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Boletim n.º 3 - Ano II - 1984


MEMÓRIA SOBRE A VILA DE EIXO

PRÓLOGO

Não foi o amor de glória, a que não podemos aspirar; nem ostentação de ciência, que não temos; nem finalmente o interesse, que não esperamos; o móvel que nos incitou a escrever estes apontamentos. Uma única razão – nascemos em Eixo, temos-lhe amor de filho: de mais coincidiu e nos incitou a este pequeno trabalho a demolição de alguns monumentos de antiguidade, de que resolvemos fazer esta memória, para que com o seu auxílio no porvir outra pena mais bem aparada faça obra perfeita.

Conhecemos que a maior parte dos leitores contemporâneos, se não censurarem, darão pouca importância a várias minuciosidades, que escrevemos, esperando que sejam apreciadas pelos vindouros. Para animar a nossa esperança basta uma simples consideração.

Que apreço não daríamos hoje a um escrito como este, feito há seis ou mais séculos?

Nós decerto muito o havíamos de apreciar; e por isso devemos esperar que este mal alinhavado escrito será apreciado pelos vindouros a quem o oferecemos. Não esperem os leitores mais que um registo de factos, sem ornato nem flores, porque o cronista despretensioso só cuida em levantar do pó os fragmentos de ruínas, limpá-los, e encastoá-los para que o tempo os não acabe de destruir.

Eixo...

 

►  ETIMOLOGIA DE EIXO

Sobre a etimologia de Eixo nada se pode dizer com certeza; seja-nos permitido recorrer a presunções e conjecturas mais ou menos prováveis. Devemos advertir que no termo antigo desta Vila está o lugar de Requeixo, nome que pelo menos soa com parentesco de Eixo.

As antigas doações régias destas terras compreendem as ditas povoações de Eixo e Requeixo; e o foral de 2 de Junho de 1516 de El-Rei o Senhor D. Manuel é dado às terras de Eixo e Requeixo.

Devemos crer que a etimologia de Requeixo é a mesma de Eixo, com a diferença de que Eixo é das duas a povoação mais antiga ou que depois desta se seguiu aquela que quer dizer «re Eixo» ou «retro Eixo», querendo dizer «segunda Eixo» ou «atrás, antes de Eixo», acrescentando as letras «qu» para evitar o hiato, e melhor pronúncia.

E com efeito, se atendermos a que há séculos foi a Cidade de Coimbra a capital civil e eclesiástica estas terras, e certo que caminhavam do sul para o norte, encontravam primeiro Requeixo e depois Eixo, e em tempos em que não houvesse povoações de permeio (como hoje há) é natural chamarem a Requeixo «a primeira Eixo» ou «povoação antes de Eixo».

Mas qual será a etimologia de Eixo, que os antigos escreviam «Eyxo»?

A significação natural da palavra eixo é a de «eixo de carro», «pólo do céu», e em qualquer destes casos compreende a ideia de um corpo com um centro e duas extremidades. Ora encontram-se vestígios de que esta povoação na sua origem começasse em três pequenos bairros, a saber, um ao sul chamado o Arrujo (que o cit. foral chama «a Póvoa do Arrujo»), e outro ao norte chamado a Laguela e Senhora da Graça, e outro ao centro no sítio aonde está a igreja actual; e assim chamariam os primeiros povoadores «eixo» ao dito bairro do meio como querendo dizer que ele era o centro dos dois extremos? Não ousamos afirmá-lo; antes nos inclinaremos a que na primitiva se chamasse «Eixido», de que fala Frei Joaquim de Santa Rosa de Viterbo no seu vocabulário sobre esta palavra «Eixido – Exido – Enxido» ou «Ixudo» e «Ixudeo» com que os nossos maiores significaram uma fazendinha «fechada, quintalinho, hortejo» ou «conchouso» que está perto de vivenda para a qual há fácil entrada ou passagem; e por ficarem estes pequenos prédios à saída das casas, se chamaram «eidos, êxitos, éxidos» (e hoje «aidos») do verbo latino «exeo».

Diz mais o cit. Viterbo que estes nomes compreendiam todo o recinto pertencente a qualquer vivenda, incluindo casas, hortas e quintais.

