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SE A MOCIDADE SOUBESSE
II
UMA AVENTURA NA FLORESTA
ESTEVAM LEE, conde de Waldorf-Kilmanseg – inglês por educação e por
herança materna e austríaco por seu pai e em razão de ser
proprietário de terras na Silécia – rapaz difícil de contentar e de
gostos epicuristas, escolheu para viajar, por motivos que o seu
lacaio julgava incompreensíveis, uns ínvios e negregados lugares da
Westfália, no mês de Abril de 1813, ano de cruentas guerras, Em vez
de se dirigir para a alegre capital do rei Jerónimo, onde poderia
viver á lei da nobreza, encaminhou-se para as cercanias da floresta
turingiana e foi pousando nas estalagens de vilas então meio
desertas e de miseráveis aldeias espalhadas ao longo da estrada
Imperial.
Enquanto os postilhões e lacaios maldiziam do vinho fraco e da
comida grosseira: e os cavalos da sege de viagem passavam horas e
horas em cavalariças ordinaríssimas, o amo e dono, à procura não se
sabia de quê, dava a pé e sozinho longos passeios, de que voltava
emproado, como de costume, fatigado e descontente.
Ouvindo-lhe dar ordem para pernoitarem no lugarejo de Wellenshaussen,
quando bastaria andar um pouco mais para irem ficar à razoável
cidadezinha de Halberstadt, o lacaio Franz entendeu que a situação
excedia o que o seu espírito irrequieto de vienense podia suportar,
e resolveu demitir-se do cargo. Logo depois bateu na testa de modo
significativo, porque o amo saiu da hospedaria forrada de videiras e
veio para a rua, onde ficou olhando para a direita e para a
esquerda, como se esperasse alguém.
– Temos mulher no caso – opinou o Pedro postilhão, fazendo uma
careta sobre a caneca de cerveja – ou anda o diabo de volta com ele.
Mais longe não podia ir no diagnóstico do estado mental de seu
patrão.
*
* *
Posto que situada, em parte, na orla da planície, a aldeia ainda se
estendia pela montanha; cavalgando o áspero contraforte da distante
cordilheira coberta de arvoredo, escudava-a, pela banda
setentrional, uma grande rocha, que sozinha se erguia no meio do
campo, tão empinada e alterosa, que a julgaríamos inacessível se não
a coroasse um castelo. Torrente de escuras águas, em todo o tempo
frigidíssimas, precipitava-se espumante pela encosta, havendo manado
de misteriosa e sombria caverna, e, correndo com
estrépito ao longo do leito, ia cortar em duas a aldeia, no seu
caminhar em direcção à planície.
Estevam Lee ergueu os olhos para o Burgo, carrancudo de aspecto a
maior parte do tempo, mas que, naquele instante, iluminadas as suas
estreitas janelas pelo sol poente, despedia clarões cor de rosa. O
pensamento, nas asas da fantasia, alçava-se-lhe para o castelo
roqueiro, quando o clamor de vozes infantis lhe desviou a atenção
para outra parte. Era um bando de gaiatos que ia correndo para o
lado da ribeira, em cuja ponte vinha a passos ligeiros avançando um
homem. Parou, por instantes, sobre a parte mais alta do arco de
pedra tosca, e os sons alegres de uma rabeca fizeram-se ouvir acima
do vozear da gaiatada e do murmúrio das águas. Bailando,
cantarolando, pinchando, os pequenos rodearam o músico e seguiram
após ele, agarrando-se-lhe alguns às abas da casaca.
Fazia lembrar o mágico flautista da lenda.
Parado no meio da estrada, o conde tinha os olhos a brilhar e
reflectia no semblante risonho os clarões do sol quase a ocultar-se.
O rabequista encaminhou-se para ele e cumprimentou-o, inclinando o
corpo sem afastar do peito a rabeca, porque ainda não tinha acabado
o que estava tocando. / 121 /
– Já nos encontrámos – disse ele.
– E eu já não esperava tornar a encontrá-lo. – redarguiu Estevam,
com ligeira comoção.
– A sua música não me saiu da cabeça nestes dias. Parece que me
enfeitiçou!
A despeito do tom de amigável censura, com que foram ditas estas
palavras, o conde estava envergonhado por se mostrar tão afável para
com um músico ambulante, e corou.
– Com que então – disse o outro, petulantemente – não deixou ainda
de ser macambúzio! Oh grande Apolo! Quem me dera que pudéssemos
trocar os nossos destinos, e afianço que não me faria falta a
companhia de um velho. Quietinhos, meus pequenotes, e deixem um
fidalgo falar... com outro fidalgo!
Calou-se e, após instantes de meditação, olhou para o interior da
estalagem através da porta aberta de par em par; ergueu depois a
vista, rapidamente, para a mansão acastelada, cujas torres coroavam
o cume do morro.
– É possível que pessoa tão fina queira ficar nesta aldeia
miserável! – exclamou. – Vejo acolá adiante os seus cavalos já
desaparelhados. Convida-me para cear... colega viajante?
Como, ao dizer isto, cingiu com a coçada manga a do conde, que era
do mais fino estofo, os garotos soltaram grandes gargalhadas.
Estevam estremeceu e franziu o rosto, mas dominou-se prontamente e
acompanhou de boa vontade Hans até à sala da estalagem da Cegonha de
Prata, onde abancou em frente dele, com grande pasmo do hospedeiro.
Era o músico homem dos seus cinquenta anos, magro, alto, de feições
bem pronunciadas e de aspecto singular. No fato, embora pobríssimo,
revelava uma tal ou qual distinção: calções de fazenda ordinária,
sapatos com fivela de metal e camisa de pano de linho grosseiro,
muito cavada no cós, de modo que deixava bem à vista as cordoveias
do pescoço. O emaranhado cabelo formava por trás um chicote, muito
em moda vinte anos antes. Os olhos grandes e ocultos em órbitas
profundas, pareciam melancólicos e cismadores, quando não exprimiam
implacável zombaria.
O certo era, em todo o caso, que o conde de Waldorf-Kilmansegg,
apesar de sentir-se um tanto embaraçado, tinha por conviva um reles
músico ambulante, que todos conheciam naqueles sítios pelo «Rabequista
Hans».
– Sabe – dizia este – que não posso dar-lhe parabéns? O pão é azedo,
e mais que azedo o vinho. Gabo-me de ter bons dentes, mas não sou
capaz de rilhar esta salsicha. Assim com fome e com sede – e bateu
com a mão no deprimido estômago – não terei espírito para tocar, /
122 / logo à noite, uma única nota... Guarde as suas pragas para
melhor uso, pois com elas não tira o azedume a esta zurrapa. E eu,
pobre de mim! – acrescentou, olhando pensativo para as pernas, que
estendera comodamente – eu que estava antegozando uma ceiazinha de
capão assado, regada com uns copos de velho Borgonha! Que diz? Que
já ceou? Não? Outro tanto digo eu. Venha comigo, sr. conde. Convido
a sua seriedade para cear num sítio, onde a mesa será opípara e onde
gozará a presença de uma linda mulher.
