1. «Ganharás o pão com o suor do teu rosto»,
foi o anátema divino lançado a toda a humanidade. Desta profecia
bíblica, infere-se imediatamente da penosidade do trabalho,
independentemente deste ser exercido física ou intelectualmente.
Desde Adam Smith, o pai da Economia Política, que o trabalho tem sido
estudado em vários e multifacetados sentidos, exagerados ou deformados,
concluindo-se ser uma parcela do próprio homem, pois no sentido lato ou
estrito o trabalho é sempre um esforço consciente e racional.
Dadas as diferenciações entre o trabalho físico e intelectual, o seu
elemento caracteriológico de penosidade, não deixa de ser um elemento
comum, homogéneo e aglutinador, apesar de não ser considerado como
padrão comum, pois que se torna muitas vezes impossível determinar a
quantidade e qualidade de cada diferente trabalho. Do mesmo modo, duas
superfícies de terreno podem ter a mesma área e no entanto apresenf1arem
elementos produtivos bem diferenciados.
Para além do aspecto penoso, o trabalho no
sentido económico,
caracteriza-se:
– pelo princípio hedonístico – produzir o máximo com o mínimo esforço;
– pela remuneração – salário.
Já neste conceito económico, o trabalho apresenta-se com um elemento distinto, para além do aspecto
penoso, que é a remuneração – salário. Assim, um alpinista que
desportivamente escala uma
montanha não realiza trabalho, apesar de despender muito esforço e
energia,
pois não aufere qualquer remuneração pela sua prática desportiva. Em
contrapartida, o guia profissional de alpinismo já realiza trabalho, na
acepção económica, pois além do esforço aufere uma remuneração.
2. Alguns autores estabelecem diferenciações entre o trabalho manual e
o trabalho intelectual. «A distinção, fisiologicamente, parece errónea,
pois há sempre, cumulativamente, em qualquer trabalho, esforço muscular
e nervoso. O que poderá é atender-se à prevalência, em cada caso, do
esforço físico ou muscular e mental ou nervoso». Um e outro, quando
excessivos, provocam a fadiga e esta tem as mesmas causas e os mesmos
efeitos no trabalhador manual ou intelectual. A diferença estará
até em que a do último é de recuperação mais difícil que a do outro,
levando às vezes o trabalhador a «surmenage», à neurastenia e à loucura.
3. Analisando o sentido
caracteriológico do trabalho, verificamos que
da parte do trabalhador existe um esforço maior ou menor que é traduzido
por uma determinada remuneração ou salário. Quer dizer, o trabalhador
cede um esforço material ou intelectual e em contrapartida aufere um
dado valor, denominado salário.
4. A nossa análise, embora muito sumária, vai incidir sobre o salário,
elemento dos mais importantes do trabalho.
Sobre o ponto de vista do trabalhador, o salário é um
rendimento muito
importante e muitas vezes o único rendimento que dispõe a sua
comunidade familiar.
O valor do salário é determinado pela sua duração
– horas, dias – a que
se pode aplicar a fórmula dos rendimentos: r = p. q, independentemente
do rédito da empresa, onde o trabalhador exerce a sua actividade
profissional.
Os economistas consideram duas modalidades de
salário: salário
nominal e salário real.
O salário nominal não é mais do que a quantidade de dinheiro auferida
pelo trabalhador, enquanto o salário real é a quantidade de bens ou
serviços que o trabalhador pode adquirir com o seu salário nominal.
Vemos assim que o salário real não é mais do que o poder de compra do
salário nominal ou a relação existente entre o salário nominal e o custo
de vida ou dos bens necessários à satisfação das necessidades.
Se chamarmos ao salário nominal SN, ao custo de vida CV e ao salário
real SR, podemos relacionar:
/
76 /
A 2.ª hipótese apresenta um salário nominal inferior ao mesmo salário
da
1.ª hipótese mas em contrapartida o salário real é superior, passando de
87 para 114. Apesar do trabalhador ganhar menos unidades monetárias, a 2.ª hipótese é-lhe
manifestamente favorável.
5. Para obstar aos inconvenientes verificados com a
inserção do salário nominal que, na maior parte das vezes, não acompanha
o ritmo inflacionista do custo de vida, os estudiosos têm adoptado em alguns
países, a escala móvel de salários que, por indexação, acompanha as
variações do desajustamento da massa salarial com o custo de vida. Mas
outras teorias, sob ópticas conceptuais diferentes, procuram explicar a
formação e determinação da massa salarial, desde as relativas ao campo
do custo de vida, passando pelas teorias da produtividade, do fundo de
salários, da avaliação dos postos de trabalho (Job Evaluation), a de
Hicks, além de outras variadas teorias,
Todas as teorias enumeradas, que não nos é possível analisar com
o
devido pormenor, apresentam vantagens e inconvenientes, e grande número
delas têm tido aplicação prática em unidades industriais estrangeiras.
