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UM AUTO DE GIL VICENTE – PROCESSO DE VASCO ABUL
Depois
da epopeia a farsa. A rainha D. Leonor, mulher de el-rei D. João lI,
é uma das mais luminosas figuras da História de Portugal.
Bela e elegante na sua mocidade, segundo a pintam as
crónicas, a sua estatura moral é de primeira grandeza, e a sua
influência decisiva na sociedade do século XVl.
À sua iniciativa e inteligente impulso deve Portugal
a instituição da Misericórdia, a introdução da Imprensa, e, por
assim dizer, o teatro nacional.
Foi ela quem, cooperando com D. Beatriz, sua mãe,
apelidada a Rainha Velha, trouxe às festas da corte o poeta Gil
Vicente, o iniciador do teatro português.
Em 1502, uma quarta feira, 8 de Junho, representou-se
na câmara da rainha D. Maria, que dois dias antes tivera um filho
(que veio a ser D. João lII), O monólogo do Vaqueiro, que se
pode considerar a primeira peça dramática, com forma literária,
representada entre nós.
Depois, vê-se pelas. rubricas das obras do poeta a
grande influência que na sua factura teve a rainha D. Leonor.
É perante ela que em 1504 é representado na igreja
das Caldas o Auto de S. Martinho.
É por seu mandado que em 1505 se representa nos Paços
da Alcáçova, em Lisboa, o Auto dos Quatro Tempos.
É em 1506 que em Abrantes, tendo nascido o infante D.
Luís, filho de El-rei D. Manuel, foi pelo mesmo Gil Vicente feito no
serão do Paço um sermão à cristianíssima rainha D. Leonor. E em
1508, é representado nos Paços da Ribeira perante a mui devota
rainha D. Leonor e a seu mandado o Auto da Alma.
E às representações que a ela directamente não eram
dedicadas, ou por seu mandado feitas, assistiu muita vez como
protectora que era do poeta, e como principal elemento da animação e
brilho dos serões reais, a cuja organização já presidia em tempo de
seu marido, nos Paços de Santarém, de Setúbal, etc.
Nascimentos de príncipes, casamentos reais, recepções
e despedidas, eram quase sempre acompanhadas com alguma
representação do Gil, que fazia autos a El-rei. E muitas
vezes, sem motivo de festa, ou acontecimento público, e unicamente
por desfastio nas contínuas mudanças da corte, que fugia aos
assaltos da peste, tão frequente nessa época, Gil Vicente
representava um Auto, ou uma farsa que o seu génio animava com a
graça viva das concepções, com o engenho dos argumentos, com a
crítica mordente dos costumes, com o desenho dos caracteres, com o
bem achado das situações.
Foi durante um daqueles recrudescimentos de peste em
Lisboa, que a rainha D. Leonor, em 1509, se retirou para Almada. E
ali, fiel às suas predilecções, chamou Gil Vicente para lhe
representar um auto. / 137 /
Acudiu ele pronto ao chamamento, e ali mesmo compôs a
farsa chamada o Auto da Índia.
Diz a rubrica assim: À farsa seguinte chamam Auto
da Índia.
«Foi fundado sobre que hüa mulher, estando já
embarcado para a Índia seu marido, lhe vieram dizer que estava
desaviado, e que já não ia, e ela, de pesar, está chorando.»
Foi feita em Almada, representada à muito católica
rainha D. Leonor, era de 1519».
Esta data está errada na edição de Hamburgo, pois que
na edição de 1562 se lê: Era de MDIX. E assim deve ser. Em 1510
ainda a Rainha ali estava, quando foi do processo do Vasco Abul,
como adiante veremos.
Acresce também que num diálogo dessa farsa a Moça
diz:
Três anos há
Que partiu Tristão da Cunha.
Ora a partida da armada de Tristão da Cunha para a
Índia foi em Abril de 1506, o que dá positivamente os três anos em
1509.
Diz o Sr. Teófilo Braga que o poeta dá a entender que
esta farsa era já conhecida do vulgo, porque nela se diz: A farsa
seguinte chamam Auto da Índia.
Salvo o devido respeito ao douto professor,
parece-nos que aquele dizer não indica senão que ao tempo que o
poeta, ajudado por sua filha Paula Vicente, a Tangedoura,
coordenava as suas obras na quinta do Mosteiro, em Torres Vedras, a
esta farsa, que já era então muito conhecida, chamavam Auto da
Índia. Como se sabe, nesse período inicial do teatro, raramente
se repetia nas representações a mesma peça. E na rubrica desta
claramente diz o poeta: Foi feita em Almada.
Gil Vicente, em muitos dos tipos do seu teatro, é o
precursor de Molière. É fácil o paralelo, já mais de uma vez
apresentado, entre os dois génios. Apontam os mesmos ridículos, como
na farsa dos Físicos, em que o nosso poeta, com dois séculos de
avanço, enche de epigramas uma classe depois tão caricaturada pelo
comediógrafo francês. Um e outro debicam no clero e na nobreza. E
nesta farsa da Índia, as figuras da Ama e do Marido são
perfeitamente de um Molière do século XVI.