Calou-se para gozar o espanto do auditório, e continuou com
animação:
– A nobre inglesa e o fidalgo austríaco responsáveis pela sua
existência, meu caro, estragaram o acepipe, faltando-lhe um nadinha
com os temperos. Com a fortuna! Pois não tem em si, ao menos, um
sorriso... uma centelha, que o anime perante o aspecto jovial das
coisas? A mocidade deve ser o riso da vida. Ande comigo! Tem muita
coisa que aprender.
E deixando de parte a comida, tomou o mancebo pelo braço e levou-o
pela porta fora. A aldeia já começava a envolver-se em sombras, mas
o castelo alcandorado no cimo da penha ainda cintilava como um rubi.
Apontando para lá, o músico disse:
– Já uma vez o pus em contacto com uma sociedade muito ordinária.
Foi no dia em que travámos conhecimento. Hoje vou apresentá-lo a uma
sociedade das mais selectas.
O dono da estalagem, que tinha estado de boca aberta, e que ria
sempre às gargalhadas com as facécias do músico, resmungou:
– Valha-te Deus! Julgas que assim entras no castelo, onde o burgrave
tem sempre a mulher fechada a sete chaves?
– Está claro que entramos! – respondeu o outro, imperturbável. –
Anda, empresta-nos o burro e o garoto do Georgi e dá ordem para que
a mala do fidalgo seja posta, com todo o cuidado, às costas do
animal. Passamos a noite no castelo. Vai!
A ideia pareceu-lhe uma simples brincadeira; porém o dono da Cegonha
de Prata não resistiu à intimação reforçada, de mais a mais, com um
gesto imperioso.
– Não faça de mim um tolo. – disse Estevam ao músico, em voz baixa,
quando viu o hospedeiro ir cumprir a ordem.
O outro atalhou com impaciência:
– Na mocidade mostra mais juízo quem fizer mais tolices. Que tenha,
ao menos, o privilégio de fazê-las com graça... Oh! Tomara eu poder
ensiná-lo!
E voltando-se para os garotitos, disse-lhes jovialmente:
– Hoje não, amanhã toco para dançar, e até não poderem mais... Hoje
sou uma grande personagem, vou cear com o burgrave!
Os garotos, que eram já como tordos em volta deles, responderam em
coro:
– Pois sim, tio Hans! Pois sim!
E o dono da estalagem daí a instantes, quando os hóspedes já se
afastavam da Cegonha de Prata a caminho do castelo, dizia com os
seus botões:
– Levado da breca este Hans!... Faz o que quer dos grandes e dos
pequenos! Nem que fosse um feiticeiro! Pois se entrarem no castelo,
talvez não voltem de lá! Valha-lhes Deus!
É que o estalajadeiro, como toda a gente da aldeia, tinha na massa
do sangue o terror do velho Burgo, que lá no alto se erguia
ameaçador, povoado talvez de portas falsas, de alçapões e de
masmorras...
*
* *
– Sidónia, – disse a burgravina, no quarto da torre – isto não se
pode aturar!
Como esta afirmação se fazia, pelo menos, cinco vezes em cada dia
que Deus deitava ao mundo, a ouvinte não ficou tão impressionada
quanto pedia o aparente desespero da mulher do burgrave. As
lamentações continuaram com grande intimativa:
– Um dia atiro-me desta janela abaixo!
Por causa das dúvidas e como quisesse olhar para fora sem perigo de
despenhar-se, encostou com cuidado os cotovelos à cantaria do
peitoril.
– Se a tia quiser, pode sair comigo uma vez por outra. – lembrou
Sidónia, amavelmente.
– Para passear? Ai, filha, teu tio bem sabe o que fez
encarcerando-me despoticamente no cimo deste infernal rochedo. Já
não tenho sequer um par de sapatinhos, com que deitasse até meio do
caminho, que vai daqui até lá abaixo. Só de olhar para a rampa que
sobe para o castelo, sinto vertigens… / 123 /
Tapou os olhos com as mãos e teve uma tremura por todo o corpo.
Para distraí-la, Sidónia disse-lhe:
– Sabe, tia?... A floresta está um verdadeiro encanto. Os morangos
já começam a florir…
– Os morangos!... Pois é nisso que deves pensar na tua idade?... Às
vezes chegas a ser cruel…
– Não imagina como estão crescidas as corças… E são tão meigas!...
– As corças!... Meigo seria para ti o homem a quem amasses… Ah! Se
eu também amasse!... Nasci para ser desgraçada!
Sidónia, esbelta, fina, e beijada do sol como coisa que na floresta
sempre tivesse estado, tornou-se carmezim por trás da tia, que
deixara a cabeça descair sobre o peito. Perguntou:
– Por que nos tem aqui fechadas o tio Ludovico?
A esposa do tio Ludovico agitou-se violentamente na cadeira onde
estava sentada.
Dos olhos despediu chamas e dos lábios, vermelhos como cerejas,
deitou uma torrente de palavras, tão inflamadas como os olhares.
Porque tendo gasto a maior parte da vida a estudar o nosso sexo, se
lisonjeia de que possui larga experiência das fragilidades
femininas! Porque tendo demonstrado tantas vezes que é facílimo
quebrar os votos do matrimónio, não acredita que alguém os possa
cumprir à risca! Porque – e o seio palpitou-lhe de indignação. –
Cassel é hoje o lugar mais divertido de toda a Europa, e nenhum
marido, que se preza, pode divertir-se com comodidade se não tiver a
certeza de que sua mulher, no entretanto, se aborrece de modo
proporcional.
A estas palavras Sidónia objectou:
– Lembre-se de que o tio desempenha na corte os deveres de
chanceler...
– Os deveres de chanceler! – disse a fidalga, bastante furiosa com
as pontas dos dedos contra a vidraça. – Sim, filha, o rei Jerónimo
impõe deveres penosíssimos aos seus ministros e talvez Ludovico os
desempenhe con amore.
Nisto os dedos deixaram de bater, e a burgravina abriu um pouco mais
a janela e debruçou-se tanto, como se estivesse com tenções de levar
a efeito o anunciado suicídio. Depois gritou com voz alterada:
– Não vês? Olha! Vêm na estrada dois homens e um cavalo carregado…
Não! É um burro!
Sidónia debruçou-se também, muito pressurosa, por cima do ombro da
tia. Duas crianças de idade diferente é o que eram afinal.
– É o jardineiro e o pastor, – disse ela.
A outra respondeu ironicamente:
– Isso mesmo! Vê-se perfeitamente a corcunda de João e a perna coxa
do Peperl!
Ora que à tarde sempre há de haver nevoeiro!... Agora! Agora! Se não
vem acolá um fidalgo, podem chamar-me guardadora de gansos... e
avozinha, se ele não for um rapaz novo.
– É Hans, o rabequista. – disse, com espanto, Sidónia. Porém não
foi, com certeza, o músico ambulante que lhe fez subir o rubor às
faces!
– Que rabequista é esse?
– Quem não o conhecerá? A tia já ouviu por força falar nele. Se
fosse ainda novo e trouxesse pena no gorro e florete à cinta,
julgá-lo-iam um trovador. E toca de um modo tão comovente!...
