/ 267 / Destes recursos de técnica e deste método de composição resulta a feição culminante, especialmente característica na obra deste pintor – a eloquência da sua mímica, tão assinalada, por exemplo, nos quadros intitulados O azeite novo, a Chegada do Zé Pereira, O Barbeiro, A volta da Romaria

No patim da escada que leva ao atelier na casa do artista, pende do muro, creio que como aviso prévio, como bitola ou como regra preambular, uma bela reprodução fototípica do incomparável quadro de Rembrand Os síndicos dos mercadores de pano. Desta chamada retrospectiva da minha memória ocular para um tipo de pintura em que tão fundamente se embeberam os meus olhos no museu de Amesterdão, resultou talvez que, por um efeito de involuntário confronto, a cor de alguns quadros de Malhoa me parecesse hiperestésica no seu registo de tonalidades, na sua instrumentação dos valores, no brilho sinfónico das suas justaposições e dos seus contrastes cromáticos.

É possível que a minha impressão tivesse sido outra se eu tivesse pensado na Ronda da noite em vez de somente me lembrar dos Síndicos.

Bem capcioso elemento o da cor na pintura! A Ronda, por exemplo, dá-nos o efeito de toda a escala do espectro solar. Os Síndicos são um simples acorde de quatro notas, com os seus sustenidos e os seus bemóis, em castanho e bistre. Há um ano vi em casa de Sorolla dois quadros de curioso contraste. Um deles representava um laranjal de / 268 / Valência coberto de fruto e envolvido em sol. O outro era o retrato do pintor Beruete, em tamanho natural, corpo inteiro, todo vestido de preto. Este homem, de luto pesado, sentado numa poltrona, segurando um chapéu de feltro preto nas mãos calçadas em luvas pretas, pareceu-me tão intensamente colorido como o laranjal faiscante de verde e de amarelo sobre um fundo de anil.

Este efeito provém do poder da luz, único iniludível, soberano dominador de toda a composição pictórica. Diferentemente do que se dá na física, em que a luz e a cor são fenómenos associados, um resultante do outro, na pintura eles são consequências distintas de combinações diversas. Por isso o bravo e desditoso Monticelli, o mais portentoso colorista da moderna pintura francesa, dizia, nessa língua compósita e sinestésica, a cuja bastardia se não pode deixar de recorrer na critica de arte, que na pintura o desenho, a perspectiva e a cor são como na ópera o coro, o acompanhamento, o enredo e o maquinismo; a luz é o tenor. Para os polifonistas da musicalidade e da dramatologia lírica moderna a frase de Monticelli, um tanto antiquada e rossiniesca, poderá parecer ambígua. Creio que o que ele quis exprimir é que na gama da paleta a luz é o dó sustenido, do peito. Tudo mais são gradações de esforço e de insuficiência orgânica. A luz é a meta dos coloristas. O traje dos homens do campo nas províncias do sul de Portugal, traje com tão amoroso escrúpulo estudado por Malhoa, restringe a pista da meta a que me refiro à mais sóbria relacionação de tons quase monocromáticos.

 / 269 / Ainda há pouco o grande pintor John Sargent, de viagem em Portugal, me dizia: – O homem do povo no Alentejo e na Estremadura portuguesa é, no ponto de vista da pintura, o homem mais lindamente vestido do mundo. Com a cara rapada, a tez morena e corada, de calça e jaqueta de um espesso castanho amelado, a camisa do mais belo branco, a cinta negra, e o chapéu negro mate, de aba arregaçada por um debrum de veludo, todos me parecem trajados por um figurino pintado por Velasquez.

Caberá a Malhoa como colorista corroborar demonstrativamente a tão justa observação de Sargent.

É de notar que a tão especial tonalidade, pardo alambreada, que apresentam vistos ao solos estremenhos e os alentejanos a que Sargent se refere, é como que o filtro dominante em que muitas vezes se embebe o pincel de Columbano. Dessa tão especial e subtil noção, consciente ou inconsciente na intenção do artista, provem o quase indefinível encanto, o sortilégio de cor, que em alguns dos melhores retratos deste artista nos cativa e subjuga.

Malhoa é moço e dispõe da mais rara força de aplicação e de trabalho. Pinta sorrindo e cantando, quotidianamente, de sol a sol, e pinta com a mesma espontaneidade e o mesmo doce fluxo de seiva com que as plantas dão flor. Expôs seis ou sete vezes no salon em Paris, e, por proposta da Sociedade dos Artistas Franceses, foi-lhe conferida a cruz da legião de honra.

Constantin Meunier, a quem já me referi, contava 69 anos de idade, tinha a serena consciência da lesão mortal que lhe tocara o coração, e era já ilustre e consagrado, quando corajosamente empreendeu a tarefa monumental da sua obra definitiva, essa glorificação épica do trabalho do povo belga, hoje uma das mais altas expressões do génio contemporâneo. Malhoa tem diante de si todo o tempo, e não o desaproveitará de certo, para prosseguir e levar até à apoteose final os seus fastos da vida do campo na sua terra.

Esta simples circunstância: ser, como ele, sinceramente, convictamente, enternecidamente da sua terra, é já uma condição fundamental do êxito. A decadência miserável das manifestações da arte contemporânea deve-se principalmente à impersonalidade vergonhosa, / 270 / à decapitante rasoura snóbica das nossas penetrações cosmopolitas. Assim nas conclusões tão superiormente didácticas desse admirável congresso de arte pública, ultimamente pela terceira vez reunido em Liège com o concurso de todos os países civilizados, se insistiu particularmente neste principio: Renovar por toda a parte as tradições nacionais e etnológicas é assegurar o poderoso renascimento da capacidade humana, libertando-a do esterilizante cosmopolitismo que hoje tende nefastamente a regular todos os movimentos não só do espírito mas do coração das gerações novas.

