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Boletim n.º 1 - Ano I - 1983

OS GABÕES DE AVEIRO

 

Os gabões de Aveiro, uso perdido – apesar de uma, mais ou menos vã, ainda que louvável, tentativa de ressurgimento – relegaram-se à evocação da passada indumentária característica.

Tão ao sabor de Aveiro como as embarcações da Ria, haviam irradiado como agasalho e vestimenta, ou envoltório para disfarce ou ocultação previdente de divagações furtivas, maus passos, ou aventuras que exigiam capas não translúcidas. Em certas circunstâncias de sigilo conveniente às boas reputações, cada um, com o gabão, se poderia furtar a olhares indiscretos e a línguas malévolas, badaladoras da novidadezinha comprometedora.

Eça de Queirós – esse imorredouro «pobre homem da Póvoa do Varzim» que, no fundo e até final, ficaria um «filho de Aveiro, quase peixe da Ria» – lembra-os nesta função acobertadora de passos a que não convém as testemunhas mais ou menos incontinentes e linguareiras. E, também, no seu espesso pano de surrobeco, ou mais graduada fazenda, as reminiscências da meninice, passada em Verdemilho ou na cidade, a dois passos da igreja paroquial de Nossa Senhora da Apresentação, na mais específica função agasalhadora.

Já algures apontei nestes precisos termos, mencionando as referências do grande escritor a Aveiro: «…O gabão, agasalho então em voga por todo o país, dentro do qual se encolhia o «famoso Craveiro» enquanto congeminava a «Morte de Satanás» e que o próprio Carlos da Maia, elegante e rico, não desdenhava de encafuar nas suas visitas à «Toca», para mais fácil dissimulação».

Na quadra dos «Ramos», nas noites gaudiosas, aparece ainda hoje, em esporádicas exumações que o costume exige-o, como à opa da manhã.

Com efeito, no início do ano, como na derradeira semana do precedente, a cerimónia festiva do calendário tradicional subsiste ainda – e cremos que por longos anos ainda – na «Entrega dos Ramos».

Eduardo Cerqueira

 

 

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