A. G. da Rocha Madahil, Iconografia da Infanta Santa Joana, Vol. XVIII, pp. 186-276.

ICONOGRAFIA DA INFANTA SANTA JOANA

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Toda essa bibliografia percorremos novamente, salvo quatro ou cinco espécies que as bibliotecas ao nosso alcance actual não possuíam, com o particular objectivo de extratar o que por lá se encontrasse registado a respeito de iconografia de Santa Joana, objectivo único do presente estudo.

Comecemos pelo tipo físico da Infanta, de capital importância, que MARGARIDA PINHEIRO nos transmite ao mesmo tempo que deixa exaradas algumas observações pessoais valiosas, como vamos ver:

Passados hos ãnos da Minynice da dita Senhora Iffante E princessa dona Johãna Creciia ẽ tanta alteza de fremosura. ẽtender. E saber. que assy Como era cõtra natureza e Cousa desacustumada segundo a ordẽ do styllo e ẽgenho natural. Assy cõvertiia todos os que a viã ẽ admiracã e spanto dando louvores a deus. Assy ẽ aquella tenrra Idade governava seu stado e Regiia seu paaco. Como que fosse de perfeyta hydade. Nẽ lhe faziia mingua algũa. nõ tẽer vista e pratica de semelhãtes Cousas por Causa da acelerada morte da Rainha sua madre. Emtrando a dita Senhora Ifante Na hydade de nove e dez ãnos. Comecou a sse demostrar ẽ ella hũu maravilhoso Resplandor de amor de deus. E leixãdo outros desẽfadametos que a dita Idade Requere. Comecou cõ grãde atento aprẽder leteras e querer entẽder Latyn. (Crónica, págs. 77 e 78)

Voava per todas as partes da Crystindade a ffama da grãde excellẽcia da fremosura e yndustria do entẽder E saber desta Ifãte princessa. E a todos Reys e principes de diverssos Reynos poynha ẽ grãde Cobiica e desejo de a veer e ouvir. E porque lhe era ynpossivel por a distancia E alonguamẽto dos Regnos e terras. mãdavã pyntores muy perfeytos que a vissẽ e tirassẽ per ho natural. pera poderẽ assy pyntada gozar de tanta fremosura. Antre os quaes foy ho muy serenissymo luys Rey de franca primo de ell rrey dõ affonso padre da dita Senhora. E ho ẽperador dalta lemanha cunhado seu. Casado cõ hũa Irmãa do dito Rey dom affonso. Certificavã e Juravã os pintores. nõ podiiã nẽ tiinhã sciẽcia pera poder penetrar & pyntar tanta graca e fremosura. Porem cõtudo trabalhavã por a afemẽcar e pyntar. Del rrey de frãca seu tyo se afirmou que vẽedo a pyntura a qual se diz era muito natural. que postos os giolhos ẽ terra deu gracas e louvores ao Senhor deus. Comecarõ algũus Reys e princepes de a demandar a el rrey seu padre pera Casamento. aos quaes por entõ nõ dava conssẽtimẽto por sua tenrra Idade. o qual aynda entom nõ penetrava ho / 236 / Consselho divinal. que nõ de Rey terreal. Mas do celestrial e eternal avia de seer sposa. (Crónica, págs. 78 e 79)

Era de Idade de. quinze. anos. e Cantos a viiã Julgavã seer de vynte cynco. tã grãde ẽ statura e fremosura era. (Crónica, pág. 80)

E aynda que de tã nova Idade fosse. quãtos a viiã e ouviã. Julgavã seer de vinte cynco. ou trinta. años. per sua grãde prudẽcia e saber. Era no Rostro e corpo. muy aposta. a frõte muito graciosa. os olhos verdes mũi fremosos. ho naryz meaão e de boa ffeycã. a boca grossa e Revolta. Rostro Redondo. ho Caram alvo cõ algũa canta quer coor bẽ posta. muito fremosa gargãta e maãos maes do que se podesse achar e veer a ninhũa outra molher. alta e grãde de Corpo dereyto. muy aposto e ayroso. aa vista e Reprẽsentacã de grãde Senhora e estado. (Crónica, pág. 89)

Recolhida já no Convento de Jesus de Aveiro, continua a Crónica,

Nom mudou por entõ vestidos nẽ toucados que aynda que muy honestos e baixos erã nõ sẽedo mays que hũu avito preto e outro brãco e faldrilha vys. E cabeca cõ seus muito fremosos Cabellos ẽ nastros e coiffa de pernas. e beatilha lãcada. Isto nõ mudou por algũus tẽpos. atee que tomou ho avito. Depois que entrou neste moesteiro nũca maes Calcou luvas. nẽ pos anel ẽ dedo salvo hũu soo desmeralda. e outro daro que traziia sẽpre por Respeyto da Senhora sua tya presente que lhos dera. E estes laneou no acafate quãdo lhe vestirõ ho havyto. (Crónica, pág. III)

Para a cerimónia da investi dura do hábito, em Aveiro,

A muy devota Senhora se pos de giolhos ante a santa madre. E ajudando a as parceyras soltos seus fremosos e cõpridos Cabellos. a madre prioressa britiz leytoa lhos cortou cõ muita Reverêca e cortesya (Crónica, pág. 114).

E hũu soo anel desmeralda que sẽpre trouxera tyrou e lancou no acafate. (Crónica, pág. 115)

Como souberã e forõ certificadas sua Senhora princessa e Iffante do Reyno cortados seus fremosos Cabellos era toucada e vestida cõ os vestidos da ordem. (Crónica, pág. 121) / 237 /

Diz o testamento da Infanta, enumerando os legados:

...Item ho Roby grãde do anel. ao princepe meu Senhor item a meu sobrinho ho pendẽte das tres pedras. E ho pendẽte da esmeralda. Item aa Senhora minha tya ho vulto. (Crónica, pág. 154)

Por fim, MARGARIDA PINHEIRO, contando o que foram os últimos dias de vida da Infanta, fornece ainda indicações valiosas, tanto para precisar o tipo físico da Infanta como até para a história da Arte daquela época:

Determinou esta Senhora como fosse manhãa logo se cõfessar. E ally lhe dizerẽ myssa. e Receber ho Senhor. Ho que tudo assy for feito. Armou e cõcertou hũ devoto altar a Irmãa Sacristãa ja dita aly meesmo na Casa grãde onde a sancta Senhora tiinha a Cama e jaziia. vẽedo ella e ordenãdo ho lugar onde fezessẽ o dito altar pera aquela missa e comunhom. E mãdando põor as Imagẽes e Retavollos que ẽ elle lhe posessem... (pág. 156). Mãdou a dita Senhora Iffante stevesse assy alIy ho altar Como stava E muito amiude fycãdo hos olhos no vulto e Imagẽ de nossa Senhora. (Crónica, pág. 157)

Inpossyvel he poder dizer as pallavras e exclamacões que a nosso Senhor diziia. e depois tornava sse a nossa Senhora cuja Imagẽ cõ ho Menyno que esta mamãdo ante ssy tiinha no altar que mãdara fazer pera a myssa. no qual stavã outrossy ha Cruz grãde da sua Capella. E ho seu vulto muito fremoso da Ressurreyçã que aa Senhora sua tya leixou dessẽ por ficar da Raynha sua madre Irmãa da dita Senhora sua tya. (Crónica, pág. 162)

Allevantou os olhos a Cruz e crucifixo que ante ella tiinhã. E porque de seu natural eram verdes muito fremosos ẽ aquele põto stavam tã Claros. E ho verde assy em tal maneyra era Claro e Resplãdecente. que verdadeiramẽte pareciiã smeraldas muyto fynas. postas ante ho olho do soll. (Crónica, pág. 168)

NICOLAU DIAS, o mais compendioso e um dos mais antigos biógrafos impressos da Infanta (1594), unicamente transcreve a Crónica manuscrita de MARGARIDA PINHEIRO, nada acrescentando com utilidade para a iconografia, de Santa Joana, razão pela qual nos dispensamos de o extratar, depois de quanto acima já fica transcrito da própria Crónica. / 238 /

Da mesma forma Fr. JERÓNIMO ROMAN (1595); embora declare ter visto a obra de NICOLAU DIAS, a Crónica de Soror MARGARIDA, e papéis da Casa de Bragança e de Tomar, compondo, em seguida, a sua história de maneira diferente(1), nenhuns elementos novos fornece, e decalca, afinal, a Crónica, o que, aliás, era inevitável a qualquer historiador, atentas as especiais circunstâncias em que fora escrita. Registando, por exemplo, o tipo físico da Infanta, diz, como Soror MARGARIDA (e como NICOLAU DIAS, que também a seguiu)

«Fue la sancta Princesa de gentil cuerpo y disposicion, la cabeça muy graciosa, por tener los cauellos naturalmẽte como madexas de oro, los ojos verdes, y muy hermosos: la nariz muy proporcionada, los labios gruessos, el rostro redondo, el color blãco, mesclado cõ ciertas sombras coloradas, que la haziã muy agraciada, y en todo parecia Reyna.»

Depois de recolhida a descrição do tipo físico da Infanta na Crónica, não interessa, portanto, o que a esse respeito os mais biógrafos escreveram, pois a origem de todos é Soror MARGARIDA.

