ouco se sabe na Europa sobre o movimento artístico do Brasil, o qual se vai aliás tornando digno das atenções da crítica.

É claro que não se pode esperar que exista uma grande escola de pintura ou de escultura num país ainda novo, onde a arte tem de contentar-se com uma categoria subordinada entre os interesses humanos. No entanto, desde o começo do século passado que o Brasil tem uma escola de Belas Artes, e dela têm saído alguns bons artistas, embora não sejam em grande número. Num centro mais propício ao desenvolvimento das suas faculdades, esses artistas teriam atingido uma alta reputação. Basta citar, por exemplo, o célebre Pedro Américo de Figueiredo, cujo nome há coisa de trinta anos citado na imprensa europeia como o de um grande pintor de imaginação.

A Exposição, que ultimamente se realizou no Rio de Janeiro, pode dividir-se em duas secções: uma compreendendo as obras de artistas já consagrados, outra as de artistas juvenis, que forcejam por conquistar lugar na primeira fila. Entre os primeiros, devem desde já citar-se dois nomes: Henrique Bernardelli, com três excelentes retratos, num dos quais, o do / 295 / Sr. Ubaldino do Amaral, uma técnica vigorosa se prestou a dar relevo a uma caracterização singularmente forte e expressiva de uma bem conhecida personalidade; e Elyseo Visconti, primoroso artista profundamente versado em todos os processos da moderna escola francesa, e que expôs porventura o quadro mais notável da Exposição, um esplêndido retrato, em tamanho natural, de Nicolina de Assis, a escultora brasileira.

João Baptista da Costa é o paisagista brasileiro por excelência. É de primeira ordem como artista de ar livre, com uma paixão especial por esses efeitos de lusco-fusco e de aurora, em que a luz difusa possui uma suavidade cheia de encantos. O seu quadro principal, O começo do dia, pertence ao Sr. Regis de Oliveira, ministro do Brasil na Inglaterra, e acha-se actualmente em Londres.

Devemos também mencionar neste grupo Pedro Weingartner, com interessantes quadros de antiguidade pagã; Modesto Brocos, que expôs um retrato bem composto e uma bela paisagem; Benno Treidler, com uma paisagem impressionista e várias aguarelas vigorosas, género em que é mestre reconhecido no Rio de Janeiro; as suas duas talentosas discípulas, D. Ana e D. Maria da Cunha Vasco, as quais, ainda na primeira juventude, têm direito a ser contadas entre os artistas feitos, em vista do primor com que manejam o pincel; Gustavo Dall'Ara, com duas belas marinhas, cheias de linda luz, mostrando como o seu temperamento veneziano encontrou no Rio um campo adequado ao seu talento de colorista; e António Luís de Freitas, que tem predilecção especial por problemas de luz.

Entre os novos artistas que rapidamente / 296 / se aproximam da craveira superior, merecem especial menção Eugénio Latour, Rodolpho Chambelland e António Fernandes.

Eugénio Latour tem estado a estudar na Europa há cerca de dois anos e tem mandado para o Brasil umas vinte obras, em que se manifesta um sentimento delicado, uma técnica segura, uma paleta límpida, e belos efeitos de luz. À semelhança dele, Rodolpho ChambelIand é de origem francesa, e as suas principais características são uma certa audácia no tratar efeitos de luz e um delicado sentimento do colorido. António Fernandes é um espanhol, ainda novo, que emigrou para o Brasil aos doze anos, aí estudou até aos dezanove, em seguida passou três anos em Roma, trabalhando sob a direcção do pintor espanhol Barbadan, e regressou agora com uma boa técnica e uns doze quadros interessantes, de género e de paisagem.

Augusto Girardet, o medalhista, tem uma copiosa e abundante exposição, e merece ser classificado entre os mais hábeis do seu mister. É tão esmerado na medalha, propriamente, como na gravura em pedras preciosas, e os seus medalhões dos diversos presidentes da / 297 / república brasileira são verdadeiros primores. Possui uma técnica perfeita, unida à invenção e a um encanto notável.

Na escultura, o único expositor é o grande artista português António Teixeira Lopes, que não precisamos de apresentar ao público de Portugal, senão quando condignamente pudermos celebrar nos Serões a sua admirável obra e o seu genial talento. Em breve esperamos fazê-lo, cumprindo gostosamente um dos principais artigos incluídos no programa desta revista.

Por agora, folgamos em mostrar, por este ligeiro artigo e pelas ilustrações que podemos colher, a vitalidade artística que se acentua entre os nossos irmãos de além-mar.

————◄►————

Ao cair da tarde Ao lusco-fusco