Como vimos na rubrica, a anedota sobre que a farsa
assenta, tomada nos costumes portugueses, a que as partidas das
armadas para a Índia tinham dado feições novas, põe em relevo um
facto decerto frequente na classe baixa em que ele se passa: e
confirmando o provérbio que diz: les a' se’ns ont toujours tort,
aponta com graça e ironia a fragilidade e a perfídia do coração
feminino.
Personagens são apenas cinco:
A Ama, que rejubila com a partida do marido para a
Índia.
A Moça, criada acomodatícia, que lhe diz:
Dai-me alvíssaras, Senhora,
Já lá vai ele foz em fora,
(Ama) – Dou-te uma touca de seda,
(Moça) – Ou quando ele vier
Dai-me do que vos trouxer.
Figuram mais dois galantes, um castelhano e outro
português, o Lemos, que, aproveitando a ausência do marido e a
leviandade da mulher, se introduzira na sua habitação, com seu
assentimento, e finalmente o marido, que chega bem fora de propósito
e bem pouco desejado, mas ainda a tempo talvez de não ter ardido
Tróia, e de ouvir de sua mulher os hipócritos protestos de afeição.
Num dialogo rápido, em versos cheios de / 138 /
conceitos, e com a genuína graça portuguesa, Gil Vicente define
prontamente os caracteres dos cinco, e desenvolve a anedota sem
delongas que enfastiem.
A Ama diz à Moça, sua confidente:
Quem se vê moça e fermosa,
Esperar pola ira má,
Hi se vai ele a pescar
Meia légua pelo mar,
Isto bem o sabes tu
Quanto mais a Calecu:
Quem há tanto de esperar?
. . . . . . . . . . . . . . .
Para que é envelhecer,
Esperando pelo vento?
Quant'eu por mui nécia sento,
A que o contrário fizer.
Partem em Maio daqui
Quando o sangue novo atiça...
E ela, moça e formosa, a quem o sangue novo atiça,
sente com prazer que pela escada lhe sobe o castelhano, que
enfaticamente se declara quando ela lhe; pergunta:
(Ama) – Bem que vinda foi ora esta?
(Cast.) – Vengo aqui en busca mia,
Que me perdi en aquel dia
Que os vi hermosa y honesta.
Continua o castelhano a alardear o seu sentimento:
Supe que vueso marido
Era ido.
AI diablo que lo doy
EI desastrado perdido.
Que mas Índia que vos,
Que mas piedras preciosas,
Que mas alindadas cosas
Que estardes juntos los dos?...
Ela defende-se com requintado coquetismo e acaba por
lhe conceder uma entrevista às nove da noite, dizendo-lhe que dê
sinal com uma pedrinha na janela.
Apenas ele sai, entra o Lemos, que:
Andava aqui
Meu namorado perdido,
(Moça) – Quem? O rascão do sombreiro?
(Ama) – Mas antes era escudeiro.
E o Lemos, que se declara:
Vosso cativo, senhora,
(Ama) – Jesu! Tamanha mezura!
Sou a rainha, por ventura?
(Lem.) – Mas sois minha imperadora!
E assim piegas e alambicado, continua cortejando,
quando se ouvem na janela as pedrinhas do castelhano. Querem meter o
Lemos para a cozinha, o castelhano impacienta-se, e depois de
peripécias várias, exclama a moça:
Quantas artes, quanta manha,
Que sabe fazer minha ama,
Um na rua outro na cama...
E logo partiu a armada
Domingo de madrugada,
Não pode muito tardar,
Nova se há de tornar
Noss'amo pera a pousada.
Três anos ha
Que partiu Tristão da Cunha
Volta daí a pouco esbaforida e exclama:
(Moça) – Ai, senhora! Venho morta:
Noss'amo é hoje aqui.
(Ama) – Má nova venha por ti,
Perra excomungada torta.
E quando depois o marido entra, esperando encontrar
nela mulher de mercado, ela descreve-lhe o que sofreu com a
ausência:
Jesu! Eu fiquei finada,
Três dias não comi nada,
A alma se me queria ir.
Juro-vos que de saudade
Tanto de pão não comia,
A triste de mi cada dia,
Doente era uma piedade.
Aonde não há marido
Cuidai que tudo é tristura,
Não há prazer nem folgura
Sabei que é viver perdido,
Alembrava-vos eu lá?
(Mar.) – E como?
(Ama) Agora, aramá
Lá ha índias mui fermosas;
Lá faríeis vós das vossas
E a triste de mi cá,
Encerrada nesta casa...
/ 139 /
Com que conhecimento do coração humano não é lançada
esta nota pérfida destinada a sossegar o confiado marido, e a
lisonjear-lhe a vaidade!
