UIDOSO, entre os cavaleiros da montaria, el-rei apeara-se no castelo, ao cair do sol fulgente. No céu alto, na grande floresta, o poente estendia uma longa mancha de sangue. As matilhas ladravam, os corcéis magníficos sacudiam as cabeças esbeltas.

– Senhor, grande montaria! Só em tempo de vosso Avô, que me lembre, houve outra igual – disse um velho fidalgo, servil, curvando o dorso.

E o rei contou, jubiloso e altivo, que as setas haviam sido certeiras, e a caça abundante: e que de algum feito era avisado, de amor ou de guerra, de algum sucesso estranho em seus reinos, porque desde os mais velhos senhores do império, de feito sempre uma grande caçada vinha anunciar ou prodígio ou façanha.

– São os Fados que assim mandam. – murmurou o velho – e invencível é a força dos Fados! Bem certo, quando vosso Pai venceu os moiros, pouco antes tinha morto nas selvas mais gamos e javardos, do que a própria Diana seria capaz de ferir com as flechas de oiro... Mas também de outra feita...

– Sei bem. – respondeu el-rei, mais som brio. – O destino anda encantado, como as grutas do mar. Quem as conhece? Acaso as conheceis, velho agoirento?

O cortesão ficou-se silencioso. Alembrara o desastre, em que o rei orgulhoso ficara mal ferido junto a umas velhas muralhas rebeldes. E a sanha do rei não se escondera, antes chispara no olhar negro, e se esboçara num sorriso frio como um gume. Melhor se houvesse calado; mas a boca – pensava o cortesão – era igual às fundas covas da terra, de onde podiam vir os filões da riqueza ou os bafos pestilentos da morte. Ah! Velha boca de valido! – dizia consigo – velho sapo a babar lisonja e mentiras! Caiam os dentes podres, mas não caia de uma vez a palavra embusteira!

El-rei, bravo e mau, entrara brusco no castelo, deixando o cortesão cabisbaixo.

O velho áulico, coçando as barbas, receava as suas palavras imprudentes diante de senhor tão perverso. Para que fora ele, manhoso e sabido, avivar o desastre dessa batalha, em que a melhor cavalaria perecera, afogada no rio maldito, por uma noite de traição e sem lua? Então el-rei ficara mais bravo que as feras do monte; e foi uma era de horror e de matança... E pouco antes uma caçada lhe havia vaticinado a vitória! Ai! De que lhe servia ser velho, se nem sabia fechar na boca, como num saco atado, as palavras que feriam os príncipes!...

Alguns cavaleiros falavam ainda da montaria, agitando as lanças. O sol morrera. Ao longe uma nesga de mar brilhava numa /  101 / lâmina – e a lua aparecia sobre as grandes árvores da floresta, como uma branca deusa amorosa.

*

*       *

Numa câmara escura, com as pernas cruzadas num estrado coberto de púrpura, o Bobo cantarolava umas trovas, brincando com uns dados.

Amor e desgraça andaram

Como irmãos:

E nunca mais se apartaram...

Ah! ah! ah!...

A voz era ardente e hostil: o riso era a antiga casquinada do diabo, tinia como ferros ervados.

O Bobo ergueu-se, e foi a uma das ogivas espiar o vasto oceano triste das árvores, sobre que a lua estendia, num véu de fadas, a elegia eterna dos seus luares. O brilho argênteo batia agora na figurinha anã, corcunda e grotesca do Bobo, que tinha os olhos esbugalhados como contas de vidro preto.

Fora, no eirado, uma figura branca e esbelta de mulher olhava o céu. O homúnculo pôs-se de esculca, estendendo o pescoço magro, com os cantos da boca franzidos num sarcasmo angustioso.

