L. de Miranda Melo, Cenas de Aldeia, Vol. XVII, pp. 273-276.

REGIÃO DE VOUGA

CENAS DE ALDEIA

(do livro a publicar, Nossa Terra e Nossa Gente)

O CASAMENTO ENTRE A GENTE DO POVO

UM olhar, uma carícia desajeitada, algum beijo às furtadelas, umas conversas maneirosas à porta da casa da cachopa, aos domingos, de tarde... Ele, encostado à bicicleta, ou de vergastinha na mão, e ela, como passarito tímido à beira do ninho, no receio do vôo e no anseio do imprevisto, torce a ponta do avental.

Quando calha, lá vão os dois de passeio até às romarias próximas, e se há bailarico no adro, com harmónica e viola, principia o saracoteio, e alguém canta:

'Stás-t'a rir... Queres cá vir...
Sabes o qu'eu quero, não me faças consumir.


Ora agora viras tu,
Ora agora viro eu,
Ora agora viras tu, viras tu mais eu.


No regresso, sempre juntinhos, muitas ternuras e muitas promessas com juramentos solenes, de antes quebrar que torcer. E chegou finalmente o dia do entendimento com os pais da cachopa. Depois, o dia do casamento, na igreja, com roupas novas mandadas fazer a propósito para a cerimónia (roupas que hão-de servir para muitos domingos no decorrer de alguns anos), os sinos repicam, e segue-se a boda com os padrinhos, não faltando o prior e o sr. compadre... E nos dias a seguir logo o trabalho da lavoura.

Raio de Vida!... e, «pró môr da lida», palavrões! e berreiro p'ráqui, e praguedo p'rácolá. Raio de Vida!...   [Vol. XVII - N.º 68 - 1951]  / 274 /

*

Meses depois ela fica grávida. − «Está p'ra ter cria», diz o seu homem, simploriamente, sem maldade.

Nascida a criança, durante uns dias, a mãe fica na cama, a caldinhos de galinha. E quando se levanta, carrega o recém-nascido junto aos seios, com fraldinhas de flanela, embrulhado e muito agasalhado no xaile grosso e felpudo, cantando-lhe ao ouvido:

     − han... han... han...
Nana, nana, meu menino,
que a Senhora ja lá vem,
foi lavar as fraldinhas
à fontinha de Belém...

O petiz assim agasalhadinho no xaile grosso, a mãe dá algumas voltas caseiras com ele ao colo, mas pouco pode fazer. Nesses primeiros dias ela calça meias e tamancos, e um lenço a embrulhar a cabeça, até ver... que, «assim é qu'elas s'armam».

De noite, enquanto o «criança» não é baptizado e «pró môr das bruxas», que podem vir chupar o sangue ao «inocentinho», sempre uma luz acesa (lamparina ou coisa que o valha) no quarto onde dorme o «criança», ao lado da mãe.

E com um mês, às vezes menos (porque o azeite da lamparina custa dinheiro) igreja com ele, «pois então!...» E mesmo, porque pode acontecer não vingar, e, sem baptismo, «Deus Nosso Senhor nos livre de tal» − já não ia p'ró Céu, não era anjinho, coitadinho!

− Pois não querem saber?! Uma vez aconteceu uma grande desgraça ao filhito, de três semanas, da ti' Rosa Gaga. Nem é bom lembrar, credo! Foi um porco que comeu a criança, enquanto a ti Rosa Gaga tinha ido à fonte. Só ficou um bracinho. Baptizaram o bracinho! «Ao menos o bracinho foi baptizado» − soluçava a pobre mãe, resignada e convencida, na sua boa fé.

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O BAPTIZADO

De regresso da igreja, onde soltou berros tremendos quando lhe despejaram água fria na moleirinha, os olhos da criança vão agora a sorrir para o Sol, caminho além, até à casa dos pais. E principia a boda, com os padrinhos, o sr. prior, os familiares e o sr. compadre... o homem que é, na localidade, / 275 / uma espécie de soba e, às vezes, faz o jeito de emprestar umas notas a bom juro, já se vê... a pagar pelo S. Miguel.