E com estas falas lá o leva a ir juntamente com ela
ver a nau que o trouxera, e assim, diz Gil Vicente, na rubrica,
fenece esta farsa.
Divertiu ela por certo, distraiu, e alegrou o
escolhido auditório dos refugiados em Almada, por causa da peste que
ardia defronte em Lisboa. Mas não deixa de ser curioso ver uma
rainha, já a esse tempo tocando nos 52 anos, entregue habitualmente
à vida severa e recatada do seu palácio de Enxobregas, e o escol da
sociedade que a acompanhava comprazerem-se e folgarem com as
aventuras algo libertinas da astuta e leviana mulher do embarcadiço,
com a ingénua e cega confiança dele, e com os requebros amorosos dos
dois rufiões, tudo expresso em linguagem crua e sem rebuços.
É que no século XVI havia menos convencionalismo.
Diziam-se as coisas pelos seus nomes. sem escandalizar o ouvido que
hoje se chamaria um palavrão. As personagens de Gil Vicente falam
diante da corte com a liberdade isenta de circunlóquios com que hoje
as regateiras e colarejas da praça da Figueira discutem entre si.
E não só a linguagem era rude, e as pragas, as chufas,
as exclamações brutais eram pronunciadas claramente, como a ideia do
pudor era diversa da que hoje impera.
Gil Vicente entrava vestido de Vaqueiro na câmara em
que dois dias antes a Rainha D. Maria tinha dado à luz um filho, e
referia-se sem eufemismos ao facto fisiológico que nesse quarto se
passara.
Os amores dos clérigos, as proezas dos frades
rufiões, a interferência das alcoviteiras, e os infortúnios dos mal
maridados, eram contados por claro, a Rei, Rainha, infantes e
cortesãos.
Mas não era só Gil Vicente quem tomava estas
liberdades nas suas peças.
Nos serões do Paço, onde se discutiam subtilezas de
amor, e se versejava sobre as intrigas da corte, não só as palavras
eram claras e as expressões de então parecem hoje indecorosas, mas
os factos sobre que se faziam apôdos e se rimavam coisas de folgar
eram, segundo o critério de agora, sujas ou escabrosas.
Quem quiser ler no cancioneiro de Resende as trovas
do Braseiro, as trovas do conde de Vimioso ao Barão do Alvito,
porque vindo com El-rei de Almeirim, se lhe destemperou o estômago,
etc., terá uma ideia da pouca limpeza da linguagem corrente desse
tempo. E quem ler as trovas de Fernão da Silveira a D. Rodrigo de
Castro, que beijou uma dama, ou as de D. João de Meneses, e vários
poetas a outra dama que beijava D. Guiomar de Castro, terá ideia das
surpresas daquele D. Rodrigo, e das proezas daquela dama de sáfica
memória.
Mas o que hoje faria corar muitos que ouvissem tais
desmandos numa sala, era admitido como fina essência de espírito em
toda aquela época, e nesse serão do paço de Almada, no ano de 1509.
Onde se aposentava a Rainha D. Leonor, nessa vila? E
onde era representada perante ela e a sua corte a farsa da Índia?
Palácio com grandeza e magnificência não havia.
Durante toda a Idade Média a corte deslocava-se muito
frequentemente, e a não ser em Lisboa, Santarém, Sintra, Estremoz,
Coimbra, Almeirim, Setúbal e Évora, e ainda outras terras onde havia
paços verdadeiramente reais, de resto escolhia-se uma casa boa ou
sofrível para aposentação dos reis, e a comitiva acomodava-se pelas
habitações dos principais dessa localidade.
Em Almada não havia paço, mas é de presumir que a
Rainha D. Leonor teria ali, herdado de sua mãe a infanta D. Beatriz,
alguma morada de casas pertencente ao almoxarifado.
E foi nessas casas, de que hoje não há vestígios,
onde se refugiou da peste, onde hospedou Gil Vicente, e os
comediantes, e onde reuniu a sua corte, para ouvir e se deleitar com
as graças da farsa da Índia.
Foi ali também que no ano seguinte se deu o caso que
na literatura ficou com o nome de Processo de Vasco Abul.
*
* *
Nos serões do Paço era vulgar debaterem-se entre
poetas, ou simples versejadores, algumas questões amorosas, anedotas
pessoais, casos da corte em forma de pleito judicial, ou processo, o
que foi para assim dizer o rudimento de uma espécie de arte
dramática. / 140 /
No cancioneiro de Resende encontram-se vários
torneios métricos tratados por esta forma como a questão do
Cuidar e Suspirar, esta de Vasco Abul e outras mais.
Quer-se ir procurar a origem desta maneira de
versejar na intenção que tiveram os jurisconsultos da Itália (depois
da passagem do papado para Avinhão) de tornarem conhecidas as formas
do processo, compondo debates entre grandes personagens da
antiguidade, que se atacavam e defendiam pelo ministério dos
procuradores e advogados, usando dos recursos das discussões
judiciárias.
