HÁ certas figuras históricas predestinadas a uma vida de obscuridade, que se somem no túmulo sem deixar vestígios de haverem transitado na terra.

E pode o acaso tê-las colocado nos lugares mais eminentes, dirigi-las na curta existência através dos acontecimentos mais memoráveis. A sombra persegue-as implacavelmente. A mão da providência vela sempre, aos olhos desatentos da posteridade, a luz que passageiramente as ilumina.

Na história dos últimos anos do século XVIII, em Portugal, caracterizada pela decadência do poder da realeza e da fidalguia, perpassou uma pálida, quase esvaída figurinha de príncipe, retocada de comovedoras infelicidades, que o olvido matou antes da morte e de que o tempo fez quase uma personagem sem autenticidade.

E contudo esse principezinho do tempo da Revolução, essa sombra fugaz e esquecida, que brincou nos jardins de Queluz, que perseguiu os gamos na tapada de Mafra, que se apoiou nas amuradas das naus portuguesas, usufruiu um título pomposo. Era o infante de Espanha e Portugal, D. Pedro Carlos de Bourbon e Bragança, almirante general da marinha portuguesa, marido da Infanta D. Maria Teresa, neto do rei Carlos III de Espanha e da rainha D. Maria I de Portugal, nascido em Aranjuez, aos 18 de Junho de 1786.

Ainda criança, já órfão, enfermiço e frágil, a Espanha faz dele presente a Portugal, e a corte portuguesa, já tão sobrecarregada de príncipes e princesas, adopta-o, dá-lhe a dignidade de Infante, cria-o, educa-o, casa-o, vê-o crescer, vê-o morrer e esquece-o.

Filho do casamento da Infanta portuguesa D. Mariana Vitória com o Infante de Espanha D. Gabriel, irmão do príncipe das Astúrias, que foi depois, no trono das Espanhas, o rei Carlos IV, esse pobre predestinado deveu a luz às consequências do tratado funesto de 24 de Março de 1778, que igualmente concertou o casamento de D. Carlota Joaquina com o infante D. João.

Com uma cortesã e um epiléptico compensou-nos / 112 / generosamente a Espanha da perda da colónia do Sacramento, dos territórios do Paraguai, das ilhas de Fernando Pó e Ano Bom, arrebatadas à posse da coroa pelo tino político de Florida Blanco, que deixara de encontrar na sua frente as ameaças e os talentos do marquês de Pombal.

Seria hoje difícil ao historiador escrever duas páginas sobre essa pálida figura, segui-la no seu caminhar efémero pela vida, acompanhá-la do berço espanhol ao túmulo brasileiro, se a piedade quase paternal de um professor não tivesse escrito, entre lágrimas saudosas, com uma ingenuidade enternecedora, o elogio histórico desse jovem e malogrado almirante das esquadras portuguesas.

Chamava-se o professor José Maria Dantas Pereira e foi o elogio impresso no Rio de Janeiro, residência da corte, em 1813, e dedicado à Infanta viúva D. Maria Teresa.

Para quem conhece o estilo gongórico, guindado, palaciano, que o século XVIII criou em Portugal para glorificação de príncipes e reis, e que ainda em 1806 produzia o elogio do professor régio de retórica e poética, António Lourenço Caminha, à sempre grande, sempre imortal senhora D. Carlota Joaquina, sereníssima princesa de Portugal, gloriosa heroína do estado luso, – um dos documentos mais valiosos do cortesanismo indecoroso da época para os que, por investigações e estudos pacientes, tenham penetrado a vida portuguesa no declinar do grande século de Pombal, – o elogio do professor Dantas Pereira distingue-se pela emoção sincera com que o mestre obscuro procura retratar o discípulo querido.

À ingenuidade desse culto piedoso devem-se detalhes que, para o tempo, podiam parecer atentatórios da majestade e grandeza do defunto: tão minuciosos, que constituem a história mais elucidativa e completa da corte devota de D. Maria I.

Pobre principezinho! Quem mais do que esse professor lacrimoso, a viúva quase donzela e o sogro infeliz, sentiram a tua morte e a choraram?

