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Boletim n.º 1 - Ano I - 1983

AVEIRO

Quem surriba chão de areia não encontra onde enterrar raízes de esperança e quem irriga duna virgem sabe que mija numa peneira! Quem lança a semente num ventre que é maninho não pode ter esperanças de fecundação. E por isso, o Gafanhão, antes de cultivar a lomba, teve de corrigir-lhe a esterilidade servindo-se da Ria que lhe passa à ilharga, procurando nela a nata com que amamentou a semente que deixou cair, amorosamente, naquele chão danado. E humanizou a duna...

A paisagem que nos cerca é macia e acetinada. Um não sei quê de aguarela almofada a retina de um sossego repousante e calmo e, por muito que se trepe no relevo do distrito até ao cume dos montes, avista-se sempre uma nesga de água de superfície serena e polida a refrescar o conjunto da paz e de lirismo...

A Ria estende-se em canais, em esteiros, em valas, em fiozinhos de água, dividindo-se e subdividindo-se até ao capilar, entrando pela terra dentro, recortando-a e irrigando-a de água salgada, ou, pelo menos, salobra, e que se vai adocicando à medida que foge do mar e se estende, por aí fora, a servir de espelho a uma lavoura anfíbia que lança a semente ao chão e penteia o fundo lodoso das cales, que surriba terra até sentir os pés encharcados e pesca pimpões nas valas intercalares nos fugidios momentos de lazer.

Os longes de água são emoldurados por um debrum delgadinho – topo de planície rasa povoada de casas alapadas – e tem-se a sugestão de que a terra se envergonha e se humilha perante a imensidade da laguna, esfumando-se e diluindo-se no horizonte de encontro ao perfil violeta dos montes das distâncias...

Em certas manhãs, do iradas pelo sol nascente, a Ria parece toda um espelho onde, apenas, um trémulo de evaporação – ténue e vibrátil – põe um vestígio de movimento ritmado.

E, então, os malhadais, os montes de sal, os palheiros exíguos e pintados de zarcão, duplicam-se invertidos, nas águas quietas onde, de vez em quando, uma gaivota, maleabilíssima e ágil, raspa uma tangente quase imperceptível.

As pálpebras cerram-se sobre a pupila magoada por esta duplicação da luz que se remira no espelho da água e, no silêncio inundado de sol, o chap chap de uns remos, ou o golpe da ponta de uma vara que empurram o barco que desliza, põem uma nota fugidia de onomatopeia...

O moliceiro! Deixemos-lhe lá a origem para os catadores de raízes; entreguemos-lhe a árvore genealógica aos pesquisadores de impossíveis e fixemos os olhos no seu perfil de agora, presente sobre o alçado da nossa visão, a bolinar quase contra o vento, todo empertigado na sua proa policromada de ornatos e figurinhas polvilhadas de ironia e de malícia, a ilustrar textos ingénuos salpicados de harmoniosos erros de ortografia.

Deslizam na água, vaidosos e vibrantes, com os ancinhos descomunais a arrastar, com a borda rasando o lume de água, sob o peso do moliço de um verde fresco e intenso, a vela a panear tocada pela aragem levezinha, quando viram de rumo para novo bordo.

Homens da terra a pentear o leito da laguna para fertilizar as dunas – vidro moído ainda há poucos anos estéril, ainda há poucos anos maninha – terra que parecia gafada, a terra da Gafanha!

Frederico de Moura

 

 

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