ASCEU este veado numa magnífica tapada de um fidalgo riquíssimo, um lugar de delícias onde, desde séculos, cresciam livremente, entrelaçando os ramos frondosos, árvores robustas e respeitáveis.

Também há que séculos ali vagueavam em doce paz os seus antepassados, em vastos rebanhos que era um gosto ver das janelas do solar, a pularem por montes e vales, ou agachados e meio ocultos entre os fetos enormes, pelo meio dos carvalhos colossais. Porventura era graças ao instinto que havia herdado, tanto como às ordens severas de sua mãe, que ele, logo de pequeno, se deixava estar horas esquecidas deitado na sua cama de fetos secos e calcados, quietinho que nem uma estátua.

Logo com poucos dias de vida, o nosso amigo sentiu força nas pernas para galopar em companhia dos outros corços da sua igualha, tão velozes que mais pareciam voar do que correr, parando apenas uma vez por outra para calcar a relva com os cascos delicados

Nos dias quentes do verão, os rebanhos da velha tapada passavam o tempo em atitude sonhadora, ao passo que os pequenos iam medrando à lei da natureza.

O dia começava para eles por volta das cinco horas da manhã. Preparava-lhes o guarda um belo almoço de legumes, espalhando-os para que a distribuição se fizesse com a máxima equidade, coisa de meio litro por cabeça, em média.

Depois, desde as nove e meia até às duas da tarde, descansavam veados e corças, preguiçosamente reclinados à sombra do copado arvoredo, ou, em dias mais abrasadores, no cimo dos outeiros, onde pudessem apanhar as mais leves aragens, ruminando e dormindo, de pernas estendidas.

A tarde, das duas às quatro, era consagrada à pastagem e ao passeio. Um / 331 / veado não morde a erva tão rente como as ovelhas ou os cavalos, mas pode alimentar-se numa pastagem onde a ovelha morreria de fome. Junto com a erva, o veado atira-se com guloseima às bolotas.

Cerca das quatro horas da tarde havia outro período de descanso, de ruminar e reflectir, seguido às seis por outras duas ou três horas de actividade, em que os corços cabriolavam à vontade.

Apenas caía a noite, todos os veados, grandes e pequenos, se enroscavam a dormir em cima dos fetos.

E neste agradável modo de vida passou o nosso corçosinho os seus anos de infância, dormindo, brincando e repousando; até que pelo mês de Outubro, com a queda das folhas, uma grande mudança ocorreu no espírito da manada.

É regra em todas as manadas haver uns poucos de maiorais, que servem de guias aos mais novos e retêm em seu poder quantas corças possam conquistar.

Por conseguinte, os veados novos têm por força de esperar anos antes de furtarem uma corça ao harém do maioral, e só por direito de conquista se apossam dela. Quando um dos maiorais envelhece, tem que dizer adeus às glórias da conquista, e é pouco venturoso o seu destino.

O corço tinha muitos anos diante de si para se ir habilitando à situação de maioral; mas a natureza não perdia tempo em o ir aprestando para as batalhas da vida.

Os esgalhos do veado contam um volume inteiro da sua história. Todos os verões começa a crescer uma camada, aumentando em tamanho e em número de pontas, até ficar completa em Agosto. O chifre é fabricado pelo sangue que circula livremente dentro de sua cobertura de veludo, ou pele velosa, e se acaso esse veludo é ofendido, o chifre pára de crescer ou cresce deformado. Por volta de Agosto, começa a formar-se um lóbulo no pé do chifre, interceptando o suprimento do sangue; e o veludo vai caindo então, e as armas do veado, já duras e limpas, estão prontas para a refrega. / 332 /

No ano seguinte, aí pelo mês de Abril, os chifres estão na muda; mas dentro de quinze dias começam de novo a crescer, e a desenvolver-se com maravilhosa rapidez.

Os esgalhos do nosso veado cresceram por feitio regular; eram finos em forma e tamanho, compridos e limpos. Começou aos dois anos a sua carreira de combates, embora nada ganhasse com o seu esforço mais do que uma tremenda derrota, infligida pelos mais velhos e mais fortes, e um grande desgosto por se não sentir ainda com força bastante para vencer um adversário da sua igualha. Aos três anos ainda não se podia medir com os maiorais; mas no ano seguinte já cantou vitória.

Sucedeu nesse ano um dos maiorais chegar a uma crise dolorosa na vida, e dar o primeiro passo no caminho da decrepitude.

Uma bela noite, os seus bramidos e furiosas patadas receberam uma terrível afronta.

Estava ele ao luar, mergulhado até aos joelhos num maciço de fetos, em frente do seu cortejo de corças, a desafiar arrogantemente um bando de veaditos novos.

De repente, destacou-se do bando um deles, arrostou com o patriarca, baixou os esgalhos e investiu para o velho guerreiro como um raio.

Entrechocaram-se os esgalhos. O veado velho recuou. Mais e mais foi recuando até ser impelido para longe das corças espavoridas, até vacilar e cair sobre os joelhos. Então o juvenil veado deu uns passos à retaguarda e depois investiu de novo contra o inimigo derribado, uma, e outra, e outra vez, até não ter dúvidas sobre a sua definitiva vitória. E dessa data em diante, ficou havendo na manada um novo maioral.

Contente de si, triunfante em sucessivas batalhas, acrescentando de ano para ano o seu cortejo de corças delicadas, lá vive ele na vetusta tapada senhorial, e todos os corços novos o encaram com veneração e temor. Lá virá dia em que por seu turno envelheça e em que um adversário mais robusto o esbulhe do seu prestígio e do seu rebanho de corças.