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Mas todo esse esplendor, toda essa claridade,
Toda a
luz embebida e presa no arvoredo,
Desaparece um dia e morre na saudade
Duma
noite perpétua e dum triste degredo.
Foi o
solo crescendo à volta das florestas,
E
crescendo e trepando e afogando afinal
– Na
avançada contínua, em vitórias funestas
Os
troncos hirtos duma altura excepcional!
E onde
houve luz e força e vida e energia,
E a
verde confusão das folhas rumorosas,
Um
pedaço de terra, adormecida e fria,
Amortalha de vez as frondes gloriosas!
Nem
sequer se adivinha um ramo ou uma flor,
E a
auréola que os cercou, perenemente acesa,
Não
deixou um vestígio, um resto de esplendor…
…Fôra
inútil o Sol – e ingrata a Natureza…
*
Milhões d'anos depois, um homem que buscava
Pedras
para abrigar o lume que acendera,
Ao
revolver o solo onde a floresta, escrava
Da
terra impiedosa, enfim adormecera;
Trouxe
na sua enxada um bloco empedernido
–
Seixo pela dureza e pelo aspecto lama
Que
posto ao pé do lume ardeu, foi consumido
Erguendo nobremente uma rútila chama,
E o
homem foi cavando a inexplorada mina,
Pasmado, sem saber como essa pedra, inerte
Se
desfazia em luz, na eterna luz divina
Que a
noite nunca vence, e o mal nunca perverte!
Sem
saber que vivera ali, sob os seus pés,
Uma
grande floresta em plena, mocidade,
Que
feita pedra enfim, conservara através
Da
funda escuridão, da negra frialdade,
A
antiga, luz, a primitiva claridade…
Porque
era o Sol que ardia agora novamente,
– Um
Sol que tinha visto as distantes origens –
Trazendo ao mundo velho o brilho adolescente
Duma
era de glória e de energias virgens!
*
Pois
assim como a Terra abrigou e escondeu
A luz,
a juventude em seu vigor perfeito,
Assim
também o amor, o sonho que foi teu,
Deve
ainda viver no fundo do teu peito:
Vai
procurá-lo bem; desenterra o passado;
Que a
saudade to queime – e desperte o esplendor
Dum
momento distante e bom e sempre amado...
E à
sua chama aquece o coração gelado,
Meu
pobre Amor!...
Janeiro 1906
João de Barros
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