Fazer conhecer aos portugueses, ao mundo e á posteridade quem foi na realidade o senhor Infante D. Pedro Carlos de Bourbon e Bragança, era, para o teu professor, uma obrigação indispensável, uma precisão imperiosa!

E como se desobriga dessa missão, digna de um Plutarco, o teu professor inconsolável? Como te mostra ele à posteridade e ao mundo?

Pinta-te fisicamente de uma delicadeza extremosa, como de esperar da criação entre braços de senhoras. Descreve-te, ó débil almirante das esquadras portuguesas, de saúde tão mesquinha, débil e infectada, quanto se pode deduzir do desenvolvimento do teu físico!

Conta à posteridade que foste um epiléptico. Retira-te o culto das mulheres, dizendo-lhes que eras marcado das bexigas. Que provas do teu grande talento legou à história o teu panegirista? Que em 24 de Setembro de 1803 estudaste, reproduziste e demonstraste, sem socorro e sem erro algum, o cálculo das três equações da hipérbole e de algumas propriedades desta notável curva. Que no dia 28 de Setembro de 1804 estudaste e repetiste muito bem, sem auxilio e sem emenda, as primeiras cinco páginas da luz reflexa, que se encontram na primeira edição de Jacotot!

Que feito notável, digno de se transladar aos compêndios de civismo, designou o teu cronista fiel ao assombro dos vindouros? Tu deste a mais decisiva prova de adesão e amor a teu augusto tio, o regente de Portugal, deliberando acompanhá-lo ao Brasil, sem / 113 / te importares – ó deserdado! – com a perda da tua grande casa; sem te importares – ó exilado! – com a tua eminente representação na Espanha!

E nem uma hora de heroísmo e de glória, almirante? Sim; embarcaste na nau Príncipe Real, um dia em que os semáforos da barra do Rio de Janeiro assinalavam ao largo uma escuna francesa. Mas o vento teve inveja da tua glória. A esquadra não pode levantar ferro para perseguir a escuna errante e perdida no mar. E por tão pouco, és comparado ao Infante D. Henrique! Em vão, esse pobre homem procurou motivos para te igualar a todos os varões ilustres da história, aos conquistadores romanos, aos sábios de Alexandria, aos grandes deuses do Olimpo. Mas como almirante, não te coadjuvaram os ventos; como presidente da Academia apenas tentaste os primeiros bosquejos de uma tradução dos Anais de Tácito. Debalde, o teu único amigo pesquisou a tua vida, quis ser o novo André de Resende de um novo Infante D. Duarte. A tua vida não deu assunto para o panegírico. O teu nome flutua apenas como uma névoa impalpável nessas páginas inconsoláveis. Mas uma cousa se aprende no teu elogio histórico e para isso ele serviu as curiosidades de uma posteridade, que não pode admirar-te: – a maneira como se educavam, no tempo da Enciclopédia e da Revolução, no século de Diderot e de Voltaire, os príncipes portugueses; a maneira como se preparava, na hora das conflagrações dos povos com as realezas, para as culminâncias do mando, um Infante de Portugal!

A corte portuguesa era uma corte triste. Presidia-a uma rainha louca. O Regente, devorado de desgostos domésticos, andava recolhido, dias inteiros, a um isolamento taciturno. Era um homem tristonho, bonacheirão, complacente e tíbio, casado com uma mulher grosseira, intrigante, luxuriosa e estúpida. Vagueava ainda pelas salas dos paços uma viúva a chorar o esposo morto e o trono perdido. Em redor dessa corte caduca, enfermiça e devota, onde havia de tudo, desde a comborça à doida, evolucionava uma nobreza em decadência, insidiosa e sôfrega, iletrada e hipócrita, vivendo dos últimos privilégios, salvos de entre o sangue, sob o castelo de Belém. Enquanto a guilhotina trabalhava em França, Portugal construía a basílica da Estrela e o teatro de S. Carlos.