Em 1972 a então Companhia Portuguesa de Celulose de Cacia ensaiou, com
relativo sucesso, um Prémio de Produtividade cuja finalidade principal
foi combater o absentismo que muito apoquentava os responsáveis pela
gestão da Fábrica.
6. Normalmente, quando um trabalhador é admitido numa empresa fica
inserido numa estrutura salarial: classificação do trabalhador,
categoria profissional e quantitativo mensal da sua
remuneração, conforme o lugar e posto de trabalho que vai ocupar.
Mais tarde, o trabalhador pode usufruir da elevação de categoria
profissional e de correspondente salário mais avantajado. A descida de
categoria, por efeito de hiperclassificação profissional inicial ou
por manifesta incapacidade intelectual ou material é, felizmente, menos
frequente.
As variações salariais contemplam, em regra, todos os trabalhadores da
empresa e muitas das vezes inserem-se
em reivindicações sindicais, como é o caso actual do novo ACTV
(Acordo Colectivo de Trabalho Vertical).
O escalonamento dos salários pode levar as partes
– sindicatos e empresa – à posição, conforme a representação gráfica 1.
Os sindicatos e empresa concordam no estabelecimento de um salário mínimo
X1 e de um salário máximo de X5.
Se, no entanto, a parte sindical fixa em X3 o
salário mínimo e se a
empresa estiver disposta a não ir além de X1, dá-se, então, uma rotura
nas negociações e o gráfico apresenta-se sob a forma do gráfico 2.
A «solução que se apresenta é a arbitragem governamental:
o
representante do governo intervém e impõe um salário». Mas outra solução
pode surgir, a abertura de hostilidades – a greve.
«Conhecem-se da imprensa diária exemplos recentes de greves, assim como
ao longo da história social abundam casas de suspensão ou abandono do
trabalho, com ou sem violência, em todas os países e, sobretudo, desde
meados do século passado.»
Há, contudo, no tempo presente, uma menor resistência às
reivindicações salariais, pois a moderna cultura dos gestores e o
elevado peso dos custos fixos são dois factores muito importantes e
condicionantes da moderna gestão empresarial.
Uma greve traduz-se imediatamente numa quebra de
produção e
consequentemente dum acréscimo no custo de produção, além de se verificar
durante o período grevista do aparecimento dos chamados custos de fábrica parada, custos que subsistem mesmo durante a total
paralisação da actividade das Instalações Fabris: – remunerações a
guardas, bombeiros, e certo pessoal da manutenção.
A cultura universitária dos novos
quadros responsáveis pela gestão – engenheiros, economistas e outros – conferiu-lhes uma percepção dos
vários problemas sociais e daí um ambiente mais favorável na resolução
das reivindicações salariais, que os «patrões» das décadas anteriores
não possuíam.
É por conseguinte normal que os vários pontos de vista sejam novamente
pesados e ponderados e que se consiga a almejada solução para ambas as
partes.
Neste caso, o gráfico pode apresentar o aspecto
do gráfico 3.
7. Passando a uma apreciação global do sentido económico
da evolução salarial, desde 1955 a 1977, servimo-nos do Quadro n.º 1.
Da análise dos elementos constantes do referido quadro, inferimos que
o
salário global da empresa – Encargos de Trabalho – apresenta sempre um movimento crescente, em especial a partir de 1970 e, em particular, nos anos de 1974 e seguintes. Esta evolução altista das remunerações é
representada pelas curvas A, B e C, do gráfico 1.
/
77 /
Como apontamento, referimos que o primeiro ACT (Acordo Colectivo de
Trabalho) data de 30 de Novembro de 1957, sendo revisto,
posteriormente, em 1963. O segundo ACT foi publicado em Agosto de 1972,
embora com efeitos retroactivos desde 1 de Janeiro desse mesmo ano, no
que diz respeito a remunerações, diuturnidades, férias e subsídio de
férias. Em Abril de 1974 foi esta convenção colectiva sujeita a uma
revisão que incidiu sobre as tabelas salariais.