– Cala-te, filha! Sabes o que ele me parece? O farroupilha de um
mendigo. Mas o outro... Até que vou ter... e tu também quem nos faça
companhia!... Uma vez, ao menos, hei-de ser dona desta casa! Anda!
Vai chamar a Elisa… e veste, pelo amor de Deus, um vestido razoável.
Eu ponho o de tafetá cor de rosa… E tu?... O que quiseres, menos o
branco... Não te fica bem...
Enquanto dizia isto, a burgravina tinha-se retirado apressadamente
da janela e corria, com grande espalhafato, para o toucador.
*
* *
– O sr. burgrave não está no castelo e a sr.ª burgravina não recebe
visitas.
Foram as palavras que proferiu o guarda portão Martim, deixando ver
através das grades a horrenda carantonha.
A última claridade do sol tinha esmorecido. Cinzentas e cor de rosa,
as muralhas e as torres do Burgo erguiam-se por cima da cabeça dos
viajantes, a cujos pés se desenrolava a encosta do monte cinzento e
cor de rosa.
– Repare! Estamos aqui em plena Idade Média. – segredou o músico a
Estevam, e, notando que Martim ia sorrateiramente a desviar-se do
postigo, intimou-lhe em voz muito alta: – Um minuto, ó amigo, e
trata de ouvir as nossas razões. Não me deste nenhuma /124 /
novidade, quando me disseste que teu amo não está no castelo; mas
que tua ama não recebe estas visitas, é que ainda não está provado.
Como pode ser isso, estando nós aqui por convite do próprio sr.
burgrave?

Através da escuridão que se ia adensando, Estevam fitou a vista nas
feições escarninhas do músico, ao passo que o guarda-portão ficou
silencioso por momentos. Ouviu-se o ranger das trancas de ferro e
das chaves, e viu-se a grande. porta soabrir-se, não para dar
entrada / 125 / aos visitantes, mas para Martim poder vê-los de mais
perto.
– Antes devias chamar-te Tomé do que Martim, já que és tão
incrédulo. – disse-lhe Hans.
– Tenho ordem de não admitir ninguém.
– As ordens que recebe um criado não são como os dez mandamentos:
estão sujeitas a variações conforme a vontade alheia. Ora se eu,
conhecendo o teu amo, te disser...
O guarda-portão mostrou a dentuça, como um cão velho, e, com um
sorriso meio de dúvida meio de desprezo, perguntou:
– Conhece o meu amo? Você!...
– Separámo-nos há pouco tempo ainda.
Para prova, dir-te-ei que se acha a estas horas em Halberstadt e que
também lá passa o dia de amanhã. Como o tempo está muito húmido e já
é quase noite fechada, deixa-nos entrar para o teu cacifo de pedra,
onde quero sentar-me um bocado, e olha bem para nós, antes de
impedir que o amigo do burgrave e o primo da senhora burgravina
entrem no castelo, para onde tinham sido convidados. Olha bem, homem
de Deus, para este senhor, e verás que é fidalgo desde o cocuruto da
sua nobre cabeça até à planta dos seus aristocráticos pés. E olha
bem para mim. Ah! Já me reconheceste!... Sou ou não sou o
Geiger-Hans? Cuidado, Martim, muito cuidado! Sabes tão bem como eu
que os grandes costumam disfarçar-se.
O tiro acertou no alvo: a prova é que Marfim, em sérios embaraços,
acabou por ceder. O outro, mantendo-o sob o predomínio do seu olhar
motejador, levou por diante a argumentação:
– Vamos! Já basta de coçar o grisalho matagal, que te vou dizer como
podes tirrar-te de uma posição má. Corre à presença de tua ama e
previne-a da visita de dois cavalheiros, por quem ela esperava
talvez, visto que nos apresentámos em obediência ao convite do
marido. Enquanto vais e voltas, ficamos sentados a descansar,
naquele banco de pedra, eu e o meu prezado companheiro, a quem
procurarei amenizar a fadiga com uma ariazinha do meu reportório.
Sem dizer palavra, o guarda-portão retirou-se vagarosamente,
voltando-se, mais de uma vez, para lançar aos dois visitantes
olhadelas de desconfiança.
– Mas como se atreveu?... – perguntou Estevam, cheio de pasmo, ao
rabequista, que, muito fresco da sua vida, apertava uma cravelha do
instrumento.
– A que me atrevi eu?... E porque não havia de atrever-me? – Fez
soar a corda, abanou a cabeça e tornou a apertar a mesma cravelha. –
Que tinha eu que recear ou que perder? Vamos ser muito bem
recebidos, digo-lho eu! E verá a ótima ceia e os momentos deliciosos
que nos esperam!
Que pasmosa audácia! – E tendo soltado esta exclamação, o austríaco
sentou-se cautelosamente num dos extremos do banco, sem poder
desfitar os olhos do rosto do músico, exactamente como se tivesse
diante de si o Príncipe da Mentira. Se eu mesmo cheguei a crer que
era verdade o que lhe ouvia!
– E era a pura verdade!...
– Explique-me então como sou primo da mulher do burgrave!
– O sr. conde é austríaco e ela, sei-o com certeza, também é
austríaca, Pertencem ambos à flor da nobreza do Império. Se não
forem parentes, obrigo-me a comer esta rabeca… e até o arco!
Ora! Ora! Esse parentesco é tão verdadeiro, como o seu conhecimento
com o burgrave.
– Somos conhecidos, acredite!
E ele convidou-o para vir ao castelo? – perguntou Estevam, já
perdido de riso.
– Pois convidou!
Levantou a rabeca e tirou dela um som prolongado, que era como a
imitação musical da inflexão, que Estevam dera à voz. E foi dizendo:
– O marido que fecha numa torre inacessível a esposa apaixonada por
divertimentos, convida, nos termos mais claros e positivos, qualquer
homem de coração e de inteligência para que venha consolá-la. O
senhor de Weilenshausem está em Halberstadt… Eu fui lá tocar ao
hotel da Coroa… e em Halberstadt fica até amanhã. Ora ele disse-me:
«Amigo… – note que me chamou seu amigo – Amigo, há-de ir tocar essa
ária ao meu castelo!» Como vê, tem a paixão da música. Foi um
convite ou não foi?... A única pessoa que em tudo isto mentirá é a
nobre esposa do burgrave. Está morta de aborrecimento e vai afirmar
ao guarda-portão... afirmar, ouviu?... que já estava ao facto da
nossa visita. Este procedimento, embora lastimável, é o que tem
sempre as mulheres fechadas a sete chaves pelos respectivos maridos./ 126 /
Encostou o peito à rabeca e a mais fluente melodia soou no vestíbulo
e foi ecoando pelos corredores e sob os tectos abobadados. À laia de
coelhos curiosos que despontam da coelheira, um moço de cozinha
deitou a cabeça de fora, surgindo de escuro recanto, e uma rosada
moçoila entreabriu uma porta e espreitou o que era, com o riso a
bailar-lhe no rubicundo carão. Dali a pouco tudo foi despertando no
sonolento castelo, ao som de falas trocadas rapidamente e em voz
baixa, de risadas mal reprimidas: agora ouvia-se o palmilhar de umas
botas, que nenhumas precauções logravam abafar. Afinal a figura
majestosa do mordomo apareceu aos dois visitantes, esplêndida à
custa das cadeias de prata e das meias de seda. Hans parou com a
música, e, curvado para Estevam, segredou-lhe:
– Veja! Revestiu-se com as suas mais preciosas galas, para vir
dizer-nos a mentira da patroa.
