Os dois eminentes artistas a que me refiro (um deles, Loureiro, ainda felizmente vivo e em plena força de trabalho) terão, creio eu, de ser considerados / 260 / na historia da arte do nosso tempo como os iniciadores e primeiros mestres da paisagem em Portugal. Íntimas analogias os relacionam um com o outro. São ambos do Porto, da terra verde e montanhosa, das empinadas e musgosas azinhagas, dos campos de milho quadriculados pelas videiras de enforcado, dos pinheirais, das azenhas, das águas murmurantes, das translúcidas neblinas e das lindas raparigas de olhos azuis e tranças louras. Ambos essencialmente minhotos, inclusos, sentimentais e nostálgicos. Ambos conjuntamente educados em França, pintando em Fontainebleau com os impressionistas do tempo, na convivência dos grandes mestres, de Barbison, Corot, Daubigny, Troyon, Diaz, Millet. Enfim, ambos mais ou menos achacados do peito, pertencendo como tais à categoria daqueles predestinados doentes de infinito no agiológio da arte, em que Manclair compreende por sintomas comuns de nostalgia poética, de nervosidade exacerbada, de ternura febril, de insaciabilidade ideal e de melancolia mística, certos privilegiados temperamentos como o de Wateau na pintura, o de Verlaine na poesia, o de Mozart, de Chopin e de Schubert na musica.

Loureiro e Silva Porto são sempre, através das suas mais hilariantes sinfonias de cor, dois delicados, dois contemplativos, dois sonhadores.

De uma vez, no atelier de Silva Porto, achando-nos em frente de uma tela em que o artista virgulava por glacis uma afinação de tons numa paisagem sombria, tristonha, quase dolorida, representando um desolado trecho de charneca, ao sol-posto, num céu glauco e duro, uma senhora perguntou-lhe:

– Porque escolheu um ponto tão desabitado, tão triste, e, sinceramente, tão feio?

Silva Porto, de paleta e pincéis na mão esquerda, dentro da sua grande blusa de linho, o rosto afogueado, os olhos baixos, torcendo o bico da barba, respondeu na sua velada voz, enrouquecida, mas concludente:

– Escolhi este ponto feio, porque o acho lindo.

/ 261 / Nunca Malhoa concordaria com semelhante critério de opção. Repugnam-lhe as melancolias crepusculares, as harmonias das sombras, os extáticos silêncios da natureza imobilizada, o vago sonambulismo das coisas parecendo quererem ouvir no ar a asa do anjo invisível que passa, a campina enlutada, a contra-luz, tão predilecta de Millet, os nocturnos elegíacos, as sinfonias em branco ou os caprichos em negro de Whistler. O que invade, o que alicia, o que arrebata o seu carnal temperamento, à Jordaens, à Teniers, à Van Ostade, à Goya, à Claude Monet, são as positivas, esplendentes e radiantes exterioridades do mundo. É particularmente a vida dos campos, farta, simples, lidada e festiva, toda de fora, a que hipnoticamente o atrai, como o trapo cor de sangue, desfraldado ao sol, em labareda, atrai o touro solto.

Chamei-lhe um paisagista, e ele o é por certo; como porém, pelo seu instinto de simpatia e de sociabilidade, o que mais o interessa na natureza é o homem, oprime-o a solidão, precisa de chamar gente, de tocar a buzina ou de tanger o sino de socorro para que se complete a expressão do sítio pela concomitante fisionomia do habitante.

Assim, não podendo ser descritivo sem ser também anedótico, ele é conjuntamente e cumulativamente tanto um pintor de paisagem como um pintor de género.

O campo da Estremadura portuguesa, tão especialmente suave e pingue, levemente outeirado, de uma grande igualdade de temperatura, longamente aIfombrado, ora de verde ora de louro por ondeantes cearas como nas Lezírias, profusamente matizado de hortas, de pomares, de vinhas e de olivais, opulento de produções celebres como o azeite de Santarém, os vinhos famosos de Bucelas, de Torres, de Colares, de Carcavelos, do Lavradio, o mel, os lacticínios e as frutas proverbiais do termo de Alcobaça e das várzeas colarejas, este privilegiado campo, abundante e próspero, onde a mais humilde cabana tem todas as telhas e todos os vidros que lhe são dados, onde quase / 262 / não há pobreza, e onde todo o trabalho parece sorrir como nas éclogas de Diogo Bernardes ou de Sá de Miranda, ninguém mais intimamente do que Malhoa o conhece, ninguém mais profundamente o ama, nos seus aspectos pitorescos, nas suas tradições, nas suas culturas e nesses usos e costumes provinciais dos quais disse Henri Martin, quando veio cá, que o estudo do presente é aqui tão curioso como o de uma idade antiga.

A obra paisagística de Malhoa, suficientemente representada nesta exposição, forma no seu conjunto, um fiel traslado da nossa vida rural, lembrand0 pela similaridade do seu intuito a epopeia lapidar de Constantin Meunier consagrada à glorificação do trabalho industrial da Bélgica.

Através de algumas dezenas de variadas composições desfilam nos quadros deste pintor quase todas as fazes da vida dos campos e das casas rústicas do coração de Portugal: – a lavra, a sementeira, a monda, a ceifa, a debulha, a empa, a poda, a vindima, a pisa, a trasfega, a faina da eira e do lagar, os grandes acontecimentos domésticos, o baptizado, a boda, o mortório, a matança do porco, a prova do azeite e do vinho novo, a extrema-unção, a intriga eleitoral; e, acima de tudo, a vigília e a festa do orago da freguesia, o sermão, a missa cantada, a romaria, o arraial, o repique dos sinos, o estrondear dos foguetes e dos morteiros, a feira do gado, as barracas de comes-e-bebes, a filarmónica, o bombo e a caixa de rufo, as merendas na erva ou debaixo das azinheiras, o chiar do peixe frito, o revolver das saladas, o desatar dos odres e o espumar do vinho nos pichéis, a guitarrada gemebunda, o suspirado solo do fado, os títeres, os descantes, os bailaricos; enfim, a procissão, entre os eflúvios do incenso, com o seu pendão enfunado à frente, os mesários de opa encarnada, o juiz com a sua vara, o andor bamboleante da Senhora, e ao fundo, sob o pálio, nas mãos trémulas do velho pároco, envolto no seu véu de ombros sobre a capa de asperges, a custodia com a sagrada formula, circundada de esmeraldas e rubis, por entre a multidão ajoelhada no chão tapetado de alecrim, de rosmaninho e de funcho; e, cobrindo tudo, a infinita cúpula do céu azul, por toda a parte esburacado pelos artifícios pirotécnicos, sarjado pelas canas dos foguetes, estralejado / 263 / pela explosão das bombas, cuspinhado de errantes borrões de fumo.