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É a GRAFOLOGIA uma ciência relativamente nova, mas que já conta,
entre os seus mais devotados cultores, individualidades como
Lombroso, Héricourt, Crepieux Jamin, Engen Kirchner e outras, cujos
nomes bastam a acreditá-la. OS "SERÕES" dão hoje, devido à pena do
nosso colaborador Sr. Cruz Andrade, um desenvolvido artigo sobre
esta ciência, que no estrangeiro tem conseguido apaixonar um grande
número de estudiosos e que, por certo, despertará entre os nossos
estimáveis leitores o mesmo Interesse.
Portugal
ainda hoje há muito quem sorria, apiedado, do que em sua presença
afirme que pela escrita se pode avaliar das qualidades, defeitos e
tendências, educação ou estado físico da pessoa que escreve.
Todavia, quem assim procede demonstra somente um espírito ilógico ou
superficial, porque todos nós constatamos ou podemos constatar que,
em determinadas circunstâncias, a nossa própria letra sofre
modificações sensíveis. É ainda devido a estas frequentes
modificações que alguns julgam a grafologia incapaz de traduzir a
individualidade psíquica, porque, dizem: «eu escrevo de diferentes
maneiras; a letra em que começo uma carta é raras vezes igual àquela
em que a termino». Isto é certo, em parte. Com efeito, os indivíduos
de grande sensibilidade e de grande imaginação oferecem esse
exemplo, que em nada desvaloriza a teoria, porque, se bem
observarmos, notaremos que essa diferença consiste apenas nos traços
acessórios e nunca nas formas gerais da escrita; estas revelam, por
consequência, ao grafólogo os traços fundamentais do carácter e
aqueles as disposições acidentais.
Ilustremos a teoria: O leitor acaba de receber uma
notícia que o encheu de júbilo e vai por sua vez comunicá-la uma
pessoa querida. A letra, habitualmente sóbria e horizontal,
apresenta-se agora dinamogénia(1), movimentada, ascendente,
isto é, tendendo a afastar-se da horizontalidade habitual (fig. 1).
Contrariamente, se a comunicação a fazer procede dum profundo
sentimento de desgosto, de aniquilamento, a escrita será inibida(2), hesitante, contraída e descendente (fig. 2). Isto
porque, no primeiro caso, houve aumento de actividade, traduzido por
movimentos expansivos, centrífugos, e, no segundo, um
enfraquecimento, que se denuncia por movimentos inibitórios,
centrípetos.
Ora a escrita não é senão uma série de pequenos
gestos, um conjunto de movimentos exteriorizados – prolongamento do
movimento cerebral que constitui a vida psíquica.
Possuindo cada indivíduo um modo especial de
gesticular, em harmonia, é claro, com o processo de reacção do seu
organismo, assim também por cada indivíduo existe uma fisionomia, um
tipo especial de escrita, em / 322 / harmonia não só com as suas tendências, mas
também com as suas faculdades.
Partindo destas conclusões admite-se que, para cada
sensação, exista um tipo de reacção e um gesto correlativo, e que,
se pela vontade podemos sufocar no trato quotidiano a manifestação
externa desses movimentos, na escrita, que é, repetimos, uma
série de pequenos gestos espontâneos e instintivos quase sempre, é
isso totalmente impossível.

A grafologia é, desde logo, a ciência de observação
que maiores compensações oferece no estudo da psicologia humana
porque, se é certo que um simples gesto revela a um olhar
investigador, um determinado estado de alma, é evidente a
superioridade do gesto escrito, que tem sobre aquele, inapreciável
muitas vezes por falta de comparação, a vantagem de ser permanente e
permitir a análise de estados semelhantes.
Têm a mais cabal aplicação em grafologia as seguintes
conclusões a que chega o Dr. Héricourt, no seu estudo sobre a
manifestação exterior dos sentimentos:
«É de observação corrente, quer se trate de gestos
espontâneos, inconscientes, ou de uma mímica sabiamente estudada;
Que a energia da vontade se traduz por gestos
pesados, fortemente acentuados;
Que a uma exposição clara e límpida corresponde o
gesto ponderado e nitidamente desenhado;
Que as pessoas sensíveis tomam, como se diz
vulgarmente, uns ares inclinados (air penché);
Que o egoísmo parece sempre designar-se por
movimentos centrípetos, que lhe são habituais;