O mordomo, depois de fazer uma grande cortesia ao conde, falou-lhe
nestes termos:
– A minha nobre ama esperava para amanhã a honra desta visita.
No entrementes deu com os olhos de xarrrôco no rabequista e ficou
verdadeiramente banzado, mas ainda assim. prosseguiu:
– Quer Vossa Honra acompanhar-me até aos seus aposentos?
Como despedisse nova olhadela ao músico, este ergueu-se prontamente
e cumprimentou, dizendo ao mesmo tempo com suavidade:
– A minha honra também o acompanha. A nossa bagagem está lá fóra, às
costas de um burro. Mande buscá-la.
*
* *
Se o músico estava surpreendido com o seu triunfo, só o deu a
perceber por um leve repelão, que a alegria lhe imprimiu aos
sobrolhos. Aparentemente era daqueles que tão bem sabem
aproveitar-se das oportunidades, que chegam a convencer-se de as
terem criado por si mesmos.
– Os companheiros devem repartir entre si o que têm, e reparti-lo
irmãmente. – disse Hans, largando a escova de Estevam, com que
estivera sacudindo o pó do seu fato já no fio. – Empreste-me uma
fita para o chicote da minha cabeleira. É moda que passou, mas que
eu adoro. Barbearam-me hoje à velours… Foi uma inspiração!
Para não me faltar nada, seria necessário uma nuvem de pó… mas os
elegantes do século actual desconhecem estes requintes. Deixe-me
ver... Oh! Parece-me que esta andaina de fato preto, aqui dobrada ao
canto da sua mala, talvez conviesse admiravelmente à minha
gravidade. Sim! E esta camisa de rendas... Obrigado! Ah!... E estas
meias de seda roxa! – Veado Estevam como hipnotizado, disse-lhe que
se arriscava a ficar sem olhos continuando a mirá-lo assim; depois,
tirou uma caixa de rapé de uma das algibeiras do seu velhíssimo
colete, deu-lhe uma pancadinha com o dedo e disse:
– Triste coisa é uma pitada, se quem a tomar não tiver uns bofes de
renda, de onde possa depois sacudir o rapé não aproveitado.
Olhou para Estevam e não lhe desagradou que ele estivesse a
admirar-lhe a graça, com que fazia ondular as rendas emprestadas, e
os ares com que sacudia dos punhos um invisível átomo de rapé. Deu
alguns passos e dir-se-ia que toda a vida tinham aquelas pernas
trazido meias de seda. O fato de Estevam, se lhe ficava um pouco
largo, caía-lhe todavia com certa elegância.
– Palavra de honra, é um fidalgo! – exclamou o conde de
Waldorf-Kilmanseg, rindo às gargalhadas, com a alegria de ter feito
uma descoberta.
Franziu o músico as negras sobrancelhas, e, com o seu habitual riso
sardónico, respondeu secamente:
– Quer dizer, um seu igual. Faz-me demasiada honra!
Dando novamente expressão suave à fisionomia, passou, por sua vez, a
examinar o companheiro e disse-lhe:
– Sabe? Dava todos os anos que ainda me restam de vida por alguma
das suas incapacidades juvenis. Não acalento ilusões a respeito da
escolha que entre nós vai fazer a formosa burgravina, para alvo dos
seus desvelos.
E realmente, quando os dois foram introduzidos na sala comprida,
sombria e forrada de pesadas tapeçarias, os olhares da castelã mal
perpassaram por Hans, que, vestindo o alheio, estava prodigiosamente
distinto, e foram fixar-se complacentes no mancebo que o seguia.
Estevam tinha bem levantada a cabeça, que, sendo daquelas em que a
Natureza imprimiu / 127 / um nobre cunho, parecia bem numa tal
atitude. Se havia orgulho na arcada do supercílio e no franzido dos
lábios, também havia a nobreza de raça para justificá-lo. Isto pôde
observar a burgravina numa rápida olhadela que despediu por entre as
pestanas, notando que ele não usava as recentes e odiosas calças à
cossaca, mas que, pelo contrário, seguia a moda das épocas em que
valia a pena a um homem ter perna bem torneada e airosa. Viu, além
disso, que a casaca cor de milho e o calção cor de peito de rola se
harmonizavam excelentemente com o vestido de tafetá cor de rosa, que
tinha acabado de pôr. Educada para brilhar nas cortes, agora mesmo,
qual aguiazinha empoleirada no alteroso burgo, agitava-se no
ambiente alegre e frívolo que lhe era próprio. E o conde Estevam,
destinado também pelo nascimento às elevadas posições sociais,
sentiu, quando lhe retribuía aquele olhar, que se achava mais uma
vez no seu elemento.
– Os cavalheiros! – anunciou Nicklaus, sufocando uma risadinha
nervosa. Conhecia perfeitamente o rabequista Hans, como toda a gente
daqueles sítios, mas a familiaridade não era tal que lhe permitisse,
nem a qualquer outro, dirigir perguntas ao misterioso ente.
Tivesse este querido que o anunciassem como sendo o Arcanjo Miguel,
o Príncipe Lúcifer, o Imperador Napoleão, ou o Judeu Errante, e
Nicklaus pouco se admiraria.
A dama de vestido cor de rosa avançou o delicado sapatinho e fez uma
profunda reverência. Sem embargo de ser preto de azeviche o cabelo,
que formava sobre a nuca o apanhado clássico e vinha assombrar as
faces aveludadas, os olhos eram azuis – reconheceu-o surpreendido o
conde, no instante em que a burgravina, ao fazer-lhe a mesura, / 128
/ vagarosamente os erguia para ele – azuis como miosotis!
– Meus senhores! – disse ela, substituindo o grosseiro germano-saxão
de Nicklaus por fluente francês, que era então a língua falada nas
cortes alemãs. As flores azuis dos seus olhos desabrocharam de
surpresa, quando se voltaram para Hans. Não tinha visto dois
cavalheiros, quando espreitara da janela da torre, mas só o
encantador mancebo e um guia, que Ihe indicava o caminho. Porém
aquele homem idoso era sem dúvida uma pessoa finíssima. Só fazia
pena que fosse tão velho!...
O rabequista, conforme convinha à sua idade, é que se encarregou de
dirigir a conversação.
– Madame la burgravine – disse ele, num francês cuja
requintada pureza não passou despercebida a Estevam, apesar do seu
ouvido anglo-austríaco – permita que dois viandantes lhe manifestem
a mais profunda gratidão, por terem sido aqui recebidos com tão
hospitaleira bizarria. Tínhamo-nos perdido no caminho e...
– Perdido!...
Esta exclamação foi acompanhada por um sorriso, que a castelã não
pôde sofrear a tempo, e que lhe fez arrepiar os lábios.