Em 1662 imprimiu-se o segundo tomo da História de São Domingos, particular do Reino e conquistas de Portugal, de Fr. LUÍS CÁCEGAS, «reformada em estilo e ordem; e amplificada em successos, e particularidades» por Fr. LUÍS DE SOUSA; mas Fr. LUÍS DE SOUSA faleceu em 1632, e Fr. LUÍS CÁCEGAS em 1610; a este se devem os elementos para a obra que saiu em nome dos dois, mas da qual o próprio Fr. LUÍS DE SOUSA declara (Parte II, Liv. 4.º, cap. VIl) pertencer, em substância, a Fr. LUÍS CÁCEGAS, «a cujo nome, e trabalho se deve a parte mais substancial da presente escritura»... «dandolhe o primeiro lugar nelIa, porque na verdade se lhe deve. Andou perto de vinte annos polIa Provincia investigando antiguidades dos Conventos, pera esta Historia»... Foy este seu trabalho meyo pera nos deixar junta a mayor parte da informaçaõ do que vamos historiando; e serviraõme os seus caminhos, pera eu poder escrever assentado, quieto, e escondido no canto da Cella. Em outras partes temos apontado, que nos deu materia, pera bom edificio, naõ edificio feito».

...«se elle naõ fora primeiro no merecimento de trabalhar, não pudera eu ser segundo no de escrever: porque a / 239 / idade crescida em que buscamos a Religiaõ, se bem nos deixou entender com esta fabrica, de todo impossibilitava o desassossego dos caminhos, e o mendigar das informaçoens.»

A 1610, pelo menos, se devem portanto retrotrair as informações da obra impressa em 1662; ora a pág. 225, 1.ª coluna, ficou registado, entre os sucessos memoráveis ocorridos por intercessão da Santa Princesa, que

«Sendo nouiça Sor Anna da Presentaçaõ, padecia hũs accidentes, que a priuauão de todos os sentidos. Trouxerãolhe hum retrato da Sancta, encomendouse a ella: desta mesma hora nam sentio mais semelhante mal em toda a vida.»

Ao nome de «Soror anna da preSemtação» averba a Crónica (Pág. 253) um registo de óbito «No anno do Senhor de mil seiscentos e treze»; é de presumir que se trate da mesma pessoa, tanto mais que não aparece outra alguma com o nome de Soror Ana da Apresentação; quando tenha sido noviça é que já não será fácil apurar, pois a Crónica regista as profissões antigas com o nome que as noviças usavam no século; sabe-se que

em 1508 professou Ana Dias,
em 1531 Ana Pereira e Ana de Melo,
em 1565 Ana de Vilhana,
em 1566 Ana Freire,
em 1575 Ana Henriques,
em 1592 Ana da Coluna, e
em 1603 Ana Natália.

Depois desta data só aparece Ana Maria já em 1618, o que a coloca fora de causa.

A averiguação de qual das referenciadas acima foi Soror Ana da Apresentação interessava para determinarmos a mais antiga referência a um retrato da Infanta existente em Aveiro; nem tudo, porém, aparece, e forçoso se torna contentar-mo-nos com o que há.

Do Padre ANTÓNIO DE VASCONCELOS e do P.e CARAMUEL LOBKOWITZ apresentámos já o mais valioso depoimento de quantos nos poderiam ter sido conservados: os retratos gravados a buril para ilustração das suas obras, respectivamente de 1621 (Anacephalaeoses) e 1639 (Philippus Prudens); o texto biográfico de qualquer dos dois panegiristas não fornece elementos novos com interesse iconográfico; mas a história do retrato não dispensa o conhecimento do que no prólogo daquelas obras ficou registado. / 240 /

Assim, principiando pelo registo de quanto na portada da 1.ª edição da obra do P.e VASCONCELOS se encontra, temos:

«Allacephalæoses id est, summa capita actorum regum Lusitaniæ. Auctore P. Antonio Vasconcellio Societatis lEsu Sacerdote, Theologo Olysipponensi.

Accesserunt Epigrammata in singulos Reges ab insigni Poeta EMMANVELE PIMENTA eiusdem Societatis.

Et illorum efflgies ad viuum expressæ, curâ, & sumptibus Emmanuelis Sueyro Regiæ Catholicæ Maiestatis Aulici Familiaris, Equitis militiæ Saluatoris nostri IESU CHRlTI; & Domini de Voorde.

Antverpiæ Apud Petrum & loannem Belleros.
Anno M.DC.XXl. – Cum Gratia & Priuilegio.»

Volvida a folha, logo se nos depara uma carta daquele MANUEL SUEYRO a Filipe IV, que principia deste modo:

Regum Lusitaniæ effigies meâ curâ æri insculptas; Augusto tuo nomini, Magne Rex, visum est inscribere, & quæ prisca est votorum formula, Lubens, Merito, Dedico, Consecróque; Lubens quidem, vt hac occasione cultus fiei studium aliquod Maiestati vestræ offerrem, donec Flandriæ historiam auspiciis Sanctissimi Parentis Vestri Philippi III. inchoatam ad vmbilicum perduxero.

Merito verò, quia maiores vestros, quos rerum gestarum gloria cœIo consecravit, nemo Maiestate vestra lubentius excipiet; rapitur enim ad similitudinem suorum excellens quæque natura, & cœlestium animorum simulachrum refert decerpta ab iis aura: iuuabit illorum ora, vultusque contemplari, quorum diuinas virtutes assiduò æmularis, & felicissimè orbi reddis.». ..

Nas considerações que, a seguir, o P.e VASCONCELOS dirige ao leitor, importa notar estas palavras, de interesse para a crítica artística da obra:

Vt effigies suis essent lineamentis absolutæ, lectissimus conquisitus est in Belgio incisor, cui pro Dædalo & Polycleto adfuit Emmanuel Sueyro Antuerpiæ incola, Lusitanis editus parentibus, equestris in Lusitanæ aulæ família dignitatis assignato in menses singulos nobili congiario, & illustrissimæ inter nostros Christi militiæ insignibus exornatus, vir & multarum linguarum, & optimarum scientiarum laude clarus, & vbiq; summo loco habitus, tam propter eximias animi & corporis dotes, quàm ob luculentos libros, quos edidit, & alios, quos in lucem fætura proxima emittet. Qui cum in promptu haberet optimas Regum effigies ex tota Lusitania / 241 / [VoI. XVIII - N.º 72 - 1952] diligenter comparatas, & singularum notas ex historijs attentè collectas, curauit, ne quid in archetypis industriæ & elegantiæ desideraretur. Regibus omnibus coronas apposuimus, quamuis ijs aliqui in antiquis exemplaribus carerent, ne quis nodum in scirpo inesse putet, ex discrimine aliquid à veritate absonum coniectans.

Nulli antiqua armorum insígnia, quorum suo cuiusque tempore usus erat, apponimus, quia nodosæ illæ clauæ, rubigineæ secures, informesque thoraces plus habent vastitatis, quàm maiestatis, nec ad viuida cuiusque lineamenta spectantibus offerenda quidquam conferunt. Ideo singulos recentibus, & ideo gratioribus insignibus exornamus.

A segunda obra que nos transmitiu o retrato da Infanta foi, como vimos, o PHILIPPVS PRVDENS CAROLI V. IMP. FILlVS LVSITANIÆ ALGARBIÆ, INDIÆ, BRASILIÆ LEGITlMVS REX DEMONSTRATVS. A D. Ioanne Caramuel Lobkowitz Religioso Dunensi Ord. Cister. S. T. Doctore Louaniensi et Melrosensi Abbate.

Antverpiæ, Ex officina Plantiniana Balthasaris Moreti. M.DC.XXXIX.

Diz CARAMUEL, no final das páginas preliminares, que intitulou «occasio scribendi»:

«Regvm effigies.
Expresserunt varij auctores Imagines Portugallensium Regum. Exstant in Avlâ Vlyssiponensi ad viuum, vnde diligentia Marizij eas excepit; in hoc infelix, quòd nactus fuerit sculptorem incurium. Vasconcellius apud Belleros editur anno 1621. Regum omnium effigies continens, sed non ad viuum: etenim penicillus audax eò respexit, vt pulchras potiùs efficeret quàm veras: alij aliter delineauerunt. Mediâ viâ insistens, Marizias effigies donaui subtili perfectione, & Vasconcellias veritate, nactus Pictorem celeberrimum E. Quellinum, & C. Gallæum optimum sculptorem. Vterque in suâ arte perfectissimus solertiâ summâ satisfecit. His felices delineationes debes; Domino autem Balthasari Moreto, & mihi, eos impendisse, vt seruiremus tuæ curiositati.»

Mas a história do retrato continua; D. FERNANDO CORREA DE LACERDA «Indigno Bispo do Porto», refere o mesmo caso de Soror Ana da Apresentação na Virtvosa vida e sancta morte da Princesa Dona Ioanna que se imprimiu em 1674, dizendo:

«Estando no anuo do noviciado a Madre Soror Anna da Apresentação, lhe derão hũs grandes accidentes, que / 242 / a privavão de todos os sentidos, trouxeraõlhe o retrato da Sancta Princesa, encomendouse a elle, & ficou saã; desta sorte, começou a ser milagrosa aquella imagem, em signal que aquella alma era sancta.»

