M. R. Simões Júnior, Maciço de Fuste, Vol. XI, pp. 81-92

MACIÇO DE FUSTE

SUA RAZÃO HISTÓRICA

A FORMAÇÃO montanhosa, que divide as bacias hidrográficas dos rios Vouga e Douro, é constituída pelo que o Prof. AMORIM GIRÃO chama MACIÇO DA GRALHEIRA(1), como o conjunto das Serras de S. Macário, da Arada, de Manhôce, da Freita ou S. Pedro-o-Velho, únicas que nos interessam, do Arestal, de Sever, de Macieira, da Feira e de S. Ovídio.

As cinco primeiras, são conhecidas na bacia do Vouga por Serra da Gralheira e em Arouca por Serra da Freita, até Candal e daí para nascente por Serra de S. Macário. No voI. I do Reconhecimento dos Baldios do Continente da Junta de Colonização Interna diz-se «que o concelho de Arouca abrange parte da Serra de Arada, com altitudes de quase 1.100 metros e terreno muito dobrado e pobre» chamando ao conjunto das cinco primeiras serras, SERRA DE ARADA, segundo a nomenclatura de PAULO CHOFFAT, no Esboço de uma carta tectónica de Portugal; a sua área baldia é tão grande, que para 8.760 hectares no distrito, pertencem ao concelho de Arouca, 5.031,5.500, tornando-se, assim, muito confusa a sua identificação, pela variedade de nomes.

A Doação e Couto a Monio Rodrigues para o Mosteiro de S. Pedro de Arouca, por D. Afonso Henriques, feita aqui em Abril do ano 1132(2), limita a zona que nos interessa: «incipit in Menserin... et inde per paviolum et inde ad Bouzam de Gudinum et inde reculum de sendino et inde per pennam amarellam et inde illam freitam et inde per pennam malam, et inde unde primiter incoavimus». Começa em Mançores... E daí pelo Paivó e daí a Bouceguedim e daí pela Pena Amarela e daí à Freita e daí pela Pena Má e daí até onde se principiou. / 82 /

Aparece-nos, pela primeira vez, a palavra Freita: referir-se-á a qualquer ponto do planalto, que fizesse face ao vale de Arouca; ou ao facto, mais provável, de começar a ser reduzido a cultura o local onde, mais tarde, foi fundada uma Albergaria pela Beata Mafalda?(3)

D. Afonso lII, mais generoso, em consequência das questões que seu Pai teve com as Beatas Teresa, Mafalda e Sancha, suas irmãs, ou, talvez por causa da «Carta que a Abadessa escreveu ao Papa para que socorresse este Mosteiro na vexação que lhe fazia El-Rei D. Afonso III, querendo tirar-lhe o Couto de Arouca e Estareja»(4), fez doação a Dona Maior Martins Abadessa e ao convento do Mosteiro de Arouca, em 20 de Outubro do ano 1257(5), limitando-a: «In primo quomodo dividitur terra sancte Marie cum terminis de Arouca... et deinde versus terram de Alafoens dividuntur termini de Arouca quomodo vadit de Bouça de Guidino ad focem Aruytureyra que vocatur de mancipiis, et exit foris de ipso rivo et vadit directe ad quotum de Nabo, et de ipso loco vadit ad montem magnum que vocatur de Nabo qui est inter Candahal et Cabreyros, et demergit ad portellam de Saxo terra de Alafoem, et est ibi positus unus patronus, et deinde quomodo vadit per spicam ipsius montis ad campum planum de Cando, et deinde quomodo vadit ad illum locum que vocatur aguzadeiro, et deinde quomodo vadit ad portelIam de Antha, et est ibi positus unus patronus, et inter ipsum patronum et petram de Antha vadit strada, et deinde vadit ad capud quod vocatur de Seyxal, et de ipso loco vadit ad capud de Gestoso covo et sicut dividit cum termino de Caambra, et exit de ipso Gestoso covo et vadit ad Lazarias, et deinde ad quotum de Graleyro et deinde ad quotum de Monte Calvo, et deinde ad petram de couto prope villam de Castineyra, et sedet ibi in una petra nativa una crux et deinde vadit ad rivum Cahama ad portum qui vocatur de Arvas, et deinde exiit et vadit ad Seladam de Cortinas et sedet ibi unus patronus et vadit inter ambos Borralhaes et sedet ibi unus patronus et deinde vadit ad molinum de Cabanellas et deinde vadit ad portellam de Chave, et sedet ibi unus patronus, et deinde vadit ad Mamoam de Eucariscata ubi prius incepi»(6).

