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A nordeste circunscreve-se o reduto, em elipse, com o postigo para
nascente e fenestras para sul. Ao centro a torre altaneira, austera de
linhas, com a sua coroa de ameias dispostas no parapeito saliente,
apoiado na cachorrada circundante; a porta recorta-se a norte em arco de
pleno cintro ocupado pelo dintel raso, que assenta em dois modilhões
como nos pórticos das igrejas românicas.
Uma curiosidade irreprimível leva a subir os estreitos degraus e a
perscrutar o interior. Esta indiscrição delata-nos que se acha
convertido em palheiro. |
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PAÇO DE GIELA
Cliché de J. San Romão |
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Nada
perde porém do seu prestígio, como certos animais que apesar de
empalhados, fundamente impressionam pela soberania do seu aspecto. As
inclemências do tempo desdenham todavia da arrogância das obras humanas.
Num dia tempestuoso, com efeito a torre airosa ficou desdentada no
ângulo nordeste, servindo talvez de sepultura a esses despojos a
cisterna quase subjacente.
Mas uma impressão de calma segurança e venerável respeito se difunde
desta enérgica construção, produto duma arquitectura estável e definida.
Levantada no século XII por D. Pedro Pires, prior de Longos Vales, e
restaurada mais tarde na cimalha, continua como impávida e soberba
atalaia multissecular que assistiu às façanhas bélicas no tempo do
Mestre de Avis e, inabalável no seu posto, não desistiu de servir ao
repelão das hostes napoleónicas. Contemplando-a de sobre o adarve na sua
provecta quietude, tão penetrada de sol, para a ressurreição dum quadro
retrospectivo apenas falta uma figura couraçada, de lança faiscante,
erecta sobre o eirado, à beira da sineta de rebate pendente de dois
creneis.
A sentinela imediata deste / 279 / cordão defensivo assenta em Castro
Laboreiro, ao sul do povoado, sobre uma agreste eminência de fraguedo
escarpado avançando abruptamente entre dorsos de serrania de que a
separam gargantas profundas convergindo para a cova das inverneiras.
Actualmente, reserva-se aí o espectáculo dum vandalismo sem nome.
Vencida a difícil ascensão, observa-se que o plató [cfr. fr.
plateau] se delimita pela muralha externa, galgando sobre os acidentes
do terreno, e em absoluto vedada, salvo no extremo noroeste, onde se
recorta a pequenina Porta do Sapo, só acessível por estreitíssima
vereda talhada sobre o abismo. Reparando neste pormenor avalia-se a
recatada prudência, táctica experiente e consumada que presidiu à
edificação da fortaleza. Um valoroso solado medieval de inquebrantável
firmeza e louca temeridade seria suficiente para resistir aos inimigos
que, só podendo aproximar-se um a um, ao menor movimento de combate
seriam arremessados sucessivamente ao precipício.
Penetrando neste inexpugnável esconderijo, em tal grau de devastação se
exibe, que não é possível reconstituir a sua estrutura originária. As
divisões internas mal emergem aqui dos alicerces, incompletas e fendidas
ali, desaprumando e ruindo além O material da muralha envolvente foi
derrubado, ora em saque, ora por divertimento selvagem. E os guias
sempre dispostos a exemplificarem praticamente a aceleração progressiva
do movimento dos objectos projectados do cimo dos declives, não se
furtam à tentação de deslocar alguns pedregulhos para o despenhadeiro
pavoroso.
Em estado pouco menos miserando se depara o castelo de Lindoso,
sobranceiro à íngreme encosta que margina o Lima, vigiando a margem
espanhola, que começa mesmo defronte.
A torre central reduzida a menos dum terço, quadrelas desaparecidas,
muros desabados ou toscamente reconstruídos nas obras do século XVIII.
Todavia pressente-se uma disposição, reflectida e com moda, nos seus
elementos constitutivos.
Nenhumas outras ruínas como as deste grato poiso, solitário entre
serras, sobre ribas de tão variado aspecto, se prestavam mais a
lamentações magoadas, se neste país ainda fossem proveitosos os
gemebundos queixumes duma jeremiada...
Em melhor conservação se encontra o de Montalegre, perfilado sobre um
outeiro a norte da vila, guardando a larga chã por onde corre o Cávado,
ainda insignificante e reduzido procedendo do Larouco a barrar ao fundo
o horizonte numa vaga imaterialidade de névoa. Quem segue de Vilarinho
de Negrões, ao descer a serra do Avelar, imprevistamente descortina,
numa inapagável surpresa, a rota e venerável alcáçova duma tinta morta
de folha seca, salpicada de rubros laivos, escurecidos nos bordos, como
coágulos obstinados dum sangue secular. À medida que se declina pelas
abas da montanha, mais ressalta o arrogante e indomável cubo de menagem
retalhando a abóbada no mesmo gesto agressivo que lhe fixaram os
alvanéus de Afonso IV. Ascende, como um emblema de inflexível e
inalterável fidelidade ao Passado nesta zona do planalto barrosão em que
o regime económico-social é, aproximadamente, o prescrito na legislação
foraleira, sua coeva, e inspirado no comunismo germânico…
Pedaços de muro indicam a trajectória do cerco antigo contando ainda
três torreões, um dos quais da primitiva feitura no século XIV e os
restantes derivados da restauração no século XVI. A meio do recinto
esfacelado, a grandiosa torre com uma pequena falha na dentadura de
ameias que não prejudica o efeito do seu conjunto duma estabilidade
quase irredutível. A galba obedece ao esquema genérico: base
quadrangular, machicoulis destacando nos ângulos, mas ao nível do
último pavimento interno, para proteger as faces e a porta em ogiva,
precavidamente afastada do solo.
A sua austeridade amima-se porém com a carícia dum arbusto – a
lamagueira – de folhagem fina e copioso fruto sanguíneo, borbulhando
das juntas da velhusca cilharia num décor festivo, juvenil,
caloroso, o que a semelha a uma ara gigântea engrinaldada de ramos
votivos.
Próximo fica Chaves com o castelo muito reduzido. A torre de menagem
apresenta apenas de específico o ter entre os machicoulis
angulares, outros centrais, na mesma horizontalidade. A noroeste sobre
uma elevação alça-se o de Monforte, junto da raia, e para o levante
depara-se com o de Vinhais.
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