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Grandes tópicos
O novo Papa negro
DE 1 a 8 de Setembro esteve reunido em Roma o
conclave dos 78 provinciais da Companhia de Jesus, para proceder à
eleição do sucessor do padre Martin, o Geral há pouco falecido.
Contra toda a expectativa, foi eleito, por 42 votos,
o padre alemão Francisco Xavier Wernz. E dizemos contra toda a
expectativa, porque quem parecia reunir maior número de sufrágios
era o padre Freddi, indicado pelo falecido Geral para seu sucessor –
e segundo a praxe estabelecida e seguida até agora, os conclaves
obedeciam sempre a essa indicação suprema.
A escolha de Wernz foi, segundo se afirma, por um
lado, o resultado dos esforços nesse sentido feitos por Guilherme lI,
que pretende conquistar as boas graças da Companhia de Jesus, a fim
de se assegurar o apoio incondicional do Centro Católico, e, por
outro, uma homenagem prestada pelo próprio conclave ao kaiser, que
há tempos fez abrogar a lei que interdizia aos jesuítas a sua
permanência na Alemanha.
O padre Wernz é um dos mais considerados membros da
Companhia de Jesus. Nascido em Rothwein (Wurtenberg), em 1842,
entrou para a Ordem em 1881, tornando-se a breve trecho notado pelas
manifestações do seu grande talento. Indo para Roma em 1884, era
pouco depois nomeado professor de direito Canónico da Universidade
Gregoriana, cargo que exerceu até agora.
Escreveu um Manual de direito canónico que os
entendidos consideram uma obra-prima.
A Igreja e a França
A encíclica Gravíssimo, em que o papa
aconselhou os católicos da França à resistência à lei de separação,
começa a surtir os seus efeitos. Esperava-se, a princípio, que os
bispos franceses, conhecendo perfeitamente a situação e estando
portanto em condições de avaliarem melhor do que o pontífice as
consequências dessa política, o levassem a transigir um pouco – o
quantum satis – para se conseguir uma entente entre os dois
poderes em conflito. Em vez disso, os prelados, que aliás se
vangloriavam de ser «primeiro franceses e depois romanos»,
publicaram colectivamente uma carta aos fiéis, recomendando-lhes o
mais absoluto desprezo pela lei.
O resultado desta atitude não se fez esperar:
declarou-se logo um sisma no catolicismo francês. Numerosos
católicos de representação, tendo à frente o conhecido jornalista
Henry des Houx, dirigiram uma proclamação «aos católicos praticantes
de toda a França», incitando-os a unirem-se numa liga destinada a
constituir as associações cuItuais criadas pela lei de separação. E
a este apelo responderam imediatamente milhares de pessoas.
Eis a situação, tal como se apresenta à hora a que
escrevemos. Como ela se resolverá não é fácil prever, mas quase pode
afirmar-se que não será por forma a deixar mais fortalecida a Igreja
romana. Antes pelo contrário! / 339 /
Na Rússia
DECIDIDAMENTE os dirigentes russos perderam a cabeça
– e isso é o pior que pode suceder a quem se propõe dirigir povos.
Com efeito, só assim se explica a sua sistemática teimosia em
pretenderem abafar com actos da mais feroz violência, não já os
protestos mas os queixumes do escravizado povo russo. Fazendo
sucessivas promessas de, aliás estreitíssimas concessões,
sucessivamente tem o governo faltado a elas, e à mais pequena
manifestação de desagrado da opinião pública, manda que o povo seja,
indistintamente, castigado, a golpes de sabre ou a tiros de
carabina, quer pelos cossacos, quer pela tropa, quer ainda pelos
membros dessas verdadeiras associações de malfeitores que se
constituíram com o pretexto de defender a intangibilidade do poder
autocrático.
Ultimamente, por exemplo, queixando-se a
municipalidade de Odessa, ao general Kaulbars, governador da cidade,
das extraordinárias violências cometidas pelos membros duma dessas
associações – a União do povo russo – o general respondeu que o
governo considerava esses elementos como utilíssimos ao país. E como
os pobres edis lhe observassem timidamente, que as vítimas dessas
violências eram quase sempre criaturas inofensivas, o governador
retorquiu: «Lamento muito isso, mas devo dizer que, nesse caso, a
população é justamente punida por tolerar no seu seio os
revolucionários, em vez de os entregar às autoridades. Suponho que
não haverá mais conflitos, mas se qualquer dos membros da União
aparecer assassinado, Odessa será imediatamente afogada em sangue»!
Lê-se isto e não se acredita que semelhantes palavras
possam ser pronunciadas por um representante do governo, por um
fiscal da lei, por quem tem por missão manter a ordem! E não só o
foram, como traduzem fielmente o espírito que anima o governo,
explicando ao mesmo tempo os actos que diariamente são praticados na
Rússia por sua ordem! Assim, não admira que, por seu turno, os
revolucionários se desforrem, dando cada vez mais incremento à
campanha de extermínio em que andam empenhados. A ela succumbiu há
pouco o general Trepoff, um dos maiores responsáveis da actual
situação da Rússia, e a ela decerto sucumbirão todos aqueles que
procurem impedir por semelhantes processos a libertação do império
moscovita.