Que o homem franco possui um gesto aberto e nítido;
Que a dissimulação tem o gesto fugitivo como o olhar
e que os seus movimentos, como as suas frases, parecem estar sempre
incompletos;
Que o exaltado se conhece de longe pela amplitude dos
seus movimentos;
Que o homem alegre e saudável tem os gestos vivos e
ascendentes, enquanto a tristeza faz inclinar a cabeça e pender os
braços;
Que o amável evita os movimentos angulosos, sempre
quadrados ou Pontiagudos, no homem rude e de trato desagradável;
Que a graça arredonda os movimentos e descreve
círculos;
Que o homem simples se faz notar pela sobriedade e
igualdade das suas maneiras,»
Basta, pois, subordinar ao termo escrita os
termos gesto, atitude e movimento, para se
possuir a base da teoria que forma o objecto deste estudo.
A energia da vontade denuncia-se na escrita por
traços fortes e seguros;
A sensibilidade pela inclinação da letra;
O egoísmo por curvas reentrantes e traços
sinistrogiros, isto é, dirigidos da direita para a esquerda
especialmente no fim das palavras.
A franqueza é caracterizada pela abertura das letras;
A dissimulação revela-se por palavras terminando em
ponta, frequentemente ilegíveis;
A exaltação amplifica os traços;
A alegria dá os traços vivos, leves e ascendentes;
A amabilidade apresenta a letra arredondada, com
ausência de curvas reentrantes; e,
Finalmente, a simplicidade revela-se pela
simplicidade e igualdade da escrita.
Isto basta para fazer compreender a grande utilidade
deste estudo e para que se justifique a importância que a grafologia
adquiriu já em alguns países, especialmente na utilitária
Inglaterra, onde é frequentemente solicitada a dar o seu conselho em
negócios do maior interesse.
Edificante sob este ponto de vista a seguinte
anedota: (3)
«O casamento de M.lle de Duras com o marquês de
Custine devia efectuar-se em breve, Uma manhã a duquesa de Duras
tinha no seu salão, além dos noivos, o conde de Nieuwerkerke, / 323
/ o barão de Humboldt e outras pessoas. O barão pretendia que para
conhecer o carácter lhe bastava ver a escrita da pessoa, e esta
pretensão, já confirmada por bastantes experiências, era nessa manhã
o assunto de conversação.
– Vejamos, diz subitamente M.me Duras, entregando-lhe
uma carta que lhe haviam passado. Vejamos, Sr. Humboldt, se podeis
julgar pela escrita dessa carta o carácter de quem a escreveu.
O barão, um grande sábio alemão que era,
concentra-se, examina, começa uma dissertação sobre a forma das
letras, a sua fisionomia e sua singularidade; depois começa a
demonstrar que a criatura de quem elas procedem é um ser
extraordinário, de gostos extravagantes, de imaginação corrupta,
imoral... Enfim, traça um retrato abominável, apesar dos esforços da
duquesa para o interromper (mas não se interrompe com facilidade um
sábio alemão), porque a pessoa julgada era nem mais nem menos do que
o próprio marquês de Custine.
O casamento não se efectua. Custine casa com M.me de
Courtomer, e torna-se o ser inqualificável que conhecemos. O Sr. de
Humboldt não se havia enganado».
Quantos desgostos se poderia evitar se se conhecesse
melhor as pessoas com quem privamos diariamente e quantos amigos...
figadais não seriam por esta forma desmascarados!
A utilidade deste estudo estende-se a todas as
circunstâncias da vida social; em família, para orientar os pais
sobre o modo de vida que mais se harmoniza com as qualidades e
aptidões dos filhos; no comércio, para se conhecer o valor moral dos
correspondentes e empregados (meio de informação muito praticado
actualmente na Inglaterra); em questões de casamento, para conhecer
as qualidades ou defeitos dos noivos; no professorado, como ramo
precioso de psicologia pedagógica; aos médicos-legistas, para
verificação da inculpabilidade dos acusados e do seu grau de
responsabilidade; e, enfim, no trato quotidiano, para conhecermos as
pessoas com quem tratamos, o que também vale alguma coisa. / 324 /
*
* *
Vamos, pois, fornecer aos nossos leitores umas breves
mas claras noções da nova ciência, que lhes permitirão empreender,
desde já, um estudo que tem tanto de útil como de agradável.
Antes, porém, umas ligeiras observações acerca da
escolha dos documentos a analisar, e convém analisar muitos, porque
a faculdade de observação afina-se e desenvolve-se, como qualquer
outra, pelo exercício. Os documentos são, sob o ponto de vista
grafológico, bons ou maus. São bons os que revelem naturalidade e
espontaneidade: cartas íntimas em que o indivíduo se mostra como é,
ou rascunhos, quando não estejam ilegíveis. São maus os escritos a
lápis, porque o lápis
deforma certos traços de grande importância,
as cópias oficiais, autógrafos litografados, escritas comerciais,
caligráficas, ou escritos em papel ordinário que modifique a letra
por uma rápida absorção da tinta, com pena incapaz e, finalmente,
com má posição do braço. Deve evitar-se também os que denunciem
grande agitação, porque podem ser mais o produto duma exaltação
passageira do que o de um estado permanente do espírito.
Neste caso devemos procurar autógrafos diferentes da
mesma pessoa, e, se em todos se observa a mesma perturbação,
poderemos concluir que o indivíduo é portador de qualquer doença
mental, – as resultantes dirão qual é. Nunca nos devemos pronunciar,
quando não possuamos uma longa prática, sobre uma escrita apenas e,
muito menos, sobre um traço isolado, ainda que muito significativo,
porque frequentemente são destruídos por outros ou pelas resultantes
psicológicas de que mais adiante falaremos, o que significa, em tais
casos, lua entre as várias tendências, com triunfo por parte da que
for dominante.
*
* *
Sendo a carta íntima o melhor documento, admitamos
que é sobre ela que temos de fazer o nosso estudo. Em primeiro
lugar, notaremos a marginação, de que há seis espécies principais; a
primeira (fig. 3) distingue-se pela ausência, o autor como que
receio que o papel lhe venha a faltar e economiza-o. É / 325 /
sinal de avareza e tanto maior se as letras estão como que
empilhadas e as palavras sem a separação normal.
(4)
A pequena margem (fig. 4) mostra ainda um indivíduo
económico, mas duma economia menos sórdida, proveniente duma
compreensão mais inteligente das necessidades da vida; todavia, não
é generoso.
A margem crescente (fig. 5) é vulgar nas pessoas de
poucos meios e com hábitos de despesa; significa a vitória destes
hábitos.
A grande margem (fig. 6) revela grandeza de vistas,
se os sinais de cultura são fortemente acusados; e, de uma maneira
geral, generosidade, que pode ir até à prodigalidade se os outros
sinais concordam.
A margem decrescente (fig. 7) indica simplesmente o
triunfo da economia sobre a despensividade. É a margem dos chefes de
família, que sacrificam às necessidades domésticas os seus hábitos
de despesa.
Por último, temos a margem em enquadramento (fig. 8),
que indica um espírito claro e muito sensível à harmonia da forma. É
a margem dos poetas e dos artistas em geral.
Notaremos em seguida o conjunto, que exprime o
processo mental do escrevente, sob os pontos de vista da
legibilidade, dimensão das letras, nitidez, direcção das linhas,
ligação, plasticidade e sobriedade da escrita.
Legibilidade. A escrita bem legível indica franqueza,
abertura de alma, quando não é exclusivamente caligráfica, porque
neste caso significa nulidade ou preciosismo. A escrita legível a
que nos referimos é aquela que, sendo-o eminentemente, se afasta das
regras caligráficas (fig. 9). A escrita ilegível indica naturalmente
o contrário.
Grandeza. A letra mede nos nossos dias dois
milímetros, aproximadamente, a minúscula e um centímetro a
maiúscula. A letra normalmente grande (fig. 10) diz aspirações
elevadas, concentração, timidez, orgulho, generosidade, concepção
lenta ou presbitia.
A letra pequena (fig. 11) mostra um juízo / 326 /
analítico estreito com tendência a perder-se nos detalhes, sem dar
jamais um pensamento completo; é também um indício de minuciosidade,
de finura ou de miopia.

