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os atributos sonoros da vida lisbonense ao ar livre
são os pregões dos vendilhões os únicos que desde a infância nos
costumámos a ouvir, umas vezes com complacência, outras com vivo
prazer. Não enfadam nunca.
Sanfonas, realejos, cantores ambulantes, – também de
manivela, ao que parecia – houve alguém a cuja benemerência devemos
não circularem já pela capital. Seriam intoleráveis as campainhas
dos eléctricos, se o seu desaparecimento não pusesse em risco de
vida os transeuntes incautos. Os sinos, que há mais de quatro mil
anos atordoam a humanidade, nunca como ao presente provocaram tanta
aversão; apesar da Historia nos dizer que o seu silêncio, quando
longo, é sinal de suspensão nas regalias civis, há alguns meses, em
Paris alguém pensou em suprimi-los.
Semelhante eliminação seria tão bárbara como é
culposa a indiferença manifestada ultimamente em Lisboa ante a
intemperança de alguns sineiros virtuoses, completamente
empedernidos de coração... e de aparelho auditivo.
Às horas matutinas em que uma sombrinha aberta seria
ofensa grave à luz temperada dum sol acariciador, sítio nenhum de
Lisboa oferece maior interesse que o mercado principal regurgitando
de gente, da qual são vendilhões a maior parte. É vê-los então nos
carreiros formados na lide afanosa de transportarem para fora da
Praça todo o fornecimento do dia. Terminado ele, vendedores e
vendedeiras disseminam-se pelas ruas, cruelmente ajoujados. Pasma-se
então de como algumas delas, raças na aparência, de pescoço
retesado, sustêm gigas que são como que base de enormes cones de
hortaliça; e lá seguem assim soltando o seu pregão numa frequência
que nos diz ele animá-las na rude labuta, como o cadenciado
ordinário suaviza a um troço de soldados as fadigas de longa e
penosa marcha.
Regressando duma excursão à capital do norte,
Pinheiro Chagas deixou escrito que, no Porto, os vendilhões apregoam
por apregoar; apregoam porque assim convém à sua indústria. Em
Lisboa é vulgar poder-se notar o contrário. A vendedeira,
principalmente, emite o seu pregão com certo garbo indicador do
empenho em dar realce a esses farrapos melódicos que por aí se ouvem
cantar.
– Cantar! – exclamará, indignado, algum frequentador
do Lírico ao supor menoscabada a arte que idolatra. Cantar!
Afirmamos, sem perigo de impropriedade, nem propósito de
desprestígio. Cantar, cantam esses que aí vedes, quando apregoam o
Dia, as Novidades, a Parodia, e, ordinariamente, por instinto, vão
modulando a voz, fazendo-a subir ou descer conforme a vogal sobre
que recai a acentuação do vocábulo. Cantar, cantamos todos quando
falamos, asseverava um dia Saint Saens, caindo a fundo sobre um
contraditor a quem a convenção da ópera beliscava os melindres de
esteta.
Um ouvido musical, bem exercitado, poderia notar as
series de sons produzidos na declamação dum discurso. Ora, para os
cantos dos vendilhões, nem tão apurado ouvido é preciso. Hoje em
dia, o que já se torna difícil em alguns. .. é agarrá-los.
Há uma vintena de anos a colheita dos pregões era
ainda empresa fácil. Algum conhecimento de sofá, um lápis, papel com
a respectiva pauta, duas voltas pelas travessas e ruas / 308 / da
Baixa, e de mais não se necessitava para trazer fartura deles.
Actualmente, o caso é outro, porque as vantagens do progresso não as
fruímos nós gratuitamente.

O facho que o simboliza, se irradia claridade, é à
custa do que vai reduzindo às cinzas do olvido nos usos e costumes
do património nacional. Pouco a pouco, Lisboa perde de
característico, não só nas zonas principais como também em alguns
bairros populares, onde dia a dia se vai desvanecendo esse conjunto
de traços, outrora tão vincados, de que se compunha a fisionomia das
nossas ruas. Quem nunca tenha vindo à capital, se quiser conhecer o
que foram durante séculos os habitats da população, não percorrerá
as largas avenidas, nem as principais ruas da Baixa, onde já não são
poucos os prédios em que até as mansardas parecem ameaçadas da
invasão de escritórios e agências comerciais. Terá de enveredar
pelas ruas estreitas e tortuosas, onde o movimento exterior é menos
animado e o das almas que aí vivem mais espontâneo e impulsivo. Aí
poderá colher ainda em flagrante o carácter da nossa gente nas suas
várias modalidades; irá surpreendê-la nas ocupações normais, pois
que lá a vida decorre meio dentro, meio fora de casa; verá como ela
palpita na alacridade do riso e no soluçar das lágrimas,
presenciará, enfim, o que em gerações sucessivas foram as ruas de
Lisboa tão curiosas de aspecto, tão cheias de pitoresco nas suas
figuras populares. Dessa galeria vastíssima, os melhores exemplares
são os mesquinhos comerciantes com cuja mercadoria carregam.
Comecemos por uma figura típica que, não sendo
originariamente nossa, por longo tempo andou ligada como nenhuma aos
casos e coisas das ruas ulissiponenses. Ele aí está, divergindo
apenas do que era nos seus tempos florescentes em que o Alviela não
nos saciava ainda a sede, na chapa numerada que lhe parece suspensa
do umbigo. Quanto ao mais, é a mesmíssima figura, porque o aguadeiro,
galego de nacionalidade, é a constância em pessoa. Sóbrio, pacato,
resignado nas suas funções de carregador resistente, indiferente a
tudo que para ele não represente aumento de fundos, o galego,
oriundo duma região rica de cancioneiro musical, quando ao passar
por Las Portillas começa a sua viagem migratória, esquece
quantas canções ouviu.
O assobio, tão peculiar aos tipos da rua, é prenda
nele desconhecida.
Subordina todo o seu sentimento musical ao pregão da
água, sumário quanto possível no seu justo intervalo de quinta:

/ 309 / Mas circunstância digna de notar-se é que há galegos
exímios na forma de fazer ouvir o curto apregoado. O portamento
e o smorzando, as características principais do canto largo
italiano, não é raro eles
empregarem-nos com verdadeira perícia.
Alguns exageram até o primeiro destes artificiosos efeitos
empregando o glissé. E quanto à nota aguda, há tal que a
fila com a suavidade indizível com que um artista do bel
canto faz diminuir gradualmente um som a ponto de parecer
volatilizar-se.
De onde se conclui que o aguadeiro não serve para a
declamação lírica de Wagner.
Grande parte dos vendilhões circunscrevem hoje o seu
giro a sítios afastados da Lisboa faustosa. São esses, de ordinário,
os mais curiosos de aspecto. Actualmente, só por acaso se topa fora
dos bairros modestos com a figura do bufarinheiro com o seu sortido
de fitas e novelos, fivelas e colchetes, agulhas e alfinetes e um
cento mais de bagatelas, – sortido completo em que o negociante
empregou o capital de cinco ou seis tostões e traz no mostruário,
pendente do pescoço, percorrendo as ruas a apregoar:

Outra figura, e essa extremamente característica,
que, cremos bem, nunca pôs pé nas avenidas no exercício do seu
mister, é a preta do mexilhão. Bradaria aos céus, na parte hodierna
da capital, sentir-se a luzidia e anafada baiana a esganiçar-se no:

Também por esses sítios de luxo, onde a electricidade
já vai tornando raros os bicos incandescentes, é por certo
excessivamente magra a freguesia do homem do petroline.
Há-de ser raridade ouvir-se por lá entoar, à hora
crepuscular em que o sol esmorece no ocaso, este retalho melódico
tão embebido de melancolia, do qual menos prosaica aplicação devia
ter merecido o destilar a meiguice insinuante do canto da sereia:

O leitor deve tê-lo escutado recentemente em teatros
lisbonenses, se não no palco de / 310 / S. Carlos, no da Trindade,
na paródia à Aida, cuja partitura, do Sr. Júlio Neuparth, é das
Coisas de Jeito, feitas nestes últimos tempos em musica cénica. São
os primeiros compassos do cantabile de Amneris, em princípios
do 2.º acto da Aida.
Seria fortuita a coincidência? Com perdão aos manes
de Verdi da aproximação irreverente: o estro do operista insigne terá
tropeçado com o do homem do petroline?... Não nos é fácil
discriminá-lo, conquanto nos inclinemos a que este pregão é mais
antigo que a Aida em S. Carlos. Quem talvez nos pudesse
esclarecer o caso é um amigo nosso, a quem, como a Kastner e a
Charpentier, mordeu um dia a tarântula de notar os pregões da sua
terra. Mas ignorando nós como ele tomaria a pergunta, não convém
consultá-lo, porque, – quem tal imaginaria! – esse vendedor que por
sobre os passeios da Lisboa antiga, candidamente, merencoriamente,
vai arrastando o seu pregão em tom de sentido lamento... Esse
vendedor, por todos considerado criatura singela, é um finório da
gema. Um dia o nosso amigo dispôs-se a recolher-lhe o pregão, e
ei-lo na peugada do homem do petroline e do azeite doce; mas este,
que além de vendê-lo dir-se-ia também bebê-lo, adivinhou-lhe as
intenções, e quanto mais um caminhava, mais o outro emudecia. E
assim se foi a cena prolongando, a ponto tal que o nosso amigo,
sentindo-se já sem pernas, num esforço de vontade, acercou-se do
homem do petroline e, honteux et confus, rogou-lhe a audição
do pregão. O vendedor fez então ouvir a sua nénia e o anotador,
descobrindo-se, apresentou-lhe os seus agradecimentos.
O Pregão
do homem das ostras:

É curto, sacudido, rijo como a concha do molusco.
Vê-se que o vendedor de ostras não pode perder tempo, por causa do
que lhe gasta o abri-las.
Já se não dá outro tanto com a melopeia do homem dos
ossos:

Quanto a nós, é este o mais curioso dos pregões de
Lisboa. Nenhum, tanto como ele, reveste o carácter da nossa canção
popular no melancólico arrastado da música que os mouros, herdando
dos árabes, fizeram conhecer à nossa gente. Deviam ser no estilo
desta, na langorosa insistência das tercinas, na irresolução
rítmica proveniente de algumas notas sincopadas, as toadas a que
outrora o nosso povo chamava aravias e tão bem se
identificavam com a sentimentalidade portuguesa.
Também vagarosa, mas muito diversa pelo seu aspecto
moderno, a música volta e meia ouvida ao homem dos quebra-luzes.

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