E assim se daria a esta povoação o nome das vivendas dos seus primeiros povoadores.

Finalmente vamos concluir com outra etimologia, que tem algumas probabilidades a seu favor; qual a de que Eixo virá de «eixe», palavra que aqui empregam os lavradores quando querem fazer andar o gado vacum. É certo que nesta terra se dá, há muito, a criação de gado vacum; e é de crer que desde esse tempo muito antigo se tenha dado esta indústria, a que convida a fertilidade, mimo e grande porção de terreno do campo que abunda em pastos; é por / 31 / conseguinte uma terra de gado especialmente vacum.(1)

Quereriam os primeiros povoadores chamar a esta terra «terra do gado ou terra de eixe», isto é, onde se diz «eixe» ao gado?

Diz-se aqui gracejando que o primeiro povoador lavrava com um boi e uma besta e que, quando queria que aquele andasse, lhe dizia «ei» (ou «eixe» que ainda hoje se usa) e, quando queria que esta parasse lhe dizia «xo»(2) (expressão que hoje se emprega para fazer parar a besta) e que as duas sílabas «ei+xo» se formou Eixo.

Haverá nesta graça alguma coisa que tenha relação com a conjectura anterior?

Pode bem ser.

 

►  DESCRIÇÃO TOPOGRÁFICA DA TERRA

A Vila é cercada por dois vales, a saber, um chamado o Ribeirinho e Cavadas ao norte e o do Arrujo ao sul – ambos cortados pela estrada nova de Aveiro a Águeda nos sítios da ponte da Laguela e no Arrujo pelo lanço da estrada entre Eixo e Horta. É cercada de campo entre o nascente, e o norte, e por monte e pinhais entre o poente e o sul. O local da Vila é quase plano, suavemente inclinado do poente a nascente, à excepção de pequenas depressões que a cortam do lado do monte para o campo que fica na margem esquerda do Vouga.

Tem uma rua principal que mede de comprimento dois quilómetros desde a primeira casa no sítio da Areosa, do lado de Aveiro, ao Arrujo. Por esta rua passa a dita estrada de Aveiro; e por isso é toda calçada de macadame. Antes desta obra pode dizer-se que esta rua nos meses de inverno era um charco intransitável e insalubre.

Cabe aqui uma grave censura às Câmaras da terra por não fazerem melhoramentos na rua principal da sua sede; e muito mais se atendermos a que os sítios mais intransitáveis eram os mais frequentados, como era o local da praça, ao sul e poente do adro, (3) e a parte da rua da Picota até à Senhora da Graça, e outras, que no inverno eram uns lameiros. (4) Esta rua, que ainda há poucos anos tinha Cômoras de silvas, está hoje embelezada com casas, salvas pequenas excepções; sendo certo que a obra da estrada tem estimulado os moradores a mandar rebocar e caiar as frentes das casas e muros que correm com ela, e dentro em poucos anos a Vila parecerá um bairro de cidade. Esta rua, não obstante ser uma continuada, contudo tem os seguintes nomes em vários sítios começando da Areosa para o Arrujo, a saber: Laguela, Casal, Picota, Adro de Cima, S. Sebastião. Todas as mais ruas vêm desembocar nesta, a saber: a do Arrujo, que se bifurca e vai acabar uma parte no Matouto, e outra no Rego; a rua do Adro de Baixo, que corre a par do Adro pelo nascente desde a Picota até à Balsa; a da Balsa, que segue até à cadeia; a do Forno, que começa na Picota e vai para Oliveirinha; a do Outeiro, que termina no sítio chamado o Lodeiro e Poço do Grifo; (5) a Senhora da Graça, que vai ter à Laguela, mas tem muito poucas casas; (6) a do Barreira, que começa na Laguela e segue até à serra de Eixo. Além destas ruas há vários becos, como o do Barrimau, Canto e outros.

