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PRIMEIRA PARTE
O novo prédio que um
engenheiro ilustre edificou na travessa recatada e quase erma que é,
no Porto, a rua do Conde, veio a dilatar, concreto e só assim
persuasivo, o débil movimento promovido pela aspiração ainda
indecisa da nacionalização do domicílio português. Há um tipo ou
tipos de habitação nacional, traduzindo materialmente, pelo esquema
arquitectónico, pelas disposições gerais da sua traça, pela ordem e
ponderação das suas partes e pelos pormenores decorativos, as
faculdades de adaptação regional, os costumes, as ocupações e as
tendências do povo que as habita? E representa a nova casa um desses
tipos, discriminável e irredutível, por entre as vivendas rurais e
urbanas de importação alheia, de estilo cosmopolita ou sem estilo,
de ilógico transporte dos álbuns para não importa que região de
praia ou de cidade, de serra ou de ribeira, de sol ou de névoa, de
aridez ou de fragrância? Um julgamento com asserto determina o
prévio exame ao que já foi denominado a «unidade característica», ou
seja o padrão que vivamente exprima e em si resuma o tipo ou tipos
da casa portuguesa.
A habitação é a expressão final da convergência de
motivos interdependentes, como sejam a paisagem, a cuja influência
naturalmente se adapta, os recursos geológicos, os acidentes
topográficos, as imposições climáticas e as necessidades e
circunstâncias sociais e domésticas, à uma e parcelarmente
imperativas. A geologia, primeiramente, dita subordinações que logo
emergem da fisionomia exterior de um povoado. Num solo granítico
onde a água surge de nascentes com afluência restrita, as casas
dispersam-se; no calcário, em que elas são mais raras mas copiosas,
aglomeram-se: é o caso extremenho, é o caso minhoto. Se a cal
abunda, a povoação avulta clara e vivaz, como na Beira litoral e no
Algarve; se falta, dilui-se confusa e esparsa por entre a vegetação
sombria, como no interior beirão e em Trás-os-Montes.
Às vezes a pedra é cara e mais dispendiosas as
comunicações e os transportes: fabricam-se então os adobes, de
Aveiro para o sul, e nos forros junta-se palha à argamassa
(Baixo-Minho) ou / 107 / entretecem-se com cordas de palma os
ripados de caniça divisórios (Algarve).
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Assim a arquitectura se submete aos recursos
naturais, uma vez que edificando-se com adobes não é possível erguer
andares ou multiplicar os ornamentos.
Onde a rocha é xisto não raro as guarnições são de
piçarra mais rija ou de granito (Campeã, Penaguião, Foscoa), se a
pedra de cantaria está perto e se os recursos não limitam mesmo o
luxo da alvenaria até ao nível do sobrado; porque muita vez o andar
é só de taipa (Lobrigas, Fontes, Sanhoane) e outras mesmo de madeira
a verga, ombreiras e soleira (Bornes, Grijó, Vale Bem Feito).
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Nas
zonas de contacto, como em Ovelha e Várzea do Marão e ainda em
Montesinho, o prédio é todo de granito, e de lousa, por facilidade e
economia, só as coberturas ou beiradas; assentando o burgo sobre o
próprio afloramento, uma e outra rocha indistintamente se misturam,
como em Abreiro, na junção do granito com o Pré-câmbrico; e por fim
a exuberância do granito fino e alvacento faz sólidas e garridas
medíocres povoações como Lindoso, com as suas amplas lajes de
cantaria exibindo-se particularmente ao longo das varandas e a toda
a altura indivisa das pilastras.
As ondulações do solo, principalmente nas regiões
serranas, aproveitam-se muitas vezes numa parte da parede ou
mantêm-se no pavimento, tortuoso (Gavieira, Peneda, Campo do Gerês);
e os blocos com que o prédio se ultima, em harmonia com a natureza
envolvente, dispõem-se quase sem aparelho, sem preocupações de
fiadas, nem rebocos (Gralheira, Serra da Amarela, Adrão no Suajo). /
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Ainda do domínio da geologia é a formação incessante
de medões que do litoral para o interior mordem a terra de lavoura.
