É a GRAFOLOGIA uma ciência relativamente nova, mas que já conta, entre os seus mais devotados cultores, individualidades como Lombroso, Héricourt, Crepieux Jamin, Engen Kirchner e outras, cujos nomes bastam a acreditá-la. OS "SERÕES" dão hoje, devido à pena do nosso colaborador Sr. Cruz Andrade, um desenvolvido artigo sobre esta ciência, que no estrangeiro tem conseguido apaixonar um grande número de estudiosos e que, por certo, despertará entre os nossos estimáveis leitores o mesmo Interesse.
 

Portugal ainda hoje há muito quem sorria, apiedado, do que em sua presença afirme que pela escrita se pode avaliar das qualidades, defeitos e tendências, educação ou estado físico da pessoa que escreve. Todavia, quem assim procede demonstra somente um espírito ilógico ou superficial, porque todos nós constatamos ou podemos constatar que, em determinadas circunstâncias, a nossa própria letra sofre modificações sensíveis. É ainda devido a estas frequentes modificações que alguns julgam a grafologia incapaz de traduzir a individualidade psíquica, porque, dizem: «eu escrevo de diferentes maneiras; a letra em que começo uma carta é raras vezes igual àquela em que a termino». Isto é certo, em parte. Com efeito, os indivíduos de grande sensibilidade e de grande imaginação oferecem esse exemplo, que em nada desvaloriza a teoria, porque, se bem observarmos, notaremos que essa diferença consiste apenas nos traços acessórios e nunca nas formas gerais da escrita; estas revelam, por consequência, ao grafólogo os traços fundamentais do carácter e aqueles as disposições acidentais.

Ilustremos a teoria: O leitor acaba de receber uma notícia que o encheu de júbilo e vai por sua vez comunicá-la uma pessoa querida. A letra, habitualmente sóbria e horizontal, apresenta-se agora dinamogénia(1), movimentada, ascendente, isto é, tendendo a afastar-se da horizontalidade habitual (fig. 1). Contrariamente, se a comunicação a fazer procede dum profundo sentimento de desgosto, de aniquilamento, a escrita será inibida(2), hesitante, contraída e descendente (fig. 2). Isto porque, no primeiro caso, houve aumento de actividade, traduzido por movimentos expansivos, centrífugos, e, no segundo, um enfraquecimento, que se denuncia por movimentos inibitórios, centrípetos.

Ora a escrita não é senão uma série de pequenos gestos, um conjunto de movimentos exteriorizados – prolongamento do movimento cerebral que constitui a vida psíquica.

Possuindo cada indivíduo um modo especial de gesticular, em harmonia, é claro, com o processo de reacção do seu organismo, assim também por cada indivíduo existe uma fisionomia, um tipo especial de escrita, em / 322 / harmonia não só com as suas tendências, mas também com as suas faculdades.

Partindo destas conclusões admite-se que, para cada sensação, exista um tipo de reacção e um gesto correlativo, e que, se pela vontade podemos sufocar no trato quotidiano a manifestação externa  desses movimentos, na escrita, que é, repetimos, uma série de pequenos gestos espontâneos e instintivos quase sempre, é isso totalmente impossível.

A grafologia é, desde logo, a ciência de observação que maiores compensações oferece no estudo da psicologia humana porque, se é certo que um simples gesto revela a um olhar investigador, um determinado estado de alma, é evidente a superioridade do gesto escrito, que tem sobre aquele, inapreciável muitas vezes por falta de comparação, a vantagem de ser permanente e permitir a análise de estados semelhantes.

Têm a mais cabal aplicação em grafologia as seguintes conclusões a que chega o Dr. Héricourt, no seu estudo sobre a manifestação exterior dos sentimentos:

«É de observação corrente, quer se trate de gestos espontâneos, inconscientes, ou de uma mímica sabiamente estudada;

Que a energia da vontade se traduz por gestos pesados, fortemente acentuados;

Que a uma exposição clara e límpida corresponde o gesto ponderado e nitidamente desenhado;

Que as pessoas sensíveis tomam, como se diz vulgarmente, uns ares inclinados (air penché);

Que o egoísmo parece sempre designar-se por movimentos centrípetos, que lhe são habituais;

Que o homem franco possui um gesto aberto e nítido;

Que a dissimulação tem o gesto fugitivo como o olhar e que os seus movimentos, como as suas frases, parecem estar sempre incompletos;

Que o exaltado se conhece de longe pela amplitude dos seus movimentos;

Que o homem alegre e saudável tem os gestos vivos e ascendentes, enquanto a tristeza faz inclinar a cabeça e pender os braços;

Que o amável evita os movimentos angulosos, sempre quadrados ou Pontiagudos, no homem rude e de trato desagradável;

Que a graça arredonda os movimentos e descreve círculos;

Que o homem simples se faz notar pela sobriedade e igualdade das suas maneiras,»

Basta, pois, subordinar ao termo escrita os termos gesto, atitude e movimento, para se possuir a base da teoria que forma o objecto deste estudo.