O Intendente conseguira atrasar por vinte anos a revolução, inaugurando a repressão do filosofismo. Os sábios eram desterrados; os livros eram perseguidos. Essa sociedade vigiada, espiada, escondera-se nas alcovas. A democracia invadiu a única província do sentimento, que o Intendente se esquecera de policiar: o amor. As princesas amaram os almoxarifes. A filosofia, encontrando todas as portas fechadas, refugiara-se nos quartos de cama. A república escondeu-se debaixo dos leitos da nobreza e esperou que a fossem acordar em 1820.

De Sintra para as Caldas, das Caldas para Salvaterra, de Salvaterra para Queluz, de Queluz para Mafra, de Mafra para Caxias, da Ajuda para a Bemposta, da Bemposta para a Praça do Comércio, vagueava a corte com os seus bobos, as suas validas pretas, os seus parasitas, os seus maestros, as suas damas de honor e as suas açafatas, sem encontrar alojamento condigno da Majestade. Os entulhos do terramoto dificultavam ainda o trânsito das ruas. Por toda a parte se viam escombros. A monarquia absoluta agonizava numa capital cheia de ruínas, que o governo pombalino não tivera tempo de reconstruir por completo. Ao poder varonil de Pombal, sucedera a tibieza de Cerveira. A energia entregara o ceptro / 114 / à incúria. A prosperidade corrompia-se na de cadência. Na frase pitoresca do proscrito, Portugal ia à vela. Ao ministro genial substituíra-se o arcebispo confessor. Só a execução da nobreza continuava, – não já com o aparato trágico e com os solenes horrores do cadafalso, mas com as humilhantes afrontas de Tessalónica, que dizia a lord Beckford, na sala dos Cisnes, indicando com a mão plebeia a maior fidalguia de Portugal: – Meu caro inglês, tudo isto é uma súcia de marotos e aduladores. Não acredite nem uma palavra do que lhe disserem. Apesar de brilharem como oiro, a lama não é mais vil. Eu conheço-os bem. Aqui está uma prova da prudência inglesa. Este botãozinho para segurar a algibeira é uma invenção preciosa, especialmente na grande sociedade. Não o tire, não adopte nenhuma das nossas modas ou terá de se arrepender. E a nobreza de Portugal, – os descendentes dos heróis, dos conquistadores, dos vice-reis, – curvava-se, sorria, dobrava o joelho, beijava o. anel do antigo. soldado de Chaves! Sim; Portugal ia à vela, contra um penedo, por um mar de lama! Por toda a parte lavrava a desorganização. A província de Minas Gerais sublevava-se. Os milhões de cruzados, que a previdência de Pombal juntara no erário para custear as despesas da guerra iminente com a Espanha, eram aplicados na construção do convento e da basílica da Estrela. D. Pedro de Cevalos aparecia, de súbito, em frente da ilha Santa Catarina, em som de guerra. A Inglaterra tratava-nos desdenhosamente como um país tributário, fazia a guerra de corso. nas nossas águas e nos nossos portos. As ruas de Lisboa eram infestadas de maltas de ladrões. Pálidos de medo, os embaixadores faziam e desfaziam os tratados de paz. A Espanha roubava-nos Olivença. É entre esse desabar de tradições, nesse verdadeiro terramoto de um passado, abrindo fendas e desmoronando-se, que crescia o Infante D. Pedro Carlos, o futuro almirante das esquadras portuguesas.

Os seus passatempos ressentiam-se da natureza enferma e frágil com que nascera e dos cuidados mulheris com que fora criado, entre as saias das açafatas e das camaristas, numa atmosfera morna de sacristia e de alcova. Os seus recreios consistiam na cultura de jardins e hortas, no trabalho do torno e na confecção. de teatrinhos e presépios. É curioso verificar a influência das doutrinas de Rousseau, evidenciada nessas recreações campestres e mecânicas, de mistura com os divertimentos devotos. Diversões inocentíssimas! – exclamou o seu panegirista. Nunca ninguém lhas conheceu criminosas ou remotamente suspeitas. Entretanto, a corte não era lugar de virtude. Os leitos de pau santo das açafatas tinham fama de acolhedores. Lord Beckford corria atrás delas nos jardins da Ajuda e o próprio Arcebispo as beliscava. Mas o principezinho, picado das bexigas, não era de feição a tentar as dançarinas lânguidas dos lunduns, que tanto cativavam pelos meneios lúbricos a sua tia Carlota Joaquina.

