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Percebe-se bem na obra de Malhoa que serão estes os dias grandes da sua
vida. Ao esperá-los, pensando neles, lhe luzirá de alegria o olho ávido,
e, uma vez chegada a festa, é indubitável que ele amanhecerá no adro com
as primeiras queijadeiras do arraial; que presenceará a inicial
cambalhota ainda / 264 / sonolenta dos sinos para o repique da alvorada;
verá descarregar a primeira carreta dos melões; ajudará a desenhar e a
armar o arco de murta em frente do cruzeiro; verá subirem para o côro os
tímbales e o rabecão da musica; verá chegar o pregador, o fogueteiro e a
caleche com a família do
fidalgo; felicitará depois das suas variações o
cornetim da filarmónica; ajudará de tenor aos motetos da missa; irá de
opa a um dos ceriais ou a uma vara do pálio; e, só de noite, sob o
sete-estrelo, pela estrada silenciosa e branca de luar, ele voltará para
casa com a memória e o álbum de algibeira / 266 / pejados de esfusiantes
croquis, repisado de ruído, deslumbrado de luz e de cor, em companhia
dos últimos feirantes e dos últimos romeiros, retardatários,
claudicantes, de cabeças entrapadas por efeito dos percalços traumáticos
da bebida ou do amor.

Na composição técnica de toda esta serie de alegres, maliciosas ou
comovidas anedotas, nenhum esoterismo de processo, nenhum duplo sentido,
nenhuma casuística, nenhuma ambiguidade. Desta zona da obra de Malhoa se
pode dizer o que pouco mais ou menos dizia Burger de certos holandeses
da mesma índole: sabe-se claramente de que se trata, em que lugar do
pais e em que estação do anjo se está, que dia é, e quantas horas são.
O
processo chamado do natural está aqui compreendido à letra e observado à
risca. Vê-se que do trabalho de Malhoa se excluiu, como deveria
excluir-se de toda a criação artística, o modelo pago a tanto por hora
para consecutivamente representar aos olhos do pintor, mais tarde aos do
publico ingénuo, o porte, a figura e o gesto de um príncipe, de um
burguês ou de um mesteiral, ou seja César passando o Rubicão, Sócrates
bebendo a cicuta ou o Filho Pródigo guardando os seus bacorinhos. O
modelo assim compreendido é o mais inverosímil dos fingimentos,
encobrindo uma falsificação tão condenável na arte como é no comércio a
do vinho sem vinho ou a do leite sem leite. Malhoa satisfaz
rigorosamente a clausula de Violet-Ie-Duc, que não considera desenhista
senão aquele que sabe desenhar com a vista, e tem na memória as
formas, assim como o escritor tem os vocábulos dos objectos que vê.
Os seus personagens são extraídos, ou de memoria ou por séries de
rápidos apontamentos gráficos – de que dão testemunho dos
inumeráveis desenhos dos seus álbuns e das suas pastas, – do vivo da
acção que a sua pintura se destina a reproduzir. Esses desenhos são
notáveis de facilidade, de precisão e de elegância, assinalando o
autor como um dos mais completos discípulos de Simões de Almeida, o
insigne mestre, que a Escola de Belas Artes de Lisboa, na lapide
comemorativa que um dia houver de consagrar-lhe, poderá justamente
qualificar acrescentando ao seu modesto nome este simples
desenvolvimento – aquele que nesta casa fundou a ciência do desenho.
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