Não tem ele a noção do que o tempo vale. Nem os pedidos ziguezagues das bicicletas, nem a celeridade assassina dos automóveis / 311 / fazem que este vendedor ambulante, intemeratamente postado a meio da rua, deixe de apregoar em adágio:

Um pregão cujo desenho melódico deve ser de importação é o dos galeguitos que por aí andam, em geral aos pares, com uma caixa de ferramenta a tiracolo. Em que se empregam dizem-no alguns utensílios que a caixa não comporta e que lhes servem para o mister de deita-gatos e arranjos de chapéus-de-sol. Ali, porém, campeia a miséria a evidenciar-se na carne a espreitar pela roupa esburacada, o que diz com o pregão:

Ao qual o lamento da nota sustentada presta um ar de plangência, próprio da lamuria em que pedem esmola.

Os hortaliceiros não têm, em geral, como também os peixeiros, um tipo certo de pregão. Naturalmente, sendo aqueles que poderíamos considerar clássicos excessivamente pobres de plasticidade, estes vendedores, custando-lhes a fixar o aspecto sonoro desses apregoados, adoptam uns quaisquer, mais ou menos amorfos, apenas pela necessidade de que a freguesia os sinta.

Mas se isto sucede com as couves e os espinafres, podendo-se mesmo dizer que  / 312 / abrange toda a hortaliça, já se não dá por exemplo com as azeitonas, que, quer sejam Telles a apregoá-las, quer sejam as raparigas que por aí as mercadejam de alguidar à cabeça, ouvem-se invariavelmente anunciadas por este pedaço de música:

Para ouvidos exercitados, estes compassos de valsa dão a impressão de sequência, de contiguidade.

Lembram um fragmento duma ideia melódica de que se não ouviu o princípio.

Continuando, chegámos aos frutos, com um dos quais, o morango, se dá uma anomalia medonha no que respeita a quem vende o cabaz deles. Pode haver quem lhes prefira outra fruta; gostos não se discutem. Mas de todas as frutas, cuja abundância e variedade enriquece os nossos vergeis, nenhuma como o morango reúne tamanho pecúlio de predicados tentadores. Ele agrada à vista na graciosidade da sua forma curvilínea; alegra-a na cor enrubescida; é um regalo para o olfacto no aroma que rescende; para o paladar uma delícia no seu sabor finíssimo, E depois possui uma qualidade inapreciável: – não é falaz como o melão, a melancia e também a laranja, com toda a sua proa, O morango é o que ali está, oferecendo por isso ainda de bom poder-se-lhe avaliar a intensidade do sabor pelo tom rubro que apresente. Mas é sensível, melindroso, criou-se para mãos femininas, e, portanto, é deplorável que quem solte o formoso pregão:

A que a curva franca e graciosa do intervalo de sexta imprime donaire e distinção, diremos até coquetismo, – seja tanto amiúde o genuíno saloio coberto de pó, a rebentar de manha, e ainda por cima suarento e mal cheiroso, É uma indignidade!...

A amora negra e fria incumbe-se o rapazio de vendê-la, ao som dum trecho de melodia que, pelo italianismo puro, parece inspirado em Donizetti. Ei-lo:

Do figo aberto e rugoso é quase sempre vendedeira mulher entrada em anos. Razão por que se ouve tanta vez como que em grita:

A laranja não tem tipo fixo de vendedeira. Ou é a colareja ainda de carnações frescas, quando novel na profissão; ou a varina morena e viva, esbelta como a palmeira, que vendendo peixe pela manhã, à tarde, num pisar ligeiro, com os quadris em saracote, passa cantarolando:

De acordo com a portuguesa usança, fomos primeiro à fruta que aos doces, Vamos, pois, agora a estes no que toca aos seus pregões.