Nitidez. A escrita nítida (fig. 9) significa energia,
precisão, clareza e ordem nas ideias.
A confusa, devido principalmente ao entrelaçamento
das letras e ao seu grande movimento, revela confusão nas ideias,
imaginação viva e desregrada; quando muito apertadas umas contra as
outras, indica também egoísmo e avareza.
A direcção das linhas, segundo a expressiva imagem do
eminente grafólogo francês Marius Decrespe, está para o escrevente
como o barómetro para as variações da pressão atmosférica, mostra o
humor com que ele encara os acontecimentos.

A escrita ascendente (fig. 1) diz entusiasmo,
ambição, triunfo, ardor, alegria, agitação, sensibilidade exagerada,
reacção contra um estado depressivo.
Escrita descendente (fig. 2). Tristeza, «surmenage»
intelectual, sensibilidade doentia, falta de confiança em si mesmo,
fadiga.
Escrita horizontal, – sensibilidade mínima ou, então,
vontade persistente de homem que vai direito ao seu fim, sem
entusiasmos, mas também sem hesitações.
Serpentina (fig. 12) diz trabalho de pensamento,
sensibilidade, hesitação, cultura de espírito. Na escrita grosseira
é também um sinal de malícia.
Ligação. Um dos resultados mais interessantes da
grafologia é o de poder conhecer pela ligação da escrita o valor
mental de quem escreve e é ao mesmo tempo um meio de apreciação de
que a crítica psicológica não pode dispensar-se. A escrita pode ser
ligada, semi-ligada ou justaposta.