Determinar fazer uma exposição de arte no Rio de Janeiro, levando os seus quadros ao mercado brasileiro, é outro auspicioso indício de sábia orientação. Pretender, pelo mais falso espírito convencional de casta, desaliar da questão de dinheiro a questão de arte é penetrar no domínio da pura fantasia, pondo de parte toda a lição da história. Sempre, invariavelmente, em todas as nações, através de toda a trajectória da civilização, os destinos da arte se filiaram nos destinos do comercio. Nos países com cuja civilização mais estreitamente se relaciona a civilização portuguesa, durante a idade media e a renascença, na Borgonha, em Flandres, na Itália, na Alemanha, o comercio foi sempre adiante, criando a riqueza, fundando a cultura, permutando mercadorias e ideias, e difundindo dinheiro. Os artistas seguiram logicamente os mercadores. E sempre as grandes épocas da arte coincidiram com as grandes épocas da riqueza publica.

Filipe o Bom, sob cujo governo a arte da pintura tocou pelos pincéis de Van Eyck e de Memling a meta da perfeição a que anteriormente não chegara nunca e que jamais se ultrapassou depois, é o primeiro potentado do seu tempo, o alto suserano feudal que todos os magnates de França e dos Países Baixos se comprazem em ter por chefe.

Os que não são seus vassalos – diz Michelet – não querem igualmente deixar de submeter-se-lhe, considerando-o o supremo pontífice da honra, do pundonor / 271 / e da cavalheirosidade. Se o rei de França tem contra o duque a sua jurisdição, o duque tem sobre todos os grandes senhores uma acção consideravelmente mais poderosa e mais decisiva, a do tribunal de honra do Tosão de Ouro, de que ele é o árbitro. Ora todo o poder enorme de Filipe tem por base a portentosa riqueza dos seus burgueses e o admirável trabalho dos seus mesteirais, a guilde e a halle. O próprio carneiro, que pelo seu velo dá o nome à ordem de mais prestígio e de mais força aristocrática que jamais existiu, o que é senão o símbolo, consagrado no políptico de Gand, da riqueza flamenga proveniente do comercio da lã no mercado de Bruges?

A pintura portuguesa, que no século XVI atingiu um limite de maestria nunca mais alcançada, deriva inicialmente da influencia de Flandres, travada não só pela aliança conjugal do duque de Borgonha com a excelsa filha de D. João I, irmã dos altos infantes de Portugal, no começo da gloriosa dinastia de Avis, mas também pela preponderância dos nossos descobrimentos sobre os destinos comerciais do mundo. Essa pintura manteve-se durante perto de um século pela riqueza dos nossos negociantes, que juntamente com os de Espanha vendiam em Anvers as especiarias da Índia, os diamantes e as pedras preciosas, as lãs então preferidas às de Inglaterra, as uvas, as laranjas, as amêndoas, os vinhos do Porto e do Xerez, e compravam para introduzir no reino gado, lacticínios, peixe salgado, tecidos e objectos de arte. Só o comercio das especiarias atingia a soma anual de 4 mil contos na Casa de Portugal em Anvers. Os nossos feitores habitavam sumptuosos palácios que os grandes artistas ornavam com a profusão das suas obras. Pelo seu luxuoso teor de vida eles ombreavam com os famosos capitalistas do tempo, os Fuggers e os Médicis. Um deles, Manuel Cyrne, do Porto, não querendo que o cheiro da turfa molestasse o olfacto dos seus convivas em dias de recepção, mandava queimar canela nos fornos da casinha e em todas as chaminés da casa. Era por meio destes numerosos agentes de grosso comercio e de alta elegância que D. Manuel encomendava esculturas a Veit Stoss, D. João III mandava lavrar por Miguel Ângelo uma estatua da Senhora da Misericórdia e fazia cinzelar por Benvenuto Cellini a sua espada, enquanto o infante D. Fernando tinha como intermediário Damião de Góis para a compra dos seus livros, das suas iluminuras e das suas tapeçarias.

A arte, em suma – e parece-me útil que esta singela noção entre no convencimento de toda a gente – é perante / 272 / as transacções sociais um simples artigo de luxo, luxo dispendiosíssimo porque a jóia de arte é a única em que o valor da matéria-prima é nulo. Tudo é feitio, e o seu preço é enorme. A arte custa ao estado em França vinte milhões de francos. Não custa menos à Inglaterra e à Alemanha. Um retrato por John Sargent paga-se por vinte contos. Um bom tapete persa custa em media quinze contos. Os herdeiros de um amigo de Chardin a quem o pintor pregara na parede da mais modesta casa de jantar no campo quatro pequenas telas, lembrança de amizade considerada de nenhum valor, refugo de uma encomenda que lhe fizera a Dubarry, alcançaram recentemente uma fortuna vendendo a um milionário americano essas quatro naturezas mortas e durante cem anjos esquecidas. Este luxo, defeso aos homens e aos países pobres, é obrigatório para os países e para os homens ricos. É pelo gosto e pelo culto da arte que, em todas as sociedades e em todos os tempos, se desmaterializa, se justifica e se enobrece a riqueza.

RAMALHO ORTIGÃO