A energia da vontade denuncia-se na escrita por traços fortes e seguros;

A sensibilidade pela inclinação da letra;

O egoísmo por curvas reentrantes e traços sinistrogiros, isto é, dirigidos da direita para a esquerda especialmente no fim das palavras.

A franqueza é caracterizada pela abertura das letras;

A dissimulação revela-se por palavras terminando em ponta, frequentemente ilegíveis;

A exaltação amplifica os traços;

A alegria dá os traços vivos, leves e ascendentes;

A amabilidade apresenta a letra arredondada, com ausência de curvas reentrantes; e,

Finalmente, a simplicidade revela-se pela simplicidade e igualdade da escrita.

Isto basta para fazer compreender a grande utilidade deste estudo e para que se justifique a importância que a grafologia adquiriu já em alguns países, especialmente na utilitária Inglaterra, onde é frequentemente solicitada a dar o seu conselho em negócios do maior interesse.

Edificante sob este ponto de vista a seguinte anedota: (3)

«O casamento de M.lle de Duras com o marquês de Custine devia efectuar-se em breve, Uma manhã a duquesa de Duras tinha no seu salão, além dos noivos, o conde de Nieuwerkerke, / 323 / o barão de Humboldt e outras pessoas. O barão pretendia que para conhecer o carácter lhe bastava ver a escrita da pessoa, e esta pretensão, já confirmada por bastantes experiências, era nessa manhã o assunto de conversação.

– Vejamos, diz subitamente M.me Duras, entregando-lhe uma carta que lhe haviam passado. Vejamos, Sr. Humboldt, se podeis julgar pela escrita dessa carta o carácter de quem a escreveu.

O barão, um grande sábio alemão que era, concentra-se, examina, começa uma dissertação sobre a forma das letras, a sua fisionomia e sua singularidade; depois começa a demonstrar que a criatura de quem elas procedem é um ser extraordinário, de gostos extravagantes, de imaginação corrupta, imoral... Enfim, traça um retrato abominável, apesar dos esforços da duquesa para o interromper (mas não se interrompe com facilidade um sábio alemão), porque a pessoa julgada era nem mais nem menos do que o próprio marquês de Custine.

O casamento não se efectua. Custine casa com M.me de Courtomer, e torna-se o ser inqualificável que conhecemos. O Sr. de Humboldt não se havia enganado».

Quantos desgostos se poderia evitar se se conhecesse melhor as pessoas com quem privamos diariamente e quantos amigos... figadais não seriam por esta forma desmascarados!

A utilidade deste estudo estende-se a todas as circunstâncias da vida social; em família, para orientar os pais sobre o modo de vida que mais se harmoniza com as qualidades e aptidões dos filhos; no comércio, para se conhecer o valor moral dos correspondentes e empregados (meio de informação muito praticado actualmente na Inglaterra); em questões de casamento, para conhecer as qualidades ou defeitos dos noivos; no professorado, como ramo precioso de psicologia pedagógica; aos médicos-legistas, para verificação da inculpabilidade dos acusados e do seu grau de responsabilidade; e, enfim, no trato quotidiano, para conhecermos as pessoas com quem tratamos, o que também vale alguma coisa. / 324 /

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Vamos, pois, fornecer aos nossos leitores umas breves mas claras noções da nova ciência, que lhes permitirão empreender, desde já, um estudo que tem tanto de útil como de agradável.

Antes, porém, umas ligeiras observações acerca da escolha dos documentos a analisar, e convém analisar muitos, porque a faculdade de observação afina-se e desenvolve-se, como qualquer outra, pelo exercício. Os documentos são, sob o ponto de vista grafológico, bons ou maus. São bons os que revelem naturalidade e espontaneidade: cartas íntimas em que o indivíduo se mostra como é, ou rascunhos, quando não estejam ilegíveis. São maus os escritos a lápis, porque o lápis deforma certos traços de grande importância, as cópias oficiais, autógrafos litografados, escritas comerciais, caligráficas, ou escritos em papel ordinário que modifique a letra por uma rápida absorção da tinta, com pena incapaz e, finalmente, com má posição do braço. Deve evitar-se também os que denunciem grande agitação, porque podem ser mais o produto duma exaltação passageira do que o de um estado permanente do espírito.