De 1688 é dedicada pelo P. DANIEL PAPEBROCHlUS, S. J., ao Arcebispo de Lisboa D. LUÍS DE SOUSA, a biografia da Infanta publicada na colecção dos Acta Sanctorum, onde este precioso depoimento ocorre:

«Celebratur solenniter ibidem ipsius Joannæ festum hoc die, assistente toto oppidi Senatu, cum paramentis perquam splendidis, Missa & Sermone de Omnibus Sanctis, coram ejusdem imagine exposita in altari majori; quæ quidem imago, ipsam ad vivum repræsentat in habitu seculari, qualem apud P. Antonium de Vasconcellis in Anacephaleosi Regum Lusitaniæ ære expressam videre est. Non desunt tamen per provinciam aliæ, tam picturæ, quam statuæ, repræsentantes ipsam in habitu Dominicano, cum spinea corona in capite, crucifixo in manu, radiisque seu diademate, æque ac si esset ab Apostolica Sede Beatificata; haud dubie ideo, quia usque hodie a devoto populo invocatur cum titulo Sanctæ Principis, ex tacito saltem Prælatorum consensu. Quapropter etiam prædicto die, supramemoratum sepulcrum ostenditur inquilinis, illuminatum cereis; & per decursum anni etiam extraneis, non absque lumine, nec citra difficultatem: distribuitur etiam ab antiquo tempore terra, quæ in vaso porcellano servatur, a die suæ translationis: nec hodiedum deficit medicina istæc contra febres, quotidianis & patentibus miraculis comprobata.»

O leitor que tenha acompanhado o encadeamento das referências ao retrato do Museu de Aveiro encontra acima a reprodução da gravura que ilustra a narrativa de PAPEBROCHlUS – fig. 11 – e bem assim a da obra do P.e ANTÓNIO DE VASCONCELOS, Anacephalæoses – fig. 4 –; esta última decalca, sem controvérsia possível, o retrato de Aveiro actual – figs. 10 e 13 –; por sua vez, PAPEBROCHlUS afirma que a gravura do Anacephalæoses reproduzia expressamente o quadro então existente no Mosteiro de Jesus.

A seguir aos Acta Sanctorum temos o depoimento de Fr. LUCAS DE SANTA CATARINA, com a sua prolixa e ultra-gongórica Estrella Dominica novamente descuberta no Ceo da Igreja. História Panegyrica ornada com todo o genero de erudiçaõ Divina e humana (dois tomos, respectivamente de 1709 e de 1713, das oficinas de Valentim da / 243 / Costa Deslandes e Real Deslandesiana, de Lisboa; o 1.º apresenta, contudo, licenças para impressão datadas de 1704).

Através daquelas infindáveis páginas e páginas de palavrosos comentários perfeitamente inúteis, que raríssimos leitores terão conseguido suportar, Fr. LUCAS escassamente alude à iconografia da Infanta; no entanto, é talvez nessas páginas esquecidas que pela primeira vez terá ficado registada a notícia muito explorada por JOAQUIM DE VASCONCELOS, e, depois, por outros comentadores, de que o Bispo de Coimbra, D. João de Melo, trouxera para o seu paço um retrato da Infanta, hoje desconhecido. Adiante analisaremos, por nossa vez, esta declaração de nossos dias, e possivelmente se esclarecerá o assunto, sem dificuldades de maior.

Começa Fr. LUCAS por anotar que no altar fronteiro à porta da igreja do Convento de Jesus, de Aveiro, se colocou uma imagem de Santa Joana «em obra de talha, & a mais primorosa», ...«avultada em estatura humana» (T. II, pág. 149); divaga, em seguida, e, na página imediata, dá conta dos prodígios obrados pela memória da Infanta, registando então:

«Outra imagem havia no Mosteyro, em Retrato, que se copiou da Santa ao espirar, que como se herdàra vida do Original, assim escutava as supplicas aflligidas, que só a tibieza da Fé as fazia baldadas. Naõ o forão as do Prior do Convento (do mesmo hábito, & na mesma Villa) Fr. Jacinto das Neves, que achando-se atormentado de huma erysipella, que lhe tomava toda huma parte do corpo, & crecendo assim o mal rebelde às medicinas, que o mandàraõ sacramentar os Medicos, começando a contar-lhe as horas da vida, como a quem só esperavaõ vizinha a da morte; elle accendendo a Fé nos desenganos, pedindo que lhe trouxessem o Retrato da Santa, assim foy subita a melhora, que ao seguinte dia, antes pareceo resuscitado, que convalecente. Religioso que assistio ao prodigio, mo referio, & o jurou.

Este Retrato (aconselhado da fama de suas maravilhas) levou o Bispo de Coimbra D. Joaõ de Mello, prenda escolhida, & avaliada só nos piedosos acertos do seu Espirito. Nas suas mãos o depositáraõ as Religiosas, como equivalente desempenho das demonstraçoens singulares, que o Mosteyro deve a este grande Prelado, estendendo-as o seu animo a toda a Família Dominicana, naõ menos agradecida que penhorada. Não deyxou a Santa sem premio a veneraçaõ, desempenhando-o em alguns casos, que só a inconsideraçaõ negaria de prodigios. O que nos chegou com mais clareza à noticia, foy o que succedeo ao Conego da Se da mesma Cidade / 244 / Manoel Bello, que chegando de huma enfermidade às portas da morte, pedindo-o, & trazendo-selhe o Retrato, & fazendo-selhe huma viva supplica, & por seu respeyto hũa esmola às suas Religiosas da Casa de Aveyro, sarou repentina, & milagrosamente.

Assim he venerado este Retrato em Coimbra, como a terra daquella sepultura em Aveyro. Aquella terra como argumento para Joanna luzida, este Retrato como sombra de Joanna Estrella»...

Mais adiante, já na pág. 152, anota ainda:

...Era inda Noviça no mesmo Mosteyro a Madre Soror Anna da Apresentaçaõ: padecia crueis accidentes, que a privavaõ dos sentidos. Como era achaque, naõ havia que recorrer a Medicos. Derão lhe hum Retrato da Santa, & venerando-a naquella sombra, com protestos de verdadeyra, & eterna devota, desde aquella hora se despedio de sorte aquella molestia, que a naõ sentio mais em sua vida.

A título de mera curiosidade e como exemplo da torturada expressão literária de Fr. LUCAS, reflexo natural da sua época, aqui se arquiva a descrição do tipo físico da Infanta, tal como por ele nos foi legada, e que o leitor poderá, querendo, comparar com as sóbrias e objectivas palavras de Soror MARGARIDA PINHEIRO, desprovidas de pretensões estilísticas:

«Era a Princeza de idade de trinta & oyto annos, & tres mezes, de estatura alta, & senhoril; rosto proporcionado; olhos verdes, & rasgados; nariz igual às mais feyçoens; boca grossa, & vermelha; a cor alva, & rosada; o cabello louro, & em grào taõ subido, que passando a verdades os idiomas do encarecimento, antes pareciaõ raros, que cabellos; propriedade que inda naõ perderão, defunto o Sol de que foraõ raros, como se quizeraõ mostrar que fora nelles a morte antes nuvem, que eclipse. Verdade he de que póde testemunhar a vista, & de que a ventura me fez tambem testemunha. Presença magestosa; ar, & graça nativa, nas acçoens, como nas palavras; de sorte que a via o respeito, & a escutava o agrado.» (págs. 100 e 101).

JOSEPH PEREYRA BAYAM no seu Portugal glorioso, e illustrado com a vida, e virtudes das bemaventuradas Rainhas santas Sancha, Theresa, Mafalda, Isabel, e Joanna. Breve noticia dos seus milagres, de seus cultos, e Trasladações... / 245 / «Lisboa occidental, Na Officina de Pedro Ferreyra. M.DCCXXVII.», regista, por sua vez, divergindo de Fr. LUCAS em pormenores da maior importância acerca do retrato:

«Alli «(no túmulo de ébano para onde se trasladou em 1577 o corpo da Infanta)» esteve depositado por muytos annos o thesouro do mayor valor daquellas prodigiosas Reliquias sem mais culto, que o de huma Missa cantada de todos os Santos com Sermaõ, em que conformando-se com as disposiçoens Pontificias, se lhe referiaõ suas virtudes, e milagres com protesto de naõ terem mais approvaçaõ da Igreja, que a que lhe dava o tacito consentimento, e a pia veneraçaõ dos Fieis, a qual Festa se celebrava em 12. de Mayo, dia de seu precioso tranzito; porèm com paramentos ricos, expondo no Altar môr hum quadro, em que ella està retratada ao natural trajada da maneyra que andava no seculo, e assistindo o Senado da Villa, mostrando-se tambem no mesmo dia o referido sepulchro a todos os Fieis, que alli concorriaõ, exornado de luzes, e pelo discurso do anno aos forasteyros com alguma difficuldade, o que jà hoje se faz com muyto mayor hostentaçaõ.

