António Gomes da Rocha Madahil, O pintor Alípio Brandão, Vol. 1, pp. 103-110.

ARTISTAS DO DISTRITO

O PINTOR

ALÍPIO BRANDÃO

DE SANTIAGO DE RIBA-UL

A quem interesse observar e procurar compreender as tendências estéticas das modernas gerações do Distrito, e o contributo por elas trazido à evolução artística contemporânea, logo se faz notar, e agradavelmente surpreende, a predilecção manifestada a favor das artes do Desenho e da Pintura, e, principalmente, o sólido equilíbrio procurado − e com felicidade encontrado − pelos mais representativos desses novos artistas.

No meio das antinomias ideológicas e das hesitações artísticas da hora presente, em ansiosa busca da esquiva fórmula estética do nosso século, é altamente consolador verificar a serenidade com que alguns dos pintores do Distrito − precisamente os mais prometedores − rapazes novos que amanhã serão grandes nomes na Arte portuguesa mas a quem a sua actual juventude justificaria rebeldias e excentricidades por isso mesmo compreensíveis, sabem criar personalidade e conseguem ser do seu tempo sem fugirem à observância das leis eternas e imutáveis da Arte.

Três ou quatro nomes acodem neste momento à nossa memória a justificar, felizmente, a observação.

A esse número de artistas, equilibrados e conscienciosos, começa a pertencer, em boa e sã verdade, ALÍPIO BRANDÃO, moço pintor de S. Tiago de Riba-Ul, concelho de Oliveira de Azeméis, curiosa vocação que se afirma e à nossa sensibilidade vitoriosamente se impõe.

Não procurando iludir dificuldades com artificiosos disfarces ou caprichosas bizarrias de cor e forma, em que tanto se comprazem alguns dos mais espectaculosos concorrentes às exposições nacionais de Pintura, Alípio Brandão estuda; procura / 104 / a lição dos Mestres, e, melhorando constantemente de forma, prossegue em demanda da ambicionada perfeição, anseio de todo o artista eternamente insatisfeito.

A MÁSCARA DO ARTISTA, GRAVADA EM MADEIRA

Bastante moço 33 anos escassos − Alípio Brandão veio para a Pintura tendo praticado já anteriormente outra arte; Alípio Brandão é, desde os dezasseis anos, entalhador.

Quanto esta arte influenciou a sua técnica de Pintor, e / 105 / quanta a sua forma pictural beneficiou daquela anterior aprendizagem, onde o artista adquiriu singular destreza revelada nas suas correctíssimas mísulas, molduras de estilo, primorosamente entalhadas, como dum clássico, e em graciosas figurinhas, cheias de intenção, vigorosamente cortadas, é caso para ser meditado com interesse, pedagógico até, pois nessa influência da Escultura sobre a Pintura reside, quanto a nós, a explicação do segredo e do triunfo de Alípio Brandão.

ESCULTURAS DECORATIVAS DE MADEIRA, NOTÁVEIS PELO MOVIMENTO, CORRECÇÃO DE DESENHO E SEGURA EXECUÇÃO.

Antes, porém, de nos determos no exame de algumas das qualidades e tendências artísticas do Pintor, ouçamo-lo a ele próprio contando-nos como se fiz artista, confidenciando-nos as suas aspirações, as suas desilusões também.

Nasci em 2 de Agosto de 1902, no lugar do Outeiro, da freguesia de Santiago de Riba-Ul, concelho de Oliveira de Azeméis. Após a instrução primária − aos 13 anos − tive que enveredar pelo caminho da vida prática, escolhendo então a profissão de entalhador. Fiz a aprendizagem do ofício com António da Silva Tavares, já falecido, que tinha a sua oficina no lugar de Lações, da freguesia e concelho de Oliveira de Azeméis.

Aos 16 anos fui para a cidade do Porto, com intenção de me aperfeiçoar na arte que havia preferido abraçar como modo de vida. Um dia, fui parar ao atelier do grande Mestre Pintor, ARTUR LOUREIRO, como auxiliar do oficial entalhador que fora encarregado de ornamentar uma moldura em estilo gótico desenhada pelo mesmo pintor, moldura / 106 / que serviu para a célebre tela «O Senhor da Pedra».