Existe na vertente sul desta formação montanhosa uma povoação chamada Gralheira e o Prof. AMORIM GIRÃO diz que o nome Serra da Gralheira «pode ou não ter derivado / 83 / através da povoação», mas julgamos estar ligado, este nome, ao quotum de Graleyro − Côto do Gralheiro, a que faz referência esta Doação; ainda hoje podemos localizar: quotum de Nabo no Côto do Nabo, onde na primeira 6.ª feira de Junho, de cada ano, vai uma procissão saída de Cabreiros, conhecida pela Procissão da Mura, em consequência de voto antigo, por causa dos ratos darem cabo das colheitas, que PINHO LEAL julgou ter acabado, mas que ainda hoje se realiza; montem magnum de Nabo no Monte Nabo, entre Candal e Cabreiros; Lazarias como o monte a que chamam Laceiras, entre o Côvo e a Castanheira; quotum de Graleyro como o Gralheiro, pico de grande altitude entre o Côvo, Lomba e Castanheira; Monte Calvo como Monte Calvo, perto da Castanheira e portellam de Antha como portela de Anta entre Albergaria e Gestoso.

Começa o termo FREITA a designar o monte todo depois de 1300, deixando as escrituras do Cartório do Mosteiro de Arouca de fazer referências aos montes Fuste e Serra Seca e ao rio Arda, para se referirem simplesmente ao Mosteiro que, por bem conhecido, não necessitava maior identificação; em 1666, JORGE CARDOSO diz(7): «Arouca... fica ao pé do monte chamado Freitas» continuando todos os escritores a dar-lhe a mesma designação, mas Frei FORTUNATO DE S. BOAVENTURA(8) foi mais claro, escrevendo: «As elevadas serranias, que em outro tempo se chamavam FUSTE e SERRA SECA, a que depois se substituíram os nomes de FREITA e OUVIDA, guarnecem um fértil e ameníssimo vale, em cuja planície está situada a vila de Arouca»; descreve também «a criação da pousada ou albergaria no lugar mais cómodo da serra de Fuste», lugar chamado, mais tarde, Albergaria, sede da freguesia de Albergaria das Cabras, da apresentação da Abadessa; vários autores dizem ter a Beata Mafalda fundado duas Albergarias, uma na serra de Fuste e outra em Rossas, provindo a confusão de que o local em que fundou a da serra de Fuste, pertencia, naquele tempo, à freguesia de Rossas, comenda da Ordem de Malta. Da Albergaria não resta hoje mais do que uma pedra, em granito local, metida no muro de vedação do cemitério, com uma inscrição, lendo-se ainda: Alberg... pobres com obrigacam de dar duas camas hua pª pobres outra pª ricuos renovada em todo seman... Na era de 641. A sua fundação data de 1280(9).