A ligação das letras nas palavras, e às vezes as
próprias palavras ligadas entre si (escrita ligada fig. 12), indica
um espírito dedutivo, lógica, sequência nas ideias com tendências
para o positivismo intelectual; se coexistem sensibilidade,
vivacidade de concepção e imaginação, resultará um exagerado para
quem os factos mais insignificantes revestem proporções assombrosas.
A ligação das palavras indica mais especialmente
actividade de espírito, precipitação.
(5)

Letras ligadas por grupos (escrita semi-ligada)
mostra um espírito assimilador, apto a todos os estudos, mas sem
grande superioridade em nenhum deles, ecletismo, actividade de
espírito.
A escrita justaposta, aquela em que as letras estão
separadas na palavra (fig. 13), diz sensibilidade e
impressionabilidade intelectuais, espírito de sistema, intuição.

A inclinação corresponde ao grau de emotividade do
escrevente. É um dos pontos mais importantes da grafologia; convém
por isso prestar-lhe detida atenção. Para melhor compreensão,
extraímos do precioso livro do Dr. Eugen Kirchner, «Geistiges
Training», copiado seu grafómetro (fig. 14), que temos por muito
prático e sobretudo de facílima aplicação. Basta reproduzir a figura
em papel vegetal e ajustar depois à linha da escrita a linha A-B do
grafómetro.
Em grafologia, como em todas as ciências de
observação, há lacunas que ao observador compete preencher. Por
exemplo, aplicado o grafómetro, a letra projecta-se entre o ângulo
«sensibilidade» e o ângulo «paixão»; isso revela, naturalmente, uma
sensibilidade mais viva. Se ficar no ângulo «sensibilidade» mais
próximo do ângulo «frieza», indicará, pois, uma sensibilidade menos
viva e mais contida. / 327 /
A escrita vertical indica clareza, razão,
inflexibilidade, frieza e algumas vezes dureza de coração.
A escrita habitualmente inclinada para a esquerda diz
dissimulação, reserva, sensibilidade contida. Acidentalmente
inclinada para o mesmo lado: desconfiança, dissimulação; ordem e
clareza, quando se trata de documentos oficiais. Nota-se que, se
pretendemos disfarçar a letra, instintivamente a inclinamos para a
esquerda. As cartas anónimas são geralmente escritas nesta letra.
A plasticidade acusa o grau de sentimento estético.
Com efeito, a letra não é bela porque seja perfeita no sentido
caligráfico do termo, – nota-se até que a letra assim é quase sempre
monótona e inexpressiva, – é bela quando denuncia mais ou menos a
individualidade do autor. A letra da figura 15 é, caligraficamente,
imperfeita; é bela, porém, sob o ponto de vista grafológico, por
muito expressiva da cultura artística do autor.
A escrita agradável (fig. 9) indica talento,
afabilidade, sentimento da forma. É a escrita das pessoas ao lado
das quais se passa o tempo depressa.
A desagradável (fig. 16) pode ainda revelar talento,
o que é frequente, mas será um talento sem relevo, que não interessa
nem procura interessar; pode também indicar bondade, se outros
sinais concordam; o que nunca poderá indicar é afabilidade, hábitos
de sociedade, doçura de maneiras.
A escrita excêntrica, se agradável (fig. 15), diz
sentimento da forma, horror do vulgar, orgulho hierárquico,
sensibilidade artística; se desagradável ou banal (fig. 19) loucura,
infantilidade, pretensiosismo.
A escrita banal (fig. 18) indica naturalmente uma
inteligência sem relevo, incapaz de possuir ideias e até de as
assimilar.
A sobriedade indica a importância que o escrevente dá
às particularidades e às coisas essenciais.
A escrita é a que não tem excessos nem faltas, diz
ordem, prudência, espírito de rotina, reserva, desejo de aprovação.
Quando os sinais da vontade não são muito acusados, pode significar
também modéstia e simplicidade.
A escrita seca é a que não apresenta traço algum
desnecessário, que parece mais desenhada do que escrita, – ausência
de afectividade e de imaginação; se com tal escrita as letras são
angulosas, estamos em presença de um egoísta e de um avarento, capaz
de rivalizar com a célebre personagem de Molière.
A escrita ornada de floreados e traços acessórios
inúteis (fig. 19) acusa futilidade, pretensão, fatuidade; e
coqueteria na mulher.
A escrita pastosa (fig. 20) revela sensualidade
grosseira, glutonaria, materialidade de gostos.
*
* *
Vamos dar algumas indicações sobre os sinais de
cultura na escrita. Ninguém, medianamente instruído, confunde a
letra dum intelectual com a letra inestética, embora caligráfica,
dum indivíduo vulgar. Há, porém, certas particularidades que
permitem reconhecer, cientificamente, se é ou não culto o indivíduo
a quem a escrita pertence. A do homem inferior é geralmente confusa,
lenta, sem relevo e sem harmonia; a do homem intelectualmente
superior é, ao contrário, quase sempre nítida, firme, sóbria, muitas
vezes em excesso, como na fig. 2, e harmónica. Ao passo que a
primeira é pesada e sobrecarregada de traços inúteis, a segunda
apresenta-se rápida, por excessivamente dextrogira, e simplificada.
Ninguém decerto hesitará, ante a / 328 / fig. 2, eminentemente
simplificada e rápida, e a fig. 20, pastosa, lenta e sem relevo, em
declarar qual delas denuncia a cultura de espírito.