O que então ali vi deixou-me maravilhado e fiz nascer em mim o desejo, que nunca mais me abandonou, de ser também pintor. Essa ideia passou a constituir a maior preocupação do meu espírito e o motivo dos meus sonhos.

Mas como torná-la realidade se as circunstâncias materiais mo não permitiam?

Mantive-me no Porto até 1925 e voltei então para a minha terra, onde montei uma pequena oficina de entalhador, enviando os meus trabalhos para Coimbra e Porto e, raras vezes, para Lisboa.

Em 1927 decidi ir até Coimbra e nesta cidade me estabeleci também com oficina de entalhador, numa casa do Largo da Sé Velha. A ideia da pintura continuava a preocupar-me e, nas horas vagas, ia-me abalançando aos primeiros ensaios. Os trabalhos que eu, anos antes, vira no atelier de ARTUR LOUREIRO continuavam a exercer cada vez mais a sua influência no meu espírito. Na minha terra já havia tentado a pintura. Em Coimbra continuei essas tentativas, procurando transportar a umas pequenas telas e tábuas alguns dos excelentes motivos que a bela e pitoresca cidade do Mondego me oferecia. Mas a falta de desenho e a falta de contacto com trabalhos que constituíssem para mim ensinamentos, não deixavam que eu fizesse mais que uns quadrinhos ingénuos e sem arte.

Estive durante seis meses em Coimbra, após o que retirei de novo para a minha aldeia, não só porque Coimbra me não ofereceu então o que, materialmente, eu dela esperava, mas porque alguém me havia prometido o lugar de mestre entalhador numa nova Escola Industrial que dentro de algum tempo iria ser posta a funcionar. Contra o que esperava dessa promessa, tive que me apresentar a um concurso por provas práticas com outros concorrentes. Outrem se apresentou convenientemente «apadrinhado» e, não obstante o meu trabalho ter sido o que melhor satisfez os requisitos dos pontos a executar, fui preterido.

Decidi voltar novamente ao Porto e para lá transferi, mais uma vez a minha oficina. Continuava obcecado pela ideia da pintura, que então praticava quase sem regras. Reconhecia que o desenho, sobretudo, me era indispensável.

Um dia tive um feliz encontro com o ilustre pintor JOSÉ DE BRITO e com ele combinei que passaria a leccionar-me desenho.

No dia 4 de Maio de 1929 recebi a primeira lição, que pelo mestre me foi ministrada no seu atelier, no edifício da Escola das Belas Artes. Frequentei o atelier de JOSÉ DE BRITO e recebi as suas lições durante cerca de três meses.

As dificuldades da vida assoberbavam-me e forçaram-me à / 107 / desistência dessas lições, pois as não podia pagar. Ocorreu-me visitar ARTUR LOUREIRO, o que fiz, apresentando-lhe a proposta de permutarmos os nossos serviços, recebendo dele os seus valiosos ensinamentos e entregando-lhe trabalhos de talha em madeira. Assim ficou assente. Porém, pouco depois, o acordo teve de ser rescindido em parte, pois ARTUR LOUREIRO, por motivo da sua idade algo avançada, não podia dispensar-me assiduamente as suas lições. Por sua interferência passei a frequentar as aulas nocturnas de desenho da Escola de Faria Guimarães, onde leccionava outro mestre, o pintor JOAQUIM LOPES, passando a receber as lições de ARTUR LOUREIRO somente aos domingos.

OLIVEIRA DE AZEMÉIS − QUEBRADA (lápis)

Continuei na frequência da Escola de Faria Guimarães, cujas aulas, entretanto, passaram à direcção de um dos maiores artistas da paleta e do lápis, mas certamente o mais modesto de todos: MANUEL RODRIGUES. Deste distinto professor passei a receber, com a sua amizade e provas da mais cabal estima, as lições não só ministradas na Escola mas também particularmente.