Vejamos agora o termo FUSTE: nesta serra há dois lugares com a mesma designação; um, na vertente sul, / 84 / pertencente ao concelho de Vale de Cambra e outro, na vertente norte, pertencente à antiga freguesia de S. Pedro de Arouca e hoje à de Santo Estêvão de Moldes, criada por decreto de 31 de Dezembro de 1845; foi este lugar que deu o nome à serra, pela sua importância, pois Frei ANTÓNIO BRANDÃO(10) transcreve várias escrituras, que pertenceram ao Cartório do Mosteiro de Arouca, sendo uma de Crescónio(11), antigo monge do mesmo Mosteiro, mas Bispo de Coimbra desde 1130, doando ao Prior Godino e frades e ao mesmo Mosteiro os bens que foram de Gavino Froilaz, senhor de Arouca na era 1123, aos 4 dos Idos de Agosto da era de 1132, «quorum, basilica fundata est in Arauca inter duos montes Fuste & Serra Sicca discurrente ribulo Alarda in Villa quae vocitatur Sancto Petro... habuit in Arauca inter Durio & Fuste monte, inter ribulo Pauia & villa Flaui, in villa Tempezo, in vilIa Ribulo MolIites, in vilIa Foste...», bens que «Gavino Froilaz e mulher Onega Ermigiz tinham comprado a Adozinda no território de Arouca ao correr do arrugio Moldes a 12 das Kalendas de dezembro era 1116»(12).

A escritura n.º 479 da VoI. III dos Documentos Medievais Portugueses, a que adiante se faz referência, de 4 de Julho de 1114, em que Godinha Gondemares, com seu filho
Mendo Bermudes, doa ao Mosteiro de Arouca vários bens, faz expressa menção à vila de Fuste «...in uilla Mollites in loco predicto Barrio et in uilla de Fuste et in Cabrarios...»; muitíssimas são as escrituras do Cartório do Mosteiro de Arouca que falam na vila de Fuste e por esta doação de Godinha prova-se que governou Arouca o aio de D. Afonso Henriques, Egas Moniz, que foi grande proprietário nesta região, sendo várias contendas resolvidas, perante ele, em Cresconhe.

O documento mais antigo, do nosso conhecimento, em que se fala do monte FUSTE, é a Doação de Dom Ansur e sua mulher Dona Ejeuva feita ao Abade Hermenigildo aos 7 dos Idos de Setembro da era de 989(13), dando-Ihe «a basilica... fundata est subtus mons Fuste et Serra sicca discurrente ribulum Alarda et territorio Portucale», documento de incalculável vaIor na história da fundação da Mosteiro.

Frei BERNARDO DE BRITO diz, na Crónica de Cister, ter encontrado no Cartório do Mosteiro de Arouca um documento de 13 de Novembro do ano 1102, pelo qual o Conde D. Henrique dá a Echa Martim o governa de Lamego, depois de o ter vencido na batalha «transmõtem Fuste in valIe de Arauca»; / 85 / considera-se este documento, de que Frei ANTÓNIO BRANDÃO só encontrou o traslado, pura invenção de Frei BERNARDO, não obstante FELICIANO DE CASTILHO o ter tomado por verdadeiro(14). Frei ANTÓNIO BRANDÃO(15) cita uma Doação antiga da Sé de Coimbra, que traduz: No tempo em que reinava o sereníssimo rei D. Fernando, eu, o Cônsul Sisnando, recebi dele o senhorio de Coimbra e de todas as cidades ou castelos que estão em seu circuito: convém saber de Lamego até ao mar, pela água do rio Douro até os limites que possuem os cristãos para a parte do meio dia, os quais lugares ele, com sua espada e poder real, favorecendo-o Deus, tomou aos árabes e restituiu aos cristãos; também cita uma venda, feita no ano de 1097, por Sancho Teles ao Bispo D. Crescónio, na qual se diz: «Comite Domno Henrico genero supradicti Regis dominante à flumine Mineo usque in Tagum»; ALEXANDRE HERCULANO disse que Fernando Magno, antes da conquista da Beira, tinha submetido «a parte da província que jaz entre o Douro e Vouga e ao ocidente do Paiva».