Quando faleceu o seu confessor e mestre de primeiras letras, padre João Marim, o infante sabia já de cor o catecismo e ia pouco adiantado em escrita e tabuada. Não importa! Dantas Pereira, que é humanista e retórico, leva-o para o latim e para a metafísica de Genuense. Simultaneamente, são dados a sua alteza mestres de dança, esgrima, inglês e desenho, e ensinam-lhe alguns brincos militares, que no progresso dos tempos virão a constituir-se mais sérios e mais instrutivos.

Resumidamente, o Infante estuda o francês; a geografia; a história geral e particular de Espanha; as matemáticas puras, exceptuando o cálculo superior; as noções elementares da mecânica, da cosmografia, da artilharia. e as das evoluções da infantaria e cavalaria; grande parte dos Elementos Botânicos de Brotero; todo o. curso físico-químico de Jacotot; as artes de pensar, raciocinar e escrever de Condillac.

Traduzindo o catecismo de Fleury, as fábulas de Florian e La Fontaine, os diálogos de Fénelon e o Telémaco – livros consagrados na pedagogia palaciana, aconselhados por Maria Antonieta, que os fazia ler ao Delfim, – aprendeu sua alteza o bastante de francês para consentir no mestre a esperança de que a prática lhe substituísse com vantagem as lições! A esse tempo, o príncipe falava uma algaravia castelhana e portuguesa, dado o uso em que se estava na corte de coscuvilhar em italiano, a linguagem de sua alteza, com os progressos no francês, tornou-se embaraçosa. Mas o professor era habilíssimo e paciente. Não se prendeu com futilidades. Começou o ensino de geografia... em francês, e como julgasse preferível, ir como que marchando de um centro e dilatando-se de periferia em periferia, com atenção a passar, gradual e consecutivamente, / 115 / do conhecido para o desconhecido e do menor para o maior, fez principiar o senhor Infante pelo mapa de Lisboa, após o qual considerámos o dos arredores desta capital até Mafra, cuja estrada, por sua alteza muito conhecida, foi por sua alteza mesmo transladada a outro papel! Para que enfastiar o príncipe com o estudo da inumerável e desunida multidão de nomes bárbaros, relativos a paízes, povoações, lagos, rios, montes e vales? Portanto, no jardim geográfico – confessa o professor, – demorámo-nos somente com os bustos e os obeliscos principais. E velozmente, – porque a morte, nesse findar de século, parecia caminhar mais depressa do que a ciência nos palácios dos reis, – o professor sagaz, de uma tão exuberante fantasia pedagógica, entra com o seu discípulo nos domínios da história: a ciência dos príncipes, por excelência, como lhe chamou Maquiavel.

Discreteando com jactância e finura sobre o seu método de ensino, escreve Dantas Pereira:

Segui neste estudo, tanto quanto julguei praticável, o sistema de adquirir ideias individuais, para depois as classificarmos e ligarmos entre si; passando do indivíduo à espécie, desta ao género e deste ao total complexo da Ciência, Nestes termos aprendeu Sua Alteza, primeiro, a história individual de Plutarco, em cuja leitura tive presente a formação do carácter e do coração do senhor Infante: objecto essencialíssimo, que nunca deixei de considerar, ainda mesmo nas acções que pratiquei e nas palavras que proferi na Sua Real Presença. De Plutarco passámos à história universal de Milot, desta à de Condilac e desta aos Annaes de Tácito, ocupando intervalos com o grande Atlas de le Sage. Combinado com Pons e Bowles, entretiveram-nos em cousas de Espanha, Bourgoing, Calmenar, Xavier e o censo de 1778. A tradução de Duchesne foi lida com grande reflexão e o seu resumo em verso foi decorado e repetido.