Neste caso devemos procurar autógrafos diferentes da mesma pessoa, e, se em todos se observa a mesma perturbação, poderemos concluir que o indivíduo é portador de qualquer doença mental, – as resultantes dirão qual é. Nunca nos devemos pronunciar, quando não possuamos uma longa prática, sobre uma escrita apenas e, muito menos, sobre um traço isolado, ainda que muito significativo, porque frequentemente são destruídos por outros ou pelas resultantes psicológicas de que mais adiante falaremos, o que significa, em tais casos, lua entre as várias tendências, com triunfo por parte da que for dominante.

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Sendo a carta íntima o melhor documento, admitamos que é sobre ela que temos de fazer o nosso estudo. Em primeiro lugar, notaremos a marginação, de que há seis espécies principais; a primeira (fig. 3) distingue-se pela ausência, o autor como que receio que o papel lhe venha a faltar e economiza-o. É / 325 / sinal de avareza e tanto maior se as letras estão como que empilhadas e as palavras sem a separação normal. (4)

A pequena margem (fig. 4) mostra ainda um indivíduo económico, mas duma economia menos sórdida, proveniente duma compreensão mais inteligente das necessidades da vida; todavia, não é generoso.

A margem crescente (fig. 5) é vulgar nas pessoas de poucos meios e com hábitos de despesa; significa a vitória destes hábitos.

A grande margem (fig. 6) revela grandeza de vistas, se os sinais de cultura são fortemente acusados; e, de uma maneira geral, generosidade, que pode ir até à prodigalidade se os outros sinais concordam.

A margem decrescente (fig. 7) indica simplesmente o triunfo da economia sobre a despensividade. É a margem dos chefes de família, que sacrificam às necessidades domésticas os seus hábitos de despesa.

Por último, temos a margem em enquadramento (fig. 8), que indica um espírito claro e muito sensível à harmonia da forma. É a margem dos poetas e dos artistas em geral.

Notaremos em seguida o conjunto, que exprime o processo mental do escrevente, sob os pontos de vista da legibilidade, dimensão das letras, nitidez, direcção das linhas, ligação, plasticidade e sobriedade da escrita.

Legibilidade. A escrita bem legível indica franqueza, abertura de alma, quando não é exclusivamente caligráfica, porque neste caso significa nulidade ou preciosismo. A escrita legível a que nos referimos é aquela que, sendo-o eminentemente, se afasta das regras caligráficas (fig. 9). A escrita ilegível indica naturalmente o contrário.

Grandeza. A letra mede nos nossos dias dois milímetros, aproximadamente, a minúscula e um centímetro a maiúscula. A letra normalmente grande (fig. 10) diz aspirações elevadas, concentração, timidez, orgulho, generosidade, concepção lenta ou presbitia.

A letra pequena (fig. 11) mostra um juízo / 326 / analítico estreito com tendência a perder-se nos detalhes, sem dar jamais um pensamento completo; é também um indício de minuciosidade, de finura ou de miopia.

Nitidez. A escrita nítida (fig. 9) significa energia, precisão, clareza e ordem nas ideias.

A confusa, devido principalmente ao entrelaçamento das letras e ao seu grande movimento, revela confusão nas ideias, imaginação viva e desregrada; quando muito apertadas umas contra as outras, indica também egoísmo e avareza.

A direcção das linhas, segundo a expressiva imagem do eminente grafólogo francês Marius Decrespe, está para o escrevente como o barómetro para as variações da pressão atmosférica, mostra o humor com que ele encara os acontecimentos.

A escrita ascendente (fig. 1) diz entusiasmo, ambição, triunfo, ardor, alegria, agitação, sensibilidade exagerada, reacção contra um estado depressivo.

Escrita descendente (fig. 2). Tristeza, «surmenage» intelectual, sensibilidade doentia, falta de confiança em si mesmo, fadiga.

Escrita horizontal, – sensibilidade mínima ou, então, vontade persistente de homem que vai direito ao seu fim, sem entusiasmos, mas também sem hesitações.

Serpentina (fig. 12) diz trabalho de pensamento, sensibilidade, hesitação, cultura de espírito. Na escrita grosseira é também um sinal de malícia.

Ligação. Um dos resultados mais interessantes da grafologia é o de poder conhecer pela ligação da escrita o valor mental de quem escreve e é ao mesmo tempo um meio de apreciação de que a crítica psicológica não pode dispensar-se. A escrita pode ser ligada, semi-ligada ou justaposta.