A rua principal antigamente não seguia da Picota para S. Sebastião, mas sim para a Balsa. (7)

A profundidade das ruas e caminhos feita pelo atrito de pé e carro é um vestígio da sua antiguidade; vamos por isso mencionar as que denotam mais antiguidade por este motivo. Devemos porém advertir que, quando se fez a estrada nova já referida, se fizeram em alguns sítios grandes aterros para a altear, que passamos a notar: no sítio da Laguela se fez um grande aterro aos lados do pontão, tanto para a banda de Aveiro como para a da Vila, onde a rua era e ainda hoje é muito profunda em relação às / 32 / terras confinantes de ambos os lados; e a regular-nos por este único argumento diríamos que ali foi o princípio da povoação.

O pontão actual que ali se fez está construído sobre o antigo, que não era mais que um pequeno arco de tijolo, de metro e meio de altura quando muito, e que era no sítio onde hoje é o local do norte do actual e na base deste; donde se pode ajuizar a altura do aterro que ali se fez.

Na outra entrada da Vila ao nascente, (rua de S. Sebastião), fez-se outro não menor aterro desde a capela de S. Sebastião para o lado do campo, alterando-se e mudando-se por fora da rua o leito da estrada, que (seguindo antes desde a última casa em linha quase recta para o campo) agora descreve uma curva de pequeno raio para o sul, o que a torna muito defeituosa.

A rua anterior de S. Sebastião comunicava com a do Arrujo por uma ponte ou antes muro de pedra vermelha, por cima da qual se passava nos meses de inverno e ao mesmo tempo servia de tapagem a uma propriedade que aí temos. (8)

Ao lado direito da rua do Arrujo, onde terminava o dito muro, era o Coval – Curral do Concelho, feito de muro em forma circular com porta para a dita rua.

Logo abaixo do actual pontão para o lado do campo, sob a estrada anterior, havia um pequeno pontão de arco de tijolo, que dava passagem aos barcos para o Ribeiro, e às águas deste para o campo, passando ali a vala real que tem princípio na ponte da Granja e passa pelo Picoto, Arrotas, Camarnais e segue pela ponte da Balsa, Poço do Grifo, Vala da Mata, Taboeira, etc.

A dita ponte velha do Arrujo ligava com a dita rua do Arrujo por um muro de pedra vermelha, por cima de que se passava desde a mesma ponte até ao lado esquerdo da mesma rua.

A rua do Arrujo, tanto na parte que vai para o Rego, como para o Matouto pela viela do Lourenço e das Gatas, mostra em alguns sítios bastante profundidade e o mesmo se vê na rua do Forno.

A rua do Adro de Baixo também mostra bastante antiguidade, principalmente no lado do norte da igreja, se compararmos o seu fundo com o quintal próximo que foi do Reitor Diogo de Morais Cabral. Devemos lembrar que a rua principal não seguia como hoje pelo Adro de Cima para o Arrujo, mas sim da Picota para a Balsa; e tanto que para este lado colocaram a frente da igreja; e isto tanto mais é de crer quanto ali (quase em frente da igreja e parte do muro do Adro ao nascente) estão os celeiros do Alto Senhorio da terra, a Sereníssima Casa de Bragança; bem como foi o seu antigo paço, casa do Almoxarife e capela de Nossa Senhora da Piedade.(9)

De tudo podemos conjecturar que a Vila começaria os seus princípios em três bairros separados, a saber: Laguela, Arrujo, e o do centro, onde se acha hoje a igreja.

E, se não podemos dar inteiro crédito aos ditos vestígios da profundidade das ruas, porque a mão do homem e a mesma natureza os pode alterar e desfazer, é certo que os ditos três sítios são os de que restam mais tradições e mesmo documentos que de algum modo mostram a sua antiguidade, a saber:

A respeito do Arrujo temos a tradição de que falámos ao tratar da «Etimologia de Eixo» e que remonta a eras remotas; a respeito da Laguela e Senhora da Graça temos documento que terminantemente diz ser a igreja velha neste último sítio (Vd. o que dizemos adiante desta igreja) e sendo a Laguela próximo desta igreja é provável ser tão antiga como ela; e finalmente a respeito do bairro central consta da História que El-rei D. Fernando I celebrou esponsais com D. Leonor Teles nesta Vila; o seu palacete era neste sítio.