Este Quadro, ou Retrato verdadeyro tem sido instrumento de raras maravilhas. Com a sua vista desappareceo huma grave erysipela, que atormentava gravemente ao Padre Frey Jacintho das Neves, Prior do Convento de Saõ Domingos de Aveyro, encomendando-se a ella. Presentàraõ-no as Freyras ao Bispo de Coimbra Dom Joaõ de Mello, quando alli foy no anno de 1689, formar os Processos para a sua Canonizaçaõ, como adiante se dirà, o qual namorado delle lho pedio, e trouxe para o seu Paço, onde tem continuado os mesmos favores. Pedio-o o Conego Manoel Bello, estando gravemente enfermo, e tanto que lho trouxeraõ, pondo os olhos nelle, e fazendo huma fervorosa supplica à Santa, recebeo a Saude desejada, e por este respeyto fez huma boa esmola às Freyras do dito Mosteyro de JESU.

Havia já com tudo pela Provincia outras muytas Imagens suas, assim de pintura, como de vulto no Habito de Saõ Domingos, com coroa de espinhos na cabeça, porque era a sua Real empreza, e Crucifixo na maõ, resplandores, e diademas, como se estivera jà Beatificada pela Sé Apostolica: porque a fama de sua Santidade foy sempre tão grande, que depois de sua morte continuamente for invocada pelo pio, e devoto povo, com o titulo de Princeza Santa, com tacito consentimento dos Prelados.»  / 246 /

Para encerrarmos esta segunda parte da bibliografia do retrato da Infanta, constituída pelas referências colhidas em obras de data anterior a 1890, já que daí até à actualidade a passámos primeiramente em revista, em consequência de termos escolhido aquela data para ponto de partida do nosso estudo, convém mencionar ainda os já citados Retratos, e elogios dos Varões, e Donas que illustraram a Nação Portuguesa... datados, na capa, de 1817, mas iniciados cerca de dez anos antes.

Biografando a Infanta, remata o artigo respectivo por estas palavras, já nossas conhecidas também, pois JOAQUIM DE VASCONCELOS as transcreveu em nota à sua descrição do retrato na Arte Religiosa em Portugal, como acima vimos:

«No Altar mór da Igreja daquelle Convento estava collocado um quadro de pincel vera effigie sua, trajada á maneira que andava no seculo, que o Bispo D. João de Mello por occasião do processo da sua Beatificação, tresladou com licença das Religiosas ao seu Paço de Coimbra. Muitos consta que havia na Provincia, em que estava no habito Dominico. Offerecemo-la conforme ao primeiro quadro, segundo a traz o P. Vasconcellos na Anacefaleosis, e bem similhante ao que vem no Acta Sanct. Maio Tom. III. pag. 692.)(2)

Nessa mesma colecção de Retratos e Elogios dos Varões e Donas se encontra igualmente a biografia do Bispo de Coimbra D. João de Melo; e lá vem, em duas breves linhas embora, a notícia de que «Fez conduzir do convento de Jesus de Aveiro o retrato original de Santa Joanna Princeza, para o seu paço.»

Em reforço desta bibliografia útil, toda por nós lida e seleccionada com não pequeno trabalho, pois necessário se tornou recorrer a várias bibliotecas públicas e particulares e nem tudo quanto buscávamos apareceu – alguma coisa de novo se pode ainda aduzir.

Foi a Infanta beatificada por Decreto da Sagrada Congregação dos Ritos de 20 de Dezembro de 1692, confirmado per vivæ vocis oraculum pelo Papa Inocêncio XII a 30 desse mês / 247 / e, depois, pela Bula de 4 de Abril de 1693; levou, contudo, seu tempo até se atingir esse resultado; dois processos se organizaram: o primeiro no ano de 1626 e o outro em 1686, com Autoridade Ordinária respectivamente dos Bispos de Coimbra D. João Manuel, que governou a diocese até 1633, e D. João de Melo, que não ultrapassou o ano de 1704(3).

A meticulosidade dos referidos processos foi grande; depuseram peritos acerca dos restos mortais da Infanta, acerca dos prodígios observados por intercessão dela, acerca da Crónica de MARGARIDA PINHEIRO, e – acerca do retrato pintado, original, inquirindo-se não só da sua antiguidade, como da autenticidade e do culto que no Convento se lhe prestava.

No Arquivo Secreto do Vaticano, segundo observação pessoal a que recentemente procedeu o Rev. Raul de Almeida Rolo O. P. (4), encontram-se seis processos organizados para a causa da beatificação da Infanta, assim sumariados:

1 – Processo ordinário, corrido em Coimbra, e iniciado a 13 de Janeiro de 1686, no qual aparece compulsado outro, organizado em 1626.

2 – Processo ordinário, corrido em Coimbra, iniciado a 11 de Março de 1687, sobre o culto, veneração, prodígios e maravilhas da Infanta.

3 – Processo apostólico, corrido em Lisboa, iniciado a 4 de Abril de 1689 em virtude de letras da Sagrada Congregação dos Ritos, em que se dava faculdade de reconhecer as imagens da Infanta expostas à veneração pública desde tempos antigos.

4 – Processo apostólico, corrido em Évora, iniciado a 2 de Maio de 1689 em virtude de letras da Sagrada Congregação dos Ritos, em que se dava faculdade para visitar, reconhecer e descrever a imagem da Infanta.

5 – Processo apostólico, corrido em Coimbra, iniciado a 2 de Janeiro de 1689 em virtude de letras da Sagrada Congregação dos Ritos, tendo por objecto o culto da Infanta. / 248 /

6 – Processo apostólico «super virtutibus et miraculis in specie», corrido em Coimbra de 1749 a 1752.

Os processos encontram-se traduzidos para italiano, mas conservam-se igualmente os textos portugueses; do processo de 1749 a 1752 existe, mesmo, o original.

Sob a cota n.º 490 (que abrange os textos portugueses e a tradução para italiano dos processos corridos em 1689 em Évora, Lisboa e Coimbra) fornece o Arquivo importantes elementos para a história das pinturas alusivas à Infanta e existentes, naquela data em Évora e em Lisboa.

Pelo que respeita a Évora, verifica-se terem sido peritos na autenticação e exame das pinturas Francisco Nunes Varela e Diogo Rodrigues Pinto, e o acto teve lugar em 9 de Maio de 1689; as pinturas analisadas foram:

«imagem que está pintada em a parede de huma meia laranja que está sobre a escada que vai para o dormitório do Convento de S. Domingos» e

«quadros que estão na sacristia do ditto Mosteiro e tem pintada a ditta serva de Deos.»

Fez-se igualmente o reconhecimento duma pintura do coro do referido Convento, bem como a autenticação dum quadro pertencente ao Convento de S. Domingos, de Montemor o Novo, que para esse efeito se apresentou aos peritos, em Évora, naquela mesma data.

Procederam, ainda, ao reconhecimento doutro quadro pertencente ao Convento de Santa Catarina de Sena, de Évora também.

Em Lisboa, foram peritos em idêntica autenticação, Bento Coelho da Silveira e António Freitas Franco.

Pinturas ali examinadas em 28 de Novembro de 1689:

Quadro do coro do Noviciado do Convento do Salvador.

Quadro de um arco do dormitório do Convento da Anunciada, contraposto a outro de Santa Catarina de Sena, tendo, no meio, uma pintura que representava Nossa Senhora do Rosário.

Oportunamente desenvolveremos estes elementos, sumariamente apontados, se obtivermos, como desejamos, uma cópia integral da parte dos processos que diz respeito à iconografia da Infanta (5). / 249 /

Em Coimbra, onde os originais dos processos aqui organizados parece que deviam ter ficado (vimos já, em todo o caso, que o de 1749 a 1752 se encontra no Arquivo Secreto do Vaticano), alguma coisa se pode recolher também, embora muito se haja extraviado pelas conhecidas vicissitudes dos tempos.

Quando em 1933, por delegação expressa do Director do Arquivo e Museu de Arte da Universidade de Coimbra, o Prof. Doutor Ferrand de Almeida – procedi à incorporação de doze camionetas de documentos que se encontravam, nas mais precárias circunstâncias de conservação e de instalação, na Câmara Eclesiástica, da Diocese, vieram milhares e milhares de papéis que só muito mais tarde, por falta absoluta de pessoal (visto que de 1932 a 1948 fomos o único funcionário técnico da Casa), puderam ser vistos e agrupados; justamente nos últimos tempos que antecederam a transferência do Arquivo para as novas instalações da Cidade-Universitária, apareceram, entre os papéis avulsos recolhidos em 1933, uns cadernos desirmanados que depois de lidos verifiquei pertencerem a dois processos, truncados, de canonização: um, das Infantas Sancha e Teresa, do Mosteiro de Lorvão; o outro, da Infanta Joana, do Convento de Jesus, de Aveiro.

Sempre à espera de que o acaso fizesse aparecer o restante, necessário à reconstituição integral dos processos, não copiei por completo os cadernos que então li, e dos quais fui tomando alguns apontamentos; entretanto o Arquivo transferiu-se para as novas instalações e presentemente desconheço o paradeiro daqueles papéis, preciosos para agora.

Anotei então, no entanto, que os peritos chamados a pronunciar-se acerca dum retrato o acharam autêntico e declararam que tinha mais de duzentos anos de pintado.