A ligação das letras nas palavras, e às vezes as próprias palavras ligadas entre si (escrita ligada fig. 12), indica um espírito dedutivo, lógica, sequência nas ideias com tendências para o positivismo intelectual; se coexistem sensibilidade, vivacidade de concepção e imaginação, resultará um exagerado para quem os factos mais insignificantes revestem proporções assombrosas.

A ligação das palavras indica mais especialmente actividade de espírito, precipitação. (5)

Letras ligadas por grupos (escrita semi-ligada) mostra um espírito assimilador, apto a todos os estudos, mas sem grande superioridade em nenhum deles, ecletismo, actividade de espírito.

A escrita justaposta, aquela em que as letras estão separadas na palavra (fig. 13), diz sensibilidade e impressionabilidade intelectuais, espírito de sistema, intuição.

A inclinação corresponde ao grau de emotividade do escrevente. É um dos pontos mais importantes da grafologia; convém por isso prestar-lhe detida atenção. Para melhor compreensão, extraímos do precioso livro do Dr. Eugen Kirchner, «Geistiges Training», copiado seu grafómetro (fig. 14), que temos por muito prático e sobretudo de facílima aplicação. Basta reproduzir a figura em papel vegetal e ajustar depois à linha da escrita a linha A-B do grafómetro.

Em grafologia, como em todas as ciências de observação, há lacunas que ao observador compete preencher. Por exemplo, aplicado o grafómetro, a letra projecta-se entre o ângulo «sensibilidade» e o ângulo «paixão»; isso revela, naturalmente, uma sensibilidade mais viva. Se ficar no ângulo  «sensibilidade» mais próximo do ângulo «frieza», indicará, pois, uma sensibilidade menos viva e mais contida. / 327 /

A escrita vertical indica clareza, razão, inflexibilidade, frieza e algumas vezes dureza de coração.

A escrita habitualmente inclinada para a esquerda diz dissimulação, reserva, sensibilidade contida. Acidentalmente inclinada para o mesmo lado: desconfiança, dissimulação; ordem e clareza, quando se trata de documentos oficiais. Nota-se que, se pretendemos disfarçar a letra, instintivamente a inclinamos para a esquerda. As cartas anónimas são geralmente escritas nesta letra.

A plasticidade acusa o grau de sentimento estético. Com efeito, a letra não é bela porque seja perfeita no sentido caligráfico do termo, – nota-se até que a letra assim é quase sempre monótona e inexpressiva, – é bela quando denuncia mais ou menos a individualidade do autor. A letra da figura 15 é, caligraficamente, imperfeita; é bela, porém, sob o ponto de vista grafológico, por muito expressiva da cultura artística do autor.

A escrita agradável (fig. 9) indica talento, afabilidade, sentimento da forma. É a escrita das pessoas ao lado das quais se passa o tempo depressa.

A desagradável (fig. 16) pode ainda revelar talento, o que é frequente, mas será um talento sem relevo, que não interessa nem procura interessar; pode também indicar bondade, se outros sinais concordam; o que nunca poderá indicar é afabilidade, hábitos de sociedade, doçura de maneiras.

A escrita excêntrica, se agradável (fig. 15), diz sentimento da forma, horror do vulgar, orgulho hierárquico, sensibilidade artística; se desagradável ou banal (fig. 19) loucura, infantilidade, pretensiosismo.

A escrita banal (fig. 18) indica naturalmente uma inteligência sem relevo, incapaz de possuir ideias e até de as assimilar.

A sobriedade indica a importância que o escrevente dá às particularidades e às coisas essenciais.

A escrita  é a que não tem excessos nem faltas, diz ordem, prudência, espírito de rotina, reserva, desejo de aprovação. Quando os sinais da vontade não são muito acusados, pode significar também modéstia e simplicidade.

A escrita seca é a que não apresenta traço algum desnecessário, que parece mais desenhada do que escrita, – ausência de afectividade e de imaginação; se com tal escrita as letras são angulosas, estamos em presença de um egoísta e de um avarento, capaz de rivalizar com a célebre personagem de Molière.

A escrita ornada de floreados e traços acessórios inúteis (fig. 19) acusa futilidade, pretensão, fatuidade; e coqueteria na mulher.

A escrita pastosa (fig. 20) revela sensualidade grosseira, glutonaria, materialidade de gostos.

