De como se organizava a defesa territorial do país durante a Idade Média

 

EPOIS da conquista, povoamento e cultura da terra foi a sua defesa o que, largamente e com ânsia, preocupou o espírito duma alta previdência administrativa dos nossos primeiros monarcas.

Torre de Menagem de Braga
 (Cliché de João San Romão)

Visto que a instabilidade social da Idade Media o exigia, repetiu-se então, mas sem a enternecida e carinhosa poesia dos ritos que a religião inspirava no mundo antigo, a prática de levantar, em volta de cada burgo formado, o cinto de muralhas defensivas. Estas couraças em cantaria, espessas e bem consolidadas, rasgavam-se de onde a onde para permitir a comunicação com o exterior por meio das levadiças lançadas sobre o fosso de resguardo, e interrompiam-se aqui e além nos cubelos que as reforçavam.

Dentro do perímetro assim vedado em que se abrigava uma cidade ou uma vila, havia ainda o reduto procurado, com tumulto e alvoroço, na hora amarga e extrema do perigo.

Por vezes não havia povoado, mas apenas um ponto de importância estratégica a proteger. Então surgia estritamente o castelo, alcandorado e dominante, atalaiando o horizonte com os seus muros e torreões, cauta e sagazmente dispostos, num selvagem arreganho de ameias, sob a imponência arrogante da elevada torre de menagem.

Mas nem só povoações e lugares de vigilância cumpria assegurar nesta época em que os vultos da nobreza, ordens monásticas e principais dignidades do clero assumiam, sob todos os aspectos, tão extraordinária preponderância na vida pública da nação.

Defenderam-se pois mosteiros como o de Leça do Balio, conventos como o de Travanca (Amarante) e casas nobres como a de Penegate, do 1.º quartel do século XIV, o Paço de Giela restaurado no século XVI (Arcos de Valdevez) etc., etc.

Certo é que, através do país, já o sarraceno para o sul, como em Santarém, e antes o legionário, como em Braga, e o luso romano, como em Castro Laboreiro, haviam cercado de muralhas protectoras os seus habitats com o maior interesse e atenção, sendo mais tarde porém reformado; e modificados pelos dinastas afonsinos, que manifestaram assim o reconhecimento da mesma, senão mais intensa, necessidade que distantemente as motivara.

Mas acima deste interesse restrito e assaz circunscrito, surgiu o do agregado colectivo, em cuja formação se pusera o mais apaixonado ardor e o mais porfiado empenho.

A terra comum, a terra pátria, para cuja consolidação e integridade todos haviam contribuído com o mesmo esforço desinteressado, suscitando a comunhão afectiva no ideal que fundamenta a vida de um povo, não podia ficar aberta e exposta à plena mercê do desejo audaz e rapace de qualquer invasor.

Daqui derivou a pormenorizada solicitude, o constante cuidado com que se postaram rijas e altivas sentinelas de pedra ao longo da fronteira, não só onde houvesse povoados consideráveis como Bragança, Montalegre e Miranda, mas assinaladas posições estratégicas / 274/ de repulsa como Valença, Monção, Melgaço, Lindoso e Castro, ou pontos de fácil acessibilidade às incursões do inimigo como Lapela e Caminha.