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PELA calçada ia trepando com dificuldade uma carroça.
A carga era muito grande e a mula, velha e magra, a custo arrastava
o enorme peso. Já por duas vezes tinha caído sobre as pedras,
rasgando em uma delas o joelho direito, de onde escorria um ligeiro
fio de sangue, que se empastava no pelo. Apesar de tudo, a mula não
parava de puxar, a carroça ia subindo sempre, empuxada pelo
carroceiro e por outro homem.
Mas a calçada tinha agora maior inclinação e as
pedras escorregavam mais. O pobre animal não pôde ir para diante.
Desesperado, praguejando, o carroceiro apertou o
travão, pôs uma pedra a calçar a roda mais próxima, e, de chicote
bem apertado na mão, foi-se à mula e bateu-lhe desalmadamente,
bateu-lhe até se cansar. E até se foi juntando gente!...
Na primeira linha estavam parados dois pequenitos,
que vinham do colégio, com os livros e a pedra amarrados com uma
correia, e que tinham dado naquele dia muito bem as suas lições,
tanto de leitura como de escrita e de contas.
Mas esqueciam-se tanto do que muitas vezes lhes
ensinava o professor, que, vendo a maldade que estava a fazer o
carroceiro, não sentiam pena da mula, e riam a bandeiras despregadas
com as pragas que soltava o brutamontes.
Afinal apareceu um polícia e prendeu-o, o que fez
espanto a ambos os pequenitos, deslembrados de que fazer mal aos
animais é indício de mau carácter e merece castigo, e de que eles
mesmos incorriam em censura por estarem presenciando com gosto uma
tal selvajaria.
Podemos aprender a gratidão pelos serviços que os
animais nos prestam, nos frequentes exemplos que eles nos dão
pagando com amizade extremosa o bem que o homem lhes faz.
Deixem-me contar-lhes uma história verdadeira, em que
se mostra que até as feras sabem ser gratas.
/ 335 / Na Roma antiga havia o costume de fazer
lutar, para divertir o público, os homens com os leões, os tigres,
os ursos e outros animais ferozes. Os homens escolhidos para isto
eram escravos, de quem os seus senhores dispunham como de coisa sem
valor, e assim os mandavam para uma morte quase certa.
Ainda hoje se faz coisa semelhante nas praças de
touros, em que se consente que homens arrisquem a vida e martirizem
pobres animais, que tão úteis nos são.

Quando vires um touro escorrendo sangue, lembra-te da
utilidade que tiramos dos animais daquela espécie. São eles que
puxam as charruas e as carroças, fazem mover as noras e desempenham
mil outros trabalhos para nosso bem.
Em Espanha ainda a crueldade é maior, não só com o
touro, que depois de martirizado é sempre morto, mas também com os
cavalos. Este animal, tão bom e prestadio, vemo-lo num dos tais
divertimentos ser levado para junto do touro, que dali a pouco lhe
enterra as pontas nas ilhargas, dando-lhe morte aflitiva. Há
touradas em que são mortos vinte e cinco e trinta cavalos!
Pois no tempo em que havia nos circos romanos
combates de homens com feras, aconteceu um caso, que nos ensina,
como já se disse, que os próprios animais ferozes são reconhecidos
ao bem que o homem lhes fizer, assemelhando-se portanto aos animais
domésticos, que tamanha amizade nos tomam às vezes. Pois não tem
havido cães e gatos que morrem de pena com a morte do dono?
É contado o tal caso por um notável escritor latino,
chamado Apiano, que foi dele testemunha presencial.
A arena cobriu-se de uma multidão de animais de
tamanho e ferocidade terrível. Entre eles, chamou todas as atenções
um enorme leão, que saltava a grande altura, sacudindo a juba e
dando rugidos medonhos.
/ 336 / Os próprios espectadores estavam cheios de
susto, apesar de ser alto o muro que rodeava a arena.