Hans continuou imperturbável:
– Sim, minha senhora. A noite vinha iminente, e Deus sabe o que nos
teria acontecido, nesta região bravia e montanhosa…
– Ignoro o destino que levam. – disse ela, recuando, com altivez mal
perceptível mas estranho itinerário seria certamente o que os
conduziu para um monte isolado de todos os caminhos.
– Só com grande trabalho conseguimos chegar a estas alturas.
O rabequista acompanhou as suas palavras com um certo olhar, levando
ao mesmo tempo a mão ao coração e curvando-se respeitoso, de modo
que lhes deu o sabor do mais delicado cumprimento.
Novamente oscilou o contorno encantador daquela boca.
– Descer para o vale ser-nos-ia totalmente impossível. – prosseguiu
Hans. – O nosso itinerário é talvez de difícil explicação, mas se eu
dissesse que nos tínhamos transviado, o meu companheiro não deixaria
de emendar. Porquê?... Porque, sem a menor dúvida, está
absolutamente convencido de que o verdadeiro caminho era este, que o
trouxe à sua presença, minha senhora, ou, para melhor dizer, aos
seus pés.
Estevam limitou-se a fazer uma cortesia, mas fê-la com graça tão
juvenil e despediu dos olhos tão ardente lampejo, que a seriedade da
castelã se fundiu imediatamente num sorriso.
– Senhor. – disse ela com acanhamento, o que mostrou ao condesinho
que tivera suficiente eloquência a sua linguagem muda.
O músico apresentou-o, fazendo com o braço um desses ademanes, que
denunciam o cortesão:
– O sr. conde Estevam Lee de Waldorf Kilmansegg.
– Lee… Waldorf? – perguntou ela, com vivacidade.
– Estevam Lee, em Inglaterra; Waldorf Kilmansegg, na Áustria.
Ainda se não tinha acabado a explicação, e já a burgravina
exclamava, cheia de entusiasmo:
– A minha querida Áustria!
E uma lágrima de sensibilidade marejou-lhe os olhos cor de miosote.
– Waldorf-Kielmansegg de Waldeck.
Enquanto o mestre de cerimónias fazia esta enumeração, conservou-se
o conde muito aprumado, cônscio das suas honrarias.
– Mas então somos primos!...
E bateu uma contra a outra as macias palmas das mãos pequeninas, e
esqueceu no riso a comoção que principiava a dominá-la.
– Somos primos, sim – continuou a dizer – porque pertenço à família
Schwartzenber… sou Betty Schwartzenberg... E um primo de minha mãe,
Rezy Lutzof, desposou Tony Kilmansegg. Seja bem vindo, meu caro
primo! Ao proferir estas palavras, a mulher do burgrave estendeu a
mão ao conde, que lha beijou cerimoniosamente, o que ela retribuiu
pousando-lhe, ao de leve, os lábios na testa. Embora isto fosse
prática vulgar no país de seu pai, Estevam, por haver estado muito
tempo em Inglaterra, tinha-o quase esquecido, de modo que sentiu o
coração contrair-se-lhe num espasmo delicioso e o sangue zunir-lhe
nos ouvidos.
Antes de ter perfeita consciência do que fazia, apertou entre os
seus os dedos afusados da castelã e beijou-lhe a mão segunda vez.
Talvez ela não gostasse, mas se assim foi, disfarçou a impressão com
um rubor que lhe dizia muito bem, e, como os dois ficaram de / 129 /
parte a conversar, devia concluir-se, com provas irrefragáveis, que
a posição do moço visitante se achava solidamente estabelecida.
O rabequista olhava-os benevolamente, batendo na caixa do rapé e
tendo uma das pernas avançada, segundo o estilo.
A burgravina esperava ouvir outra apresentação, que lhe fosse não
menos agradável, mas como a demora já era tanto que os colocava em
certo embaraço, perguntou:
– Primo Kilmansegg, não imita a amabilidade do seu companheiro,
apresentando-mo também?
Chegou ao conde a vez de ruborizar-se.
Hans fitou nele, por instantes, um olhar implacável, mas fartou-se
afinal de gozá-lo e acudiu-lhe dizendo:
– Se o meu amigo aceitou como útil e divertida a minha companhia,
sem tratar de saber previamente quais tinham sido os meus
antepassados, igual indulgência não posso impetrar de quem nos
acolheu com a mais requintada amabilidade. Como sei que de mistura
com o sangue nobilíssimo que lhe corre nas veias, sempre haverá uma
gotinha do que animou a nossa mãe Eva, deixe-me participar-lhe que
sou Jean Seigneur de la Viole, Marquis de Grand Chemin… e que
me limito, por enquanto a depor aos seus pés estes dois dos meus
pobres títulos.
Ficou meditabunda a castelã, com as sobrancelhas contraídas pelo
esforço de se recordar. Disse afinal, cheia de gravidade:
– Esses nomes têm um certo sabor antigo.
– Oh! Se quisesse gabar-me, diria que nenhum outro os excede em
duração.
Tornou a ficar pensativa, remirando o bico do elegante sapatinho.
Reanimaram-se os belos olhos azuis, espancando o sol as nuvens que
se iam adensando naquela fronte. Com simulada indiferença, retorquiu
a fidalga:
– Seja bem vindo, sr. meu hóspede.
– Oh! Minha Senhora! Sabe o que lamento deveras? Que este título, o
mais belo de quantos possuo, deva ser também o menos duradouro.
Foi nesta ocasião que Sidónia entrou quase de corrida, ainda
acabando de atar a fita azul, que trazia à cintura. Tinha-se
demorado na tarefa de formar, com as lindas e fartas madeixas, o
penteado da moda, mas alcançando um resultado, que a tia criticou
severamnte por um simples olhar de compaixão. Estacou mais
envergonhada que uma colegial, com o sangue a purpurear-lhe o rosto
e sem ousadia de levantar os olhos.
– Criança! – disse-lhe Betty. – Apresento-te meu primo, o conde de
Kilmansegg, que, passando perto daqui, teve a amabilidade de vir
saber da minha saúde.
Sidónia olhou a furto, e logo percebeu – oh cruel momento! – que ele
não a reconhecia.
A castelã continuou a falar. mas agora com um risinho sarcástico:
E também veio este cavalheiro...
Ainda cheia de confusão, a recém-chegada ia fazer outra mesura,
quando se deteve repentinamente e deu um grito de espanto:
– O «Geiger Hans»!
– É outro dos meus títulos. – explicou o músico, muito sério, à
burgravina – o que me dá a pequenada, para quem não são totalmente
desagradáveis os sons da minha rabeca.
Enquanto aqui estiver, será Monsieur de la Viole – disse
Betty á sobrinha. com a mesma seriedade.
– Marquis de Grand Chemin! – insistiu o vagabundo,
acompanhando o dito com uma rasgada cortezia.
– Marquis de Grand Chemin – repetiu de boa feição a
burgravina.
Apesar disto, foi o braço do primo, simples conde, que tomou quando
se encaminharam para a sala de jantar.
*
* *
Tinham-se retirado os criados, depois de servirem a ceia prometida
pelo rabequista e tão abundante e suculenta como ele anunciara.