Muitos sinais de cultura são-no também de
inteligência, como nas seguintes palavras o explica o sábio
grafólogo Crepieux-Jamin: «a nitidez da escrita, que indica a
nitidez da concepção psicológica, é sinal de inteligência; indica
também a faculdade de transmissão do pensamento pela e, em tal]
caso, é um sinal de cultura». Todas as modificações na forma da
letra que a simplifiquem e abreviem podem ser consideradas sinais de
cultura. O d ligado à letra imediata, por meio da
haste que descreve uma curva para a esquerda e se lhe vem depois
ligar, o f e o e de fazer e o p
da fig. 2 são o que possa haver de mais simplificado e dextrogiro.
As letras de forma tipográfica são, ao mesmo tempo que um sinal de
cultura, um de sentimento estético.

Vejamos agora o sexo na escrita. Para muitos
grafólogos da escola do abade Michon, o glorioso fundador da
grafologia, não há sinais que revelem claramente o sexo do
escrevente; contudo, concordam em que há escritas das quais se pode
dizer à simples vista que pertencem a um ou a outro sexo. É um
ilogismo como qualquer outro, porque, sendo essa diferença notável,
há-de, necessariamente, poder-se determinar pela análise e pela
comparação quais os sinais que revelam a feminilidade e quais os
inerentes ao sexo contrário. Jamin faz notar que do sexo resulta uma
grande diferença social, que a mulher tem uma actividade diferente
da do homem, outras aspirações e, portanto, outras preocupações; e
Marius Decrespe chega a formular um conjunto de regras, apoiadas
numa paciente observação e numa lógica incontestável, pelas quais se
pode determinar ao primeiro exame o sexo do escrevente.

«Notaremos, antes de tudo, diz ele, que todas as
coisas se resolvem em duas paridades: o activo e o passivo, o
positivo e o negativo, o masculino e o feminino. Estas duas
polaridades são fáceis de estudar na escrita e podemos resumir todas
as formas possíveis num pequeno número de traços principais, na
significação dos quais se decomporão todas as observações que se
puderem fazer:

/ 329 / Tais são os principais sinais que se deve recordar,
que servem para explicar todos os outros; poderia, evidentemente,
encontrar-se um maior número, mas estes chegam para a prática
corrente, como vamos explicar:
O homem é a razão, a prática, a realização, a
concentração individual, o movimento que evita o centro comum, o
ódio, a força (sobretudo material); a mulher é a imaginação, o
ideal, a teoria, a expansão do eu para a universalidade das coisas,
é o amor e a fraqueza intelectual e física, mas é a força moral, a
paixão, da mesma forma que o homem é a acção apática (no sentido de
sem paixão), e voluntária; a mulher sonha e deseja, o homem trabalha
e efectua, – como na fábula O cego e o paralítico, a mulher
indica a estrada e o homem caminha.

Mas de que serviria o seu sonho se lhe fosse
impossível a realização? Para que serviria o trabalho do homem se a
ideia não viesse guiá-la e fecundá-la? Um indivíduo que não tivesse
senão as faculdades masculinas ou somente femininas seria uma
monstruosidade incapaz de fazer coisa alguma. A Providência quis,
pois, que a força de uma e outra polaridade fosse repartida pelos
dois sexos da seguinte maneira:
HOMENS MULHERES
Espírito-Razão (faculdade masculina) Intuição
(faculdade feminina
Alma-Entusiasmo (faculdade feminina Bom
senso (faculdade masculina)
Corpo-Sexo
masculino. Sexo feminino.
São os tipos normais e vê-se que o homem não é mais
completo sem a mulher do que a mulher sem o homem. Existe, porém, um
grande número de tipos nos quais a proporção supra não é guardada;
todavia, como o espírito, a alma e o corpo, que reciprocamente se
influenciam, devem sempre manter um certo equilíbrio, e como nós não
podemos mudar de sexo à vontade, enquanto encarcerados no corpo
material, é impossível que um indivíduo do sexo feminino, por
exemplo, tenha exactamente todas as qualidades ou defeitos que
poderia ter um homem, e reciprocamente.
Resulta do que precede que, numa escrita, na mão ou
numa fisionomia qualquer, deve sempre encontrar-se um certo número
de sinais masculinos e femininos, e que um homem, por muito
efeminado que seja, apresentará sempre maior número de sinais
masculinos, assim como no mais rude dos viragos será maior o número
dos sinais femininos. A igualdade perfeita não se realizaria senão
nos hermafroditas e ainda, num grande número de casos, um sexo
prevaleceria sobre o outro.» As figuras 10, 17 e 20 dão-nos tipos
acabados de escrita feminina.