No meio dos infelizes que iam disputar a vida contra
aqueles animais esfaimados, apareceu um homem chamado Androcles,
antigo escravo de um procônsul. Este nome dava-se às autoridades que
governavam as terras por onde se estendia o domínio do povo romano.
Portugal foi um destes países, assim como a Inglaterra, a França e a
Espanha.
Apenas o leão viu o escravo, parou de repente, cheio
de espanto. Depois avançou para ele com mansidão, como se o tivesse
reconhecido. Abanou a cauda, imitante um cão a fazer festas, vem
roçar-se pelo corpo de Androcles, meio morto de medo, e acabou por
lhe lamber as mãos.
As carícias do medonho animal chamaram à vida o
desgraçado, que abriu os olhos a pouco e pouco e os fitou no leão. E
como se renovassem conhecimentos, o homem e a fera mostraram a mais
viva alegria e o mais terno afecto.
Ao ver isto, a multidão que enchia o circo soltou
gritos de pasmo, e o imperador, tendo mandado que o escravo se lhe
aproximasse, perguntou:
– Porque és tu o único que escapou à fúria desse
monstro?
– Dignai-vos ouvir a narração do que me aconteceu,
disse Androcles. No tempo em que o meu senhor governava a África,
vi-me obrigado a fugir, tão maltratado era por ele todos os dias.
Para escapar à sua vingança, fui em busca de uma solidão inacessível
no meio das areias do deserto, resolvido a matar-me se me faltassem
os alimentos. O sol era tão ardente que tive de ir buscar abrigo
numa caverna muito funda e sombria. Mal me tinha deitado a
descansar, vi aparecer aquele leão. Coxeava, pondo a custo no chão
uma das patas, de onde corria sangue. As dores que a ferida lhe
causava arrancavam-lhe gritos e rugidos pavorosos. Ao ver o monstro
entrar no covil, fiquei gelado de terror. Logo, porém, que ele deu
com os olhos em mim, em vez de me fazer mal, aproximou-se mansamente
e estendeu a mão que tinha ferida, como se quisesse pedir-me
socorro. Dominando o medo, examinei a ferida e arranquei de entre as
garras da fera um grande espinho, que lá estava cravado. Atrevi-me
até a espremer a ferida, fazendo sair toda a matéria e sangue
corrupto, e depois enxuguei-a.
O animal, já aliviado das dores insuportáveis,
deitou-se ao pé de mim e adormeceu. Desde aquele dia vivemos juntos
na caverna, pelo espaço de três anos.
O leão encarregou-se de alimentar-me e trazia-me a
melhor parte das presas, que fazia. Como não tinha lume, assava-as
ao calor ardente do sol. Farto da companhia, e de viver daquele
modo, fugi da caverna uma manhã em que o leão tinha ido para a caça,
mas fui tão infeliz que no dia seguinte caí em poder dos soldados
romanos. Da África trouxeram-me para Roma e apresentaram-me ao meu
senhor, que logo me condenou a ser devorado pelas feras, no circo.
É o que me aconteceria, se o acaso não me fizesse
encontrar o leão que socorri, e que de certo foi apanhado pelos
caçadores que andam por África em busca de feras para o coliseu de
Roma.
O imperador, apenas ouviu estas palavras, que Apiano
diz terem sido proferidas por Androcles, mandou-as escrever e
comunicar ao povo.
/ 337 / Os espectadores pediram em altos gritos que
fosse perdoada a vida ao escravo e que se lhe desse o leão. Assim se
fez.
E daí por diante, viu-se pelas ruas de Roma Androcles
levando ao lado o seu libertador, seguro unicamente por uma simples
correia.
O povo cobria-o de flores e dava-lhe dinheiro.
Como este, poderiam contar-se muitos outros casos de
animais reconhecidos aos benefícios que receberam dos homens.
Só se quisermos colocar-nos abaixo deles é que
desceremos a maltratá-los e abusaremos cobardemente da força que
Deus nos concedeu dotando-nos de inteligência.

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