As letras portuguesas têm tido, há uma dúzia de anos, uma vulgarização notável no estrangeiro. Referimo-nos às vulgarizações sensatas, feitas conscienciosamente por homens superiores.

Entre os nossos mais dedicados amigos, destaca pela envergadura de grande poeta, pela erudição vastíssima e pelo conhecimento profundo das línguas, a figura extremamente simpática de Tomaso Cannizzaro. Ele e W. Stork, o sábio professor da universidade de Munster, há pouco extinto – as duas figuras excelsas, cujo amor pelos nossos grandes homens deve ser para nós, que às vezes miseravelmente o não temos, um grato consolo e um justificado orgulho…

Vem de há muito a simpatia de Cannizzaro pela nossa literatura. Devemos-lhe, além de muitos versões diferentes nas Fiori d'Oltralpe, o melhor das Folhas Caídas, de Garrett, e os Sonetos Completos, de Antero, com um largo prólogo crítico, cartas, retratos, etc. Um volume precioso como arte, e precioso como documentação.

Para breve nos promete o extraordinário poeta os Sonetos Completos de Camões, os Simples de Junqueiro e outras versões já adiantadas.

As suas traduções são em verso – e em versos admiráveis. A língua italiana, melodiosa ou forte, quando instrumento dum poeta como Cannizzaro, reproduz num relevo divino os nossos belos poemas.

Damos a nota bibliográfica dos trabalhos de Tomaso Cannizzaro:

Publicados (originais): Ore segrete; In solitudine Carmina (2 volumes)

/ 316 / Épines et Roses; Tramonti; Uragani; Goûtes d'âme; Cinis; Quies; Vox rerum; La voix des Deux mondes.

Traduções: – La mia visita a E. Sanson, do francês; Fiori d'Oltralpe (2 voI.); Sonetti Completi, de Antero do Quental; Geórgica, de C. Lemos; Dalle Folhas Caídas, de Almeida Garrett; Le Orientali ed altre poesie, de Hugo; La Comedia di Dante (primeira tradução em dialecto siciliano).

Inéditos: – Antelucane (versos); Excelsior, idem; Dernières étoiles (versos franceses); Dalla Vita (pensamentos).

Traduções, além das já indicadas, O poema do Cid, do antigo Castelhano; Canzoniere, de Mirza Schaffy, do alemão; Três poetisas francesas; Mithologia Norrena dall'inglese de E. Rasmus Anderson.

Em preparação tem ainda «Della Natura o di quel che non é, e Canti popolari della provincia di Messina (mais de 3.000 cantos).

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O autor de Uragani, de Cinis, de Vox Rerum, é um homem de génio, cuja obra enorme merece a admiração de todos. Quanto a nós, portugueses, não é apenas com a admiração, mas com afecto agradecido, que devemos corresponder à gentileza do grande vulgarizador das nossas letras.

Toda a obra de Cannizzaro é meditada e vivida, a espraiar-se como o grande e luminoso mar que lhe beija as costas da Sicília – a sua pátria. Nos seus volumes de versos (vários em francês) há sempre, a par duma límpida visão estética, uma riqueza prodigiosa. O poeta não se restringe a géneros: é deliciosamente lírico, / 317 / heróico, uma vaga névoa pessimista invade às vezes o artista, ou tem a ironia dum Heine esplendidamente italiano.

Não é, claramente, beneditino cinzelador de formas, um parnasiano acanhado. A sua musa tem os magníficos cabelos soltos como as deusas; a inspiração é larga, e precisa de todas as cambiantes de forma, de toda a variedade e riqueza de metros. Tem a nobreza dos poetas clássicos, mas a sua língua é viva – «mais colhida na boca do povo, que nos livros» – como o poeta confessa no prólogo de Vox Rerum. O alto espírito de T. Cannizzaro, que é o dum pensador penetrante e moderno, divaga por todo o esplendor da natureza, mãe antiga e bendita de todos os grandes poetas; ascende, no largo vão, e às vezes colhe as asas luminosas e deixa-se envolver um momento em nuvens melancólicas…

No seu volume Dalla Vita (natureza, sociedade, amor, mulheres, arte, poesia, etc.), se avaliará mais nitidamente da filosofia de T. Cannizzaro, do que na música e na beleza dos seus admiráveis poemas.

No poemeto há pouco publicado, Voix des deux mondes, relativo à guerra russo-japonesa, transbordam os sentimentos mais generosos, e as ideias mais puras de liberdade e de justiça cantam nas estrofes dessa ode hugueana, cujos alexandrinos batem grandes asas nas fulgurações duma aurora nascente... O egrégio poeta, que não é criança, conserva sempre a frescura generosa da mocidade no grande coração!

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ESTRADA DE ODIVELAS

Fotografia do Sr. Alfredo F. de Lemos