Pormenorizando, tanto quanto neste momento nos é possível, desses cadernos incompletos consta, referido a 1689, que em 22 de Julho se realizou nas casas de residência do Prelado D. João de Melo, em Aveiro, a 27.ª sessão para «nomear oficiais, como escrivães, pintores, carpinteiros e pedreiros peritos para haver de assistir à visita do Sepulcro da Venerável Serva de Deus a Princesa Dona Joana», tendo sido escolhidos os seguintes:

– Manuel João Madahil e Roque de Matos, escrivães do Judicial de Aveiro (6). / 250 /

– António da Mota, Francisco Alberto e Francisco da Mota, pintores.

– Manuel André Camarada e António Rodrigues Pardal, carpinteiros.

– João Dias, João Rodrigues e Manuel Caldeira, pedreiros.
Todos de Aveiro.

Iniciadas as vistorias a 28 de Julho, aberto o túmulo antigo, de pau preto com aplicações de bronze e supedâneo de pedra de Outil, lavrada, que os peritos declararam dever ser obra com mais de 180 anos, medido tudo, examinados os ossos, passaram ao coro de cima; uma vez aí, foram presentes várias relíquias da Infanta consistindo em peças de vestuário e «huma trança ou madeixa de cabelos metidos em hum listam encarnado», dos quais se assentou «serem tam louros como o fio douro» e não apresentarem sinais de corrução (deles foram retirados alguns fios com destino ao Rei e à Rainha).

Passando-se ao exame das pinturas, ainda no coro de cima, registou-se em primeiro lugar que existia um retrato da venerável serva de Deus, pintada em trajes de secular, como se diz nos autos, «na forma em que veio para aquelle Convento, a qual pintura e imagem he a que se expoem publicamente em hum altar juncto a seu sepulchro em o dia que as Relligiosas celebram solemnemente seu obito que he a doze de mayo».

A seguir, continuam os autos, uma imagem que está pintada em um quadro grande, de corpo inteiro, no mesmo coro, da parte esquerda, entre outros da Ordem, no qual / 251 / se vê a Santa Princesa com uma palma na mão e também uma coroa de espinhos; tem resplendor, e três coroas aos pés; uma legenda diz: Sancta Princeza; era obra de Manuel da Costa, pintor da cidade do Porto, e teria 12 ou 14 anos.

Ainda no coro de cima, outra pintura colocada num altar colateral, do lado esquerdo, consagrado a S. Domingos, apresentava a Infanta com hábito de dominicana sustendo nas mãos uma coroa de espinhos. Media palmo e meio de altura e atribuiu-se-lhe a antiguidade de 180 anos. Sobre a cadeira dos Prelados, no coro de cima, volta a referir-se que estava a pintura em meio corpo, em trajo secular, conforme veio para aquele convento; e sendo mostrada aos pintores António da Mata e Francisco Alberto, que muito minuciosamente a examinaram, «declararam ser a ditta pintura o proprio original da Veneravel Serva de Deos, e nam copia delle»; atendendo à forma da pintura e ao trajo, como oficiais antigos que eram, declaravam que a dita pintura seria feita «ha mais passante de duzentos e vinte annos pouco mais ou menos», registando-se novamente que as Religiosas a expunham num altar no coro de baixo.

Na capela da enfermaria, que era toda apainelada, por cima, adornada com muitas pinturas de Santos da Ordem, via-se, sobranceira ao retábulo do altar, a Infanta com hábito de Dominicana, três coroas aos pés, uma açucena em uma das mãos e um livro na outra; tinha também resplendor e era obra de António André, pintor da cidade do Porto. Atribuíram-lhe 70 anos de antiguidade.

Passaram em seguida à igreja do Convento e anotaram uma pintura do tecto, do lado esquerdo, entre outros Santos da Ordem; a Infanta envergava o hábito dominicano, tinha três coroas aos pés, e, ao lado, as armas de Portugal.

Mais depoimentos existiram, evidentemente, e mais até podíamos ter extratado dos cadernos por nós coleccionados; não o fizemos, porém, e agora só a cópia pedida para Roma poderá acrescentar o que deixamos acima.

Mas nem tudo se perdeu, e o que em apontamento me ficou pode cá receber confirmação e sem dificuldade. Existe no Arquivo Histórico do Ministério das Finanças um tombo de propriedades do antigo Convento de Santa Joana, de Lisboa, que minuciosamente compulsei por mais de uma vez; nele se encontram quatro pequenos impressos sem data respeitantes à Infanta Santa Joana, e muito úteis para a fixação da iconografia, pois sumariam, de certo modo, o processo organizado em 1626, do qual seriam cópia truncada os cadernos recolhidos da Câmara Eclesiástica de Coimbra ao Arquivo da Universidade em 1933. / 252 /

Intitulam-se os raríssimos impressos:

SACRA RlTVVM // CONGREGATIONE // Eminentissimo & Reuerendissimo Domino // CARD. DE ABDVA // COIMBRIEN. // Canonizationis // B. lOANNÆ, FILIÆ // ALPHONSI V. // Regis Lusitaniæ, & Religiosæ Ord. S. Do- // minici, Sanctæ Principis nuncupatæ. // MEMORIALE // CVM RESVMATVR // Pro confirmatione Sententiæ Iudicis Delegati, // super Cultu immemorabili, & casu // excepto prolatæ.

s. d. (posterior a 1689, data do processo da canonização mais recente, aí citado); 6 págs., continuadas adiante, de 7 a 11, pelo impresso seguinte:

COIMBRIEN. // Beatificationis, & Canonizationis // SERVÆ DEI // lOANNÆ // Filiæ Alphonsi V. Regis Lusitaniæ, & // Religiosæ Ordinis S. Dominici. // ANIMADVERSlONES // Reuerendissimi Domini Fidei // Promotoris. //
s. d. (referências ao ano de 1689).

COIMBRIEN // CANONIZATIONIS // B. lOANNÆ // Filiæ AIphonsi V. Regis Lusitaniæ, & // Religiosæ Ordinis S. Dominici, San- // ctæ Principis nuncupatæ. // SVMMARIVM. // Ex Processu Coimbriensi fabricato anno 1626 // super Fama Sanctitatis Beatæ.
s. d. (apresenta referências ao ano 1689).

COIMBRIEN. // Canonizationis // B. lOANNÆ, FILIÆ // ALPHONSI V // Regis Lusitaniæ, & Religiosæ Ord. S. Do- // minici, Sanctæ Principis nuncupatæ. // RESPONSlO // AD ANIMADVERSIONES // Reuerendissimi D. Promotoris Fidei.
s. d. (referências ao ano de 1689)

Do primeiro destes impressos, estabelecendo a antiguidade do culto prestado à Infanta, consta:

... Sed euidentius demonstratur hæc antiquissima Sanctæ denominatio ex vetusto pergameno anni 1496. Summario Positionis Num. 19. pag. 31. ante medium, quo dicitur: Sentenza dell'Hauere dell'lnfanta Santa. Et ex Codice Vitæ, exarato paulò post obitum Beatæ, vbi centies Sancta appellatur dicto Num. 19. pag. 130. & 131. & latius in Responsione pág. 18 §. Rursus. Ex quibus binis antiquissimis documentis augetur fides Testium dictorum trium Processuum, asseuerantium hanc vetustissimam, & immemorabilem nuncupationem Beatæ, & Sanctæ / 253 /

Ex Processu verò dicti anni 1689. clariores species publici Cultus habentur ex Imaginibus Beatæ, quas tantum hic adducemus, quæ certius demonstrant antiquitatem centenariam Cultus, completam ante dictum annum 1634.

Refere depois a existência de dez imagens de Santa Joana: a 1.ª, que todos os anos era exposta junto do sepulcro da Princesa – em Aveiro, portanto – no dia da festa, era considerada centenária já pelas testemunhas do processo de 1626. Não a descreve, e passa à imagem n.º 3.

Estava a 3.ª imagem sobre o altar de S. Domingos, em Aveiro, ao que é de presumir, entre as imagens das 11.000 virgens e dos 40 mártires. Também a não descreve, passando a referir a n.º 7. Essa era «sita in fornice Collegij Sanctæ Thomæ» e tinha a inscrição SANCTA IOANNA, afirmando os peritos ter sido pintada por ocasião da fundação daquele Colégio, no tempo de D. João III, que principiou a reinar em 1521; trata-se, evidentemente, do Colégio de S. Tomás em Coimbra. Passa à n.º 10, colocada no altar da igreja do convento de S. Domingos da cidade de Lisboa, com o título de SANCTA IOANNA; no meio estava a imagem de S. Domingos, do lado do Evangelho a de St.ª Catarina de Sena, e do lado da Epístola a da Princesa; os peritos consideravam-na, em 1689, pintada «à biscentum annis»...

Diz ainda, a seguir:

Cultus itaque centenarius completus ante dictum annum 1634. resultat ex annua, et solemni Festiuitate cum Cereis, et Candelis accensis ad Sepulchrum ex vniuersa, et antonomastica denominatione Beatæ et Sanctæ, cum veneratione Sepulchri, et Reliquiarum, ac ex quatuor Imaginibus præmemoratis, et aliquæ ex his speciebus Cultus habent Centenariam completam ante annum 1625. vti ostendimus.........