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Vamos dar algumas indicações sobre os sinais de cultura na escrita. Ninguém, medianamente instruído, confunde a letra dum intelectual com a letra inestética, embora caligráfica, dum indivíduo vulgar. Há, porém, certas particularidades que permitem reconhecer, cientificamente, se é ou não culto o indivíduo a quem a escrita pertence. A do homem inferior é geralmente confusa, lenta, sem relevo e sem harmonia; a do homem intelectualmente superior é, ao contrário, quase sempre nítida, firme, sóbria, muitas vezes em excesso, como na fig. 2, e harmónica. Ao passo que a primeira é pesada e sobrecarregada de traços inúteis, a segunda apresenta-se rápida, por excessivamente dextrogira, e simplificada. Ninguém decerto hesitará, ante a / 328 / fig. 2, eminentemente simplificada e rápida, e a fig. 20, pastosa, lenta e sem relevo, em declarar qual delas denuncia a cultura de espírito.

Muitos sinais de cultura são-no também de inteligência, como nas seguintes palavras o explica o sábio grafólogo Crepieux-Jamin: «a nitidez da escrita, que indica a nitidez da concepção psicológica, é sinal de inteligência; indica também a faculdade de transmissão do pensamento pela  e, em tal] caso, é um sinal de cultura». Todas as modificações na forma da letra que a simplifiquem e abreviem podem ser consideradas sinais de cultura. O d ligado à letra imediata, por meio da haste que descreve uma curva para a esquerda e se lhe vem depois ligar, o f e o e de fazer e o p da fig. 2 são o que possa haver de mais simplificado e dextrogiro. As letras de forma tipográfica são, ao mesmo tempo que um sinal de cultura, um de sentimento estético.

Vejamos agora o sexo na escrita. Para muitos grafólogos da escola do abade Michon, o glorioso fundador da grafologia, não há sinais que revelem claramente o sexo do escrevente; contudo, concordam em que há escritas das quais se pode dizer à simples vista que pertencem a um ou a outro sexo. É um ilogismo como qualquer outro, porque, sendo essa diferença notável, há-de, necessariamente, poder-se determinar pela análise e pela comparação quais os sinais que revelam a feminilidade e quais os inerentes ao sexo contrário. Jamin faz notar que do sexo resulta uma grande diferença social, que a mulher tem uma actividade diferente da do homem, outras aspirações e, portanto, outras preocupações; e Marius Decrespe chega a formular um conjunto de regras, apoiadas numa paciente observação e numa lógica incontestável, pelas quais se pode determinar ao primeiro exame o sexo do escrevente.

«Notaremos, antes de tudo, diz ele, que todas as coisas se resolvem em duas paridades: o activo e o passivo, o positivo e o negativo, o masculino e o feminino. Estas duas polaridades são fáceis de estudar na escrita e podemos resumir todas as formas possíveis num pequeno número de traços principais, na significação dos quais se decomporão todas as observações que se puderem fazer:

/ 329 / Tais são os principais sinais que se deve recordar, que servem para explicar todos os outros; poderia, evidentemente, encontrar-se um maior número, mas estes chegam para a prática corrente, como vamos explicar:

O homem é a razão, a prática, a realização, a concentração individual, o movimento que evita o centro comum, o ódio, a força (sobretudo material); a mulher é a imaginação, o ideal, a teoria, a expansão do eu para a universalidade das coisas, é o amor e a fraqueza intelectual e física, mas é a força moral, a paixão, da mesma forma que o homem é a acção apática (no sentido de sem paixão), e voluntária; a mulher sonha e deseja, o homem trabalha e efectua, – como na fábula O cego e o paralítico, a mulher indica a estrada e o homem caminha.

Mas de que serviria o seu sonho se lhe fosse impossível a realização? Para que serviria o trabalho do homem se a ideia não viesse guiá-la e fecundá-la? Um indivíduo que não tivesse senão as faculdades masculinas ou somente femininas seria uma monstruosidade incapaz de fazer coisa alguma. A Providência quis, pois, que a força de uma e outra polaridade fosse repartida pelos dois sexos da seguinte maneira:

         HOMENS                                                       MULHERES

Espírito-Razão (faculdade masculina)           Intuição (faculdade feminina

Alma-Entusiasmo (faculdade feminina          Bom senso (faculdade masculina)

Corpo-Sexo masculino.                                  Sexo feminino.

São os tipos normais e vê-se que o homem não é mais completo sem a mulher do que a mulher sem o homem. Existe, porém, um grande número de tipos nos quais a proporção supra não é guardada; todavia, como o espírito, a alma e o corpo, que reciprocamente se influenciam, devem sempre manter um certo equilíbrio, e como nós não podemos mudar de sexo à vontade, enquanto encarcerados no corpo material, é impossível que um indivíduo do sexo feminino, por exemplo, tenha exactamente todas as qualidades ou defeitos que poderia ter um homem, e reciprocamente.