Aquela mulher alta e branca era a Rainha. Com as vestes flutuando como se fossem de nuvens, a cabeça de oiro erguia-se-lhe para os céus, para o longe. Vagamente olhava em torno aquela natureza, semelhante a um grande sonho triste – águas distantes, florestas, que gemiam de tristeza e de amor. De quando a quando o perfil da Rainha cortava-se no luar: e não o haveria decerto mais doce e mais lindo no hagiológio cristão e nos sonhos dos bardos. O seu olhar era imenso, como imenso voo a procurar alguma estrela, decerto, na poeira luminosa dos céus. Era o país de onde viera, numa nave cheia de saudade e de flores. Era o seu paço antigo e poético, à beira de um lendário lago cheio de cisnes... Como tudo lhe lembrava ali, onde tão pouco florescia a graça, a pureza, a ventura. El-rei era brutal – ou perdido em caçadas, ou falando de guerras: e a sua alma voava para a terra florida onde nascera, e de onde a trouxeram tão moça para junto daquele rei de olhar funesto!

Nos seus paços perdidos, nas altas salas góticas, as princesas passavam enlaçadas como lírios que voassem; os trovadores tangiam alaúdes; havia torneios e jogos. Uma beleza constante enchia o reino amado, onde em cada floresta havia uma lenda, e onde em cada nascente se escutava uma ninfa. Lá apareciam as fadas, junto aos lagos, a lavarem o enxoval das noivas que seriam felizes; à sombra das tílias os namorados sorriam, enquanto os rouxinóis cantavam no alto...

Agora só havia feiticeiras malditas, temperando nas florestas pressagas, à lua chorosa, as triagas de peçonha e de ciúme… Ah! nos seus velhos paços sempre florira a ventura mais áurea, o amor mais lindo; aqui o mesmo perfume das flores entontecia como se tivesse veneno!...

Ora de uma feita que el-rei se andava nas brenhas praguejando e caçando, ela ouvira um troveiro cantar a alguns cavaleiros velhos, uma balada que lhe encheu os olhos de água, e o peito de saudades. Era uma lenda do seu país que o menestrel cantava, uma história singela, tanta vez escutada pela Rainha no seu palácio antigo: a lenda de uma santa que onde punha os pés fazia nascer rosas, e quem as aspirasse sentia-se nascer para uma felicidade interminável como a da morte, e balsâmica como o mel divino, que as abelhas iam sugar, seguindo a balada, às flores que nasciam ao luar na sepultura das noivas…

Mandou a Rainha chamar o troveiro andante, e às tardes, debaixo de um velho roble, ele lhe cantava esses poemas de sonho, Ele lhe falava a sua língua, como se lhe trouxesse em cada verso uma flor da sua pátria – por isso a Rainha vinha agora olhar a noite imensa e plácida, evocando a sua terra perdida e a sua perdida ventura.

A noite ia ficando uma seara de estrelas. Uma fonte chorava. No eirado, em silêncio, a Rainha cismava...

*

*       *

Então o Bobo, afastando-se da ogiva com um sorriso cansado e lívido, veio sentar-se de novo no estrado, onde batia o luar. A sua mancha pequena e corcovada aninhara-se, a cismar naquele silêncio. Como era linda essa Rainha melancólica! E ele feio e vil, / 103 / escarnecido de todas as mulheres, aos tombos, e aos momos nesse castelo, para agradar aos senhores!... E aos seus olhos acesos apareceu a visão de Ermegilda, a aia de olhos de treva, que ele amava... Ah! Mas ao erguer para ela a vista ardente, logo Ermegilda tirava os olhos lindos, com desdém e com nojo.

Maldita sorte a dele! Maldita mil vezes – entre tanto esplendor, tanto amor que ele via nascer, medrar em flores purpúreas! E o Bobo rangia os dentes, silvava umas risadas curtas e gélidas. Tanto oiro, tanta galhardia e esbelteza: só ele não tinha um bocado de oiro, um ceitil de beleza ou de esperança... Tinha de rir, tinha de rir!... Ermegilda era linda; ele era hediondo... Desprezava-o como a um trapo – como a um sapo que pincha na lama... Ah! Ah! Ah!... E de avezado a rir, o Bobo ria-se, mas um ódio horrível, viscoso e peçonhento, enroscava-se-lhe na alma como uma serpe enorme que assobia.