Remata, na continuação que apresentamos em segundo lugar, respondendo as «animadversiones» do Promotor da Fé,

«abunde liquet, ex dicta publica denominatione, & quatuor Imaginibus vetustioribus probari centenarium Cultum completum, nedum ante annum 1634. sed etiam ante annum 1625.» assinado: Paulus Petrus Lampatinus E Colleg. Patr. Caus. S. PaI. Apost. Revisto por Andreas Pierius Subpromotor Fidei.  / 254 /

O impresso que enumerámos em terceiro lugar sumaria depoimentos de testemunhas, freiras e outras, dizendo que a Princesa era tida por Santa e fazia milagres, venerando o povo as suas relíquas (7).

*

Esgotada, deste modo, a bibliografia útil, antiga e moderna, do retrato do Museu de Aveiro que foi possível compulsar – e pela primeira vez um trabalho desta natureza, sempre fundamental, foi tentado – é tempo de equacionarmos com os elementos recolhidos os problemas adstritos ao quadro.

Desde a fundação do Museu – há quarenta anos – que a preciosa pintura nos é familiar, e de então para cá repetidas vezes perante ela nos temos detido, procurando penetrar os segredos que a sua vida multissecular ciosamente esconde; são de 5 de Novembro do corrente ano as últimas horas que junto dela passámos, completando apontamentos e esclarecendo dúvidas, pois grandes divergências a seu respeito se apresentam entre os historiadores, como certamente o leitor terá notado ao acompanhar os extratos que acima fomos deixando.

Na verdade, e principiando... pelo princípio, nós encontramos, por exemplo, que, para JOAQUIM DE VASCONCELOS, o retrato é pintado em tábua de castanho; para JOSÉ DE FIGUEIREDO, o suporte da pintura é nogueira; e finalmente, na opinião do Prof. REINALDO DOS SANTOS, não é uma coisa nem outra, pois identifica por sua vez a tábua como sendo carvalho.

Uma espessa camada de tinta arroxeada, aplicada por ocasião do último restauro a todo o reverso do retrato, dificulta hoje, lamentavelmente, a identificação definitiva do suporte; alguém, todavia, raspou um pouco em dois pequenos pontos o referido revestimento, deixando a descoberto uns centímetros de madeira, que parece, efectivamente, carvalho; mas só o levantamento completo da extemporânea camada de tinta roxa permitirá uma opinião definitiva, tanto / 255 / mais que é assunto controvertido e três eminentes críticos de arte divergem nas conclusões.

Procurando no arquivo do Museu Nacional de Arte Antiga o processo relativo aos restauros ali efectuados, com o fim de conhecermos a versão oficial de tão desconcertante caso, muito obsequiosa e prontamente ele foi posto à nossa disposição, nada, no entanto, esclarecendo, pois a ficha dactilografada, portadora de um questionário minuciosamente elaborado, encontra-se completamente por preencher e diz apenas ter o quadro saído da oficina de restauro em 1936 (sem indicação de dia nem de mês) e voltado (para segundo tratamento) em 7 de Maio de 1941.

O processo, que tem o n.º 413, regista na capa, unicamente, a atribuição do quadro à «escola portuguesa», e não diz como é constituído o suporte nem que tratamento lhe foi ministrado ou quem o restaurou; dentro, encontrámos apenas recortes dos n.os de 5 e de 19 de Abril de 1936 do semanário "Povo de Aveiro".

Como a data de 1936 se nos afigurasse estranha para a saída do quadro da oficina, porquanto são justamente de 29 e de 30 de Janeiro desse mesmo ano, como vimos, as referências publicamente feitas ao restauro pelo distinto crítico de Arte Senhor Reis Santos, procurámos esclarecer no Museu de Aveiro as datas exactas das saídas do quadro para Lisboa, mas também isso nos não foi possível alcançar.

Passando agora à pintura propriamente dita:

Coeva e intacta a considerava JOAQUIM DE VASCONCELOS em 1895; mas já em 1914, continuando embora a considerar o retrato autêntico e obra da escola portuguesa de pintura da 2.ª metade do século XV, acha que o primitivo encanto dos cabelos loiros foi destruído pelo restaurador, que as faces estão inchadas, com indiscretos retoques na carnação, e que é visível a técnica esfumada do retocador.

MARQUES GOMES regista a tradição de ter o retrato sido pintado do original, mas declara não haver documentos disso.

Para MELO FREITAS o retrato é quase coevo. Para JOSÉ DE FIGUEIREDO a pintura é coeva mas não original; em vez de ser tirado do natural, o retrato é cópia feita no estrangeiro dum outro pintado cá por Nuno Gonçalves e enviado para qualquer corte lá de fora.

Predominam na sua técnica as velaturas sobre cola e cré, diz ainda FIGUEIREDO, ao passo que para JOAQUIM DE VASCONCELOS não há velaturas, mas unicamente tinta delgada e com pouca transparência. aplicada sobre o intonaco.

Para o Prof. EGAS MONIZ o retrato revela a mesma maneira de pintar de Nuno Gonçalves; JOSÉ DE FIGUEIREDO, porém, considera que ele não é daquele artista e nem sequer português é; aliás, JOAQUIM DE VASCONCELOS rejeitava também / 256 / o nome de Nuno Gonçalves para solução do problema da autoria.

Para REIS SANTOS o inchaço da face é acréscimo tardio, e no restauro de 1935/36 «foram deixadas na pintura coisas que lhe não pertencem e lhe modificam muito a expressão».

Para o Senhor Dr. ALBERTO SOUTO o retrato do Museu será «mera cópia» do original que o Bispo D. João de Melo levou para Coimbra e que se torna necessário procurar, pois tal «achado teria, sem dúvida, uma altíssima importância.»

O Marquês de JÁCOME CORREIA declara que a pintura não é contemporânea da Infanta, não é a óleo mas a gouache ou a cré e cola, e parece-lhe mesmo feita no século XVII sobre outra pintura (o que, aliás, a radiografia não confirma).

Para SOUSA COSTA, finalmente, o retrato representa uma princesa da época da Infanta D. Maria, e foi pintado por Sanchez Coelho (que viveu, como é sabido, de 1515 a 1590...).

Problemas, portanto, de autenticidade, de técnIca, de autoria, de data e de restauro.

Que ele represente a Infanta D. Joana e não uma princesa da época da Infanta D. Maria, não nos parece que possa ainda constituir motivo de controvérsia depois de se ponderarem os relatos bibliográficos e as gravuras que acima compilámos: pouco tempo decorrido após o falecimento da Infanta se deu início, como vimos, ao seu culto no Mosteiro de Jesus, colocando-se junto ao sepulcro, no dia da festa, o retrato em que ela era representada trajando à moda da corte; e em 1621 publicava-se esse mesmo retrato, finamente gravado a buril, e condizendo em tudo com a tábua do Museu de Aveiro; rotulou-se a gravura, solenemente integrada, demais a mais, na série dos Reis de Portugal, de IOANNA PORTVGALLIÆ PRINCEPS e sem hesitação de espécie alguma.

Está pois, identificado gráfica e literariamente o retrato de Aveiro há mais de três séculos, e poucos retratos antigos disfrutarão, até, de tão sólida documentação como ele.

O facto de em 1689 o retrato ter sido levado para Coimbra pelo Bispo-Conde D. João de Melo, que tão grandes preocupações modernamente trouxe à crítica local, chegando a considerar-se que dois retratos idênticos terão coexistido, não sendo o actual, de Aveiro, senão uma cópia do que o Prelado terá levado para Coimbra, não se nos afigura motivo de inquietações a respeito da autenticidade da tábua nossa conhecida, nem há necessidade de complicar hipóteses: o retrato terá muito simplesmente voltado a Aveiro após a morte do Prelado, que tanto empenho fazia nele, ou, então, em 1711, quando a 21 de Outubro, segundo o acrescento da Crónica, os restos mortais da Infanta foram solenemente trasladados para o novo mausoléu, de belos mármores embutidos, / 257 / [Vol. XVIII - N.º 72 - 1952] sob a significativa presidência do novo Bispo-Conde, D. António de Vasconcelos e Sousa, assistido do seu próprio Cabido.

Não esquecemos que Fr. LUCAS DE SANTA CATARINA, possivelmente o historiador que pela 1.ª vez terá referido a saída do retrato para Coimbra (op. cit., T. lI, pág. 150), diz que ele «se copiou da Santa ao expirar», e nesse caso já se não tratava do retrato em trajo de corte nem havia necessidade de procurar explicação para o regresso do quadro a Aveiro. A esse cómodo argumento preferimos contudo qualquer das hipóteses que apresentamos; Fr. LUCAS era mais literato do que historiador; compunha a frase e não investigava; não deve ter tido conhecimento directo do retrato, que outros escritores, como JOSEPH PEREIRA BAYAM, poucos anos depois dizem ser o de trajo secular, bem como os depoimentos dos processos da beatificação.