Segurando com o segundo e terceiro dedo o alto pé de um cálice de
cristal, olhava Hans distraidamente a transparência do vinho
generoso. Onde tinha o pensamento? Porque se tornou taciturno
perante o espectáculo das flores em profusão, da custosa baixela,
dos cristais, das porcelanas? E conservava no copo o rubi do
admirável «Clos Vougeot», em frente do qual Bonaparte, ainda
republicano, mandara, na marcha para Itália, os seus soldados
fazerem alto e apresentar armas, como ao príncipe dos vinhedos! Pois
era o mesmo homem que tanta vez, atolado na poeira dos caminhos,
cantava diante de uma côdea de pão, ou dava graças a Deus, se podia
beber uma sede de água nas correntes que desciam das montanhas!... /
130 / Se tivesse na mão o violino, seria agora de lágrimas a sua
música.
Mexeu com os olhos. Primeiro descansou-os, com singular expressão de
carinho, no rosto de Sidónia, de uma frescura de rosa silvestre;
depois fixou-os na burgravina. Era realmente como que um altar para
a adoração a formosa mulher, com o farto seio emergindo do decote do
vestido, e a petulante cabeça – uma cabecinha de boneca – a
oferecer-se ardentemente, em êxtase, ao fogo que se ia ateando no
semblante de Estevam, até então subjugado pelo respeito das
conveniências. O músico viu isto e os lábios arrepanharam-se-lhe num
sorriso de mofa. Olhou para o conde, que tinha as faces incendiadas
e o olhar chamejante, e ainda se tornou mais funda aqui a
contracção. Não lhe eram agradáveis semelhantes entusiasmos.
Voltou-se e atentou na silenciosa criança. Havia um quê de austero
no manto de orgulho e modéstia, em que ela se envolvia. Disse-lhe
meigamente:
– Menina Sidónia!...
Só teve em resposta um breve olhar, lançado por olhos rasos de
lágrimas. Perguntou, com a fisionomia distendida pela ternura:
– Quer que toque?...
Sidónia disse-lhe que sim com a cabeça. Os cantos da boca
tremiam-lhe: se pronunciasse uma palavra só que fosse, romperia em
soluços.
Pôs-lhe uma almofada debaixo da cabeça – pensou o músico – e foi
quanto bastou para que o amor florescesse no seu coração. Ah!
mocidade!... Pobre criança! – E olhou para os outros que estavam
conversando em voz baixa. Gritou-lhes:
– Depois do banquete, a dança, não acham?...
– Sim! Sim! Vamos dançar!
Mal disse isto, a burgravina ergueu-se rapidamente, numa alegria
doida. Que mulher, que boneca para ter nas suas mãos a honra de um
homem!...
– Pois então vou tocar! – disse Hans, com riso amarelo. E mandou o
Niklaus buscar a rabeca. Depois de uma pausa, murmurou estas
palavras, que mais pareciam o eco de um suspiro:
– Hã-de ser um minuete.
E o Marquis de Grand Chemin floreteou com o arco à feição de
esgrimista, fazendo adejar as rendas dos punhos, e avançou um passo
donairosamente: era como se o aroma das rosas mortas de Trianon
perpassasse por entre as rudes tapeçarias góticas do Burgo.
– O minuete é a dança das damas da alta aristocracia e dos gentis
fidalgos – disse ele, começando uma melodia dos tempos passados, em
que havia um misto de travessura e de melancolia subtil. E foi
tocando, e as palavras que pronunciava a modo que se entrelaçavam,
com a sua harmonia especial, na grinalda dos sons. «Incline-se,
senhor, levando a mão direita ao coração. Pegue na mão do seu par, a
quem deve encarar, os olhos bem fitos nos olhos. – Ah! dirá em
silêncio, mas eloquentemente. Apertar essa mão delicada... apertá-la
por toda a vida!... Gozar a sua deliciosa companhia sempre,
sempre!.... Assim é que todos os dias da existência deslizariam como
suave melodia!... Oh senhor! responderá a dama na mesma linguagem,
confunde-me! – E ao dizer isto, esquiva-se-lhe com uma reverência
toda encanto e dignidade. Faz-lhe outra mesura… se bem que ela
realmente não a mereça!... Mas que é isto? A mão dela voltou para a
sua... Oh! Agora aproxime-se um pouco da linda feiticeira… Levantam
bem alto as duas mãos enlaçadas. O cetim do elegante vestido cicia
de encontro ao damasco da airosa casaca... O ombro dela tocou-lhe.
Fa-la rodopiar da direita para a esquerda… com que orgulho… Céus!
Com que respeito! Como gira aquele corpinho gentil, pelo simples
instinto duns dedos apaixonados, indo de um lado para o outro, para
que todos o vejam, para que todos admirem o prémio que lhe coube em
sorte!...
– Agora já se não dança o minuete. – interrompeu Estevam, com tímido
ressentimento.
Os compassos de Jean de la Viole, que tinham soado meio
alegres, meio dolorosos, mas sempre suaves, como a saudade de um
passado encantador, pararam de repente. O músico deitou um olhar mau
para o conde, no instante em que levantava o arco da rabeca.
– Sim, tem razão. – disse-lhe depois. – O minuete foi à guilhotina.
A França pôs em moda outras danças. Ça ira, Ça ira! Dansons la
carmagnole! – Tinha aspecto sinistro quando as notas destas
ensanguentadas canções do enxurro lhe brotaram das cordas. – Aí tem
as novas danças dos franceses! Que as dancem até à morte!
– Acabe com essas músicas tão feias! – atalhou Betty, em cujo
semblante não se reflectiu / 131 / a mais leve sombra da trágica
paixão que animava o rabequista. – Toque-nos uma valsa, Monsieur
le Marquis! – E agarrando-se a esta inspiração repentina, como a
criança se agarra a um brinquedo, exclamou: – Uma valsa! Uma valsa,
beau cousin de Kilmansegg! Ouço dizer que é a dança que faz
agora furor! E Deus nos livre dos velhos minuetes!
– Pois seja uma valsa! – disse o rabequista, que dominado pela ira a
deixou transparecer juntamente com a ironia brutal do Ça ira,
no ritmo de uma valsa fantástica. «Anda à roda, coração inanimado e
cabeça vazia! Segura-a bem, e leva-a contigo no rodopiar furioso,
para que sintas crescer essas pernas de cabrito montês, tu que
podias erguer a cabeça a topetar com os deuses, e conhecer a
inestimável vertigem das alturas! É para isso que tens mocidade!
Mais rápido, sempre mais rápido foi sendo o compasso da música,
executada com doidos e ásperos arrancos; mais rápido o turbilhão da
dança! Beau cousin já principia a estar arquejante. Leva a
Belle Cousine tão apertada a si, que mal a deixa respirar. O
cabelo, meio solto, flutua ao desdém; o ombro, de tanto solevar-se,
ameaça romper a manga curtíssima. Sem ânimo de continuar a vê-los,
Sidónia foi para a janela; encostou aos vidros a face que escaldava,
e fitou os olhos, que ardiam como lume, nas estrelas tremeluzentes.
Havia uma coisa que lhe empolgava a garganta e o coração,
apertando-os ferozmente.