E no dia seguinte ao baptizado, logo e sempre, o trabalhinho da lavoura, e o berreiro, e os palavrões, de manhãzinha até à noite, «pró môr da lida». Raio de Vida!

A criança lá anda, ora ao colo da mãe, a mamar e a dormitar,

− Nana, nana, meu menino...

Ora pelo chão em cima de xailes estendidos ou dentro de cestos de vime (a servirem de resguardo) a berrar... Vai-se criando, entre fraldas e trapos, «como Deus é servido».

Mama bem, coitadinho, «louvado seja o Senhor!» − Mas chora muito, «é um cabrito!»

Alarga a pele, está gordinho, engatinha, já galreia, quer falar, teve coqueluche, teve sarampo (não teve o garrotilho), nasceram-lhe os primeiros dentes, já come do caldo caseiro e já come broa com sardinha, o pai dá-lhe um golito de vinho «p'ra se ir acostumando», e no dia de Ano Novo, com cinco anos feitos, a mãe veste-Ihe as primeiras calças compridas.

Está um homem!


UM HOMEM

− Traz cá esse podão, Ó António... − berra o pai.

− Leva a escudela p'rácolá, anda, mexe-te...

Aos sete anos, porque a lei manda, lá o enviam à escola, que bem lhes custa, «porque já lhes fazia jeito...»

Mas «tamãe» é só para aprender qualquer coisita de letras e de contas, que mais não é preciso para quem tem de lidar na terra... que eles, pais, nem isso, e bem falta lhes têm feito porque, quando precisam (alguma carta do Brasil ou da América, ou preencher os papéis dos Grémios) lá vão ao favor do compadre. − «Que agora tudo são papeladas, fiscais, assinaturas, trapalhadas, um rôr de coisas... e bota p'ra cá dinheiro!»

− «Um homem, pois atão! Mexe-te, António...»

Depois de feito o exame primário da segunda ou terceira classe, que mais não faz conta aos pais e a mais as leis não obrigam (infelizmente), o rapazinho tem agora dez ou onze anos, feitos pelo S. Martinho, e quase sem ter sabido o que é brincar com os garotos da sua idade, porque na folga da escola andava a ajudar os pais...

− «Toca, António, já fizeste exame, não sejas mandrião... põe as vacas ao carro, António... leva a enxada grande, / 276 / não esqueças a forquilha, carrega o estrume, junta as agulhas, traz uma gabela de lenha, apanha uma paveia de milhã p'ró gado, que, depois, é preciso ir cortar o arroz e cavar a terra para as couves novinhas. Toca, António... Não resmungues, senão chego-te...»

E lá vai ele, um homem de onze anos! à frente do carro das vacas, com uma enxada ao ombro maior do que o seu tamanho, e as mãos enregeladas de frio. Toca, António... Mexe-te.

Raio de Vida!... E, «pró môr da lida», praguedo p'ráqui e berreiro p'rácolá. Mas a aldeia é simpática, a região é linda, e a terra, trabalhada, tudo dá: − carros de milho, rasas de arroz, alqueires de feijão, batatas, ervilhas, azeite, pipas de vinho... e as festas durante o ano aos santinhos, com bom pregador no púlpito e a igreja toda enfeitada; música no coro e festa no arraial: − Cachopas morenas, azougadas, lenços garridos sobre os ombros, arrecadas nas orelhas, procissões vistosas com homens barbeados e de opas vermelhas, bons petiscos, com aletria e arroz doce, botas novas e roupas domingueiras, roletas da sorte, foguetes no ar e sinos a repicar. Que linda, a festa do arraial!

ora agora viras tu,
ora agora viro eu,
ora agora viras tu, viras tu mais eu.

Isto, sim, é alegria! Com mil demónios!... A aldeia, apesar de tudo, tem encanto, tem poesia. Viva Portugal!

Aveiro, Dezembro, 1951,

LAUDELINO DE MIRANDA MELO

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