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/ 313 / Apresentamos dois, e qualquer deles a título de
curiosidade retrospectiva.
Hoje é preciso estar-se já a contas com a idade
ingrata, pelo menos, para que por entre a poeira das recordações
longínquas se distinga a passagem do curioso tipo da rua que punha a
criançada em alvoroço quando se lhe ouvia este melífluo canto:

O outro dos dois pregões de doce, o das broinhas,
também já desaparecido, contrastava com o antecedente no aspecto
musical: era bem marcado no ritmo cheio de resolução, mercê do qual
ele parecia pavonear-se de pimponice e petulância. Ele aí está:

Dos pregões actuais das castanhas, havendo por aí
tantos rapazes e adultos a gritar: – Quem as quer quentinhas? – não
existe um só merecedor de especialização. Uns não servem, por
meramente individuais, outros não são para aqui por falhos de relevo
melódico.
Bem definido no seu desenho musical mas ainda coevo
do chafariz do Neptuno, no largo das Duas Igrejas, era um que a
tradição diz ser assim:

/ 314 / indústria assaz decadente a venda do tremoço em
Lisboa. Se uma ou outra vez nos intermináveis domingos de verão, se
ouve a sacudir-lhes a monotonia esta nesga melódica:

Quem as enuncia é a vendedeira ainda por informar.
Qualquer rapariguita como essa que abaixo vedes.
Pregão festivo e saltitante, este:

Mas a música buliçosa deste apregoado já não
atravessa há muito as ruas da capital. Se o Pinhão novo ainda
se ouve, é nos arraiais, por entre o estalar dos foguetes, de
envolta com uma vozearia infernal, cortada de impropérios e
chocarrices.
Uns lustros mais e desaparecerá de todo, com muitos
outros que o Tempo arrebatará no seu torvelinho incessante. São
bagatelas, decerto, mas não valem só pelo lado pitoresco: valem
também pelo que evocam no que se lhes associa.
Quando se vai já adiantado na jornada da vida,
encontra-se a gente às vezes numa disposição de alma apenas
desconhecida de quem jamais cuidou em se entregar a pensar. É a
nostalgia do passado. Quando ela nos invade, toma-nos como que uma
anda de reconstituir em mente cenários dentro dos quais nos decorreu
o melhor da existência. Prazer raiado de amargura é esse de buscar,
por
entre a fumarada das recordações, as da intimidade de seres que
estremecemos, bem como as da alvoroçada alegria da mocidade e de mil
venturas que não voltam, impossíveis de gozar sem o entusiasmo
juvenil. Quanto mais nesses momentos o coração se confrange, mais
exigentes parecemos no trabalho imposto à memória de reverter ao
passado.
Somos cruéis na nitidez com que pretendemos a
reconstituição de factos. E quando a memoria, por fatigada, já não
nos dá senão as recordações da infância, as mais impressivas de
todas, é-nos grato relembrar figuras que nos alegraram em criança,
como as de vendedores ambulantes hoje desaparecidos, e outras
curiosidades do aspecto antigo das ruas, que, pouco a pouco, o
cosmopolitismo foi envolvendo na sua gélida mortalha…
ADRIANO MERÊA

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