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Envia-nos um nosso amável leitor de Maceió o seguinte
interessante artiguinho sobre costumes dessa terra, tão pouco
conhecida, e tão digna de o ser, entre nós. Acompanham o artigo duas
curiosas gravuras, que deliciosamente Ilustram o texto. Em nosso
nome e no dos nossos leitores, agradecemos ao Sr. Lavenère a sua
valiosa colaboração e fazemos votos para que o seu exemplo seja
largamente imitado.
UM CARRO DE BOIS
MACElÓ, capital do Estado das Alagoas, é
uma cidade quase moderna: é iluminada a luz eléctrica, tem estradas
de ferro, cafés, bilhares, fábricas de tecidos, colégios, seminário
episcopal, etc.
Esse
progresso, porém, não impede que o velho carro de bois ainda
transite pelas nossas ruas, calçadas de paralelepípedos,
atravessadas por linhas telefónicas e telegráficas, vias-férreas, e
veículos menos atestadores de decadência ou infância.
O carro que aí se vê transporta uma carrada de
lenha grossa, destinada aos fornos das padarias.

Além desse rude serviço, o carro de bois é utilizado
ainda, nesta cidade, para / 319 / conduzir famílias aos lugares
distantes, na estação do Natal.
Imaginemos uma dessas interessantes viagens.
É pela madrugada a hora da partida.
À porta dos que vão passar o dia de Natal fora da
cidade, está o carro de bois.
Galantes raparigas empunham harmónicas, pandeiros,
ganzá, etc.
Talvez não saiba o leitor que coisa seja um ganzá...
É simplesmente um tubo de folha-de-flandres com
algumas pedrinhas dentro…
Serve para animar a nossa dança popular, o côco
ou samba.
Difícil seria descrever um côco
verdadeiramente alagoano, mas não é aqui o seu lugar.
À frente do carro vai uma caixa de provisões para o
dia: a panela de mão de vaca, sarapatel, lombos cheios, fritadas de
camarões, o nosso indispensável sururú, e a não menos
indispensável quantidade de vinho, cerveja, aguardente fina, bem
azuladinha...
Os cajus, as melancias, jacas e outras frutas
encontram-se pelo caminho.
O pão quentinho é comprado à última hora, quando o
primeiro alvor do dia apressa a partida.
Moças, crianças, as mamãs e as titias arrumam-se no
carro de bois, como sardinhas em lata.
Um toldo de esteiras de peri-peri abriga-as do sol.
Os rapazes e o chefe da caravana cavalgam ao lado, em
animais que até à véspera não sabiam que gosto havia em suportar uma
sela.
Não faz mal; o tempo é de festa e a festa não é boa
sem esses disparates que fazem rir.

/ 320 / Partiu o carro, chiando um gemido que não
acaba, tombando, subindo e descendo, quebrando as costelas das
criaturas, que noutra ocasião chorariam em vez de rir e cantar.
Viajam assim duas horas! Atravessam ribeiros cuja
água vai molhar os vestidos de alguma das viajantes; chegam enfim,
cansadas, as faces rubras, as mãos vermelhas de palmas que
bateram acompanhando as cantigas de côco.
Têm que voltar ainda no mesmo carro, e voltam sem a
mesma alegria da partida…
No dia seguinte o pobre carro de bois continua a
carregar lenha grossa, mas não vem chiando o seu lamento que é o
encanto do carreiro, porque a municipalidade não permite que se
juntem duas velharias tão velhas dentro de uma cidade tão nova.
Maceió - Brasil.
CHEGANÇA
É a chegança um dos divertimentos populares do
Estado de Alagoas, Brasil.
Na estação do Natal a barca dos chegantes vai
cada noite até à casa de um divertido cidadão, executa manobras de
guerra, sua tripulação conta histórias que em algum tempo foram
verdadeiras, como naufrágios, combates navais, etc. E acabada a
festa vem a ceia lauta que o visitado oferece aos
chegantes.
Dura esse divertimento desde a noite de Natal até ao
dia de Reis.
A barca que aí se vê foi a mais notável do Natal de
1905, em Maceió. A figura que está à proa é a do guardião,
mostrando o cornimboque em que tem o seu rapé; o outro, é o
ração.
L. LAVENERE


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