Estas opiniões são confirmadas pela escritura de composição, copiada somente em parte por ANTÓNIO CAETANO DO AMARAL(16), PINHO LEAL, etc., entre Dona Guntina Eriz, seus herdeiros Gavino Froilaz, Lauredo Zanis e seu irmão Osório Presbítero e a irmã Comba Zanis contra Frei Afonso, abade, seu irmão Godino Presbítero e todos os frades de S. Pedro de Arouca, na presença de D. Sisnando, em 2 das Nonas de Janeiro da era de 1129 (4 de Janeiro do ano 1091) e não em 4 das Nonas como se refere CAETANO DO AMARAL: «... et ipso testamento fecit eum Gundulfus aba et scripsit in eo medietate de sancta maria de ribulo mollites era D CCCCLXIII et post multis annis venerunt sarraceni cecidit ipso territorio in herematyone et fuit ipsa ecclesia destructa. At ubi venerunt christiani ad populatyone restaurata est ipsa ecclesia et posuerunt ibi reliquias sancta maria et sancto stephano iterum
quod fuit herema in era MXIlIª. Et cum venit tempus ista populatyone quod est in era MXXXVIlll populavit omnis populis quisquis suam vel alienam hereditatem de ista era in denante vocaverunt illa ecclesia sancto stephano»
(17). Fala-se nestes documentos para demonstrar a saída dos sarracenos desta região, cem anos antes da época indicada por Frei BERNARDO DE BRITO.

Nos Documentos Medievais Portugueses, voI. III, da Academia Portuguesa de História, transcrevem-se muitíssimos / 86 / documentos que dão noção exacta dos limites do MONTE FUSTE e entre eles os seguintes:

N.º 24 de 18 de Maio de 1101 − L.º Preto da Sé de Coimbra

in ualle Ordinis subtus mons Fuste territorio Alafoen discurrente ribulo Barroso; é o lugar de Bordonhos, próximo de S. Pedro do Sul, sendo vários os documentos que se referem a este lugar.

N.º 27 de 6 de Junho de 1101 − Sé de Coimbra

Sancta Cruce... subtus montis Fuste territorio Alahouen discurrente ribulo Baroso; Santa Cruz da Trapa, ao sul da chamada Serra da Arada.

N.º 117 de 7 de Junho de 1103 − Sé de Coimbra

in uilla Palatjolo subtus mons Fuste discurrente ribulo Baroso: Paçô, freguesia de Santa Cruz da Trapa, também ao sul da serra da Arada.

N.º 118 de 10 de Junho de 1103 − Sé de Coimbra

in uilla Nesperaria... subtus montis Fuste territorio Alaphauan discurrente ribulo Amarantis: Nespereira de S. Pedro do Sul.

N.º 123 de 4 de Julho de 1103 − Sé de Coimbra

in uillas pernominatas Sekeiros et Notar et io Roderiz subtus mons Fuste discurrente ribulo Pauia territorio Pennafidel: Sequeiros, Nodar e Reriz, que fazem parte da bacia hidrográfica do Paiva, chamando-se ainda monte Fuste ao que separa os rios Deilão e Paiva.

N.º 124 de 4 de Julho de 1103 − Sé de Coimbra

uillas pernominatas Caualion et in Sala et in Mazanaria et in Lagenosa subtus monte Fuste discurrentes aquas ad Pauia et ad Sur territorio Pennafidel: Gafanhão, Macieira, Sá e Lageosa, que envolvem, quase em semi-círculo, pelo nascente, a chamada serra de S. Macário.

N.º 163 de 10 de Junho de 1104 − L.º Preto da Sé de Coimbra

Sancti Jacobi de Mato subtus mons Fuste discurrente rivulo Vauga territorio Alaphoen: S. Tiago de Bordonhos. / 87 /

N.º 168 de 22 de Junho de 1104 − L.º Preto da Sé de Coimbra

in uilla Varzena subtus montem Fuste discurrente riuulo Vouga territorio Alahuen: Várzea a jusante de S. Pedro do Sul.

