ERAM invariavelmente seis horas da manhã quando, no verão, o tio Feira saía do monte. Sentado no burro, sobre uma golpelha que cobria o albardão e levava de um e de outro lado a fruta para a venda, o tio Feira recebia ali as encomendas:

– Se me trouxesse um avental? – Dizia uma das raparigas, estendendo-lhe um saquinho com o respectivo dinheiro. – Metro e quarta, basta.

– E a mim, linha para umas meias – acrescentava outra, entregando-lhe igualmente um saquinho com dinheiro.

Os saquinhos aglomeravam-se; homens e mulheres tinham, diariamente encomendas que fazer: – E era açúcar, chá, café, tabaco, papel, sobrescrito e estampilha para uma carta, rapé, enfim, tudo; e não havia memória de ele trocar uma encomenda, nem de falhar um pedido!

De forma que, à noite, ao entardecer, o regresso do velho era aguardado com indescritível interesse, principalmente em dia de correio, quando ele ia por cartas ou chegava ao quartel do regimento, a ver algum soldado da família! Porque de família se consideravam todos, vivendo juntos, anos e anos, sem se lhes dar contas senão pela sementeira e a colheita!

O tio Feira era um velho soldado liberal, companheiro do real senhor D. Pedro IV e conservando peja sua preciosa memória o culto da mais comovente veneração.

O maior desgosto dele fora a pressa com / 303 / que os filhos, robustos rapazes do campo, haviam feito o serviço militar! Sempre cheios de licenças, pedidas pela mãe, que nanja ele! Que a língua lhe parasse na boca à hora em que ele pedisse para um filho se esquivar ao seu dever!

Andava dobrado ao meio, pelas dores reumáticas, apanhadas nas costas, pelas invernias rigorosas, por algumas balas alcançadas, mas o seu espírito estava vivo e firme como se tivesse ainda vinte anos! – A sua alegria era constante, o seu bom humor era notável. Tudo tinha de acontecer, quanto acontecia. Em cada um nascendo, trazia no livro do destino todos os dias de vida contados até à hora da morte!

E, no entretanto, o tio Feira era um crente e um devoto. Ouvia missa, confessava-se, comungava; e às noites, ao terço, quando a senhora o rezava em comunidade com todo o pessoal que queria associar-se, desde o mais graduado ao mais humilde dos criados, o tio Feira era o mais assíduo de todos! Pelos vivos, pelos mortos, pelos seus amos e bem feitores, pela Família Real…

Havia dias em que ele contava, sentado no poial do forno, aquela triste guerra, aquelas maldades... todas... como tanto haviam confiscado aos seus amos…

– Ah! Se o senhor doutor vivesse!...

E as perguntas choviam, e a atenção redobrava, quando ele contava que o seu amo vinha quase de noite vestido de carvoeiro, com dois burrinhos carregados de carvão… e só então via a senhora! – E o morgadinho, o filhito mais velho, ficava passado ao avistar o pai; mas... caladinho... porque se não podiam matar o seu paizinho.

E mataram, mais tarde, depois da paz; mataram-no à traição... Ah! mas Nosso Senhor não dorme e isto aqui são dois dias!

Depois destas conversas, o velhote ficava vibrante, rejuvenescido, mas toldavam-se-lhe sempre os olhos de lágrimas!... Levantava-se muito dobrado, mas ainda erguendo o busto; oscilante o corpo todo, nas pernas delgadíssimas de polaina e calção, trazia quase sempre o largo chapéu de Braga deitado para traz, uma pontinha de cigarro ao canto da boca e um varapauzinho para se apoiar. Anos e anos se passavam sem, que de verão às seis e de inverno às sete horas da manhã, ele deixasse de sair do monte. Ora era o leite que se vendia, ora o almece, ora as frutas, que tantas eram e o consumo não dava vazão! Aquelas vendas eram um pretexto para umas tantas pobres velhas da cidade, viúvas, irmãs de criadas, etc., terem onde ganhar o sustento, sem a capa humilhante da esmola, visto que ainda podiam trabalhar!

A tia Mana Verónica, uma velhinha de setenta anos, quase sempre lhe dava uma chávena de café bem quente, no inverno, – café como só ela sabia torrar e preparar, café como não havia em parte nenhuma! Cheirava que era um consolo!

E no verão era então um capilé que o aguardava, capilé que ela aprendera a fazer no convento com a senhora D. Luísa Francisca, mãe de uma senhora freira, e que ninguém sonhara em preparar melhor.

