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Vida na Ciência

O ECLIPSE DO SOL DE 30 DE AGOSTO
No próximo dia 30 de Agosto a natureza
fornecerá à contemplação humana um dos seus mais grandiosos e
sugestivos fenómenos. Os três astros, Sol, Lua e Terra, obedecendo
às precisas leis dos seus movimentos, encontrar-se-ão durante um
curto, mas soleníssimo e precioso espaço de tempo na mesma linha
recta, ficando oculto durante momentos, para uma determinada faixa
terrestre, o radioso disco solar.
Para a ciência, um tal fenómeno tem
sempre uma importência assombrosamente grande, e o que agora se vai
dar atrai ainda dum modo particular a atenção dos sábios em virtude
de circunstâncias igualmente particulares que lhe são inerentes.
O que vemos habitualmente do Sol é
apenas uma fracção de toda a matéria deste grandioso astro, e só
durante a curta duração dos seus eclipses totais podemos observar a
sua atmosfera ou coroa, mais volumosa que o próprio globo solar. E
sendo então esta atmosfera assaz acessível aos instrumentos de
observação, e sendo ela ainda como que o reflexo dos fenómenos que
se passam na massa interna solar, inacessível à observação humana,
compreende-se quão importante seja para a ciência um eclipse total
do Sol. Aqueles escassos momentos durante os quais a Lua esconde por
completo o disco solar, deixando só a descoberto a maravilhosa
coroa, são assaz preciosos, em virtude da raridade do fenómeno. A
tudo isto, e valorizando ainda mais o próximo eclipse, acresce que
ele se apresenta em tão valiosas condições de observação que ocupa o
primeiro lugar entre os eclipses que se lhe hão de suceder em todo o
século XX. A sua zona de totalidade começa no Canadá, ao sul do lago
Winipeg, passa na extremidade austral da baía de Hudson, depois um
pouco ao norte da Terra Nova, atravessa o Atlântico, corta o norte
da Espanha, atravessa o Mediterrâneo por cima das Baleares, corta a
Argélia, a Tunísia, o golfo de Gabes, Tripoli, o Egipto, o mar
Vermelho, morrendo na Arábia um pouco antes de atingir a costa do
mar de Oman.
Como eclipse parcial, será o fenómeno
visível em toda a Europa, na África setentrional e na parte Oriental
da América do Norte. Para Portugal, e especialmente para o norte, em
virtude da grande proximidade da zona de totalidade, o aspecto do
Sol, no momento da fase máxima, será o de um ténue crescente.
As melhores estações para a observação
do fenómeno são povoações espanholas, argelinas ou tunisinas, como
Ferrol, Oviedo, Burgos, Soria, Tortosa, Palma, Philippeville, Sfax,
etc., situadas na zona de totalidade, em algumas das quais a duração
do fenómeno chega a atingir mais de 3 minutos e 30 segundos
É para estas regiões que se dirigem os
diferentes sábios que esperam tirar da observação do eclipse úteis
ensinamentos astronómicos.
Os instantes da totalidade no Labrador
e no Egipto são separados por um intervalo de duas horas e meia. O
observatório de Lick, na Califórnia, aproveitou esta circunstância
para a observação, preparando três expedições científicas
subordinadas a um programa, expedições que observarão o fenómeno no
Labrador, na Espanha e no Egipto. Como o ano de 1905 é um ano de
grande actividade solar, as observações do eclipse terão sob este
ponto de vista uma excepcional importância. O estudo da coroa deve
também receber novos elementos elucidativos com a observação do
próximo eclipse. Tem-se, com efeito, reconhecido que a forma da
coroa está dependente do estado da actividade do Sol.
O próximo eclipse poderá ainda
conduzir a uma sensacional descoberta astronómica – à descoberta de
planetas intra-mercuriais ou de cometas fracos vizinhos do perihélio.
Este problema dos planetas intra-mercuriais, desde há muito
abandonado, foi ultimamente posto em discussão pelos astrónomos
americanos, que intentam resolvê-lo por meio da fotografia. / 184 /
Realmente, se aparecesse uma imagem anormal nos clichés fotográficos
das três estações de observação do eclipse, situadas no Labrador, na
Espanha e no Egipto, estaríamos em presença de um novo planeta cuja
órbita seria logo determinada pelas três observações. O eclipse de
30 de Agosto revelar-nos-ia assim um desconhecido irmão da Terra.
Além das observações terrestres,
far-se-ão também algumas atmosféricas, em balão, em Burgos e na
Argélia, e das quais se esperam preciosos resultados científicos.