N.º 193 de 8 de Junho de 1115 − Sé de Coimbra

Sancti Martini inter Kaualion et Sala suptus mons Magaio territorio Uisiense discurrente ribulo Uauca: S. Martinho das Moitas, entre Gafanhão e Sá.

N.º 195 de 18 de Junho de 1105 − Sé de Coimbra

Couas suptus mons Magaio territorio Uisiense discorrente rugio Deilão: Covas de Rio ou Covas de Monte cuja água corre para o rio Deilão e deste para o Paiva.

Pelo doc. n.º 123 vimos que o rio Deilão corre entre vertentes do monte Fuste e assim Monte Magaio não é mais do que uma designação local do mesmo monte Fuste.

N.º 198 de 30 de Setembro de 1105 − Convento de Pendorada

in uilla pernominata Couelo subtus mons Fuste discurrente ribulo Uauga territorio Alahoen: Covelo de S. Pedro do Sul e não Covelo de Paiva, que fica na vertente norte.

N.º 297 de 14 de Julho de 1108 − Sé de Coimbra

in uilla Spoemir subtus mons Fuste discurrente riuulo Sur territorio Alahoen: Posmil de S. Martinho das Moitas a nascente de S. Macário.

Nos Docs. N.os 255, 265, 266 e 307 citam-se os lugares Lageosa, Sá, Posmil e Amaral subtus mons Redento ou Retundo, sendo Redento modificação de Retundo, mantendo ainda hoje, nas cartas, o nome de monte Redondo.

N.º 309 de Novembro de 1108 − Sé de Coimbra

nomem ejus VlIem Fontes... subtus mons Fuste aquas discurrentes ad Pauia et ad Sur territorio Pennafiel: Sete Fontes situado ao norte de Covas de Rio. / 88 /

N.º 311 de 26 de Novembro de 1108 − Sé de Coimbra

in Couas et in Amaral et in Spuemir et tercia de Anola et tercia de Laurosa et tercia de Lubizis subtus mons Fuste discurrentes aquas ad Pauia et ad Sur territorio Pennafidel: Covas, Amaral, Posmil, Avô, Lourosa e Lubizios dos concelhos de S. Pedro do Sul e Castro Daire. Avô também é citado no Doc. N.º 341 como situado subtus mons Fuste.

N.º 312 de 30 de Novembro de 1108 − Sé de Coimbra

uilla Spuimir... subtus mons Magaiu discurrentes aquas ad Sur territorio Pennafiel: Posmil que aqui é localizado subtus mons Magaiu, também o é subtus mons Fuste no Doc. N.º 297 e subtus mons Retundo nos Docs. N.os 255, 265, 266 e 307, verificando-se assim a existência de um mesmo monte com diferentes designações locais.

N.º 340 de 18 de Novembro de 1109 − Sé de Coimbra

in Uilla Kaualione subtus mons Fuste discurtes aquas ad Pauia et ad Sur territorio Pennafidele: Gafanhão de Castro Daire.

N.º 342 de 19 de Novembro de 1109 − Sé de Coimbra

in Uilla Couas subtus mons Fuste discurrente riuulo Pauia territorio Pennafidele: Covas de Rio, de S. Pedro do Sul, à margem do rio Deilão, também localizado subtus mons Magaio (Doc. N.º 195) e subtus mons Maçano (Doc. N.º 464).

N.º 455 de 29 de Setembro de 1113 − Sé de Coimbra

Villar... subtus mons Fuste discurrente ribulo Sur territorio Alaphouei: Vilar um pouco ao norte de Bordonhos.