Uma das qualidades que importa conhecer no indivíduo
é o seu grau de vontade, quer se pense como Schopenhaur, que ela é a
base do carácter, ou como Fouillée, que todos os fenómenos
intelectuais, sensação, projecção exterior, consciência do eu, e da
sua existência contínua, sem ela se explicam. É certo que as
manifestações do carácter se inscrevem num triângulo cujos vértices
são a inteligência, a moralidade e a vontade e que toda a
classificação do carácter baseada apenas num desses vértices seria
insuficiente e anti-científica; não obstante a vontade, que
pressupõe um certo grau de adaptação mental a um fim próximo ou
remoto, mas consciente e necessário, é já um indício seguro de
inteligência. Com efeito, não podemos conceber mais facilmente um
Napoleão sem vontade, do que um Balzac ou um Wagner; cada um na sua
esfera de acção triunfa pela sua energia; ora, a própria energia não
se torna querer senão quando obedece a um plano inteligente.
Vejamos, pois, quais os sinais mais característicos da vontade: são
naturalmente todos os que dependem de um movimento espacial e estão
por consequência menos subordinados à tendência da escrita,
pontuação, acentuação, sublinhamento e traço transversal do t,
a que chamaremos, como os franceses, barra.

A barra do t fina e curta exprime fraqueza de
vontade ou vontade nula, quando, na escrita que as apresente, uma ou
outra vez brilhem pela ausência; a barra forte e curta ao / 330 /
meio da haste e em cruz diz vigor, vontade forte e conciliadora; a
resolução revela-se por uma barra em forma de fuso, projectando-se à
direita da haste e apoiando nela a parte mais fina; o t
cortado por um traço forte, curto e descendente indica teimosia,
significação que raras vezes é destruída por outros sinais. A barra
longa e fina diz fraqueza ou vivacidade; regular e colocada sobre a
haste, autoritarismo ou orgulho; se forte, despotismo; posta à
esquerda da haste, hesitação, timidez ou reflexão lenta; à direita,
decisão, iniciativa, audácia e algumas vezes, também, estouvamento.
O espírito crítico e a ironia mordaz são-nos revelados por uma barra
fusiforme, cuja ponta se projecta à direita da haste. São sinais de
tenacidade a barra, formando como que um nó em volta da haste ou,
simplesmente, formando com ela um ângulo agudo, a que se apresenta
com uma pequena curva nas extremidades, e, finalmente, a que, de
qualquer forma e habitualmente, marque um movimento mais pesado.

