CABO de visitar a oficina de José Malhoa, incluída na linda casa artística, de que ele é morador e o proprietário feliz, em uma das mais desafogadas e luminosas avenidas da nova Lisboa.

O prédio, engenhosamente concebido e delineado para abrigar num recinto meigo a intimidade carinhosa da família e da arte, destaca-se das edificações adjacentes, conciliando-se todavia modestamente com a luz, com o espaço, com a paisagem e com a urbanização ambiente.

Ao centro da fachada, um grande arco envidraçado, por onde amplamente penetra a luz do atelier; a um lado, em ligeira curva, a breve escada de pedra alpendrada, que conduz à portinha da entrada; em frente, fechado por uma gradaria de ferro forjado, o pequeno jardim arrelvado, rescendente, florido de gerânios e de violetas, oferece a esta vivenda, de artista arranjado, uma acessibilidade jovial e discreta, que fica bem ao espírito do dono e à civilização estética da cidade, trazendo à lembrança, ainda que sob a atenuação do meridiano local, as risonhas habitações de Claude Monet em França, de Leys na Bélgica, de Querol ou de Sorolla em Madrid.

/ 258 / Interiormente, no primeiro plano do edifício, sucedem-se, independentes, recolhidos, com o modesto conforto, e a ordem bem pregadinha de um béguinage flamengo, os apartamentos íntimos da família: o salãozinho conversador; a amigável casa de jantar festivamente iluminada pelos tons de âmbar, de rubi e de turquesa da vidraça em luneta, de paisagem policrómica; a casa de banho em níquel resplendente; a pequena casinha de faiança branca engrinaldada em friso pela bateria de alumínio. E, ascendendo a um lado, em frente da porta de entrada, como um envolvente festão de carpete vermelha riscada de varetas de cobre polido, a escada que sobe à vasta oficina do artista, corrida a toda a largura do andar superior.

Aqui me apareceram reunidos, devidamente emoldurados, prontos para a embalagem do transporte, mais de cem quadros e cerca de outros tantos desenhos, que Malhoa destina à exposição que vai brevemente efectuar no Rio de Janeiro.

A área desta considerável produção é bastante variada e extensa para que dela se possam deduzir os caracteres essenciais do pintor que a concebeu. A série abrange quase todos os géneros: o retrato, a pintura histórica, a pintura mural, a pintura de género e a paisagem.

Os retratos grandes e os episódios históricos destinados à decoração oficial de alguns edifícios públicos afigura-se-me constituírem / 259 / desenvolvimentos acessórios da aptidão deste pintor. Também na Holanda Berchem, Wouwerman, Metsu e Paulo Potter se meteram em tão volumosas composições como as de Rembrandt, de Franz Hals e de Van der Helst; mas são os seus minúsculos quadrinhos que os imortalizam, e é como petits-maîtres na pintura que eles são verdadeiramente grandes na glória.

O vasto campo em que fundamentalmente se exerce a acuidade visual de Malhoa, a vibratilidade do seu sentimento, a fecundidade da sua veia, a bela irradiação do seu talento, é a paisagem.

É o seu modo de conceber a paisagem perante a contemplação da terra portuguesa, de seleccionar os assuntos, de submeter a técnica à exteriorização de determinados efeitos psicológicos por meio de correlativas combinações de linhas, de luz e de cor, que especializa a sua obra e a distingue da dos seus mais ilustres predecessores na interpretação plástica da vida rural da nossa terra e do nosso povo – Silva Porto e Artur Loureiro.