O próximo eclipse do Sol é, pois, um
acontecimento de superior valor científico e que chama igualmente a
atenção dos sábios e dos simples observadores da natureza. Os
primeiros esperam-no com ansiedade para satisfação da sua ânsia de
saber e os segundos para assistir a um dos mais grandiosos fenómenos
que pode contemplar a vista humana. – MARIOTE.
PRÉMIO DE BACTERIOLOGIA
EM Novembro de 1899, os empregados da
Escola Médico-Cirírgica de Lisboa nomearam entre si uma comissão que
trataria de obter, por subscrição pública, o capital necessário para
um prémio anual a distribuir ao aluno que melhor tese apresentasse e
defendesse sobre bacteriologia em homenagem à memória do professor
Câmara Pestana, vítima da sua dedicação pela causa da humanidade.
Essa comissão pôde angariar 4:600$000
réis, de que acaba de fazer entrega ao Secretário daquela Escola, em
inscrições.
O prémio anual «Câmara Pestana» poderá
ser pois de 100$000 réis.
PEIXES FARÓIS
O príncipe de Mónaco comunicou
ultimamente à Academia das Ciências de Paris os resultados das suas
recentes explorações pelas Canárias e Açores. Entre os novos animais
descobertos com o auxilio de um aparelho que desce ao fundo do mar,
há uns peixes curiosos cujos olhos, à feição de lanternas, iluminam
as águas a certa distância. É a parte inferior do seu aparelho
visual que emite luz, a qual toma sucessivamente um grande número de
cores, vermelho, verde, azul, amarelo, etc. Segundo as experiências
biológicas, parece que estas variações cromáticas se operam à
vontade do animal.
A ORIGEM DA VIDA
O facto científico culminante neste
momento é indubitavelmente o resultado obtido nas suas experiências
no laboratório Cavendish por um fisico inglês, ainda bastante novo,
Mr. John Butler Burke. As suas descobertas trazem novamente a pelo a
momentosa questão: É possivel a geração espontânea?
Tem-se suposto geralmente até hoje
que, dentro de uma substância absolutamente esterilizada e livre de
contaminação exterior, a vida não se podia desenvolver, mortos como
ficavam todos os germes.
Ora Mr. Burke expôs uma solução de
caldo de carne ou gelatina à acção do radium e nesse meio,
previamente sujeito a condições mortais para todas as formas
conhecidas de vida, cresceram uns corpúsculos redondos, com
aparência de bactérias. Trata-se agora de criticar, por meio de
sucessivas experiências, se acaso esses corpúsculos são
efectivamente centros de vida.
«Radiobios» foi o nome que lhes deu o
descobridor. Pensam alguns sábios que eles não são mais do que
cristais. / 185 /
Circunstâncias há, contudo, que não
permitem essa classificação. Os radiobios subdividem-se e
reproduzem-se, ainda mesmo fora da influência do radium. É certo que
são solúveis em água quente, e as bactérias não são. Mas em todo o
caso, outros homens de ciência se inclinam a supô-los, se não
bactérias, pelo menos coisas com vida.
Há quem também suponha que as
pretendidas células não são mais do que glóbulos gasosos
provenientes da decomposição da água pelo radium.
Em resumo, julgam os mais cordatos que
deve esperar-se por ulteriores experiências para assentar numa
opinião definitiva com respeito aos radiobios.
RADIOACTIVIDADE
EM todos os laboratórios do mundo se
continuam as experiências sobre os efeitos do radium. O dr. Dissoni,
de Bolonha, trabalha sobre a cura da hidrofobia por esse agente. Por
várias vezes fez inoculações do vírus mais violento de raiva em
coelhos. Depois tratou-os pelo radium. Todos os coelhos inoculados,
afirma ele terem-se curado dentro de seis dias.
O TERROR DOS GATOS
É proverbial entre nós o sentimento de
terror que a um dos mais notáveis escritores nossos do século
passado produzia a presença de um gato preto.
Pois um médico estrangeiro fez
ultimamente curiosas investigações acerca de idêntica influência dos
gatos sobre certas organizações humanas.
Os asmáticos, por exemplo, sofrem
muitas vezes terríveis acessos com a vista desses animais. Em certas
pessoas, produz a mesma causa sintomas variados: arrepios, horror,
fraqueza, opressão, cerrar de maxilas. Cita-se um caso de rigidez de
braços, palidez, náusea, às vezes vómitos, convulsões histéricas,
até mesmo cegueira temporária. Há duas pessoas que se queixam de
pesadelos frequentes, em que predominam os gatos.