Finalmente, como de Espanha tivessem vindo numerosas gravuras representando trajes, edifícios e terras mais notáveis, o príncipe, com grandes aplausos do professor, resolveu amenizar o estudo de Tácito e Plutarco, entretendo-se a pregar nas paredes os retratos dos homens insignes, desde Homero, inocente ocupação que tanto o adiantou em conhecimentos, que o mestre entendeu por concluída a educação humanista do Infante, dando-lhe a ler a História Geral das Viagens – adivinhem de quem? – do autor galante da Manon Lescaut, do esmoler do príncipe de Conti, do aventureiro abade Prévost: esse Fleury do romance, na frase de Sainte Beuve.

Passando agora à quarta e última parte dos estudos de Sua Alteza, que ele devia dirigir, conforme as ordens régias, que lhe foram intimadas pelo Marquês Mordomo Mor em Agosto de 1797, as atenções de Dantas Pereira ocuparam-se nos progressos do príncipe na Ciência por antonomásia, em compêndios por ele elaborados, o príncipe aprendeu a aritmética e álgebra elementar, com assás investigação sobre a doutrina das series, dando depois uns elementos geométricos, ambas as trigonometrias, um tratado de secções cónicas, o de mecânica, escrito por Jentet e a cosmografia de Mentelle, adicionada com extractos dos princípios Newtonianos, com a astronomia de La Lande e a gnomónica de Wolf, advertindo que o mestre procedeu com todo o rigor Euclidiano, coerente com a opinião do imortal Arquimedes, que não achou em matemática estrada privativa para os monarcas.

No tocante ao cálculo superior, propunha-se o mestre explicá-lo ao discípulo querido, quando os acontecimentos políticos aconselharam a família real a embarcar para o Brasil / 116 / em 29 de Novembro de 1807, na frota comandada pelo vice-almirante Manuel da Cunha Souto Maior.

Teve Sua Alteza outros professores, como o de esgrima – que foi Jacques Lebon, mais tarde expulso pela polícia, como jacobino; e o de inglês – que foi Cartwright, parente do actual primeiro secretário da legação de Inglaterra em Lisboa. Mas a sua educação, confiada a um mestre carinhoso e incompetente, ressente-se de todos os vícios, que o obscurantismo da viradeira trouxera ávida intelectual portuguesa, nesse memorável fim de século, ainda agravados pelo preconceito da religião e da realeza.

A história resumida desta educação de um príncipe, pode servir, com poucas variantes, para explicar a ignorância dos futuros monarcas D. Miguel e D. Pedro, um pouco atenuada, neste último, pela convivência com homens eminentes na política, nas ciências e nas letras.

É legendária a boçalidade de D. Pedro lII – o capacidónio – preferido ao duque de Lafões para o casamento da herdeira do trono. Pombal pareceu recear-se da ilustração e dos talentos de D. João de Bragança, da preponderância que o duque assumiria no ânimo do rei ao elevar-se à dignidade política de marido da princesa real, e sacrificando à sua vaidade e soberba de valido a paixão averiguada, de D. Maria, afastou de Portugal e do trono o único homem capaz de lhe continuar a obra prodigiosa. Tardiamente, o grande ministro compreendeu o seu erro e ainda tentou, pela educação de D. José, preparar um novo sucessor à coroa. O seu conhecimento dos homens deixava-lhe adivinhar e prever os dias de desgraça, que se avizinhavam com a sua velhice e a enfermidade do soberano. Quis ainda salvar o país e salvar-se. Pela derradeira vez, pôs em movimento os maquinismos complicados e tão seus conhecidos de uma verdadeira conspiração contra a futura rainha. Ou a abdicação no primogénito ou a lei sálica: era o dilema, que o ministro poderoso proporia ao monarca, se a morte não viesse inutilizar os seus cálculos!

Quantas vezes no seu exílio de Pombal, o Richelieu português não teria pensado com tristeza e amargo arrependimento nesse outro exilado, que a sua inveja afastara do trono, nesse brilhante D. João de Bragança, o amigo dilecto do imperador da Áustria, que havia de ser o generoso conselheiro daquele seu bem-amado príncipe D. José, e único, apesar de inimigo, que mais tarde faria justiça à sua obra e ao seu génio!

A substituição de D. João por D. Pedro no tálamo da princesa D. Maria é a causa remota da decadência da monarquia portuguesa no fim do século XVIII.