Neste último ACT, de 1972, o enquadramento das categorias
profissionais foi precedido de um trabalho de qualificação de funções
elaborado pela «NORMA» – qualificação de funções pelo método de
pontuação, que deu origem a uma curva salarial tanto quanto possível
científica, ao invés dos anteriores instrumentos de regulamentação
colectiva e atribuição de remunerações
que foram sempre feitas mediante processos empíricos de classificação
de funções, apesar de decalcados de empresas de celulose estrangeiras,
com as consequentes adaptações ao incipiente processo evolutivo
industrial português.
Como complemento da nossa análise, passamos para os elementos
constantes do Quadro n.º 2 e que referem a panorâmica da evolução do
salário bruto por trabalhador no período de 1955/1977.
Até 1976 a evolução deste salário «per capita» apresenta um sentido
crescente bastante pronunciado, pois passa de 12 229$00 para 16 6586$00,
no último ano. Porém, e em 1977, e apesar do salário bruto oscilar de
243 381 710$00 para 258 551 487$00, o salário por trabalhador regista uma
baixa e apresenta
o valor de 160 690$80, inferior ao do ano
anterior. Esta quebra é explicada pelas admissões de pessoal em 1977,
que se cifra em cerca de 150 novos trabalhadores no quadro de pessoal da
Empresa.
Finalmente, consideremos o Quadro n.º 3 que sintetiza a
produtividade global e a rentabilidade deste Centro Fabril.
Relativamente à produtividade, tomamos como referência o Produto Bruto
Fabril que não é mais do que o valor dos bens produzidos e serviços pela
Fábrica. Concluímos do significativo acréscimo da produtividade em
valor absoluto e relativo, desde 1960 ao último ano bem como a subida do
valor percentual dos Encargos de Trabalho – salários e encargos sociais
– no Produto da empresa, e que chega a
atingir cerca de 25 %. Com respeito à rentabilidade, os valores
apresentados evidenciam uma tendência crescente, até
1975, para no ano seguinte mostrar já um decréscimo substancial – cerca de
um terço em relação ao ano transacto e se fixar, em 1976, num valor
negativo – desrentabilidade.
O quadro é por mais significativo, dispensando outros comentários, no
entanto não podemos deixar de apontar para a actividade laboral de
1976, e que se ressentiu extraordinariamente da paralisação da Fábrica
de Pasta, durante um longo período, devido à falta de água no Rio Vouga,
por motivo da longa estiagem que assolou esse ano.
A produtividade e rentabilidade são dois rácios muito importantes e
imprescindíveis na análise da estrutura económico do Centro e que hoje
constituem
objectivos fundamentais na moderna gestão empresarial.
A análise detalhada das actuais remunerações, por grupos profissionais,
em 31-12-77, apresenta um leque salarial de pequena amplitude, pois a
proporção existente entre a mais modesta categoria profissional e a mais
qualificada é de cerca de 1 para 5.
Não obstante os presentes salários auferidos pelos trabalhadores se
encontrarem nitidamente desajustados, em relação à produtividade global
do Centro (Quadro n.º 3), a espiral inflacionista dos preços dos
diferentes artigos, sempre no sentido altista, determina que o
trabalhador tenha que despender, em média, o seguinte tempo de trabalho:
/ 79
/
No fim de cada ano, e consoante a remuneração total auferida no período
anual anterior, tem ainda o trabalhador de liquidar o Imposto
Complementar (variável), verba com certo peso no seu orçamento familiar.
Graficamente, temos:
8. Para finalizarmos os considerandos que temos vindo a fazer sobre a
evolução salarial, referimos que a Companhia Portuguesa de Celulose, SARL, foi nacionalizada, conforme «Diário da
República», 1.ª Série, n.º
1017, de 9-5-76, passando a existir em Cacia um Centro de Produção Fabril com relativa autonomia gestora.
Por último, não podemos deixar de assinalar, mais uma vez, a grande
importância do salário na estrutura económico-social da empresa e o
papel relevante que desempenha na macro-economia do país.
L. L.
______________________________________________________
* Economista, Director Administrativo do Centro –
CACIA
_________________________________
OBRAS CONSULTADAS
– Lições de Economia, Francisco Pereira
de Mourão
– Problemas Fundamentais de Economia,
Francisco Pereira de Mourão
– Curso de Economia, Prof. Nogaro.
– Notas para um Curso de Economia, Prof. Marques Guedes.
– Iniation à Ia Théorie Economique,
A. Murat.
– Economie Politique, H. Guitton.
– Revista do Centro de Estudos Económicos,
n.º 17.
– E. DA – Vários Anos.
– Relatórios Anuais da Contabilidade
Industrial – Vários anos.
|