U Já referi algures, – em páginas que devem correr por aí dispersas, a lembrarem pobres folhas secas sacudidas pelas brisas do Outono, – eu já referi algures como na arte nipónica, no desenho por exemplo, especialmente sugestivo, a musumé, a rapariga japonesa, é, em via de regra, esboçada em rápidos traços fugidios, sem preocupações que visem a imprimir-lhe uma feição individual, uma particularidade fisionómica; resumida enfim a um confortozinho vago, caracteristicamente feminil sem dúvida, mas também caracteristicamente impessoal. O pincel desenha a musumé como desenha uma camélia, ou como desenha uma borboleta, para as quais –  camélia ou borboleta – a nossa concepção estética admite perfeitamente que se não busquem / 299 / conceder qualidades distintivas às pétalas ou intenções sentimentais ao olhar.

Referi também eu que, passando da arte à realidade, do desenho à vida, a mulher japonesa nos oferece a mesma uniforme fluidez de linhas, idêntica impersonalidade no seu tipo; o que, pelo menos, serve a justificar a arte e a absolvê-la do senão de disparatada monotonia, que muitos estranhos lhe atribuem. Com efeito (e sem já falar de hereditariedades ancestrais que vêm de longe e igualizam o tipo), sujeita desde a tenra infância a uma meticulosa disciplina educativa, que lhe proíbe o deixar transparecer no rosto os sentimentos que lhe vão dentro da alma, – de alegria ou de tristeza, de cólera, de despeito, de susto, de desejos, de dor, de tudo que pode emocionar um ser, – as feições da japonesa diluem-se numa fisionomia indecisa e inexpressiva, idêntica em todas, como se uma máscara lhes viesse cobrir as faces, apenas ligeiramente animada de modéstia, de humildade e de um sorriso. Reparai nos cem rostos, nos mil rostos de japonesas que vos ficam cerca, – na sala de espectáculo, numa peregrinação ao templo ou a um campo de cerejeiras em flor – todos os rostos vos parecerão os mesmos, como se fossem irmãs gémeas todas aquelas japonesas.

Pode pois, num estudo de comparação estética, eliminar-se o rosto à filha de Nippon. Assim decapitada (se a expressão me é permitida), do que resta da sua nudez, as mãos – mãos deliciosas, – e os pés – pés deliciosos, – pouca importância têm no referido estudo estético; as mãos, por um gesto peculiar a esta gente, desaparecem frequentemente / 300 / no fundo das longas mangas do Kimono, e os pés nas pregas rojantes deste mesmo amplo vestido. Fica assim, por exclusão de partes, reduzida a musumé ao seu vestido, ao seu Kimono, isto é, a uma simples peça de modista, a algumas jardas de fazenda, a um trapo…

Se há encanto nela, um tal encanto não poderá derivar de características sexuais; será, quando muito, um encanto de colorido, de linhas, de ondulações murmurantes de sedas e cetins; ou ainda um encanto de flor, um encanto de insecto, um encanto de ave de polícroma plumagem.

Mas há encanto. O colorido japonês, as gradações dos tons, são primorosíssimos e únicos, nem há palavras que os expliquem; vêm das cores da natureza, por imitação directa, revelando uma intuição prodigiosa nos dotes visuais do artista, maravilhando, mas fugindo à nossa crítica. O japonês é o mais genial colorista deste mundo; os olhos do estranho poisam por horas, hipnotizados por um enlevo irresistível, na doce policromia de um vestido de mulher. Quanto às linhas, o Kimono constitui talvez o trajo feminino mais gracioso; e esta forma quase de tulipa, a que ele se amolda, quando, descendo cingido ao corpo, se alarga em cálice sobre a esteira do pavimento, é incomparável. A manga, a manga enorme, resume em si e pelo gesto o inteiro poema da musumé; se a musumé chora, é a manga que vem cair-lhe em véu por sobre o rosto, para ocultar lágrimas que não devem ser vistas; se ela ri, é a manga que vem tapar-lhe a boca, para abafar gargalhadas que não devem ser ouvidas; segredando uma frase e inclinada sobre a orelha confidente, é a manga que poisa sobre os lábios, para abafar o som da voz; no teatro, e sem dúvida na vida prática, o reter na mão trémula uma ponta da manga da donzela, indecisa ou desdenhosa, é o gesto de súplica que um apaixonado lhe dirige, de joelhos; um poeta dos velhos tempos, como invocação de amor e de saudade, pergunta a si próprio que manga de Kimono roçou pelas flores do seu jardim, para as deixar tão perfumadas; por último, num vestido que não tem algibeiras, a manga serve de cofre, de bolsa natural, onde a musumé guarda o seu dinheiro, o seu lencinho, o seu espelhinho, os seus perfumes… / 301 / acaso a carta recebida às escondidas, que irá ser lida com deleite em horas propiciosas.

Vai-se fazendo luz nesta matéria. Entre a Senhora Bago de Arroz, entre a Senhora Crisântemo, entre a Senhora Primavera, podem estabelecer-se preferências decisivas. A musumé pode ser discutida, julgada, apreciada, querida até, pelo grau do mimo colorista do vestido, pelo grau de gentileza do córte do Kimono, pelas curvas da seda, pela graça na mímica das mangas, pela delicadeza do tecido.

Com respeito a esta última questão, nada iguala – do que se tece em todo o mundo, – a leveza, a flexibilidade, a maciez da seda japonesa, do crepe por exemplo, o Chirimen – uma das grandes maravilhas saídas dos teares de Tóquio e Kyoto. – Constitui uma delícia palpar nos dedos um pedaço de tal seda; sobre os lábios, deixa a impressão de um pêssego beijado. E, a propósito de beijos: nunca peças, touriste, um beijo à japonesa, porque a ofenderias cruelmente, não sendo o galanteio admitido no Japão; o famoso método de João de Deus, não o da cartilha, mas o dos beijos, não menos famoso, apresentando como dogma que «um beijo na face pede-se e dá-se», não poderia ter curso neste império; mas poderás talvez beijar, sem que a musumé o saiba, dissimulando o gesto... o seu vestido.