N.º 464 de 8 de Fevereiro de 1114 − Torre do Tombo, L.º de D. Maior Martins

in uilla Asteri uel in uilla Quintanela et in uilla Couas subtus mons Maçano discurrente flumine Pauia territorio Pennafidel de Couas: Ester do concelho de Castro Daire e Quintela e Covas de S. Pedro do Sul, aparecendo o mesmo monte Fuste com nova designação − Maçano / 89 /

Todos estes documentos pertencentes à Sé de Coimbra e ao Convento de Pendorada não foram influenciados pela denominação corrente no Couto de Arouca, porque a serra era assim conhecida por MONTE FUSTE no território limitado pelo Douro e Mondego. Todos estes lugares fazem um semi-círculo, que tem por limites os rios Paiva, Sul e Vouga, desde Nodar até Santa Cruz, ficando assim englobada na designação de MONTE FOSTE toda a região montanhosa constituída pelo Monte Redondo, Serra de S. Macário, Serra da Arada, Serra de Manhôce, incluindo os antigos Mons Retundo, Magaio e Maçano, bem como os rios Deilão e Paivó.

Todos os documentos do Cartório do Mosteiro de Arouca, antes de 1300, que dizem respeito a propriedades nos vales de Moldes, Arouca e Rossas e respectivas vertentes, dizem-nos situados «subtus mons Fuste discurrente ribulo Alarda», não se transcrevendo por desnecessários, continuando a chamar-se MONTE FUSTE à serra que de Cabreiros, passando por Albergaria das Cabras, se dirige para poente e cujas águas caiem para o Arda e o Vouga.

N.º 199 de 13 de Outubro de 1105 − Torre do Tombo, L-º de D. Maior Martins.

in territorio Arauca subtus mons Fuste et serra Sicca discurrente ribulo Alarda... in uilla que uocitant Quintanela: Quintela, da freguesia de Chave, quase no extremo sudoeste do concelho de Arouca.

N.º 388 de 1112 − Torre do Tombo, Cartório do Mosteiro de Arouca

in uilla uocitant chaui subtus mons Fuste et Serra Sicca discurrente ribulo Alarda: Lugar de Chave da mesma freguesia, no extremo poente do concelho.

A seguinte escritura abrange os dois lugares, sendo Curiosa a paga, vulgar naquela época: «Rodrigo Gontigiz e sua mulher Hinia vendem a Tuta Veniegas a sua propriedade no lugar chamado Chave a quinta que nele tinham e da mesma forma em Quintela, debaixo do monte Fuste e Serra Seca, em preço de uma vaca, uma pele carneiruna e cinco modios em pão e vinho. A 6 das Kalendas de março era 1159»(18). / 90 /

Continua, portanto, a chamar-se MONTE FUSTE ao monte que, pouco depois de Quintela, se bifurca, dando um ramo para Cambra e outro que se dirige para noroeste, como limite do concelho e quase do Couto, em direcção ao Porto, ficando já na vertente nascente deste ramo o lugar de Chave.

Pela escritura de 10 de Abril da era de 1232(19) Egas e mulher Maria Pedro vendem a Dom Domingos e mulher Dona Loba uma herdade situada em vila Chave, ao correr do rio Arda até Riscada e daqui até Pousafoles; Pousafoles, hoje Bouça, lugar da freguesia de Mançôres, indo agora até mais longe a designação de Monte Fuste; continuando com a mesma direcção, o monte passa a chamar-se Monte Grande (montem magnum), dividindo as bacias hidrográficas dos rios Arda e Antuã (Breve de Pascoal II a Hugo, Bispo do Porto, de 15 de Agosto de 1115), continuando ainda, mas já com o nome de Monte Nabal (montem nabal), como se vê no Breve do Papa Calisto II ao mesmo Bispo Hugo em 1120(20). O nome Monte Grande deve ser uma designação local, pois era conhecido em Arouca por Monte Nabal como se vê na escritura das Calendas de Abril da era de 1178(21).