A pontuação cuidada indica minuciosidade, boa memória
e naturalmente cultura de espírito. Os sublinhados frequentes
revelam uma tendência ao exagero e são também a marca de um espírito
fútil ou pretensioso. A ausência de pontuação, numa escrita
inteligente, denuncia estouvamento, abstracção, especialmente quando
se trata do ponto sobre o i, a letra que no dizer de
entendidos forneceu o primeiro elemento de observação no estudo do
carácter pela escrita.
*
* *
O estudo de cada letra na escrita fornece também
muita luz e convém por isso prestar-lhe uma atenção especial. As
letras são, como sabemos, maiúsculas e minúsculas e medem, como
dissemos, um centímetro as primeiras e dois milímetros as últimas,
pouco mais ou menos. Aquelas que excedem de uma maneira notável o
limite de grandeza ou notavelmente o reduzem serão grandes ou
pequenas.
As maiúsculas grandes junto de minúsculas naturais ou
pequenas dizem orgulho, convencimento de um grande valor pessoal; as
maiúsculas pequenas dizem, ao contrário, grande humildade, modéstia,
que nem sempre exclui a ideia de valor pessoal, mas em tal caso é
uma prova de afabilidade e de extrema cortesia. As maiúsculas de
forma tipográfica indicam o literato e em geral o homem de gosto,
possuindo um grande sentimento da forma e da harmonia.
O A da fig. 21 indica simplicidade, bom humor;
tendências aristocráticas o da fig. 22, e orgulho o da 23.
Devido à grande variedade das suas formas, oferece o
B um grande número de significações. É-nos, porém, impossível,
devido ao pequeno espaço de que dispomos, multiplicar os exemplos. O
da fig. 23, que parece mais um número, indica menos o hábito de
lidar com algarismos do que uma certa excentricidade, que se
acompanha de um tal ou qual sentimento artístico; o mesmo poderemos
dizer do B (fig. 25).
Do C pouco se pode dizer, a não ser do que
afecta a figura de um semi-círculo e passa abaixo da linha, que
revela franqueza, instintos de protecção e é quase sempre um dos
mais seguros indícios de um carácter expansivo.
O D oferece, como o B, muitas
variedades de forma: o da fig. 26 dá-nos um egoísta que se compraz
na vida intelectual intensa e interior, e o da fig. 27 um romanesco
todo idealidade e imaginação.
É pobre de significação o E, devido a que, se
não toma o traçado aproximado da fig. 28, afecta a forma tipográfica
de significação igual para todas as letras.
Indica energia, decisão, espírito nada acessível a
coisas de sentimento o F (fig. 29) ; o da fig. 30 é, ao
contrário, a letra de um altruísta, ou melhor de um egoísta
benemérito, a quem lisonjeia a convicção de que é útil ao seu
semelhante. O da fig. 31 diz serenidade de ânimo, espiritualidade de
gostos e nobreza de sentimentos, com um tudo-nada de orgulho, porque
a perfeição não é deste mundo.
O G da fig. 32 indica razão lúcida e são / 331
/ equilíbrio das faculdades mentais ; o da fig. 33 grande
originalidade e uma alta educação artística; é o G do grande
Téofile Gautier, um dos mais delicados cultores da forma, que a
França tem produzido.
Nada tem de interessante o H; como indício,
porém, de simplicidade na escrita culta, apresentamos o exemplo
vulgar da fig. 34.
I,
J e K são pouco notáveis, especialmente a última,
devido à sua raridade no nosso idioma.
Indica orgulho da posição o L da fig. 35,
junto a um certo grau de infantilidade; diz ainda orgulho o da fig.
36, e, especialmente, desejo de ostentar.
O M da fig. 37 indica intelectualidade,
denunciada pela simplificação e pela forma quase tipográfica; os das
fig. 38 e 39 dizem tendências aristocráticas, pura aristocracia da
ideia, que pode acompanhar-se dos sentimentos mais democráticos, diz
especialmente desejo de não ser confundido na turba anónima pelo
convencimento de méritos próprios. Diz orgulho de nome ou da obra
cumprida o da fig. 40.
Tem o N, com formas semelhantes, as mesmas
significações do M.
Nada de apreciável no O.
Dá-nos o P da fig. 41 um espírito dominador,
mas generoso e afável; o da fig. 42, complicação de espírito, desejo
de agradar e também ausência de sentimento artístico.
Q,
letra pouco notável.
R,
o mesmo que B e P.
S,
o da fig. 43 diz sentimento da forma e o da fig. 44 singeleza de
maneiras, raiando na frivolidade.
T,
o da fig. 45 exprime claramente gostos materiais e pretensões
aristocráticas; cultura de espírito o da fig. 46.
U,
V, X, Y e Z, todas pouco interessantes,
a não ser sob o ponto de vista da energia do escrevente, que convém
observar na energia do traço e na tendência da curva a formar
ângulo.
As letras minúsculas são mais interessantes ainda,
pela frequência da sua repetição; com tudo, daremos apenas a
significação das principais, deixando ao leitor o prazer de
descobrir pela analogia as significações que não damos.
O a aberto por cima diz franqueza;
excessivamente aberto (fig. 47), irreflexão, dificuldade de calar um
segredo; contrariamente, o a fechado diz impenetrabilidade,
precaução; o da fig. 48 diz, além disso, egoísmo.
O c da fig. 49 pertence à escrita angulosa,
cuja significação é energia; o da fig. 50 à escrita arredonda, que
revela brandura, sentimentalidade.