Outra data se pode ainda propor para o regresso do retrato ao Mosteiro de Jesus, e com idêntica verosimilhança: a de 1749-1752, quando o processo da canonização se organizou, em Aveiro, com repetidas sessões no Mosteiro de Jesus, e exame de relíquias e pinturas. O original desse processo apostólico, encontra-se, como acima notámos, no Arquivo Secreto do Vaticano.

Numa ocasião ou noutra, o retrato voltou para Aveiro, e a sua autenticidade, atestada pela gravura de 1621 e pelas referências impressas e manuscritas, é, quanto a nós, manifesta.

Após 1834, com a extinção das Ordens religiosas, o culto afrouxou; o quadro, que no regresso de Coimbra voltou, possivelmente, a ocupar o seu antigo lugar no coro alto, onde as monjas se reuniam e podiam gozar da presença figurada da sua padroeira, foi esquecendo, até pela razão simples de se haver extinguido o serviço do coro. E em 1882, MARQUES GOMES, embora muito chegado sempre ao Convento, já o não reconheceu nem ninguém lho apontou.

Só JOAQUIM DE VASCONCELOS, que conhecia a gravura dos Bolandistas, única por ele citada, o pôde identificar.

Os problemas da técnica pictural e da autoria, intimamente ligados entre si, encontram-se condicionados pela repintura que em data impossível de precisar (mas talvez contemporânea do seu regresso ao Mosteiro) foi infligida ao retrato.

Todo ele foi repintado, e sem se proceder ao levantamento dessa camada de tinta que o desfigura, nem a técnica original se pode determinar convenientemente nem importa formular hipóteses de autoria.

Não só a radiografia que apresentamos permite localizar um acrescento substancial na face esquerda, como o simples / 258 / exame directo, com o auxílio duma boa lupa, mostra a quem quer que observe demoradamente a pintura transformações fundamentais em toda ela.

A modelação do rosto quase desapareceu, sensivelmente planificado agora, outro tanto acontecendo ao busto e ao corpete branco bordado a preto.

Os famosos olhos verdes mũi fremosos, que verdadeiramẽte pareciiã smeraldas muyto fynas, no dizer de Soror MARGARIDA PINHEIRO, e que numa tela que em Novembro deste ano encontrámos nas arrecadações do Museu apresentam essa precisa tonalidade, bem como numa miniatura em cobre, pertença do Senhor Dr. Serafim Gabriel Soares da Graça, são na tábua quatrocentista francamente castanhos, por efeito de repintura, que se estendeu às pálpebras e aos cílios.

A boca foi igualmente repintada, e a linha das comissuras deixa a impressão de primitivamente não descer tanto; o lábio superior, do lado esquerdo, foi nitidamente mexido; face e boca ficaram assimétricas.

O pescoço, em cuja configuração presentemente se pretendem encontrar exteriorizações de bócio, tem a sua modelação transformada; e os cabelos, a que Soror MARGARIDA tanto exaltava a formosura, aparecem agora ruivos, vergonhosamente repintados, com toques de sombra que vão inexplicavelmente até ao preto retinto.

O que se passa com o corpete branco, bordado a preto, em graciosos arabescos, excede quanto possa imaginar-se e reclama, por sua vez, intervenção imediata do nosso magnífico Instituto Nacional de Restauro; sobre essa peça de vestuário, agora igualmente planificada, foi estendida uma camada de alvaiade em cima da qual se repintou o bordado preto; mas é visível ainda, através do branco, o traçado a que a decoração primitiva obedecia e que nem sempre coincide com a actual (8). Houve manifestamente o piedoso propósito de planificar o busto da Infanta, que, apesar da sua tenra idade, apresentava originariamente volume de seios, como facilmente se deduz das curvaturas do colete exterior, dum lado e doutro, só explicáveis pela pressão interior duma razoável massa glandular, que, aliás, na gravura de 1621 perfeitamente se exibe e compreende.

Da repintura deve ser, ainda, aquela espécie de nó, ou laçada, do cordão de ouro que a Infanta tem ao pescoço e que lhe vela o sulco inter-mamário: não só não existe na / 259 / gravura de 1621, como do seu exame directo parece deduzir-se que não faria parte da pintura primitiva.

O laço, formosíssimo, que enfeita o pulso visível da Infanta, foi realçado a toques de branco, nitidamente posteriores, outro tanto acontecendo ao aro do anel de rubi, cuja arquitectura, digamos assim, foi modificada a pinceladas claras.

A mão ainda é das melhores coisas que o retrato conserva, e sem grande repintura; em todo o caso, a fita por baixo da qual ela passa, foi marginada a terra de Sena, e mal.

Torna-se urgente o exame detido de todo o quadro, não só radiografando-o de novo, com moderna técnica, mas submetendo todos os seus pormenores fundamentais à prova da macrofotografia, que revelará muito mais de quanto a simples observação à lupa, por nós empregada, nos apresentou; a própria chapa de vidro que presentemente protege a pintura e que não foi retirada, nos impediu, devido aos reflexos que provocava, de levar mais longe a nossa observação.

Inútil, portanto, discutir técnica e autoria do retrato enquanto ele não for libertado de todos os acrescentos que o conspurcam e desfiguram.

Registe-se, apenas, que no estado actual dos conhecimentos de pintura antiga portuguesa não é possível entregar a um pintor nacional a autoria do retrato, porquanto nenhum, que se saiba, pintou no século XV sobre intonaco; e como a Crónica, de Soror MARGARIDA, regista que de várias Cortes da Europa vieram a Portugal artistas encarregados de retratar a Infanta, o que determinava pedidos de casamento que D. Afonso V rejeitava alegando a tenra idade da filha, temos, para nós, que a pintura do Museu de Aveiro é, muito simplesmente, obra de um desses pintores estrangeiros, impossível, por enquanto, de identificar.

Vários retratos se terão feito, ao que é lícito concluir; de admirar seria que na Corte não ficasse um deles, pelo menos; e, ou D. Filipa, tia da Infanta, o levou consigo para Aveiro quando ali se instalou, ou, após o falecimento da Santa, as freiras de Jesus pediram à Corte, muito naturalmente, essa lembrança viva da que fora sua companheira dilecta e ao depois padroeira.

Tinha quinze anos e parecia de vinte e cinco, «tã grãde ẽ statura e fremosura era», diz a Crónica.

Não consideramos de mais de 15 anos a retratada, atenta a declaração supra; isso levará para 1467 a data da pintura, com grande verosimilhança; 1470 a 1472 propunha JOAQUIM DE VASCONCELOS, ou sejam 18 a 20 anos de idade; mas aos 19 entrou a Infanta para Odivelas, e não era, positivamente, depois dessa ocorrência, de especial significado na sua vida, / 260 / que ela se retrataria em trajo de corte, para ser mostrada a possíveis pretendentes.

Considerei sempre o retrato anterior ao regresso de D. Afonso V de Arzila em 1471, data em que publicamente se concertou o ingresso da Infanta em convento; esta pintura tem de ser coeva da vida activa da Princesa na Corte, datando de quando a hipótese dum casamento não se afastara ainda definitivamente do seu espírito, e a sua firme vontade se não sobrepusera à razão de Estado.

Aguardando o resultado da limpeza da preciosa tábua, que desejamos se não faça demorar, para então se enquadrar na pintura da época, estudando-se, definitivamente, os problemas com ela articulados, afigura-se-nos preferível não ir além de quanto acima fica e aceitar o prudente laconismo da etiqueta do Museu que desta forma a apresenta ao visitante:

RETRATO DA PRINCESA ST.ª JOANA
Pintura da segunda metade do séc. XV

*

Propondo-nos, com o presente estudo, esboçar a iconografia da Infanta, aproveitaremos, como não podia deixar de ser, os elementos carreados pelos investigadores que nos precederam, e aos quais prestamos a nossa homenagem respeitosa e compreensiva.

Tendo, porém, oportunidade de acrescentar a quanto está apontado numeroso material inédito, entendemos dever agrupar tudo em séries com afinidade formal, para sua melhor apreciação e estudo; e assim, referir-nos-emos sucessivamente aos exemplares que conhecemos em

a) Pintura

b) Escultura

c) Gravura


a) Pintura

1 – Dito, como acima está, quanto até ao presente se pode apresentar acerca da peça capital da iconografia infantista, que é o retrato do Museu de Aveiro, – figs. 10 e 13 – debalde se terão procurado, quer no País quer fora dele, outras espécies coevas; se existem, como é natural, encontrar-se-ão por identificar em galerias do Estrangeiro à espera / 261 / dum acaso que sobre elas faça pousar o olhar esclarecido de alguém para quem a iconografia régia de Portugal, ou, sequer, da dinastia de Avis, não seja de todo estranha.

2 – Um problema que nos parece merecer ainda a atenção da crítica, muito embora o seu principal propugnador o haja abandonado já, é o da figura que ajoelha à direita de São Vicente, no painel do Infante, do Museu Nacional de Arte Antiga – fig. 12 –.

Apresentada em 1927 pelo Senhor Dr. ALBERTO SOUTO, como vimos, bem como pelo Senhor Dr. ARMANDO SOUSA GOMES, ela seria então o retrato da filha de D. Afonso V, indispensável, na verdade, num agrupamento em que, por hipótese plausível, se encontram o pai e o irmão.