Todos os documentos do Cartório do Mosteiro de Arouca, anteriores ao ano de 1150, que se referem à Serra Seca, permitem identificá-la como uma formação montanhosa de direcção nascente-poente, situada ao norte dos rios Moldes e Arda, correndo as suas águas para o Arda ou Sardoura, conforme estão numa ou noutra vertente: já vimos várias escrituras que referiam o correr das águas para o rio Arda, vejamos agora duas em que se diz que as suas águas correm para o Sardoura e Douro: Doação de Formosindo Romarigues a Sandila, em 1061, reinando Fernando Magno «in Villa Real, territorio Enegia, subtus mons Serra-Sicca, discurrentem rivulo Sardouro flumen Durio»(22); o Documento N.º 250 dos Documentos Medievais de 1 de Agosto de 1107, diz «et de illa parte Durio in uilla Sardoriola IIIIª integra quos fuit de auio meo domno Monio subtus mons Serra Sica discurrente riuulo Durio». De toda esta formação montanhosa só se deve exceptuar a parte que fica situada ao nascente do vale de Arouca, conhecida hoje por Monte da Senhora da Mó (712 metros de altitude), porque na escritura de 7 dos Idos de Julho da era de 1155, sumulada pelo paleógrafo Januário / 91 / Luís da Costa, se diz: «Venda que Arias Ermiguis com sua mulher Exmegundia Gaveniz e com cinco filhos fez a Tota Veniegas de uma herdade na Vila de Molites, em Arouca, debaixo do monte Fuste e da outra parte Amua e Serra Seca ao correr do rio Molites, no Outeiro que foi de Gavino Froilaz»(23); no cume deste monte, cuja silhueta dá a impressão de uma mama com o respectivo mamilo, «fora da vila, cousa de meia legoa esta huma capela da Senhora da Mó que algum dia se chamou da Senhora das Neves, mas por uns milagres que fez he que lhe puzeram o nome à Senhora da Mó»(24) e ainda hoje em todo o vale de Moldes é conhecida por Senhora Dámoa, ficando a meia encosta uma parte plana, chamada Campos Dámoa, confirmação do seu primitivo nome.

O nome de Serra Seca deve resultar da falta de água, em toda ela, pois só se encontra no fundo dos vales e em pequena quantidade; o nome Serra da Ouvida é devido à existência de uma capela antiga da invocação de Senhora da Ouvida(25), também existente na serra de Montemuro e hoje de Santa Luzia: forma este conjunto montanhoso o que chamamos Serras do Gamarão, Santa Luzia e Arreçaio.

Por tudo quanto se disse e transcreveu, podemos afirmar que a serra limitada pelos rios Paiva, Sul e Vouga, continuando desde o Monte Nabo até Quintela em linha recta, onde começa um semi-círculo para abranger a parte poente do concelho de Arouca, até Pousafoles, da freguesia de Mançôres, teve o nome de MONTE FUSTE, fazendo parte da Doação de D. Afonso III.

Era por uma grande parte desta serra que se fazia a travessia de Viseu ao Porto, já descrita por PINHO LEAL; o Prof. AMORIM GIRÃO chama-lhe Roteiro de S. Pedro do Sul para o Porto, localizando-o por Santa Cruz da Trapa, Bustarenga, Manhôce, Albergaria das Cabras, Farrapa, Escariz e Senhora da Saúde; o Dr. ARMANDO DE MATOS(26) chama-lhe terceira estrada ou via de comunicação romana, que se destacava da estrada romana em Pedroso, Gaia, seguindo até Viseu e ainda hoje é conhecida por Estrada Velha de Viseu, que os almocreves utilizavam há pouco mais de quarenta anos, vendo-se restos da calçada romana em Gestoso e Manhôce bem conservados e com belíssimos lacetes.