O processo de Vasco Abul, que se debateu nos serões
da Rainha D. Leonor, estando ela ainda em Almada, em 1510, tem esta
forma usada nas discussões dos tribunais, e nela entram vários
poetas, como vamos ver.
O que deu origem a este caso diz-nos uma rubrica do
cancioneiro geral que reza assim:
«Anrique da Mota a Vasco Abul, porque andando uma
moça bailando em Alenquer, deu-lhe, zombando, uma cadeia de ouro, e
depois a moça não lha quis tornar, e andaram sobre isso em demanda,
e veio Vasco Abul falar sobre isso à rainha, estando em Almada e ali
lhe fez outras trovas.»
Vasco Abul era um cavaleiro que vinha de nobre gente,
e parece certo ser aquele mesmo Abul que anos antes, em 1488, fora
como capitão duma caravela na armada da «ida e passagem de D. João
de Bemoim» o príncipe Jalofo, que visitara D. João II. A essa
opinião se inclina o erudito escritor o sr. Anselmo Braamcamp
Freire. E a nós parece-nos essa opinião confirmada nos versos:
Andais ledo em grão guisa
Como quem veio da Mina».
Não era portanto duma grande mocidade o Vasco Abul,
posto que fosse bem disposto, isto é, bem parecido ainda, quando,
segundo dizem as trovas:
Uma gentil bailadeira
De Alenquer
fermosa, gentil mulher,
me chofrou desta maneira:
Por me não parecer feia,
vendo-a bailar um dia,
lhe mandei por boa estreia
uma cadeia
que eu no pescoço trazia,
Depois, quando a quisera
recolher
quiseram-me fazer crer
que eu por sua lha dera.
O folião do velhote, vendo a mocetona dançar, e
sentindo ferver-lhe o sangue, com amor, galanteria ou
concupiscência, tira do pescoço uma cadeia de ouro que valia «cinquenta
bons cruzados», cerca de cento e trinta mil reis, e enfia-a no
pescoço da rapariga, que das trovas se parece deduzir ser senhora e
órfã, e que decerto tomaria o oferecimento como declaração de
namorado. Ela, segundo a alegação que ele depois oferece:
Bailava bailo vilão
ou mourisca
mas chamo-lh'eu carraquisca,
Mais viva que tordião,
O caso é que ele, acabada a dança, quis recuperar a
sua cadeia, mas a bailadeira recusou-se a dar-lha, e começando assim
a demanda, o velhote veio queixar-se à Rainha D. Leonor, a Almada,
onde Henrique da Mota, poeta satírico, e mais outros ajudadores, lhe
dirigem trovas numa chacota que o deixou mal ferido:
«Que buscais cá nesta terra
Com tal sul
Meu senhor Vasco Abul?
E o poeta das trovas figura um diálogo em que o Abul
responde defendendo-se que parece terem-lhe declarado guerra, mas
que tudo são mexericos ou intrigas que lhe levantaram.
Replica Anrique da Mota:
Vós andais esmorecido,
Eu não sei que vós haveis,
E responde o Abul:
É um caso tão subido
Que duvido
Se vós o entendereis,
Mota:
Não cureis de duvidar
E dizei-mo. / 141 /
Abul:
Não no digo porque temo
Que hão de mim de zombar.
E tinha razão de temer que zombassem dele, porque
este diálogo todo, composição do Mota, revela notável graça pela
facilidade em improvisar. É uma troça pegada ao cavaleiro e capitão
da caravela que depois de, em um ímpeto de entusiasmo, ter sido
generoso com a ladina bailadeira, se arrepende, e quer voltar atrás,
tirando-lhe a cadeia.
Depois, quando quisera
recolher,
Quiseram-me fazer crer
Que eu por sua lha dera.
Responde-lhe o Mota:
E vós ficais daí honrado,
Não deveis dizer hi aI,
Que o homem bem criado
Namorado
O bom é ser liberal.
Mas de liberal e generoso é que Abul não tinha fama,
pois no seguimento do processo é sempre apodado pela sua avareza.
Dizem-lhe que não crie fama de escasso e mais:
Usai liberdade
e quiçá, se vos não ama
Essa dama
Amar-vos-á de verdade.
E aí levar boa vida
A vossa casa,
qu'isto é vergonha rasa
Avareza conhecida.
Aperta-o o Mota por tal forma, que figura ele
declarar:
Atais-me por tal maneira
que me pesa,
e não posso achar defesa
que preste, posto que queira
a verdade não me vale,
Por escasso me apregôo.
E acabando em vilancete, exclama Anrique da Mota:
Todos vós, outros, senhores,
Que sabeis aqueste feito,
Sede meus ajudadores.
Estes ajudadores são vários. Uns, poetas da corte.