A Vila situada à beira-campo tem vistas muito pitorescas, principalmente dos sítios mais elevados como o Matouto (10) e Forno, donde se avista todo o campo desde o lugar de Pinheiro até Angeja, na distância de uma légua.

Cada propriedade de campo é fechada por Cômoros de salgueiros e outros arbustos, que na primavera formam uma paisagem muito aprazível. Esta parte do campo, ou campo de Eixo, é cercada por uma cordilheira de pinhais dos lugares de Pinheiro, Salgueiral, Azenhas, S. João de Loure, lugar de Loure, Frossos e Angeja, que todos se avistam de Eixo ao norte e nascente, bem assim parte dos lugares da Horta e Taboeira, além de muitas terras e serras que ficam a maiores distâncias.

Para os lados do sul e poente e intermédios, todos superiores à Vila, não vê esta senão pinhais e pequenas distâncias que fecham em semi-círculo; e por isso podemos dizer que a Vila é uma grande varanda com vistas pitorescas para o nascente e norte, limitadas por grandes serras, ainda que à distância de algumas léguas.

Parece que devíamos agora tratar da antiguidade da Vila; mas reservamos esta matéria para o fim desta 1.ª parte, como conclusão de algumas matérias que vamos tratar.

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NOTAS:

(1) – Ainda há poucos séculos em certos meses era mandada a cavalaria ao verde para estes sítios, aquartelando-se nos Lugares de Taboeira, Quintã e talvez nesta Vila, onde se diz que se casaram dois dos oficiais nobres (que comandavam os ditos corpos de cavalaria), de que descendem as famílias Britos Tabordas e Gomes de Lemos, a que pertence o nosso Ex.mo D. Sebastião Gomes de Lemos, Bispo resignatário de Angola.

(2) – Neste sentido se toma a palavra «xó» no Lexicon Ethimologico das palavras portuguesas, que têm origem arábica, composto por Frei João de Sousa, derivando-se da palavra pérsica «xou» com que se manda parar a besta. Ainda se usam as duas palavras «xó» e «xou» – aquela para fazer parar e esta para fazer andar o gado e mesmo aves, de que vem o verbo «enxotar» ou dizer «xou».

(3) – Esta praça só tem lugar aos domingos e dias santificados e vende-se aqui trigo, frutas e hortaliças e aves, e pouco mais. Foi aumentada pelo Juiz de Fora, Sr. Joaquim Roiz de Bastos.

(4) – Nos papéis do Dr. Manuel Gonçalves de Figueiredo Gausper (que serviu de Presidente da Câmara pelos anos de 1817 a 1830) se encontrou um projecto de calçadas das ruas principais da Vila, orçado em 6:780:400 rs. Por este projecto ficava a rua principal com passeios aos lados em largura de cinco palmos, guarnecida dos marcos de pedra.

(5) – Poço hoje muito profundo que acaba no gramoal de Taboeira, mas que há menos de oitenta anos era caminho de fazendas confinantes e entre outras das de um homem chamado «o Grifo" por alcunha, que lhe deu o nome.

(6) – Tem catorze casas.

(7) – Há quem diga que antigamente esta rua continuava para o Arrujo pelo Barrimau, não havendo ainda a de S. Sebastião senão no sítio da capela até à viela do Barrimau, onde desembocava aquela. Se isto é verdade, é pelo menos anterior a 1707, porque esta data tem a casa que foi de Manuel José Soares, já na rua de S. Sebastião; sendo certo que o espaço da rua desde a Picota até ao meio desta tem pequena profundidade.

(8) – Este muro tem de altura três metros e de comprimento quinze desde a dita curva até à entrada da rua do Arrujo; foi demolido pelas obras da dita estrada que começaram em 18-3-1862.

(9) – Tanto existiu este paço ou palacete que o prédio da Sereníssima Casa de Bragança junto aos celeiros ainda hoje se chama «a Vessada do Paço».

(10) – O sítio do Matouto, na sua parte mais elevada e próximo à Cubelhã, é sem dúvida o sítio da Vila em que se avista um panorama lindíssimo, porque não só domina a Vila toda, mas também o campo até à linha férrea sobre o Vouga, em Cacia.

 

 

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