A Constituição Persa
HÁ um mês que a Pérsia é um país constitucional.
Mouzaffer-ed-Dine, o soberano asiático que mais conhece a Europa,
resolveu-se finalmente dar uma constituição ao seu império, cedendo,
por um lado, ao desenvolvimento das ideias modernas que nele têm
sido espalhadas pelo elemento jovem, educado à europeia e às
reclamações populares, por vezes violentas, resultantes das
execuções de todo o género cometidas pelo gran vizir Amel-Daoulé, e,
por outro lado, reconhecendo talvez que o regime constitucional,
aplicado de uma certa maneira... não faz perigar os tronos.
Assim, a Constituição persa é uma constituição...
oriental. Outorgando-a, o schah não se despoja da sua
soberania, para se converter em mandatário da vontade do povo:
resolve-se a convocar uma assembleia nacional, mas prescindindo o
mais possível do elemento popular. Essa assembleia que reunirá
«quando as circunstâncias o exijam» e contra cujas decisões poderão
opor o seu veto o schah e o gran-vizir, compreenderá: um
grupo de príncipes; a delegação dos hadjars (membros da tribo
de onde provém a dinastia / 340 / imperial); a delegação dos
mollahs (sacerdotes); negociantes, membros de diversas
corporações e proprietários.
A assembleia é eleita por todo o cidadão que saiba
ler e escrever, tenha mais de 30 e menos de 70 anos e possa
apresentar folha corrida. Para o efeito eleitoral, a Pérsia é
dividida em 13 circunscrições, cada uma das quais elegerá de 6 a 19
representantes, excepto a que é constituída pela capital que elegerá
60. Os deputados em número total de 156, serão eleitos por 2 anos e
invioláveis.
As eleições serão para dois graus na província e
directas na capital.
Em Cuba
CONTA-SE que, ao assumIr a presidência da República
cubana, o velho patriota Estrada Palma, conhecendo bem a índole dos
seus concidadãos, dissera tristemente: «Vou ocupar um cargo que
ninguém mais, depois de mim, ocupará.» Diz o adágio que ninguém é
profeta na sua terra, mas o facto é que essa estranha profecia está
tendo, à hora a que escrevemos, um começo de realização.
Em fins de agosto o telégrafo anunciava-nos que em
Cuba rebentara uma insurreição. A princípio ninguém ligou grande
importância a esse facto, muito vulgar nas repúblicas americanas de
origem espanhola; mas a breve trecho começou a notar-se que o
governo cubano era impotente para sufocar a revolta que, de dia para
dia, tomava maior incremento, ameaçando alastrar-se para toda a
ilha. E, convergidas então as atenções mundiais para a Pérola das
Antilhas, averiguou-se que o movimento revolucionário havia sido
fomentado, entre os liberais, por meia dúzia de aventureiros
despeitados que, tendo tomado parte, mais ou menos importante, na
campanha da emancipação de Cuba, se supunham, por isso, com direito
a um futuro cheio de benesses e honrarias, com o que o governo
constituído não esteve de accordo.
Adquirindo, finalmente, a certeza de que o governo
não lhe satisfaria as ambições, os despeitados pegaram em armas, e
para melhor acentuarem que não era uma questão de justiça ou de
patriotismo o que os movia, não se limitaram a atacar as tropas
fieis: começaram fazendo verdadeiras razias nas propriedades
americanas, causando prejuízos avaliados em alguns milhões de
dólares. / 341 /
Deu-se o que em de prever: a intervenção dos Estados
Unidos, garantida a este país no artigo 3.º do tratado concluído com
a República cubana, pelo qual a independência dela foi proclamada.
Intervindo, porém, os Estados Unidos assumiram apenas, a princípio,
o papel de mediadores, e isso mesmo com manifesta repugnância. Numa
carta enviada ao ministro cubano em Washington, com o carácter de
mensagem ao povo cubano, o presidente Roosevelt escrevia:
«Conjuro todos os patriotas a unirem-se, a esquecerem
questões pessoais e a lembrarem-se de que o único meio de ser
conservada a independência da sua república é evitarem a necessidade
de uma intervenção estrangeira para a arrancar à anarquia e à guerra
civil.»
Os revolucionários não fizeram caso destas nobres
palavras e agravando-se cada vez mais a situação, o presidente
Estrada Palma pediu a sua demissão ao Congresso, que Iha aceitou.
Nesse mesmo dia, 29 de Setembro, o Sr. Taft, ministro da guerra dos
Estados Unidos, proclamou-se Governador de Cuba e fez desembarcar na
ilha tropas americanas.
Eis, pois, novamente, os Estados Unidos na posse de
Cuba. Em que qualidade? Evidentemente na de simples protectores. O
exemplo das Filipinas tirou à grande nação americana a vontade de se
meter noutra aventura do mesmo género. E esse protectorado,
razoavelmente imposto à pequena república antilhana, terminará
decerto quando ela se mostrar digna da sua independência. Em todo o
caso, a acção dos Estados Unidos é encarada suspeitosamente por
muitas potências, que atribuem propósitos de imperialismo, onde
porventura apenas existem interesses comerciais.
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