Se a figura que ajoelha em frente de São Vicente é D. Afonso V, como parece dever ser, a outra ajoelhada, em lugar de igual categoria, não pode ser senão a Infanta.

Para o ilustre Director do Museu de Aveiro, porém, postas em confronto as duas figuras – a de Aveiro e a de Lisboa – as diferenças verificadas nos lábios e no nariz são agora de molde a afastarem-no da sua primitiva hipótese, apesar das afinidades de «mãos, corpete, rendas, colo, pescoço, olhar e sobrancelhas, ombros decaídos, expressão fisionómica», que lhe reconhece ainda.

Também nós, tal como o distinto Director do Museu de Aveiro, algumas horas passámos perante qualquer dos originais, colocando a par, respectivamente, uma boa reprodução da pintura a comparar, e a nossa conclusão não só não afasta a sua primitiva opinião, como singularmente a reforça.

O nariz, visivelmente aquilino na figura dos painéis, porque se apresenta a 3/4, é, se bem observarmos, aquilino também no retrato de Aveiro, e mais notoriamente ainda, por singular curiosidade, na radiografia; faça-se a experiência de observar bem de frente, como na tábua aveirense, um nariz aquilino, e a modelação dos seus ossos próprios apresentar-se-á como no retrato da Infanta; quanto aos lábios, mais carnudos no quadro do Museu de Aveiro, como acima dizemos, foram mexidos na repintura do painel, afigurando-se-nos também que a linha das comissuras no retrato era outra e não descia tanto; tal como a boca, também o olho direito desta figura dos Painéis foi refeito, e bem defeituoso ficou.

Experimente-se, como nós fizemos, colocar uma coifa que desça até às sobrancelhas, na figura de Lisboa, em substituição do toucado alto que ela apresenta, e a semelhança das duas personagens sairá singularmente reforçada desta prova. / 262 /

De resto, à paridade de vestuário e de adornos, já em 1927 e 1936 acentuada (9), acrescentaremos nós um pormenor que não nos recorda ter sido ainda evidenciado em função do problema que presentemente nos ocupa: à figura ajoelhada pende das mãos, um rosário de ouro e não será certamente exagerada a hipótese de tal acessório, numa época de tão vincado simbolismo, como era o século XV, ter a especial intenção de querer aludir às místicas tendências da futura Santa Joana, desde muito cedo manifestadas. Supomos que isto não foi ainda dito, e também nos não parece indiferente para as conclusões a tirar.

Se, como acima referimos, consideramos o retrato do Museu de Aveiro datando muito aproximadamente de 1467, isto é, dos 15 anos de idade da Infanta, ocasião em que o Rei seu pai lhe estabeleceu casa própria, a figura de Lisboa, pela sua diminuta estatura e pequeno volume de rosto em relação às restantes do quadro (e para mais está colocada em primeiro plano), acusará menos idade; se lhe dermos, portanto, menos dois anos, por exemplo, corresponderá aos 13 anos da Infanta (não esqueçamos que aos 15 parecia ter 25), isto é, a 1465.

Ora em 1465 tinha o irmão 10 anos, pois nascera em 1455; dez anos, para o jovem, parecidíssimo com a Infanta, que figura entre o Infante D. Henrique e D. Afonso V, também são de aceitar.

Não podemos, evidentemente, ir até 1460, último ano em que se verificava a coexistência do Infante D. Henrique com D. Afonso V, a Infanta D. Joana e o príncipe D. João; a essa época, data do falecimento de D. Henrique, contaria D. Afonso V 28 anos de idade, a Infanta D. Joana apenas 8, e o príncipe 5. Uma conclusão, portanto, a nossa hipótese impõe: a de que a figuração do Infante D. Henrique, nos painéis do Museu Nacional de Arte Antiga, é póstuma, e isso nada tem de extraordinário; outras igualmente assim têm sido consideradas, como é sabido, até desde o início das tentativas de identificação; o agrupamento é meramente simbólico, e nem todos os retratados viveriam à data da composição do quadro: o Infante D. Henrique seria um desses.

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A. G. DA ROCHA MADAHIL

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(1)...«Y el curioso que leyere la que anda en Portugues, y la que yo escriuo (que es toda mia) facilmente entendera la diferencia que ay de la una a la otra.»

(2) É precisamente o contrário que se observa, afinal, como as nossas gravuras permitem concluir. O retrato publicado em Varões e Donas – fig. 2 – é «conforme» ao dos Acta Sanctorum, – fig. 11 – e «bem similhante» ao do Anacephalæoses – fig. 4 – pois neste último respeitou-se o decote que o retrato original apresenta – fig. 10 – ao passo que no dos Acta Sanctorum se lhe velou o colo com uma camisa pregueada, que o dos Varões e Donas imitou. 

(3) − Entre os dois referidos Prelados mediaram ainda mais quatro, a saber: D. Jorge de Melo (1635-1638), D. Joane Mendes de Távora (1638-1646), D. Manuel de Noronha (1668-1671), e D. Fr. Álvaro de São Boaventura (1672-1683).

(4) A solicitação directa do Rev. Avelino de Jesus da Costa, distinto Prof. da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, de quem a história da Infanta recentemente recebeu importante subsídio com o seu valioso estudo: Relações de D. Afonso V com Castela e Aragão em 1460 (Braga, 1952). Aos dois eruditos historiadores aqui deixamos consignado o nosso muito reconhecimento pelo magnífico serviço que se dignaram prestar a este esboço de estudo. 

(5) Também no Arquivo Geral da Ordem dos Pregadores, em Roma, se conserva uma cópia autêntica do processo de 1749-1752, e vários documentos, quer manuscritos quer impressos, relacionados com os anteriores. Parece, pelo que nos é comunicado, que neles se não contém elementos aproveitáveis à iconografia da Infanta.  

(6) Fala-se ainda nos escrivães Ventura Pacheco e Francisco Soares Rebelo, mas declara-se que «os mais peritos entre eles que são Manuel João Madahil e Roque de Matos», dizendo um depoente que tem visto muitas vezes suas letras e entende que são capazes de julgarem a antiguidade de letras e escrituras por serem os mais peritos entre todos e que são capazes de assim julgar em que se lhe pode dar crédito a todo o juízo que fizeram».
     A propósito de Manuel João Madahil, sabemos que tinha sido nomeado pelo Marquês de Alegrete «feitor do Consulado da alff.ª da V.ª de Aveiro» em 1696 (Livro dos registos dos contratos da Alfândega de Aveiro, ano de 1696, pág. 22).
     Do mesmo apelido regista a História de São Domingos um professo, dizendo: «Frey Affonso de MadayI, por habilidade rara, foi admittido entre os primeiros Collegiais do novo Collegio, que el Rey Dom Manoel instituhio no Convento de S. Domingos de Lisboa, e nelle veyo depois a ser Prior (Hist. Cit., lI, 228 da 2.ª ed.).
     E MARGARIDA PINHEIRO arquivou memória de que, para alargar o primitivo edifício do Convento de Jesus, «Comprou logo a devota madre e Senhora britiz leytoa daquele dinheyro hũas Casas novas cõ seu orto poco latas e chãaos darredor, as quaes Casas de novo tiinha feytas jũto com as suas. hũu Joam de madail cryado de diogo de tayde. Forom cõpradas no anno do Senhor, de Myl quatrocẽtos E sesenta» (Crónica, pág. 20).
     O leitor perdoará esta mera curiosidade onomástica, aliás compreensível, e que não pretende, de forma alguma, estabelecer ligações de parentesco com quem isto escreve e, por singular coincidência, toda a Crónica de Santa Joana copiou e de algum modo comentou.

(7) O que na Biblioteca Nacional de Lisboa se encontra, de págs. 100 a 184 V.º da miscelânea de processos de beatificação e canonização (Fundo geral de mss., n.º 5943) com a epígrafe de «Pro-rite ac Valide Compilando Processu Apostolieo Super Virtutibus, et Miraculis in Specie in Causa Canonisationis Beatæ Joannæ Filiæ Alphonsi Quinti Portugaliæ Regis Religiosæ Ordinis Sancti Dominici cognomento Sanctæ Principis», de 1749, são apenas as instruções e os formulários para o juramento dos peritos e para a organização do processo. Não contém qualquer elemento aproveitável à iconografia da Infanta.

(8) Da observação que desses desenhos a preto, na camada subjacente, fizemos, não nos resultou a convicção de que se trate do esboço inicial, lançado a tinta preta, como de costume, sobre o intonaco ou sobre o preparo da tábua, e que por vezes reaparece através da pintura. 

(9) Para aproximação dos bordados a retrós preto existentes nos corpetes brancos das duas figuras – a do retrato do Museu de Aveiro e a dos Painéis de S. Vicente – desejamos lembrar ainda a decoração idêntica, deveras impressionante, que ocorre no colete do belíssimo retrato de Beatriz de Este, de LEONARDO DE VINCI. Era a moda do tempo, evidentemente; mas exactamente por isso, esses pequenos elementos assumem extraordinário valor quando se trata de fixar uma época cuja exactidão não é conhecida. E não nos parece que sejam indiferentes as aproximações sugeridas, quer para a data dos painéis de S. Vicente, quer para a do retrato do Museu de Aveiro.  

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