Outros poetas de profissão, como Gil Vicente, que também entra neste
processo. Outros são empregados na casa da Rainha D. Leonor, como
João Álvares, o secretário, Sebastião da Costa, o cantor, Branca
Álvares, cristaleira, e até o mestre Gil, que parece ao sr. Teófilo
Braga ser o célebre ourives, autor da custódia dos Jerónimos, que
por muitas vezes tem passado por ser o próprio Gil Vicente do
teatro. O sr. Teófilo Braga nos seus recentes estudos afirma ser um
primo do poeta que foi ourives também da rainha D. Leonor, que tinha
o mesmo nome e que também metrificava, como também ao poeta não eram
estranhas as regras da arte da ourivesaria. E daqui nasceu
facilmente a confusão. E um dos argumentos do sr. Teófilo Braga para
a existência da dualidade do ourives e do poeta é, neste processo de
Vasco Abul, aparecer uma copla de Mestre Gil, ao passo que
adiante se lê no cancioneiro e neste mesmo processo o parecer de
Gil Vicente, sem lhe chamar mestre. Ao sr. Anselmo Braamcamp
parece que este Mestre Gil será o cirurgião-mor a que os documentos
sempre dão esta designação e que morreu em 1511.
Fechado aqui este parêntesis, que tem o seu
interesse, e aceitando que o ourives da Rainha ou o cirurgião-mór
também fosse trovador com o nome de mestre Gil, vejamos quem são
mais os ajudadores. É Agostinho Girão, é Afonso Fernandes Montarroio,
é Diogo de Lemos, é Diogo Gonçalves, é Fernão Dias, é finalmente o
próprio Gil Vicente, que dá o seu parecer com uma arte e uma firmeza
que demonstra a sua superioridade sobre os precedentes, a maior
parte dos quais são versejadores de ocasião neste divertimento
palaciano, e que não mais figuram entre os poetas do tempo.
Todos estes entram no processo, por assim dizer, como
testemunhas de acusação, e os seus depoimentos têm mais ou menos
interesse. Um, porém, o do cantor Sebastião da Costa, é digno de
reparo, pois que diz:
Andais ledo, em grão guisa
Como quem veio da Mina,
Galante, cheio de frisa,
Com vossa gentil devisa
De cruz vermelha mui fina.
E pois já se determina
Que percais este colar
Não vos deve de lembrar.
/ 142 / O facto de dizer: como quem veio da Mina,
isto é do S. Jorge da Mina que fica ao sul do país Jalofos, para
onde partira em 1488 a caravela comandada por um Abul, confirma,
enquanto, a nós, a suposição do sr. Anselmo Braamcamp, de que este
Abul do processo é o mesmo da viagem, o que faz com que ele em 1510
fosse já próximo dos sessenta, concordando isso com o verso que
Anrique da Mota lhe põe na boca:
pois que sei e vós sabeis
que sei mais por ser mais velho.
É impossível trasladar aqui todo o processo embora
curioso. E, dos embargos de Anrique da Motta pera se non entregar
o colar a Vasco Abul, feito a rainha, dona Lennor, apenas
transcrevemos o começo que diz:
Senhora,
Bem posso eu com razão
por ser dos órfãos juiz
aceitar a tal acção;
o direito assim o diz
nas Sergas d'Espradiam.
Estes dois últimos versos são notáveis, porque
determinam por assim dizer a data do processo, conforme nota o sr.
Teófilo Braga, que primeiro o julgou passado em 1493, e que depois
se convenceu de que o foi em 1510, pois é desse ano a primeira
edição das conhecidas – Sergas d'Esplandiam. Segue-se o
parecer de Gil Vicente, onde facilmente se reconhece la griffe du
lion.
Senhora,
Vossa Alteza me perdoe
eu acho muito danado
este feito processado,
em que manda que razoe,
vai a cura tão errada,
vai o feito tão perdido,
vai tão fora da estrada,
que a moça condenada
Vasc'Abul fica vencido.
Como quem diz que se a sentença obrigasse a moça
bailadeira a restituir o colar, quem moralmente ficava vencido e
condenado era Vasco Abul.
E de facto, na réplica que depois do parecer de Gil
Vicente apresenta Anrique da Mota,acaba por dizer-se:
E tanto que lhe foi dado
não seja aqui mais ouvido,
seja daqui degradado
não se chame namorado,
pois d'amor não foi vencido.
Mas eu certo não duvido
por isto que se cá fez,
qu’ele não seja atrevido
em praça nem escondido
a emprestá-lo outra vez.
Assim, esse Vasco Abul, nobre e cavaleiro, que
comandara uma caravela, e que navegara pelos mares de África até à
costa da Mina, é crivado de chufas e de motejos, troçado, alvo da
chacota dos poetas, dos cantores, e das cristaleiras, e finalmente
escorraçado de Almada, só porque faltara às leis da galanteria, tão
prezadas nesses séculos de cavalaria, em que o culto da mulher era a
lei suprema.