Sem os advertir, o artista passou o arco nas cordas produzindo um
som dilacerante, e, como se uma espada tivesse caído no meio deles,
Estevam e a burgravina separaram-se, atónitos, confusos. O conde
cambaleou, e amparou-se a uma cadeira. Ela levou a mão às
desalinhadas madeixas e às rendas do decote, tornando-se escarlate
na testa, nas faces, no pescoço, nos ombros.
– Não querem dançar mais o minuete? – perguntou Hans, soltando uma
gargalhada seca e arranhando novamente as cordas da rabeca.
Afigurou-se ao mancebo que o riso daquele homem tinha o que quer que
fosse de diabólico, e que sucedia outro tanto ao riso que se
reflectia do instrumento.
O músico prosseguiu:
– Dou-lhe toda a razão, sr. conde, e o mesmo lhe digo, minha
senhora, porque a valsa tem andamento mais veloz. Quanto sinto vê-la
assim, sem quase poder tomar respiração! Permite-me que me assente,
por um instante, ao seu lado? E porque não explica, sr. conde de
Kilmansegg, os princípios desse… desse gracioso e elegante
passatempo a Mademoiselle?... Foi para longe de nós, mas a
sua mocidade está ainda a tempo de aprender a nova moda. Não lhe
parece, burgravina, que as duas crianças fariam excelente companhia
uma à outra, debaixo das nossas vistas?... Temos toda a competência
para guardas: «eu como velho que sou, e a burgravina por ser uma
senhora casada e cheia de sisudez.
Não obteve resposta, a não ser o olhar que ela, entre admirada e
ofendida, lhe relanceou.
O músico sentou-se e foi dizendo:
– Não tem razão, creia, para se zangar com o seu marido e senhor,
por ele a conservar fechada neste castelo. Valha-nos Deus! Não lhe
provará com isto o amoroso apreço em que a tem?
Betty deu ao rosto uma expressão de profundo desprezo e replicou:
– Sem dúvida!... Não pode mostrar com mais eloquência a sua enorme
afeição!
– Ocultando o seu tesouro onde os ladrões não podem chegar-lhe? De
acordo! Assim ao menos o pobre do homem fica inteiramente
descansado.
– E o infeliz tesouro que se vá estragando, no entanto, por obra da
traça e da ferrugem!
Retorquiu em voz baixa o músico ambulante:
– Não são esses os piores inimigos! O dono do tesouro receará mais
ainda alguma nódoa...
– Que audácia!...
Ainda ela não lhe tinha atirado à cara esta exclamação, e já o
rabequista fazia gemer no violino uma toada melancólica. De repente
encarou a formosa mulher e disse-lhe a sorrir:
– Ah! Que se pior graça especial da divindade eu fosse o possuidor
de uma ave de tão brilhante plumagem…
Calou-se e por isso a burgravina lhe perguntou, com ar triunfante:
– Que faria?... Vamos! Explique-se!
– Abria de par em par todas as portas e dizia-lhe que voasse! / 132
/
– Que audácia! – disse a fidalga outra vez, e ficou tão sentida, que
chegou ainda a soltar do peito um soluço.

– Vê? – perguntou o rabequista, dando às suas palavras um
acompanhamento de notas quase imperceptíveis. – É apenas o ponto de
vista do sr. burgrave que Ihe pareceu menos cortês.
– Devia ter confiança em mim. – acudiu ela, a meia voz. / 133 /
– Quem sabe, minha senhora, se estão para suceder coisas
extraordinárias?... Pode ser que ainda algum dia a avezinha deixe de
suspirar pela liberdade, e só deseje o ninho...
Movia os dedos suavemente. O arco tinha a flexibilidade de uma
vergôntea muito verde, que cresce em plena primavera. Eram compassos
do mais insinuante ritmo e alegria, tão doces e tão meigos corno as
notas com que a andorinha, debaixo do beiral, saúda a madrugada.
Presa da fascinação, Betty perguntou-lhe, sem quase poder falar:
– Que vem a ser isso?
– Esta música?... É para se cantar ao pé dos berços.
– Novamente se calou. Tinha a fisionomia transtornada, fixo e
pensativo o olhar, que ele ordinário não parava um momento. A
encantadora Madame de WelIenshausen deixou pender a cabeça para o
peito e as lágrimas deslizaram-lhe silenciosas e abundantes.
*
* *
Enquanto o músico ia obtendo este resultado em relação à dona do
castelo, Estevam Lee atravessou a sala a passos vagarosos e
dirigiu-se para o vulto grácil da rapariguita, que estava no vão da
janela. Ia dizendo consigo mesmo que o rabequista Hans possuía
indubitavelmente qualquer misterioso poder para sujeitar-lhe a
vontade, como esses de que dispunha Mesmer, então muito celebrado.
Mal o sentiu parar ali perto, Sidónia voltou-se de repelão e com os
olhos a faiscarem. Disse-lhe o conde:
– Pois é realmente a pessoa com quem me encontrei naquela casa da
floresta?
Ah! Não vê bem ao longe, nem prontamente?... É talvez consequência
de ter vivido sempre nas cidades.
Sidónia foi descorando a pouco e pouco e tomando um aspecto rígido e
cheio de altivez. O conde, ainda enlevado na descoberta, continuou:
– Já sei que me levou uma almofada, quando eu estava ferido...
– O mesmo faria a qualquer outra pessoa… até mesmo a um cão.
– E comoveu-se muito, por julgar que eu tinha morrido! – acrescentou
o austríaco, espantado com o desprezo que ela lhe mostrava.
– Ah! Se eu o conhecesse melhor!...
Tinha os olhos brilhantes e dura a expressão fisionómica, ao mesmo
tempo que franzia os lábios com desprezo. Logo, porém, ele viu que,
por baixo do vestido de cintura curta, lhe pulsava o coração como o
de um passarinho que, louco de medo, se vê fechado na rede do
caçador. O peito arfando desordenadamente fazia dançar o laço de
fita azul, que ornava a frente do corpete. Assaltou-o o desejo,
terno e cruel ao mesmo tempo, de sentir debaixo da mão aquele
coração palpitante. Deu uma curta risada, e perguntou,
inclinando-se:
– Quer que lhe ensine a valsa? É fácil. Deixe-me cingi-la com o
braço e a música fará o resto.
Sidónia recuou, lançando-lhe um olhar que parecia querer fulminá-lo,
e gritou-lhe:
– Não me toque! Embora com o coração a palpitar-lhe na voz, mantinha
alta a cabeça, como a corça da floresta. Prosseguiu: – Aquele
minuete, tal qual Hans o tocou, é possível que eu o dançasse. Mas
não gosto do seu modo de dançar, sr. conde, e ainda menos das suas
maneiras inglesas. Era muito melhor que cada um se deixasse ficar no
seu país!
E enquanto ele permanecia no mesmo sítio, como se aquela mão de
criança lhe tivesse dado uma punhalada, Sidónia atravessou a sala e
parou por momentos ao pé da tia e do rabequista, que estavam
sentados a par um do outro, em estranho silêncio.
– Vou-me deitar. – disse rapidamente, e retirou-se com a mesma
sobranceria.
O músico, que já tinha parado de tocar, desatou a rir e perguntou:
– Então a menina Sidónia não o quis para mestre de valsas, depois
daquela brilhante prova?...