Resulta do que precede que, numa escrita, na mão ou numa fisionomia qualquer, deve sempre encontrar-se um certo número de sinais masculinos e femininos, e que um homem, por muito efeminado que seja, apresentará sempre maior número de sinais masculinos, assim como no mais rude dos viragos será maior o número dos sinais femininos. A igualdade perfeita não se realizaria senão nos hermafroditas e ainda, num grande número de casos, um sexo prevaleceria sobre o outro.» As figuras 10, 17 e 20 dão-nos tipos acabados de escrita feminina.

Uma das qualidades que importa conhecer no indivíduo é o seu grau de vontade, quer se pense como Schopenhaur, que ela é a base do carácter, ou como Fouillée, que todos os fenómenos intelectuais, sensação, projecção exterior, consciência do eu, e da sua existência contínua, sem ela se explicam. É certo que as manifestações do carácter se inscrevem num triângulo cujos vértices são a inteligência, a moralidade e a vontade e que toda a classificação do carácter baseada apenas num  desses vértices seria insuficiente e anti-científica; não obstante a vontade, que pressupõe um certo grau de adaptação mental a um fim próximo ou remoto, mas consciente e necessário, é já um indício seguro de inteligência. Com efeito, não podemos conceber mais facilmente um Napoleão sem vontade, do que um Balzac ou um Wagner; cada um na sua esfera de acção triunfa pela sua energia; ora, a própria energia não se torna querer senão quando obedece a um plano inteligente. Vejamos, pois, quais os sinais mais característicos da vontade: são naturalmente todos os que dependem de um movimento espacial e estão por consequência menos subordinados à tendência da escrita, pontuação, acentuação, sublinhamento e traço transversal do t, a que chamaremos, como os franceses, barra.

A barra do t fina e curta exprime fraqueza de vontade ou vontade nula, quando, na escrita que as apresente, uma ou outra vez brilhem pela ausência; a barra forte e curta ao / 330 / meio da haste e em cruz diz vigor, vontade forte e conciliadora; a resolução revela-se por uma barra em forma de fuso, projectando-se à direita da haste e apoiando nela a parte mais fina; o t cortado por um traço forte, curto e descendente indica teimosia, significação que raras vezes é destruída por outros sinais. A barra longa e fina diz fraqueza ou vivacidade; regular e colocada sobre a haste, autoritarismo ou orgulho; se forte, despotismo; posta à esquerda da haste, hesitação, timidez ou reflexão lenta; à direita, decisão, iniciativa, audácia e algumas vezes, também, estouvamento. O espírito crítico e a ironia mordaz são-nos revelados por uma barra fusiforme, cuja ponta se projecta à direita da haste. São sinais de tenacidade a barra, formando como que um nó em volta da haste ou, simplesmente, formando com ela um ângulo agudo, a que se apresenta com uma pequena curva nas extremidades, e, finalmente, a que, de qualquer forma e habitualmente, marque um movimento mais pesado.

A pontuação cuidada indica minuciosidade, boa memória e naturalmente cultura de espírito. Os sublinhados frequentes revelam uma tendência ao exagero e são também a marca de um espírito fútil ou pretensioso. A ausência de pontuação, numa escrita inteligente, denuncia estouvamento, abstracção, especialmente quando se trata do ponto sobre o i, a letra que no dizer de entendidos forneceu o primeiro elemento de observação no estudo do carácter pela escrita.

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O estudo de cada letra na escrita fornece também muita luz e convém por isso prestar-lhe uma atenção especial. As letras são, como sabemos, maiúsculas e minúsculas e medem, como dissemos, um centímetro as primeiras e dois milímetros as últimas, pouco mais ou menos. Aquelas que excedem de uma maneira notável o limite de grandeza ou notavelmente o reduzem serão grandes ou pequenas.

As maiúsculas grandes junto de minúsculas naturais ou pequenas dizem orgulho, convencimento de um grande valor pessoal; as maiúsculas pequenas dizem, ao contrário, grande humildade, modéstia, que nem sempre exclui a ideia de valor pessoal, mas em tal caso é uma prova de afabilidade e de extrema cortesia. As maiúsculas de forma tipográfica indicam o literato e em geral o homem de gosto, possuindo um grande sentimento da forma e da harmonia.

O A da fig. 21 indica simplicidade, bom humor; tendências aristocráticas o da fig. 22, e orgulho o da 23.