E o pobre Vasco AbuI, que merecia talvez pelos seus
feitos ter o nome registado entre os dos nossos navegadores, fica
apenas conhecido com o processo de Almada, por ter negado um colar
de cinquenta cruzados a uma bailadeira de Alenquer!
O FREI LUÍS DE SOUSA
Agora um drama verdadeiro.
Nos fins do século XVI e princípio do XVII, passa-se
em Almada o misterioso e pungente episódio sobre o qual Garrett
arquitectou o mais belo poema em prosa da nossa literatura, a mais
poética definição da alma portuguesa, ao mesmo tempo apaixonada e
cavalheirosa, repassada de misticismo e vibrante de amor, acessível
a todas as ideias generosas, namorada e supersticiosa, dilacerada
pela fatalidade do destino, enérgica na resolução do supremo
sacrifício.
E porque as personagens existiram, e porque viveram,
e se amaram, e os dois principais se separaram ao cabo de uma união
feliz, para irem acabar a existência, distanciados nas celas dos
seus conventos, o «Frei Luís de Sousa» tem além do prestígio
de simbolizar o génio de uma nação, o interesse que despertam as
cenas vividas.
Quem não conhece o drama de Garrett não é português.
/ 143 /
Inútil portanto recordá-lo.
Que há de realidade nessa obra?
O episódio fundamental é verdadeiro. Verdadeiras as
principais personagens. Exacto o desenlace. É de Garrett a escolha
da mais artística e delicada das versões sobre os motivos de
separação, a psicologia das figuras, e o sopro de génio que anima o
drama.
Pelos anos de 1575 residia em Almada e tinha aí
propriedades D. Maria da Silva, mãe de D. Madalena de Vilhena.
Esta casou com D. João de Portugal, da casa dos
condes de Vimioso, por volta de 1568, vivendo com ele dez anos até à
partida para Alcácer Quibir.
Ficaram três filhos, D. Luís, que veio a morrer em
Tânger, numa escaramuça depois de 1592. Duas meninas, D. Maria de
Vilhena e D. Joana de Portugal, que vieram mais tarde a casar, esta
última com D. Lopo de Almeida, dos quais nasceu uma filha que
acompanhou sua avó para o convento quando a ele se recolheu. D. João
de Portugal desapareceu na batalha. Os documentos oficiais deram-no
como morto.
D. Madalena conta-se espaçara por alguns anos o
segundo casamento com Manuel de Sousa Coutinho, com receio de não
ser na realidade viúva. Afinal as razões que lhe deram os próprios
parentes do primeiro marido convenceram o seu coração, já de há
muito dominado pelo encanto do brilhante cavaleiro Manuel de Sousa.
Casaram entre 1584 e 1586. Ele tinha todas as qualidades que seduzem
as mulheres. Era bravo e destemido, tentava-o a aventura longínqua.
As coisas banais passadas pela sua palavra adquiriam a harmonia que
nos embala quando lemos períodos da História de S. Domingos e da
Vida do Arcebispo. Usava no airoso chapéu de aba larga a pluma
branca à la mode, e na imaginação tremulava-lhe a pluma
ligeira de uma fantasia romanesca.
Generoso, valente e poeta, cativou a linda e opulenta
viúva.
Alguns autores têm avançado que essa riqueza tinha em
grande parte resolvido o cavaleiro de 30 anos a desposar urna viúva
bem mais velha do que ele. Entretanto essa hipótese é destituída de
fundamento pela razão de que uma grande parte da fortuna e toda a
que vinha do primeiro marido, pertencia aos filhos que dele tinham
ficado. E Manuel era rico, e cavaleiro, e namorado!... Em que
repugna que ele se deixasse apaixonar pela bela e sedutora viúva,
que além de tudo não era talvez tanto mais velha do que ele?
Tiveram uma filha – a Maria do drama de Garrett, a
que alguns escritores chamam D. Ana de Noronha.
Em Lisboa viviam os cônjuges a S. Roque, na freguesia
do Loreto. Mas a sua residência predilecta era Almada, onde, segundo
afirma Barbosa Machado, Manuel comandava um corpo de setecentos
infantes e cem cavalos.
A casa que habitavam nessa vila era na rua Direita,
como se vê duma escritura publicada pelo erudito escritor sr. Sousa
Viterbo, na sua rnemória apresentada à Academia Real elas Ciências.
Qual ela fosse torna-se difícil averiguar. Não só
porque o incêndio, cavalheirosamente ateado pelo próprio Manuel, a
teria destruído, e as confrontações indicadas na escritura nada
elucidam, como por não haver indício na rua Direita de reedificação
nenhuma que indique ter havido ali habitação nobre.
Percorrida essa rua, apenas uma morada de casas mais
importantes onde se vêem uns belos azulejos permite à imaginação
conjecturar ter sido ali a pousada dos dois protagonistas do drama.
É certo que eles habitavam naquela rua e que já então
Manuel de Sousa Coutinho cultivava as letras em prosa e em verso,
quando no ano de 1599 a peste grassava em Lisboa.