Pombal pagou cruelmente o seu crime de Estado, para que nos detenhamos a acusá-lo. Este foi o maior delito da sua vida de político. Os dois reis imbecis, a rainha doida, a princesa dissoluta, o regente poltrão e manhoso, são os filhos desse erro condenável. O que teria sido a história portuguesa do século XIX, se ao lado de D. Maria I se houvesse sentado no trono, em lugar do rei D. Pedro, o rei D. João Carlos; e se à rainha tivesse sucedido esse príncipe enérgico e revolucionário, que as vagas palavras de tessalónica a lord Beckford deixam adivinhar tenha sido a última vítima da viradeira?

Mas o nosso propósito é apenas o de acentuar as causas que influíram nesse desprezo pela educação, que caracterizou no alvorecer do grande século XIX a família real portuguesa, colocando-a abaixo da sua missão, preparando as conflagrações intestinas e temperando as energias revolucionárias. / 117 /

Viu-se nesta exposição apressada, que podia lucrar em clareza, se a desenvolvêssemos mais do que é consentido a um simples artigo, a falta de escrúpulo com que se fazia de um rapazinho de vinte e um anos, pelos simples privilégio do nascimento, um almirante general, nessa hora excepcionalmente perigosa para as monarquias, quando a Revolução Francesa, preparada pelo filosofismo e pela livre crítica, advertia os reis dos perigos a que os expunha a soberana vontade dos povos, a consciência novíssima da sua importância social e a experiência terrível do poder destruidor das suas cóleras. Seria proveitoso comparar ainda essa educação de um príncipe português à educação que tinham recebido em França os inimigos da monarquia. Lá, como em Portugal, o humanismo era o alimento mais nobre dos espíritos. A igreja exercia o monopólio do ensino. As artes latinas, universitárias e teológicas, povoavam as imaginações de heróis, exercitavam as faculdades oratórias e desenvolviam os recursos casuísticos. A mocidade descobrira na história de Roma a República. Uma sede de saber curvava sobre os livros esses moços inquietos, de uma energia de predestinados. Os padres exaltam essa geração pertinaz e estudiosa, dificilmente estabelecem limites a essa curiosidade ávida de saber, que a empalidece em vigílias perseverantes. Essas feras, como depois hão-de chamar-lhes, têm o culto apaixonado da elegância e da forma. À ignorância da nobreza, opõem os primores de uma ilustração clássica e académica, que prepara a eloquência oratória da Revolução. Aos catorze anos, Mirabeau é um excelente discípulo do pensionário militar do abade Choquart e surpreende os camaradas pela sua paixão pelas línguas antigas; Vergniaud excita a admiração de Turgot nos exames do colégio de Limoges. Os padres oratorianos de Marselha criam um prémio de honra para Barbaroux. O partido da Gironda distingue-se pelo seu gosto apaixonado pelas humanidades. Fouché ensinara filosofia a Billaud-Verennes. Saint-Just era o melhor aluno do colégio de S. Nicolau de Soissons. O abade Proyart, vice-reitor do colégio de Luís – o Grande, diz de Robespierre: o estudo era o seu Deus! No concurso geral de 1778, o primeiro accessit de amplificação francesa é concedido a Camilo Benedictus Desmoulins. O primeiro prémio pertence a André Chenier. Danton improvisa discursos em latim e lê Shakespeare em inglês. Muitos deles, como Chenier e Desmoulins, sabem grego, traduzem Xenofonte e Aristófanes. Todos eles conheciam a Enciclopédia, tinham estudado Montesquieu, Voltaire, Rousseau, Beccaria e Buffon.

Esses selvagens eram, no fundo, uns letrados. O sanguinoso Marat idolatrava Virgílio. Brissot era um sábio.

Por esse tempo, em Portugal, os príncipes mal sabiam escrever. A instrução do Infante D. Miguel era confiada a frei António da Arrábida. A Infanta D. Maria da Assunção ignorava quem fosse Camões. A descendência do capacidónio arrastava o país à vergonha, à miséria e à guerra. Pombal inutilizara toda a sua obra numa hora de fraqueza, de inveja e de ciúme.

CARLOS MALHEIRO DIAS

 

 

 

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