Devido à grande variedade das suas formas, oferece o B um grande número de significações. É-nos, porém, impossível, devido ao pequeno espaço de que dispomos, multiplicar os exemplos. O da fig. 23, que parece mais um número, indica menos o hábito de lidar com algarismos do que uma certa excentricidade, que se acompanha de um tal ou qual sentimento artístico; o mesmo poderemos dizer do B (fig. 25).

Do C pouco se pode dizer, a não ser do que afecta a figura de um semi-círculo e passa abaixo da linha, que revela franqueza, instintos de protecção e é quase sempre um dos mais seguros indícios de um carácter expansivo.

O D oferece, como o B, muitas variedades de forma: o da fig. 26 dá-nos um egoísta que se compraz na vida intelectual intensa e interior, e o da fig. 27 um romanesco todo idealidade e imaginação.

É pobre de significação o E, devido a que, se não toma o traçado aproximado da fig. 28, afecta a forma tipográfica de significação igual para todas as letras.

Indica energia, decisão, espírito nada acessível a coisas de sentimento o F (fig. 29) ; o da fig. 30 é, ao contrário, a letra de um altruísta, ou melhor de um egoísta benemérito, a quem lisonjeia a convicção de que é útil ao seu semelhante. O da fig. 31 diz serenidade de ânimo, espiritualidade de gostos e nobreza de sentimentos, com um tudo-nada de orgulho, porque a perfeição não é deste mundo.

O G da fig. 32 indica razão lúcida e são / 331 / equilíbrio das faculdades mentais ; o da fig. 33 grande originalidade e uma alta educação artística; é o G do grande Téofile Gautier, um dos mais delicados cultores da forma, que a França tem produzido.

Nada tem de interessante o H; como indício, porém, de simplicidade na escrita culta, apresentamos o exemplo vulgar da fig. 34.

I, J e K são pouco notáveis, especialmente a última, devido à sua raridade no nosso idioma.

Indica orgulho da posição o L da fig. 35, junto a um certo grau de infantilidade; diz ainda orgulho o da fig. 36, e, especialmente, desejo de ostentar.

O M da fig. 37 indica intelectualidade, denunciada pela simplificação e pela forma quase tipográfica; os das fig. 38 e 39 dizem tendências aristocráticas, pura aristocracia da ideia, que pode acompanhar-se dos sentimentos mais democráticos, diz especialmente desejo de não ser confundido na turba anónima pelo convencimento de méritos próprios. Diz orgulho de nome ou da obra cumprida o da fig. 40.

Tem o N, com formas semelhantes, as mesmas significações do M.

Nada de apreciável no O.

Dá-nos o P da fig. 41 um espírito dominador, mas generoso e afável; o da fig. 42, complicação de espírito, desejo de agradar e também ausência de sentimento artístico.

Q, letra pouco notável.

R, o mesmo que B e P.

S, o da fig. 43 diz sentimento da forma e o da fig. 44 singeleza de maneiras, raiando na frivolidade.

T, o da fig. 45 exprime claramente gostos materiais e pretensões aristocráticas; cultura de espírito o da fig. 46.

U, V, X, Y e Z, todas pouco interessantes, a não ser sob o ponto de vista da energia do escrevente, que convém observar na energia do traço e na tendência da curva a formar ângulo.

As letras minúsculas são mais interessantes ainda, pela frequência da sua repetição; com tudo, daremos apenas a significação das principais, deixando ao leitor o prazer de descobrir pela analogia as significações que não damos.

O a aberto por cima diz franqueza; excessivamente aberto (fig. 47), irreflexão, dificuldade de calar um segredo; contrariamente, o a fechado diz impenetrabilidade, precaução; o da fig. 48 diz, além disso, egoísmo.

O c da fig. 49 pertence à escrita angulosa, cuja significação é energia; o da fig. 50 à escrita arredonda, que revela brandura, sentimentalidade.

Das letras minúsculas é o d a mais importante. Damos seis exemplos nas fig. 51, 52, 53, 54, 55 e 56, que significam, respectivamente: intelectualidade, franqueza e sentimento da forma; – futilidade, pretensiosismo e desejo de agradar; – entusiasmo e imaginação desregrada; – egoísmo; – trabalho e cultura de espírito, bondade natural ou adquirida, consoante o género de escrita em que se encontra; – finalmente, descontentamento, sentimento / 332 / de impotência para a realização da obra sonhada.

O e da fig. 57 é um magnífico exemplo de actividade de espírito e de intelectualidade.

