|
Mas onde o espírito melhor sacia a ânsia pelas reminiscências e indícios
que mais completamente despertam o pretérito é em / 280/ Bragança, na
cidadela ocupando a nascente o pináculo duma colina. A entrada na caduca
colmeia humana faz-se por uma porta ogival entre dois baluartes que
avançam paralelamente sobre a superfície da muralha, logo a chocar-se
para a dextra numa decepada quadrela – a torre da câmara.
Transposta aquela abertura, talhada em forma de mitra, que já se não
cerra com fragor ao toque imperioso do sino de correr,
atravessa-se a espessura do segundo cinto de vedação, para além do qual
se abre uma ruela, amolgada, tortuosa e estreita, conduzindo ao quartel
de caçadores, situado no extremo oposto. Então, abstraindo da pouca
gentana que transita com vestes da moderna fancaria e de alguns soldados
de arcabouço pobre e parrano a desmentir a hipérbole literária da
corpulência dos trasmontanos, a imaginação recua instintivamente uns
séculos pelo intenso arcaísmo que de todos os lados a solicita. / 281 /

Porta do Sapo, Castelo de Castro
Laboreiro (Cliché de R. Severo)
No segmento direito do âmbito cercado enfrenta-se com o bairro túmido,
viscoso e sórdido, sulcado de vielas e becos fétidos por onde cursa, num
sossego inefável, toda a fauna que as lendas dos evangeliários fixaram
no afecto da alma popular e de onde vem o ruído de bitesgas sombrias e
cavernosas, de casinholos pelintras espalhando uma vida amofinada e
miserável e de poluídos valhacoutos, onde se espoja a soldadesca; mais
além, e dissimulada por uma capeloria, poisa a Casa do Senado,
talvez único exemplar dos nossos edifícios urbanos do século XII.
No segmento esquerdo alça-se a picota brigantina dum insólito valor
arqueológico e o corpo principal das ruinosas fortificações de outrora
em que sobressaem a torre da princesa a desagregar-se lentamente,
como que roída por uma cárie centenária, e a torre de menagem, vasta e
um tanto acaçapada, mas não desgraciosa, tal é o concurso artístico e
nobilificante de certos incidentes arquitectónicos congraçando a solidez
e a estética. Esta, como aquela, é feita de xisto, antipático, e rebelde
a qualquer afeiçoamento, de que lhe resultou a denegrida patine
de ferrugem e é solidada nas arestas pelo granito moldável e robusto.
A pouco mais de meio da sua verticalidade cinge-a um friso granítico de
um inesperado alcance ornamental e, ao alto dos cunhais, excrescem as
bases, em secção rectangular, dos miradouros cilíndricos a lançar uma
nota de desvio e excepção ao tipo até aqui exibido, mas numa tão arguta
e segura penetração de planos, que logo denuncia o magistral e douto
senso construtivo que a gestou; as ameias de remate horizontal com
gretas cruciformes servindo de escudos às vigias do terraço.

Torre de Menagem de Melgaço (imagem anterior) e
Castelo de Castro Laboreiro (Cliché
de Ricardo Severo)
A porta, como sempre, voltada ao inimigo num cauteloso afastamento do
solo. A nascente e a sul duas poéticas janelas góticas flamejando e
aleluiando as respectivas fachadas com o fulgor que irradia da pureza
dos seus lavores.
Aqui e ali, fenestras escancarando o vago e mudo negrume do interior,
como golpes ressequidos e hirtos de remotas punhaladas que jamais
cicatrizassem. Um brasão até agora indemne memora a interferência de D.
João I restaurando a obra de D. Dinis, que por sua vez renovara a de D.
Sancho.

Miranda
– Porta do Amparo (Cliché
de Morais)
Para aquém de Bragança contavam-se algumas atalaias como as de Outeiro e
Vimioso, hoje extintas, mas só Miranda, a pequenina cidade morta,
debruçada sobre o Douro, possuía realmente um castelo. Sujeita aos
acometimentos espanhóis, com Zamora perto, acauteladamente se abafara
numa resistente muralha, agora muito desmantelada, mas ainda evidente em
quase toda a cercadura e que se transpunha por duas portas: a de St.º
António, já desaparecida, e a do Amparo, idêntica à de Bragança, e
abrindo para a costanilha – a pitoresca rua seiscentista. Para as
escapadas sobre a tenebrosa margem do rio havia o postigo a
nascente.
No ponto culminante, a noroeste, erguia-se a fortaleza com o seu muro
especial, o fosso e levadiças a contornar o cubo de menagem fartamente
empastado com aditamentos de reforço.
Uma explosão monstruosa, porém, fez com que quase tudo isto abatesse.
Desse indescritível desastre apenas ficaram aprumados alguns lanços de
cortinas e parte da firme torre central, que D. João I mandou erigir,
como o atesta o escudo firmado na face do sul com a sua porta ogival
aberta para a Espanha. O aspecto do poente é desolador. A menagem
amputada e desventrada, as restantes edificações aluindo, e sobre a
ossatura a descoberto das paredes descarnadas vão crescendo os pensos
das ervagens decorativas das ruínas. Em volta a paisagem árida e triste
onde um magro hortejo, ou um arremedo bucólico de vinha mais lhe aviva a
sinistra melancolia que obsidia e penaliza junto daqueles destroços –
perfeito símile desta nossa pátria esquecida da sua história.
MANUEL MONTEIRO
|