Um arruído de ferros despertou as abóbadas, e como um vago incêndio, um clarão foi enchendo a quadra.

– É El-rei! – murmurou o Bobo, erguendo-se.

E logo o rei entrou, entre luzes avermelhadas e trémulas. Ao ver o Bobo, desanuviou-se-lhe um pouco a fronte áspera. Gostava de lhe ouvir as facécias, as histórias secretas dos paços, que ele sabia.

Sentando-se, el-rei disse:

– Bobo, conta-me uma história que seja alegre I

Ele veio deitar-se como um cão, aos pés do senhor.

– Melhor saberei conto triste, que outros não tenho ouvido.

– Quem fala de tristuras? – perguntou o rei.

– O menestrel da Rainha, debaixo do roble canta de amor e faz chorar…

– Anh? Quem cantava debaixo do roble?

E ele contou-lhe então do troveiro, que, enquanto el-rei andava nos montes, ali vinha tanger. Trazia o manto poento dos caminhos, tinha os olhos doces, e falava a língua da rainha... Depois sumia-se nos burgos, para reaparecer à sombra das velhas árvores, ainda a cantar de amor...

Os olhos bravos do rei abriram-se cintilantes. A testa vincou-se-lhe de grossas rugas:

– E é moço? É formoso? – perguntou. Oh! era como um príncipe: a sua voz era mais doce que o mel mais doce;...

Num salto, o Bobo foi à ogiva espreitar:

– Senhor, lá está no eirado...

El-rei ergueu-se com má sombra. A figura branca e esguia lá estava ainda, olhando a fita argêntea do mar longínquo. Ao luar surpreendente, dir-se-ia uma figura de mármore, imóvel. Nos cabelos loiros pareciam estrelas as pedras do diadema...

El-rei saiu em direcção ao eirado. Agachado, o Bobo cantarolava:

Amor tem os olhos lindos,

Estrelas d'oiro.

Mas os olhos deitam sangue,

Mau agoiro!...
 

*

*       *

O Bobo vertera a peçonha. El-rei nem dormira, ciumento e iracundo. Quem sabia lá se era príncipe namorado, que vinha de longe como troveiro errante, falar de um velho amor?

Mais triste andava a Rainha; mais branca ainda; os seus olhos poisavam lentos em tudo, como lindas aves cansadas. El-rei, supersticioso, recordava-se da grande caçada, talvez agoiro da desgraça ou perjúrio... E o seu olhar era mais torvo, e mais áspera a sua voz, mais assanhado o aspeito.

A Rainha chorava; a sua beleza emurchecia. Nem ao menos voltara o troveiro contar-lhe, como num sonho, as lendas do seu país. O mau humor do rei assustava-a, à maneira da pequena ave frágil, que ouviu crocitar os bandos de pilhagem... No castelo tudo era funéreo, rude como armas que se chocam; velhos senhores andavam taciturnos, como se viessem de afiar espadas; só o Bobo cantarolava umas trovas frias, ásperas como um grasnido...

Ah! Que saudade do seu lago cheio de cisnes, do berço onde a mãe a embalara, tão distante, e sempre doirado como um sonho perdido!...

Um dia, no eirado, disse el-rei taciturno:

– Porque andais triste? Acaso vos aborreceis dos meus beijos?!

– Senhor, porque o perguntais? Não vedes que sou leda e ditosa!...

Mas logo, debaixo do roble (já a tarde caía, / 104 / como uma imensa flor de luz que se desfolha), um moço poento e errante veio pôr-se a cantar ao som de uma mandóra.

– Quem tange? – perguntou o rei, como se o mordesse uma áspide.

Como alheada naquela música de sonho e de saudade, a Rainha apontou-lhe o trovador que aí vinha dizer-lhe lendas do seu país longínquo.