Como vimos, a doação de D. Afonso III faz referência a uma strada entre a porteIa de Anta e a pedra de Anta; / 92 / por essa portela passa a estrada, nome que ainda hoje dão à via de comunicação romana, que de Albergaria desce a Gestoso e Manhôce, havendo também restos de calçada romana a nascente de Albergaria. Esta estrada romana, no planalto de Albergaria, perto da origem do Caima, devia dar um ramo que, seguindo para nascente, passasse ao norte do monte Vidoeiro, que nas descidas apresenta bocados de calçada com as características romanas, atravessando Tebilhão, Cabreiros, Candal, Coelheira e S, Pedro do Sul; ainda hoje se discute em Arouca qual dos caminhos para S. Pedro do Sul é mais curto, sendo o de Cabreiros o preferido, reconhecendo todos que o de Manhôce é mais abrigado(27).

Sugestionados pela última parte do citado livro do Prof. AMORIM GIRÃO, mandando procurar no passado, aquilo que do passado pode e deve aproveitar-se, ousamos concluir que havendo montes em diferentes serras, chamados Gralheira ou Gralheiro, seria mais de harmonia com a verdade histórica, e mesmo para evitar confusões, dar a este Maciço o nome de MACIÇO DE FUSTE.

MANUEL RODRIGUES SIMÕES JÚNIOR

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(1) Prof. AMORIM GIRÃO, A Bacia do Vouga..

(2) Cartório do Mosteiro de Arouca, Gav. 3.ª, Maço 1.º, N.º 49. 

(3) − VITERBO, Elucidário, termo Freitar.

(4) Cartório do Mosteiro de Arouca, Gav. 1.ª, Maço 6.º, N.º 2.

(5) Torre do Tombo, Livro 1.º de Doações de D. Afonso llI, fls.21 v.  

(6) Forais e Doações Régias − Arouca e o Fisco, Dr. ADRIANO CARLOS VAZ PINTO, 1897. Foros do extinto convento de Arouca, por um foreiro, 1898.

(7) Agiológio Lusitano.

(8) Memórias para a vida da Beata Mafalda, 1814. 

(9) Frei GUILHERME DE VASCONCELOS, Dom Abade de Alcobaça, citado em Misericórdias Portuguesas de FERNANDO CORREIA.  

(10)Monarquia Lusitana, III parte.

(11)Gav.ª 3.ª, Maço 1.º, N.º 9..

(12)Cartório do Mosteiro de Arouca, Gav.ª 3.ª, Maço 4.º, N.º 45.

(13)Cartório do Mosteiro de Arouca, Gav.ª 3.ª, Maço 1.º; N.º 1.

(14)Quadros Históricos.

(15)Monarquia Lusitana, III parte.

(16) −  Memórias, V e VlI. 

(17)Cartório do Mosteiro de Arouca, Gav.ª 3.ª, Maço 1.º N.º 7.

(18) − Cartório do Mosteiro de Arouca, Gav.ª 3.ª, Maço 4.º, N.º 37, sumulada pelo paleógrafo Januário Luís da Costa em 1834 a pedido das freiras.

(19) Cartório do Mosteiro de Arouca, Gav.ª, 3.ª Maço 4, N.º 29.

(20) P.e JOÃO AREDE, Identificação do rio Antuã, in Arquivo do Distrito de Aveiro, N.º 40, 1944. 

(21) Cartório do Mosteiro de Arouca, Gav.ª 3.ª, Maço 4, N.º 33.  

(22) PINHO LEAL, Portugal Antigo e Moderno.  

(23) −  Cartório do Mosteiro de Arouca, Gav.ª 3.ª, Maço 4, N.º 36. 

(24) Manuscrito que descreve a questão entre as freiras e o povo da freguesia de S. Pedro em 1742.   

(25) − Dicionário Geográfico de D. João V, 1747.  

(26) As estradas romanas no concelho de Gaia, 1937..   

(27) Na lavagem do minério de aluvião da Vala Grande de Cabreiros, foi encontrada em 1943 uma seta de cobre, que julgamos romana e em perfeito estado de conservação e que nos foi oferecida pelo Rev.º Pároco daquela freguesia. 

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