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Boletim n.º 3 - Ano II - 1984


JARDIM BOTÂNICO - CONCEITOS MODERNOS

 

Em tempos idos defendi na Imprensa local a ideia de que a Universidade de Aveiro deveria adquirir a Quinta de S. Francisco, em Eixo, na qual se encontrava (e encontra) o muito famoso «Museu do Eucalipto». Segundo eu pensava, essa aquisição teria em vista o aproveitamento científico do arboreto lá existente e a sua integração na vida activa da referida Universidade.

Claro está que eu, ao propugnar tais ideias, não me esqueci de frisar que o assunto me não dizia directamente respeito: seria apenas uma sugestão a lembrar a quem de direito uma possibilidade simpática para o engrandecimento da nossa Escola Superior. Constou-me que a sugestão encontrou eco, mas sobrepuseram-se problemas de ordem financeira e, com eles, a impossibilidade de tornar viável a sugestão apresentada. Com o evoluir dos tempos, surgiu felizmente quem tinha capacidade e também vontade de comprar a citada Quinta-Museu: foi a Portucel; e não faltou quem pensasse que esta Entidade apenas comprava a propriedade para dela aproveitar o notável renque de eucaliptos, o que eu sempre contradisse nas conversas com quem me punha o problema naqueles termos.

Efectivamente, a Portucel, logo que se assenhoreou da Quinta de Eixo, iniciou obras de resguardo da propriedade e da construção de um edifício para instalação de um «Centro de Investigação». Eis uma demonstração concreta do que deve ser uma indústria moderna: investigar no laboratório para depois aplicar na prática laboral os conhecimentos adquiridos – quiçá descobertos – no estudo científico. Esta atitude implica simultaneamente a convicção de que um «Centro de Investigação» não está, não pode estar, de costas voltadas para a Universidade.

Aliás, em conversa com responsáveis, fui informado de que assim era e a Portucel pretendia a mais intensa e cordial colaboração com a Universidade. Oxalá que, quando tudo funcionar em pleno, se realizem totalmente esses bons desígnios.

É necessária reciprocidade de ideais científicos e sociais. As Universidades modernas inserem-se no meio ambiente e não se isolam nas suas torres de marfim; a indústria moderna não dispensa a colaboração da ciência investigativa nem se concebe que viva sem os respectivos apoios.

 / 20 / Só assim, em mútuo entendimento, se poderão realizar os labores dumas e doutras destas Instituições.

Conjugando estes pontos de vista, poderá concluir-se que, afinal, a Quinta de S. Francisco sempre ficou ligada à Universidade de Aveiro com vínculos que, débeis no início, se irão fortalecendo com o decorrer dos tempos e com os trabalhos comuns que certamente irão realizar as duas instituições mutuamente integradas.

O «Centro de Investigação» foi inaugurado em 4 de Novembro passado e, embora convidado, não pude assistir, o que lamento. Irei em data próxima visitá-lo e certamente regalar-me com o seu funcionamento, visto tratar-se de assunto tanto ao jeito das minhas predilecções.

Mas... e o Jardim Botânico?

Antes do mais, é preciso definir o conceito de Jardim Botânico que já vem desde os tempos do famosíssimo Brotero, segundo vemos em recente trabalho da Dr.ª Margarida Queirós, do Instituto Botânico de Coimbra.

Segundo Brotero, os Jardins Botânicos são repositórios de plantas raras, preciosas e exóticas onde se adquirem ideias sobre as vivências dos seus diversos estádios que se não podem adquirir nos herbários. Sendo embora lugares de repouso e de recreio, constituem também um modo de familiarização destinada a servir os imperativos da Ciência e da Investigação. Devem servir ainda de apoio aos estudos médicos e farmacêuticos, a diversos ramos da agricultura e da indústria e ainda ao estudo das bases da botânica filosófica.

/ 21 / Estive a última vez na Quinta para ouvir uma palestra do sempre lembrado Eduardo Cerqueira, lembrado dizíamos, como amigo, como contra-parente e como conversador profundo, erudito e amável. Vi então as obras do edifício há pouco inaugurado e tive a impressão de que era pequeno. Com efeito, se pensarmos de que nele deverá haver laboratórios de citologia vegetal, de genética, de fisiologia, e outros; que deve existir um herbário que, só por si, irá crescendo com o tempo até vir a ser repositório da flora local e regional, o mais completo possível; que deve ter tanques em que se possam criar as plantas aquáticas que proliferam no Rio Vouga a correr próximo, nas pateiras e na Ria e estudá-las até à exaustão; que também não pode nem deve faltar a construção e conservação de viveiros diversos, fornecedores de matéria-prima para as mais variadas experimentações; que deverá ter uma secção de sementes para colheita, catalogação e conservação das mesmas; que ainda, como que a formar a cúpula de todo este conjunto, é necessária uma biblioteca que também irá crescendo com os anos até que constitua elemento pedagógico substancial para apoio a tudo o que se realizar, tanto no campo de aplicação prática como no didáctico; se pensarmos em todos estes elementos, teremos uma noção mais exacta da pequenez das instalações agora iniciadas.

Se acrescentarmos a este estendal o serviço cultural e de aperfeiçoamento pessoal que um Jardim Botânico pode prestar a todos os membros da comunidade em que se / 22 / insere, teremos um panorama completo do que ele pode e deve ser.

Por isso e para isso, julgamos acanhadas as novas instalações construídas em Eixo, mas o certo é que, além do aproveitamento da casa senhorial lá existente aonde eu e outros ouvimos a palestra (creio que a última) de Eduardo Cerqueira, ainda dispõem de muito terreno com possibilidades de aproveitamento.

Deste modo, estou bem convencido de que a aquisição da Quinta pela Portucel foi um passo em frente, com validade óptima para a actividade industrial daquela Empresa e também para a ciência, em conexão com a Universidade de Aveiro.

Não se passará muito tempo sem que vejamos desenvolver-se ali um pólo turístico e de visitas de estudo com carácter pedagógico que nos façam a todos bem dizer a memória de Jaime de Magalhães Lima e de seu cunhado, o ínclito botânico Doutor Júlio Henriques, que lá souberam criar o núcleo que veio a redundar no desenvolvimento a que agora assistimos e no desabrochar desta árvore que promete ser frondosa e produtora de muitos e bons frutos.

ORLANDO DE OLIVEIRA

 

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