade virginal de suas meigas pupilas a grande perturbação que lhe ruminava no cérebro; toda a suavidade de sua alma esquisita e boa transparecia no seu olhar que possuía a mesma claridade do azul do céu formoso; e a simpática e arrebatadora tristeza das noites penumbrosas se destacava no círculo negro de suas pálpebras franjadas de pestanas delicadas que se dilatavam alternativamente, enchendo-lhe o rosto de luz e sombra como o despertar da aurora, ou o entardecer nas estações estivais do nosso belo pais. Nesse instante em que eu as contemplava com o pensamento mergulhado num verdadeiro abismo, quase a perder o equilíbrio, a morena, muito esperta, suspendeu nos braços, como um bébé, uma grande boneca, luxuosamente vestida, que tirara de uma caixa perfumada, toda forrada de cetim, e disse-me com a voz misteriosa e baixa:

– O tio Pedro não deu boneca a ela, deu a mim e ela ficou triste...

Defronte dessa injustiça que fizera nascer a primeira dor no coração da criança que não era querida e trazer também a ambas um precoce amadurecimento intelectual a respeito dos sentimentos da humanidade, imediatamente, / 514 / com a revolta desse insignificante acontecimento, uma grande tristeza me avassalou como um círculo de ferro que viesse ex abrupto magoar-me as carnes.

Mais tarde voltei à mesma casa trazendo uma outra boneca para a mimosa esquecida, de quem guardei para sempre o olhar de reconhecimento que me lançou ao receber a dádiva, premio da reserva e angélica resignação que lhe deram no mesmo instante o realce admirável de uma verdadeira mulher com o formato vaporoso de anjo pequenino! Tão bela e sedutora! Enleio, harmoniosa canção de anjos, natureza! Porque será que se estabelece irresistivelmente na vida, por qualquer coisa, a ligação eléctrica e espontânea de uma simpatia que o tempo e o espaço não têm muitas vezes o condão de conseguir apagar?

Será o acaso? Ou (quem sabe?) talvez unicamente a força incompreensível da fatalidade que age e impera no espírito. Desde esse tempo que essa criança foi para mim como a visão celeste que apareceu a Jesus quando chorava rezando no jardim das Oliveiras, coberto de sangue com o coração dilacerado de tristeza. Na terra também existem desses anjos cheios de meiguice que sabem amenizar os sofrimentos e que sorriem com a mesma pureza dos querubins adoráveis das célicas e desconhecidas paragens do infinito.

Recife, Março, 1906. 

AMÉLIA DE FREITAS BEVILAQUA


 

 

 

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