– Lendas de amor? De guerra?!

– Ouvi! – disse a Rainha, mais pálida.

A mandóra chorava. O menestrel cantava de um grande amor sepulto no fundo argênteo de um lago... Era uma princesa formosa como o sol, que se viu desditosa longe da sua pátria, onde a primavera fazia constantemente florir as montanhas. Fugiu a princesa para o seu reino por uma noite estrelada e balsâmica, em que as cigarras cantavam. Mas ao chegar ao seu reino, soube que tinha morrido numa guerra o moço que ela amava... E afogou-se no lago, onde desde então abrem grandes nenúfares cor da lua, que parece que choram, quando lhes dá o vento...

Ouvira el-rei, taciturno, o princípio da balada. Depois, pouco a pouco, o aspecto conturbara-se, os olhos chisparam lume… De uma vez levara a mão crispada à adaga de oiro; mas logo se quedara, e no rosto passava-lhe uma nuvem tremenda. Na coroa, que lhe prendia os cabelos caídos, os rubis cintilavam como bagas de sangue...

A tarde caía. A Rainha sonhava. A mandóra calara-se...

– Bem trovaste, menestrel, bem trovaste! Vais ter o prémio – disse o rei numa voz cava e trémula. E, chamando o Bobo, deu-lhe ao ouvido uma ordem rápida.

Os velhos cavaleiros empalideceram. A última luz do poente doirava agora no alto o roble antigo... Um silêncio pesava, como se a noite que descia arrastasse um manto de infortúnio.

Mas o Bobo voltava, adunco e lívido – e ao seu lado, de negro e disforme, caminhava um homem espadaúdo, com uma longa corda.

Era o carrasco.

Branco como uma estátua, com a capa e os cabelos soltos, o menestrel adolescente perguntou em voz clara:

– Rei, porque vou eu morrer? Acaso vos falei de guerra ou de morte? Que mal vos fiz eu, que só canto de amor?...

De pé, silencioso, o rei apontou o roble antigo – e o carrasco atirou a um dos seus longos ramos a longa corda ,escura...

Então um velho senhor ergueu a voz já trémula – quebrando o silêncio trágico:

– Senhor, deixai que eu me vá... A cova espera-me; também já amei... E custa-me ver morrer a juventude quando ela fala de amor!

– Quedai, quedai! – respondeu el-rei com voz cava. – Vamos a ver se o troveiro ainda sabe cantar!...

Imóvel, o menestrel deixara enrolar ao pescoço a corda assassina. Na mão pendente segurava a mandora. Cravara os olhos no céu, onde abria uma estrela...

De pé, branca como os sepulcros de pedra, a Rainha parecia sonhar. Nos olhos, como estáticos, tremiam-lhe duas lágrimas.

Já a lua subia, esplêndida e nua. O carrasco olhava, esperando um gesto de el-rei. Ao lado, semelhante a uma nódoa escura, o Bobo espiava.

Então o menestrel passou os dedos nas cordas... E começou a cantar, numa voz vaga / 105 / e meiga como a lua nascente, um solau de saudade… Mas o carrasco estrangulou-lhe os versos; a mandora caiu-lhe da mão pálida; e o corpo ficou oscilando, pendente do braço do roble gigantesco, através de cuja folhagem a lua viera beijar-lhe a fronte larga e pálida...

El-rei afastou-se, e com ele, lentamente, os cavaleiros e senhores.

O silêncio e a lua enchiam o céu e a terra.

E apenas três manchas destacavam ao luar fantástico: a Rainha, branca, que tombara no eirado, como se fosse um pedaço do mesmo luar; o enforcado, a que o vento de leve ondeava os cabelos compridos, a capa negra. e solta – e a mancha escura do Bobo, que cantarolava em surdina:

Amor tem os olhos lindos

Estrelas d'oiro...

Mas os olhos deitam sangue,

Mau agoiro!...
 


 

 

 

100-105