O i, letra muito interessante por causa do seu ponto, da fig. 58 diz materialidade de gostos, grosseria, sensualidade baixa e sentimentos do mesmo tom; diz ainda sensualidade o da fig. 59, gostos mais elevados e actividade de espírito; o da fig. 60 diz intuição, concepção pronta, mas pouca ou nenhuma elevação de ideias; a fig. 61 indica, ao contrário, um espírito lento, concepção difícil e tardia, mas exactamente igual ao anterior em questões de moralidade; a fig. 62 é um belo exemplo de intuição e de idealidade; e a 63, de estouvamento, falta de método de atenção e talvez mesmo de memória se se apresenta numa escrita em que haja faltas semelhantes, como, por exemplo, numa carta que tenho presente, em que um ilustre escritor fala de um tal Francisco Simões.

O m da fig. 64, que pertence a uma escrita arredondada, indica um carácter mole e sem relevo; o da fig. 65 doçura de carácter, temperado contudo por uma boa dose de energia, o que se vê do número de ângulos igual ao de curvas; o da fig. 66 indica um carácter inflexível, de antes quebrar que torcer; é a letra dos homens de acção, dos que triunfam; é um  terrível na escrita do egoísta.

O p da fig. 69 indica o indivíduo que confia em si próprio, ambicioso de honras e de poder; a fig. 70 diz intelectualidade, franqueza e simplicidade; diz impenetrabilidade o da fig. 71, que, não obstante, se acompanha de uma certa bonomia, denotando também tendências estéticas.

Se o leitor tem relações com um indivíduo que traça o seu t como o da fig. 72, é de amigo aconselhá-lo a que as evite; é a marca do criminoso impulsivo e sem escrúpulos. Tive ocasião de a notar em mais de meia dúzia de assassinos célebres; Tropmann, Lacenaire e Koningstein, o conhecido Ravachol, tracejavam-no semelhantemente.

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Pelas indicações acima, deve o leitor estar habilitado a ajuizar do carácter aproximado de qualquer indivíduo pela sua escrita, – é apenas uma questão de critério o resto. Não deverá perder de vista que um traço isolado nada significa se não é confirmado por outros do mesmo valor e que frequentemente coexistem sinais que correspondem a sentimentos opostos. Quando tal sucede, deve haver extrema cautela na apreciação. Se, por exemplo, numa escrita encontramos sinais de autoritarismo, de despotismo mesmo e ao mesmo tempo de sensibilidade, concluímos racionalmente que estamos em presença de um egoísta. Com efeito, o egoísta é sensível... pela sua pessoa e pelo que lhe diz respeito. Outro exemplo: se numa escrita banal, que indica um espírito comum, encontramos sinais de sensibilidade e de imaginação, concluímos que o escrevente possui um juízo falso; compreende, se bem que um espírito comum, sensível e imaginativo seja, por isso mesmo, conduzido a erros de apreciação; o contrário seria ilógico. O critério falso do escrevente, como o egoísmo, no primeiro caso, não existem denunciados por sinais visíveis, aparecem como resultantes de outros sinais.

Num dos próximos números publicaremos alguns retratos grafológicos de homens eminentes nas letras e nas artes, insistindo nesse trabalho de resultantes, que é, certamente, o mais difícil, mas não o menos interessante da grafologia.

CRUZ ANDRADE

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(1) – São dinamogénias, segundo Brown-Séquard, as irritações nervosas que, mais ou menos instantaneamente, por uma maior ou menor duração nas partes nervosas ou contrácteis mais ou menos distantes do lugar da irritação, exageram mais ou menos uma potência ou uma função.

(2) – São inibitórias, segundo o mesmo autor, as irritações nervosas que, mais ou menos instantaneamente, por uma maior ou menor duração nas partes nervosas ou contrácteis, mais ou menos distantes do lugar da irritação, fazem desaparecer mais ou menos uma potência ou uma função.

Subentende-se que a escrita é inibida, acidentalmente, relativamente à dinamogeneidade habitual.

(3) Mémoires du comte Horace de Vieil Castel sur le règne de Napoléon IIl.

(4) – É preciso não perder de vista que um sinal não tem por si mesmo significação absoluta; procederia imprudentemente quem pela marginação da carta (fig. 3) decidisse que o seu autor é um avarento. A letra pertence a um espírito superior e esse defeito de temperamento encontra-se modificado por outros traços. Tanto esta como as outras cartas encontramo-las aqui, unicamente sob o aspecto da marginação.

(5) – A ligação nas  inferiores indica falta de ideação, trabalho difícil de pensamento.
 

 

 

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