Madame
baixou os olhos e de novo os fixou nas pontas dos pés, que mal
surdiam da fímbria do vestido. Estava subjugada, quase com medo.
O Marquis de Grand Chemin levantou-se com os seus ares
majestosos e disse:
– Temos que desfazer a companhia, minha senhora. Tanto eu como este
cavalheiro devemos estar a pé ao romper do dia. Permita-nos, pois,
que lhe ofereçamos os protestos da nossa gratidão e que nos
retiremos.
A burgravina estendeu-lhe a mão e ele tomou-lhe as pontas dos dedos
e fez-lhe uma / 134 / profunda cortesia, que ela retribuiu. Para que
fossem bem do minuete estes dois movimentos, só faltava a música.
– Adeus, primo! – disse timidamente a castelã. E ele respondeu:
– Adeus, prima.
Estavam muito direitos em frente um do outro, como duas crianças que
fizeram travessura e foram apanhados em flagrante. Tomara ela poder
segredar a Estevam que não era um adeus o que lhe queria dizer!...
Mas o Hans não a perdia de vista um só momento.
*
* *
Sem embargo de estar no alto de um monte, Estevam achou que este
mundo é a coisa mais baixa que imaginar-se pode, quando se viu no
seu pomposo quarto de cama, e, bocejando, principiou a desfazer as
voltas que a gravata lhe dava em torno do pescoço. No quarto
contíguo ficava o rabequista, mas tinha fechado por dentro a porta
de comunicação. Estava em maré de infelicidade o conde de
Waldorf-Kilmansegg – ele próprio o reconheceu. De súbito Hans abriu
a porta e entrou. Vestia outra vez o fato miserável e trazia na mão
o rico trajo, que o companheiro lhe tinha emprestado e que ele foi
arrumando, peça por peça, dentro da mala, pondo ao de cima as meias
de seda roxa.
Deu depois algumas voltas pelo quarto, e afinal parou, de braços
cruzados, em frente de Estevam, que baixou a cabeça e se fez muito
corado.
– Sim, senhor! Colocou-me numa situação desgraçada! Pois eu
merecia-lhe aquilo? Eu, que tive a amabilidade de trazê-lo aqui,
para lhe fazer gozar uma delicada comédia de corte... ao gosto de um
século que não volta! E o sr. conde, afinal de contas, converteu-a
numa verdadeira farsa da hora actual. Trouxe-o de uma estalagem para
um castelo, e o sr. conde, sem poder separar-se do seu Teniers,
estragou o meu Wateau! Toquei-lhe um minuete, e o sr. conde só quis
dança que lhe permitisse agarrar bem o par, e ir com ele aos
saltos!...
– Para que tocou aquela música? – perguntou Estevam, desculpando-se
à laia de pequeno de escola. – E foi ela que pediu uma valsa…
– Mon Dieu! Talvez os rapazes do meu tempo não fossem melhores que
os de hoje, mas ao menos sabíamos fazer as coisas com distinção. Se
colhíamos uma rosa, não era com a mão fechada, mas apenas com dois
dedos. Dama com que dançássemos, não ia apertada em nossos braços,
como se fosse uma vaqueira, e fineza que nos concedessem, somente de
joelhos a recebíamos! Que aroma pode expandir a flor, que sem dó
machucamos? Há três coisas em que uma pessoa experiente da vida só
deve tocar com dedos mais leves que / 135 / plumas: um gracejo
subtil, a discrição feminina e as ilusões de um coração de vinte
anos. Em todas três o sr. conde pôs mão brutal, durante o tempo que
estivemos na sala. Ápage! Estragou a minha noite!
Causou tanta surpresa a Estevam o contraste que havia entre o fato
humilde daquele homem e a arrogante cultura das suas palavras, que
nem pensou em irritar-se com a censura, e procurou apenas decifrar o
curioso enigma. Porém Hans notou-lhe os olhares e os sorrisos e
calou-se. Desde que se conheciam, era a primeira vez que parecia
menos senhor de si. Por fim deu uma risada de bom humor e disse já
com o semblante desanuviado:
– Foi um cego, fique-o sabendo, um perfeito cego! Pois não lhe
merecia um olhar, ao menos, aquela criança de graça virginal?
Quando, hoje à tarde, nos avistámos novamente, debaixo da sombra do
Burgo, encaminhei-me para o conde com o coração a pular como uma
gazela, e disse comigo mesmo: «Bem sei o que procuras. Até que
achaste o caminho da mocidade!» Fiquei certo de que o tinha traçado…
de acordo com o romance que a fortuna lhe deparou no meio da
floresta. Por fim reconheço que eram castelos no ar, construídos
pela fantasia de um velho para um rapaz, por quem tomei passageiro
interesse, e para uma rapariguinha, de quem sou verdadeiro amigo.
Mas o conde nem sequer a reconheceu!... Pois teve a cabeça no colo
dela, quando estava ferido naquela noite! Sidónia julgava-o um
paladino, todo galanteria, e agora…
– É muito pouco delicada…
– É encantadora, como a floresta ao raiar da manhã. Quando me
aproximo de Sidónia é sempre de chapéu na mão. Se tivesse a sua
mocidade, ajoelhava-me aos pés. As Iinhas daquela cabeça, a curva do
seu pequenino regaço...
Subitamente enrouqueceu, mas repetiu pouco depois:
– O seu pequenino regaço… E Estevam, sem saber porquê, teve uma
impressão de tristeza tão pungitiva, que baixou os olhos e não mais
se atreveu a encarar com o músico.
Ao cabo de uma pausa, disse-lhe Hans, com a voz já mudada:
– Venho acordá-lo ao nascer do sol. Prometi aos pequenos tocar-lhes
umas coisas antes de irem para a escola, e, além disso, quero
deixá-lo são e salvo lá em baixo, no sopé do monte, para então me
separar do meu caro companheiro, a quem fiz subir tão alto... Sabe
Deus o que ainda lhe estará reservado!
*
* *
Levantou-se contra vontade Estevam Lee, depois de noite tão
desagradável, e saiu de muito mau humor do castelo, mais o
rabequista e o burro, e com o estômago a chorar pelo almoço. O outro
pouca atenção lhe dava de absorvido que ia nas suas cogitações.
Quando atravessaram a ponte, uma carruagem surdiu do meio da névoa e
passou por eles com ruído de trovão, para ir trepar a íngreme
encosta.
O músico disse com riso sarcástico:
– Lá vai o Barba-Azul do burgrave surpreender a apaixonada esposa.
Chega mais cedo do que eu imaginava. Fiz bem ou não fiz em
apressar-lhe a toilette, meu caro?. De contrário talvez o
obrigassem a sair ainda mais depressa e de modo mais desagradável.
Bem! Está acabado o episódio, e embora o seu procedimento me
causasse profunda desilusão...
– Que lhe dirá ela, a respeito da nossa visita? – perguntou o conde.
O músico foi andando silencioso, e, alguns passos mais adiante,
respondeu:
– É assunto para limitada fantasia.
(Continua)
AGNES E EGERTON CASTLE
(Traduzido do inglês por MAXIMILIANO DE AZEVEDO)
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