Das letras minúsculas é o d a mais importante.
Damos seis exemplos nas fig. 51, 52, 53, 54, 55 e 56, que
significam, respectivamente: intelectualidade, franqueza e
sentimento da forma; – futilidade, pretensiosismo e desejo de
agradar; – entusiasmo e imaginação desregrada; – egoísmo; – trabalho
e cultura de espírito, bondade natural ou adquirida, consoante o
género de escrita em que se encontra; – finalmente,
descontentamento, sentimento / 332 / de impotência para a realização
da obra sonhada.
O e da fig. 57 é um magnífico exemplo de
actividade de espírito e de intelectualidade.
O i, letra muito interessante por causa do seu
ponto, da fig. 58 diz materialidade de gostos, grosseria,
sensualidade baixa e sentimentos do mesmo tom; diz ainda
sensualidade o da fig. 59, gostos mais elevados e actividade de
espírito; o da fig. 60 diz intuição, concepção pronta, mas pouca ou
nenhuma elevação de ideias; a fig. 61 indica, ao contrário, um
espírito lento, concepção difícil e tardia, mas exactamente igual ao
anterior em questões de moralidade; a fig. 62 é um belo exemplo de
intuição e de idealidade; e a 63, de estouvamento, falta de método
de atenção e talvez mesmo de memória se se apresenta numa escrita em
que haja faltas semelhantes, como, por exemplo, numa carta que tenho
presente, em que um ilustre escritor fala de um tal Francisco
Simões.
O m da fig. 64, que pertence a uma escrita
arredondada, indica um carácter mole e sem relevo; o da fig. 65
doçura de carácter, temperado contudo por uma boa dose de energia, o
que se vê do número de ângulos igual ao de curvas; o da fig. 66
indica um carácter inflexível, de antes quebrar que torcer; é a
letra dos homens de acção, dos que triunfam; é um terrível na
escrita do egoísta.
O p da fig. 69 indica o indivíduo que confia
em si próprio, ambicioso de honras e de poder; a fig. 70 diz
intelectualidade, franqueza e simplicidade; diz impenetrabilidade o
da fig. 71, que, não obstante, se acompanha de uma certa bonomia,
denotando também tendências estéticas.
Se o leitor tem relações com um indivíduo que traça o
seu t como o da fig. 72, é de amigo aconselhá-lo a que as
evite; é a marca do criminoso impulsivo e sem escrúpulos. Tive
ocasião de a notar em mais de meia dúzia de assassinos célebres;
Tropmann, Lacenaire e Koningstein, o conhecido Ravachol,
tracejavam-no semelhantemente.
*
* *
Pelas indicações acima, deve o leitor estar
habilitado a ajuizar do carácter aproximado de qualquer indivíduo
pela sua escrita, – é apenas uma questão de critério o resto. Não
deverá perder de vista que um traço isolado nada significa se não é
confirmado por outros do mesmo valor e que frequentemente coexistem
sinais que correspondem a sentimentos opostos. Quando tal sucede,
deve haver extrema cautela na apreciação. Se, por exemplo, numa
escrita encontramos sinais de autoritarismo, de despotismo mesmo e
ao mesmo tempo de sensibilidade, concluímos racionalmente que
estamos em presença de um egoísta. Com efeito, o egoísta é
sensível... pela sua pessoa e pelo que lhe diz respeito. Outro
exemplo: se numa escrita banal, que indica um espírito comum,
encontramos sinais de sensibilidade e de imaginação, concluímos que
o escrevente possui um juízo falso; compreende, se bem que um
espírito comum, sensível e imaginativo seja, por isso mesmo,
conduzido a erros de apreciação; o contrário seria ilógico. O
critério falso do escrevente, como o egoísmo, no primeiro caso, não
existem denunciados por sinais visíveis, aparecem como resultantes
de outros sinais.
Num dos próximos números publicaremos alguns retratos
grafológicos de homens eminentes nas letras e nas artes, insistindo
nesse trabalho de resultantes, que é, certamente, o mais difícil,
mas não o menos interessante da grafologia.
CRUZ ANDRADE
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(1)
– São dinamogénias, segundo Brown-Séquard, as
irritações nervosas que, mais ou menos instantaneamente, por uma
maior ou menor duração nas partes nervosas ou contrácteis mais ou
menos distantes do lugar da irritação, exageram mais ou menos uma
potência ou uma função.
(2) – São inibitórias, segundo o mesmo autor, as
irritações nervosas que, mais ou menos instantaneamente, por uma
maior ou menor duração nas partes nervosas ou contrácteis, mais ou
menos distantes do lugar da irritação, fazem desaparecer mais ou
menos uma potência ou uma função.
Subentende-se que a escrita é inibida,
acidentalmente, relativamente à dinamogeneidade habitual.
(3)
– Mémoires du comte Horace de Vieil Castel sur
le règne de Napoléon IIl.
(4) – É preciso não perder de vista que um sinal não
tem por si mesmo significação absoluta; procederia imprudentemente
quem pela marginação da carta (fig. 3) decidisse que o seu autor é
um avarento. A letra pertence a um espírito superior e esse defeito
de temperamento encontra-se modificado por outros traços. Tanto esta
como as outras cartas encontramo-las aqui, unicamente sob o aspecto
da marginação.
(5)
– A ligação nas inferiores indica falta de
ideação, trabalho difícil de pensamento.
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