O tio Feira sentava-se então e fazia as suas contas de cabeça! Contas certíssimas, matemáticas, iguais às dela, que não perdia nem dez réis de um melão ou de uma melancia:

– Porque vossemecê bem sabe, ti Feira, eu sempre dou o meu melanito lá a uma criança ou outra, ou a alguma pobre que não há de comer só pão! Isto a senhora não se importa; vossemecê diga-lhe lá, sim? Porque se não, parecia que eu roubava…

– Credo! Ora que lembrança, a senhora dizia lá isso? nam que ela nam sabe quem a gente é!»

Havia anos que só aos domingos o pobre velhote descansava, e então ia quase sempre de tarde para a lareira e contava à senhora como a sua tia-avó, D. Margarida, criara os cinco sobrinhos órfãos de pai e mãe – porque a senhora não resistira à morte do marido como eles haviam sido espoliados e a nobilíssima tia os educara milagrosamente! Para o mais velho estar em Coimbra, houve dias em que quase comeram só pão os pequeninos! E como depois ele, mais tarde, reconquistara os bens da tia, que andavam em caseiros desonestos; como dotara os irmãos, e chorara a irmãzinha de oito anos... cujo dedalzinho conservara até à morte, com a pequenina costura, no cestinho!

– Ah! se ele não morresse, os bens confiscados voltariam…

Mas assim tinha de ser… e foi!...

E, muito dobrado, despedia-se e lá ia deitar-se… Tinha de ir cedo para a cidade.

Naquele domingo, porém, aconteceu haver chegado um destacamento, e a mãe de um soldado, / 304 / que havia de vir, pedira-lhe na véspera:

– Se vomecê pudesse, ti Feira, dava lá uma saltada, amanhã, e dizia ô mê Zé que pedisse lecença e viesse.

Assim fora, logo às seis horas; mas então sem encomendas.

E era já tarde… tardíssimo, sem haver ainda regressado!

Já se não contavam as vezes que a pobre mãe do soldado, na altura do monte, investigava, com o olhar, o horizonte indefinido, deslumbrante!... O horizonte ilimitado do Alentejo, que à hora do sol posto oferece espectáculos únicos, incomparáveis!

No verão, uma orgia de púrpuras diamantinas; beijando o ouro fulvo das searas; no inverno, o róseo dourado incomparável caindo, como uma nuvem, na alfombra aveludada e esmeraldina… uma alfombra ondulante que de longe se assemelha ao mar!

O Alentejo é avaro em árvores, todo ele se desdobra em tapetes mais ou menos floridos, de cores vivas e alegres, de espigas douradas e pendidas…

Já era, pois, vencida de ir e voltar que a pobre criatura avistou ao longe, distraidamente sentado no burrinho, o desejado ti' Feira. E parecia-lhe um sonho como ele havia de chegar!

– Viu lá o mê Zé? – perguntava ela ajudando-o a desmontar para cima da pedra, onde ele costumava encostar o burro para subir ou descer. – Despache, homem de Deus, parece que vem assim a modos que parvo!

– Vi o tê Zé, sim; ele vem bom e amanhã por hi está! Aí te manda roupa, uma cêra de figos e um pá de escolate…

 Tome lá um bocadinho...

– Não, não... não quero... Deus te santas noutes. Se a senhora préguntar, diz le que venho assim asoinado e amanhã lá vou falar…

E passando a arreata pelo braço, mais dobrado ainda do que nunca levando os olhos rasos de lágrimas, o ti' Feira lá foi com o burrinho!

Ele saíra na ideia de ouvir missa, na cidade, coisa que há anos não lhe sucedia.

E ouviu. Dirigiu-se depois ao quartel. Casualmente, o regimento estava formado; sentado no burro, encostou-se a uma parede! Ficou vendo!... Seria exercício talvez!

Ele entendia todas as vozes de comando e ria sozinho... O Senhor Duque da Terceira... o marechal Saldanha, aquilo é que era...

Mas de repente soou-lhe aos ouvidos o hino da Carta e a bandeira apareceu…

Ia haver juramento. O velho sentiu passar por diante dos seus cansados olhos o esplendor luminoso do passado... reviu, de repente, tudo, e sobre tudo... um vulto fino, insinuante, heróico: o vulto do seu Imperador.

Saltou do burro, sem o menor auxílio… tirou o chapéu e... a tremer e a chorar, ouviu em continência aquele hino sagrado! Hino de tanto sacrifício, de tanta lágrima, de tanto amor!...

Lisboa, Outubro, 1905.

MARGARIDA DE SEQUEIRA