Um soldado distinto, muito dado em
moço às caçadas ao tigre, não sente perturbação alguma diante desses
grandes felinos, e aterra-se com a vista de um gato doméstico.
Poucos dos indivíduos examinados podem
satisfatoriamente justificar esse terror. Alguns atribuem-no a
arranhões com que algum gato os mimoseou em criança. Todos afirmam
que o terror datava da infância, mas que os outros sintomas
apareceram mais tarde e cresceram depois da puberdade.
A quarta parte dessas pessoas, pelo
menos, afirma que os sintomas graves de terror pelos gatos
constituem um jeito de família. Mas a regra é serem tais casos
singulares dentro da mesma família Quanto ao sexo, não parece ter
influência notável se bem que os sintomas extremos são mais
frequentes nas mulheres.
Muitos há que percebem a aproximação
de um gato, antes de ele ser visto. Dizem alguns que lha revela o
cheiro particular desses animais. O observador inclina-se a julgar
que essas emanações existem, embora nem sempre impressionem os
órgãos do olfacto a ponto de poderem ser consideradas como cheiro.
Vê-se forçado a explicar este terror
pela persistência de instintos animais de defesa. Mas admite que
esta opinião tem contra si o facto de que, em muitos dos piores
casos, o paciente não sente o mesmo terror em presença de leões.
O GEOGRAFO RÉCLUS
ÉLISÉE Réclus, falecido agora com 75
anos de idade, foi o eminente geógrafo francês que deu maior impulso
ao estudo da geografia, codificando-a sob os seus mais interessantes
e mais exactos aspectos. A sua actividade foi prodigiosa e fecunda.
Nos seus livros dir-se-ia que se combinam a flamejante eloquência de
um Michelet, o admirável poder sintético de um Cuvier, e a racional
precisão de um Arago. Não se sabe o que mais admirar nele, se o seu
talento de escritor, se o seu método de sábio.
Quando realizou os trabalhos
preparatórios para a sua Geografia Universal, Réclus veio a
Portugal, demorando-se algum tempo em Lisboa. O seu último trabalho
intitula-se “O Homem e a Terra”, e é como que o remate geral
e filosófico das suas ideias e esforços.
AS OSTRAS E A FEBRE TIFÓIDE
DESDE 1896 que voga grande grande
descrédito contra as ostras por lhes atribuírem a transmissão do
bacilo tífico ou de Eberth. Parece agora demonstrado que, embora a
transmissão seja possível, os casos são excessivamente raros.
Averiguou-se igualmente que a enterite, observada em certos pontos /
186 / do litoral do Mediterrâneo e denominada conchylio-enterite,
é devida à presença nos moluscos comestíveis de um bacilo que
oferece grandes analogias, mas também diferenças importantes, com os
bacilos coli communis e Eberthi. Essas analogias é que
deram provavelmente origem à ideia de que a febre tifóide é muitas
vezes causada pela ingestão de ostras contaminadas pelos dejectos de
indivíduos atacados dessa doença. Vê-se pois que a moléstia é
diferente e menos grave. Tranquilizem-se os ostricultores e as
famílias que frequentam as praias.
A SAÚDE DA BOCA
A British dental Association,
importante associação dentária de Inglaterra, conseguiu, ao cabo de
uma intensa propaganda, que fossem agregados às escolas públicas
daquele país dentistas incumbidos do tratamento da boca das
crianças, sem encargo para as famílias dos alunos. Ninguém já pode
ignorar quanto a qualidade e o estado do sistema dentário influi na
saúde, quanto as afecções dos dentes prejudicam a nutrição e,
consequentemente, o desenvolvimento do indivíduo. As crianças com má
dentadura são sempre mais propensas que as outras às formas malignas
da difteria, da pneumonia, de todas as doenças infecciosas. A
exemplo da Inglaterra, criou-se agora em França, nas escolas
municipais, um serviço de inspecção dental. O dentista inspector
examinará a dentadura dos alunos duas vezes por ano, enviando aos
pais desses alunos uma nota determinando o tratamento da boca, que
devem seguir.
USANÇA POPULAR JUSTIFICADA PELA CIÊNCIA
M Trillat apresentou à Academia das
Ciências de França uma nota em que assinala as propriedades
antissépticas dos vapores provenientes do açúcar queimado. O aldeído
fórmico que dele se desenvolve pode ser utilizado com muita eficácia
na desinfecção dos aposentos, dado o seu poder anti-séptico. Assim
se justifica o velho costume, muito em prática ainda em certas
terras de Portugal, de queimar açúcar para purificar o ar das casas.
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