Resolveram os governadores do Reino, em nome de D.
Filipe, virem estabelecer-se em Almada e para palácio do governo
escolheram a casa em que D. Madalena e Manuel residiam.
Foi então que o fogoso cavaleiro e ardente patriota
respondeu à importuna intimação, incendiando a sua casa, episódio
com que Garrett fecha tão brilhantemente o acto do seu drama. «Ilumino
a minha casa», diz Manuel de Sousa «para receber os muito
poderosos e excelentes senhores governadores destes reinos.»
O facto é verdadeiro. Ele próprio o narra no prólogo
que em latim escreveu às obras de Jaime Falcão: «In fumum et
cineres abiere».
E é mesmo de crer que esse atrevido repto atirado aos
governadores do Reino influísse para a sua resolução em se
expatriar.

Retirou para Madrid, onde encontrou o acolhimento
protector de D. Pedro e D. João de Borja, e daí seguiu para a
América. / 145 /
Neste ponto se afastou da realidade Garrett, no seu
drama, que faz suceder imediatamente ao incêndio de Almada a
catástrofe que decidiu os dois esposos a tomarem o hábito.
Entre um e outro facto mediaram perto de 13 anos.
Foi em 1600 que ele partiu para a América, em 1604
que dali regressou, e em 1613 que se realizou o divórcio.
O que motivou a sua volta a Portugal?
Qual foi a causa da separação?
Diz o bispo de Viseu, D. Francisco Alexandre Lobo, e
confirma-o Barbosa Machado, que o trouxera arrebatadamente à pátria
a notícia da morte de sua filha.
Outros afirmam que viria por saber que os
governadores que ultrajara já tinham sido substituídos, e que
saudades da família e da sua Almada, que tanto estremecia, o tinham
repatriado. Nesta hipótese, sua filha ainda viveria, e a sua morte,
mais tarde, teria grande influência na resolução de os pais se
recolherem ao convento.
A misteriosa causa do divórcio, interessante problema
de psicologia, que tanto preocupa os escritores que dele têm
tratado, está ainda hoje para resolver.
Seria a morte da filha única?
Não há uma data que nos possa guiar. Não há uma
citação que nos elucide.
Seria, como se inclina a crer o sr. Sousa Viterbo, um
fenómeno de sugestão, que teria actuado no espírito dos dois,
levando-os a esta espécie de duplo suicídio?
É facto que, pouco tempo antes, o conde e a condessa
de Vimioso se tinham separado, para professarem, ela no convento do
Sacramento, em Alcântara, que instituíra, e ele no convento de S.
Paulo, em Almada.
A coincidência de serem os mesmos conventos em que
Manuel de Sousa e D. Madalena de Vilhena vieram a professar, a
amizade e parentesco que existia entre o Vimioso e Manuel de Sousa
Coutinho, a inclinação ao misticismo da alma de D. Madalena de
Vilhena, que foi criada e educada por uma mãe excessivamente devota,
numa época de profundas crenças religiosas, e supersticiosos
terrores, que facilmente levariam o seu ânimo a procurar abrigo
contra as tempestades da vida no convento que a condessa de Vimioso
instituíra e onde se recolhera, tudo teria influído no espírito dos
dois esposos, já ambos na começo do inverno da vida, a procurarem no
claustro paz e tranquilidade.
A aparição do peregrino, facto que aos eruditos
repugna e aos poetas seduz, foi o motivo escolhido por Garrett para
explicar a súbita resolução do divórcio. Tirou-a Garrett da
narrativa de Frei António da Encarnação, que, por ser contemporâneo
dos acontecimentos, tem em favor da sua versão um grande saída de
probabilidades.
Conta ele que em 1613, estando D. Madalena de Vilhena
em Almada, lhe aparecera um peregrino que vinha da Terra Santa,
trazendo novas de um português que há muitos anos vivia em
Jerusalém, e que escapara aos desastres de Alcácer Quiibir.
E dando os sinais certos de D. João de Portugal, o
primeiro marido, acrescentou que fôra ele quem ali o mandara.
Aterrada com tão fulminante acontecimento, contou a
seu segundo marido o que se passara, e o que Frei Jorge seu irmão
presenceara.
Ele então dizem que respondera: «Até agora, senhora,
vivi em boa fé convosco; e creio de vós que na mesma boa fé viveste
comigo; porque fio de vós que não casaríeis outra vez se não
tivésseis por certo a morte de vosso primeiro marido. O que convém
mais é fugir para o sagrado da religião.»
A este episódio, narrado por Fr. António da
Encarnação, põe muitas reservas o Bispo de Viseu, o sr. Sousa
Viterbo e outras, que se têm ocupado do caso, e atribuem a invenção
ao espírito de messianismo sebástico que inflamava as imaginações
nessa época.
