Aqueles espécimes que a vesania da pilhagem ou da destruição poupou estão desmazeladamente / 275 / abandonados aos estragos do tempo e vão ruindo, lento e lento, sem que uma simpatia consciente e reparadora os ampare, com carícia, na sua majestosa decrepitude.

E tal é a derrocada em que se encontram quase todos esses documentos de outrora, – páginas grisalhas, envelhecidas e esfaceladas! – Que, em certos, só a imaginação dos eruditos, ávidos em desvendar o passado, será porventura susceptível de os reconduzir à sua integralidade inicial. Todos imersos na desolação da ruína, a que a natureza tantas vezes dá o arranjo decorativo de uma formosura surpreendente e bizarra, avolumando a saudosa comoção que as coisas de outrora inspiram, com o encanto de cenário feito de tons macios e gastos seduzindo sempre os temperamentos artísticos com amor e delícia!



Ruínas dos castelos de Miranda e Penegate.
Clichés de Rocha Peixoto e J. San Romão.

Estes assertos têm a sua plena confirmação com uma simples romagem às venerandas fortalezas construídas nas linhas fronteiriças de Minho e Trás-os-Montes, que fundamentalmente obedecem ao mesmo tipo arquitectónico, salvo a diferenciação / 276 / de elementos secundários evidenciados nas da segunda província e a variabilidade de plano estabelecido em harmonia com as condições do local onde foram construídas.

Em todas, além da segurança e firmeza do seu arcabouço, observa-se o intuito duma astuciosa precaução pelos vestígios ou lógicas conjecturas dos ardis, dos obstáculos, dos estorvos, prudente e inteligentemente elaborados e dum tão largo alcance contra a violência do ataque exterior, ou até dum valioso auxílio numa fuga angustiosa depois da derrota inelutável.

Em Caminha principiava a corrente defensiva do norte de Portugal. Mas nada resta, por assim dizer, das fortificações mediévicas nesta vila risonha e grácil, pitorescamente acantonada entre a foz do rio Minho e a do Coura, depois de ter despido o surrado burel que a sequestrava do doce embalo das águas.

Para leste, o primeiro elo fecha em Cerveira com o castelo erguido por D. Dinis, que o visitante busca por detrás do casario moderno, irregular e incaracterístico.

Transposta uma porta carcomida e baixa, de onde se difundem espiritualizados remembers de sabor arcaico, e subindo a pequena e tortuosa ladeira que dela segue, estatela-se em face o aspecto comovedor de muralhas incompletas, torres quase de todo apeadas, como se um vento de insânia, desordenada e furiosamente houvesse passado naquele recinto de guerra, sobranceiro à corrente internacional, que o separa da margem de além, antigamente hostil. Sobre o silêncio e a melancolia penetrante desta assolação cai o deslumbramento da luz a valorizar a riqueza das tonalidades do panorama inesquecível.

Passando por Valença, a célebre praça-forte, que substituiu a oxidada armadura do século XIII e onde se respira uma atmosfera pesada e opressiva pela influência imediata do conspecto das solidíssimas e espessas muralhas envolventes, portas soturnas, vias subterrâneas, baluartes angulosos e espionantes, fossos cavados e pontes suspensas, levanta-se, a 5 quilómetros de Mansão, a formosa torre de menagem do extinto castelo de Lapela.

Fica junto à orla das águas do Minho, numa baixa e alicerçada na rocha. Mas emerge do minúsculo povoado circundante numa tão galante e esbelta sobriedade de linhas e sobre um tão gracioso fundo de paisagem que para logo cativa os olhos mais indiferentes e rudes. A sua porta em ogiva rasga-se a dez metros do solo no lado setentrional e é sobrepujada pelo brasão de D. Fernando. Tem indícios dos miradouros de projecção. No alto irrompe do seu terraço o tufo verde negro dos louros e oliveiras ondulantes pavilhonando o padrão de guerra, agora inútil, como símbolo clássico de triunfo pelo pretérito e de estreita e risonha paz pelo presente.

A estrada que de Valença conduz a Lapela / 277 / é a mesma que leva directamente a Monção, à Porta do Sol da valente praça-forte, onde se repetem os nomes que relembram dois feitos dos mais épicos da nossa história militar: o horroroso cerco sofrido no século XIV, sem capitulação mercê do estratagema lendário da heróica Deu-la-Deu Martins, e o desesperado assédio do século XVII com a guerra da Restauração. Pois bem. O visitante ao chegar tem um testemunho excelentemente demonstrativo da sensatez e do critério da maior parte das nossas municipalidades. Aquela porta, única via a canalizar a comunicação com as artérias exteriores, e tão vigorosa e astutamente construída, com o reforço das seteiras laterais em toda a sua profundidade para reprimir a passagem do inimigo, quando os gonzos, armelas e ferrolhos das portadas cedessem à bravia arremetida, foi hediondamente mutilada. Em 1902, a conspícua edilidade que dirigia então os interesses locais, mandou arrasar-lhe a extensa abóbada para que a entrada na vila se fizesse desabafada, ovante e banhada na luz dos astros, ou mesmo na água dos chuveiros E, sem mais compostura, assim ficou a nudez dos esboroamentos, desde os arranques da curva para mais destacar a proeza aos olhos dos forasteiros.

As outras portas escaparam felizmente aos alindamentos do progresso.

A Monção segue-se Melgaço, para onde a diligência cambaleante e sonolenta se encarrega também do transporte. Além do Peso e a certos corcovos da estrada enxerga-se a vilória poisando no alto em volta da linda torre de uma côr esmaecida sobre o fundo azul do céu, como a silhueta desbotada e ténue duma iluminura.

Arribando, logo se descobre que o abraço inerte das muralhas compostas no século XIII, quando Afonso III reinava, conforme o depoimento insuspeito duma inscrição junto da porta ocidental, rompeu-se para se não separar a terriola das chatas magnificências do largo principal, geometricamente arborizado, com assentos solícitos ao entretenimento da madracice indígena.