Em 1932 expus pela primeira vez, na Sociedade das Belas Artes e numa exposição de conjunto, alguns óleos e desenhos. O acolhimento havido deu-me ânimo a novos cometimentos. Era o meu sonho a tornar-se realidade.

/ 108 / Em 7 de Janeiro de 1933 fiz a minha segunda exposição, desta vez no salão do Ateneu Comercial do Porto, em conjunto com o caricaturista Joaquim Gomes Mirão. A crítica ocupou-se já dos meus trabalhos com bastante interesse e, em regra, de maneira elogiosa.

OLIVEIRA DE AZEMÉIS − CASA DE VILA CHÃ (óleo)

Em 17 de Fevereiro de 1934 exponho individualmente, no Salão Silva Porto e recebo um acolhimento desvanecedor. Porém o resultado material deixou muito a desejar. Nesse mesmo ano, em 12 de Maio, abro exposição em Coimbra, num salão da Câmara Municipal, com trabalhos de pintura a óleo, desenhos e talha. Coimbra recebeu-me galhardamente e compensou-me do esforço que empregara. Ainda nesse mesmo ano, em Outubro, exponho alguns trabalhos na Figueira da Foz, com resultados satisfatórios e elogio da critica.

Em 20 de Abril de 1935 volto a expor em Coimbra, apresentando trabalhos de pintura a óleo, desenhos, talha e escultura decorativa em madeira (miniaturas), com sucesso quase absoluto.
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Propositadamente deixei desenrolar aos olhos do leitor estas curiosas notas autobiográficas de Alípio Brandão, completas, tais como dele as recebi, sem mutilar a sua unidade extratando-as, para mais em relevo ficar a rara modéstia e sinceridade deste consciencioso artista.

CLAUSTRO DO CONVENTO DE CUCUJÃES (óleo))

Do seu depoimento simples e franco, onde uma forte vontade de triunfar pela Pintura sobressai, cumpre a nós destacar, para análise e estudo do seu processo, a longa prática de entalhador que o artista já hoje possui; no exercício assíduo dessa técnica e nas notáveis aptidões de escultor que Alípio Brandão revela, cortando energicamente, sem hesitações e com óptimo desenho sempre, está, como acima notámos, o segredo do seu triunfo na Pintura.

O artista transportou para esta arte o sentido de volume, estrutural na Escultura, resultando daí que tudo quanto pinta lhe sai com vida e expressão plástica notáveis, e ao mesmo tempo com simplicidade, sem esforço visível ou violência.

/ 110 / Se trata flores, como essas camélias da sua última exposição, impossíveis de reproduzir com fidelidade em gravura, devido ao empastamento das cores na fotografia, folhas e pétalas apresentam perfeito relevo, admiravelmente conjugado com o colorido quente, riquíssimo, aplicado com precisão e gosto.

A própria paisagem, género para o qual as suas preferências artísticas mais decididamente se inclinam, adquire por vezes nas suas mãos vida real, desprendendo-se bem perspectivada da tela e tomando a nossos olhos corpo e volume.

Se acrescentarmos ainda que o Pintor usa com moderação da sua paleta sem incorrer em deficiência cromática, antes conseguindo uma alegre harmonia de cor, e que sabe extrair da distribuição da luz os poderosos efeitos que esse elemento encerra, deixaremos, resumida nestas brevíssimas notas, a impressão dominante que de alguns dos trabalhos do moço artista de S. Tiago de Riba-Ul nos ficou, baseada, principalmente, na sua última exposição de Coimbra.

Correcção de desenho, propriedade de cor, riqueza de tons, noções exactas de perspectiva, volume e luz.

Com estas qualidades e a vontade de trabalhar e de triunfar que anima Alípio Brandão, não ê difícil vaticinar que num futuro próximo o seu nome honrará o nosso distrito e o artista encontrará a justa compensação do seu esforço de agora.

A. G. DA ROCHA MADAHIL

 

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