Para atenuar a instabilidade do solo e sobretudo onde ela mais
vivamente se acentua, o pescador da costa de Mira, na Ria de Aveiro,
o da Cova de Lavos, para além da foz do Mondego e o de Vieira, nas
proximidades de Leiria, erige uma parte dos seus palheiros sobre
estacas. É por entre estas, um metro e mais acima do pavimento
movediço que a areia passa para ir formar distante a duna; e assim
insulado entre o medão e a linha das marés, o burgo assume o aspecto
estranho e imprevisto das antigas povoações lacustres. |
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A adaptação ao clima obriga a providências e
previsões que se exibem, em escala variável, na fisionomia exterior
dos edifícios. O telhado de beiral alongado e balcão avançando,
atenua os efeitos das ardências e nevadas; para que os gelos se não
demorem tem a cobertura um rápido pendor (Marão); e os ventos
desabridos da montanha, a despeito da escolha em recantos de encosta
abrigada, demandam as fiadas de pedras fixando a telha, as grossas
placas de xisto cobrindo os telhados e igualmente xistosos (Marão,
Arga), os barrotes e grossas vigas fixando os colmos (Barroso,
Campeã, Montemuro). Para protegerem do frio, as varandas são baixas
e vedadas (Serra de Arga, Labruge), estreitos os respiros e
postigos, muito chegadas ao beiral as janelas diminutas e escassas
(Ermida e Germil, na Amarela) e colmados os chapéus com
palha-centeia, giesta ou feno seco. É o que se observa em todas as
povoações da serra e, com extensa amplitude, no famoso planalto /
109 / barrosão, a começar em Basto ou em Boticas, seguindo até à
Serra das Alturas, abrangendo os numerosos povoados da vasta chã de
S. Vicente, compreendendo as povoações das margens do Cávado perto
das origens, avançando até às Caldas de Larotico e penetrando ainda
nas terras espanholas de Videferre, Gironda, VilIa Mayor, Rendim e
mais além.
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Por vezes, entanto, a ventania é persistente e
violenta e com ela o abaixamento da temperatura constituem um
flagelo; então, como em Castro Laboreiro, os povos mais altos de
Portos, Seara, Rodeiro e outros mais, mudam das varandas ou
habitações de verão, para as inverneiras, residências mais baixas,
situadas num vale profundo e abrigado da tormenta. O êxodo começa no
mês do Natal para junto do rio, que na estação dos frios se expande
e ruge desabrido entre o fraguedo; e pela Páscoa, quando pelas
bombas abrigadas já as belgas reverdecem e se desenham os mosaicos de
feno que os vidoeiros enfeixam e limitam, as populações volvem das
cubatas da Entalada, Dorna, Mareco, VarzieIa, e Canheiras para o
granjeio das leiras altas e só agora apenas suportáveis. |
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Com a influência das razões orográficas,
hidrográficas, geognósticas e meteóricas vem a da paisagem, que
delas deriva, e que explica o contraste dos aspectos das povoações
fúnebres e sombrias das abas das Serras de Bornes, da Nogueira ou do
Alvão, por exemplo, e / 110 / as alvas e cantantes aldeias dos vales
minhotos. Assim ainda na arquitectura, na esbelta gracilidade de
alguns pormenores, nos desmandos mesmo da policromia, em oposição às
linhas hirtas e simples dos «montes» das herdades transtaganas, por
entre uma natureza onde não há bruscos ressaltos, imprevistos
relevos, exuberantes seivas, riachos que dessedentem a charneca
ardida e fulva.
Quando todos ou alguns destes factores se não opõem,
o instinto da sociabilidade determina o agrupamento do casario e
sobretudo em regiões de planície, outrora principalmente abertas a
ciladas sortidas. A concentração era uma necessidade colectiva para
a defesa; com a disseminação e o isolamento avultavam os risco de
ataques e incursões, contra as quais a previdência de algum dos
moradores fizera abrir orifícios aos lados das sacadas para o fácil
despedir dos zagalotes e dos quartos na hora ousada ou traiçoeira
dos assaltos. Entretanto o regime da propriedade interfere na
compacidade ou afastamento, aglomerando os vizinhos nas zonas dos
domínios restritos, como no norte, ou dispersando as moradias, como
nos latifúndios do Alentejo.
Para a aglomeração concorrem ainda certas formas do
comércio e da indústria, como a da pesca, juntando nas proximidades
da abra ou da enseada mais humilde os que se entregam á
piscicultura, ou ainda à função mista de pescarias e lavoura
(Apúlia, Aguçadoura, Lavra); o fabrico das loiças, nos solos
produtivos de argila plástica (Prado, Tondela, Aveiro); o trânsito
de mercadorias e viajantes, como no Pico, Famalicão e Amarante,
depois diminuídos ou estáveis com o desvio dos trajectos pela viação
acelerada.
A desagregação do núcleo central em lugares
distantes, aliás enquadrados na mesma similitude de aspectos e
costumes, efectua-se quando circunstâncias económicas determinam a
busca de outras facilidades de subsistência que no burgo inicial já
se não logram. Todos podemos assistir agora a um desses
interessantes casos de desintegração na vila do Suajo,
distante da qual embrionam o lugarejo da Açoreira, com dois ou três
casais e o de Campo Grande, já com seis: como outros, aqui e em toda
a parte, são a viva imagem e a continuidade do aglomerado de onde
vêm.
Anotados abreviadamente os conjuntos, destaquemos as
formas e desentranhemos delas, se é possível, os tipos.
(Clichés do autor)
PORTO
ROCHA PEIXOTO

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