E a fantasia popular, que esperava ver aparecer o
«Desejado» e cria que ele não perecera, facilmente daria como
explicação à repentina deliberação dos dois cônjuges, a chegada dum
mensageiro que trazia novas do cavaleiro de Alcácer Quibir.
Não havendo provas que invalidem esta versão, e
havendo em seu favor o testemunho de um contemporâneo, porque
rejeitá-lo?
E porque não fundiremos na alma dos dois heróis dessa
história os três motivos de aniquilamento moral?
A morte de uma filha é a maior dor humana. E essa dor
ter-lhes-ia quebrado as energias vitais.
A aparição do peregrino mensageiro de D. João de
Portugal, ou ele próprio, como alvitra Garrett, seria para as suas
almas a catástrofe / 146 / determinante do refúgio na casa de Deus,
E o exemplo dos condes de Vimioso, tão seus íntimos,
ter-lhes-ia indicado o caminho.
Por isso nesse mesmo ano de 1613, deixando Almada,
entraram, ela no convento de Alcântara, levando consigo uma
netazinha de sete anos, que a seguiu na clausura, ele no convento
dos dominicanos de Benfica, onde veio a escrever as mais harmoniosas
páginas da harmoniosa língua portuguesa.
*
* *
Quando depois de dominicano, Frei Luís de Sousa
escreve a sua História de S. Domingos, ao contar a fundação do
convento de S. Paulo em Almada, por Frei Francisco Foreiro, no ano
de 1569, e dando dele algumas notícias, deixa ainda transparecer
nessas páginas o encanto pela terra que tanto amara, e onde tanto
amara, «Sítio, diz ele do local do convento, que como é no mais alto
do monte, e pendurado sobre o mar, fica como grimpa, sujeito a todos
os ventos. Porém, paga-se este dano com ser senhor de um tão formoso
e tão bem assombrado horizonte, que confiadamente e sem parecer
encarecimento, podemos afirmar que não há outro tal em toda a
redondeza da terra.» Conta ele depois que por ser de tal modo
formoso o panorama de Lisboa que da vila de Almada se desfruta
escolheu D. Filipe II esta vila para gozar da vista da cidade, antes
de nela entrar.
Em uma noite mandou que lhe crivassem a cidade de
Lisboa de luminárias, e tão deslumbrante era o espectáculo, que Frei
Luís de Sousa acrescenta que: «estando assim ardendo sem dano, toda,
ficou devendo mais às sombras nocturnas que ao resplendor do sol.»
Anos depois, diz-se, esteve ali também o Duque de
Bragança, mas com o intuito de às ocultas vir entender-se com os
conjurados que em 1640 o aclamaram rei com o nome de D. João IV.
Dorme desde então Almada, perto de dois séculos, na
História de Portugal, até que acorda em 1833, com a entrada de Teles
Jordão, que o Duque de Cadaval, governador de Lisboa, para ali manda
com três mil homens, defender esse posto avançado, e fazer face ao
Duque da Terceira, que vinha com 1500 homens sobre Lisboa.
A 22 de Julho a coluna liberal entrara em Setúbal,
saltava por Azeitão, descia ao vale de Coina, e marchava pelo Seixal
e pelo Alfeite, até à Piedade. Aí, ao entardecer do dia 23,
encontraram as avançadas do Teles Jordão, A guarnição miguelista de
Almada, vindo ao seu encontro a Cacilhas, e julgando o inimigo muito
superior em número, aterrorizou-se. O combate, já de noite, foi uma
derrota rápida para os miguelistas, que vinham apavorados,
atropelar-se no Cais de Cacilhas. No escuro dessa noite houve forte
carnificina. Teles Jordão, a cavalo, combatendo, forcejava entrar
numa falua. Abriram-lhe o crânio com uma cutilada, e arrastaram-no,
quase morto, enquanto uma grande parte dos seus fugia pelas trevas
da noite, em catraios, faluas e barcos cacilheiros.
Pela madrugada do dia 24 o Duque de Cadaval mandou
evacuar Lisboa, Foram avisar disto o Duque da Terceira, à Outra
Banda. O castelo de Almada entregou-se-lhe, e a sua coluna
atravessou o rio, entrando triunfante na capital.
Hoje a figura em bronze do brilhante conde de Vila
Flor Duque da Terceira, ali no cais do Sodré, sobre o pedestal de
pedra, com a cabeça levemente inclinada e pensativa, olha com a
insistência imóvel das estátuas, para a frente, lá ao longe, a vila
de Almada, que se lhe rendeu nessa linda manhã de Julho.
E se porventura no crânio de metal ainda palpitasse
um cérebro, o seu pensamento, correndo ao arrepio pelo tempo que já
passou, iria recordando, numa evocação, as cenas trágicas ou
festivas, sentimentais ou guerreiras de que foi teatro essa Almada
de Frei Luís de Sousa, dos autos de Gil Vicente, do cerco do século
XIV, das façanhas dos cruzados ingleses, e das origens da sua
fundação árabe.
CONDE DE SABUGOSA
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