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O túnel mais extenso do mundo
Concluiu-se há pouco uma das obras mais gigantescas de engenharia
que se têm empreendido: a perfuração de uma das mais altas montanhas
dos Alpes, o monte Simplon, para unir mais
Rapidamente pela linha férrea os dois países fronteiriços, a Itália
e a Suíça. No seguinte artigo, historia-se minuciosamente a
prodigiosa empresa, e descrevem-se, com o auxílio de primorosas
fotografias, todos os trabalhos do enorme túnel. Na singeleza da
verdade, esta narrativa representa o mais belo dos hinos, entoado à
glória do trabalho e da ciência humana.
I
Quando se completar a linha férrea através do maravilhoso túnel do
Simplon, a diligência amarela do governo suíço abandonará uma das
mais pitorescas passagens alpestres do mundo inteiro. Essa grande
façanha de engenharia será o meio de estabelecer através dos Alpes o
rápido trânsito que Napoleão tentou há um século. O cartaginês
Aníbal fez essa passagem com um exército e todo o respectivo
material, mas não deixou notícia de como essa notável expedição foi
levada a cabo. Já de há muito que o problema havia preocupado os
conquistadores romanos, mas foi Napoleão que deu os primeiros passos
para um caminho metodicamente traçado, encarregando em 1800 Mr.
Céard da construção da estrada do Simplon.
Empresa foi esta eriçada de dificuldades tremendas, mas o dinheiro e
o homem que a dirigia conseguiram realizá-la sem interrupção. Num
prazo de cinco anos completara-se a estrada Alpina da Itália, com o
comprimento de quarenta milhas, cerca de nove metros de largo, com
613 pontes e 8 túneis, custando dezoito milhões de francos.
Napoleão declarou que a estrada poderia ser utilizada por mais de
dezasseis milhões de indivíduos, mas tornava-se inútil se acaso o
comércio não se pudesse fazer por ela com toda a segurança.
No intuito de pôr cobro à condição anárquica daquela região e dar um
golpe nas pretensões de uma parte da população à soberania sobre a
outra, ele decretou peremptoriamente que essa região ficasse ainda
ao Império.
Cinquenta anos depois houve uma proposta para perfurar o Simplon.
Era uma questão momentosa para a política e para as relações
comerciais das duas principais nações latinas, a Itália e a França.
Por essa época já se encetara o túnel do Monte Cenis, embora só
vinte e quatro anos mais tarde ficasse pronto para o tráfico.
A Alemanha pretendeu então a sua via de comunicação. Sob os
auspícios de Bismarck, abriu-se o túnel do Saint Gothard nove anos
depois do seu começo em 1872. Rapidamente se demonstrou o grande
alcance desta linha. A questão do caminho subterrâneo através do
Simplon começou então a preocupar seriamente a França. Em 1893
principiaram as combinações para esse efeito entre a Itália e a
Suíça, e as obras do túnel encetaram-se a 13 de Novembro de 1898.
Fez-se um contrato, dispondo que o túnel ficaria pronto para o
serviço em 1904, mas este período foi afinal prolongado até 30 de /
148 / Abril de 1905, com uma multa de 5.000 francos por cada dia que
excedesse este prazo, a não ser em casos de força maior de que se
especializaram dois no contrato, a saber, um terramoto ou uma guerra
entre a Itália e a Suíça.

Ora, por ocasião da abertura do túnel do Simplon, foi quando a
França abriu os olhos para a posição equívoca em que ficava
colocada. Não lhe aproveitara a lição do Saint Gothard. O Simplon
aproxima Paris umas sessenta e cinco milhas de Milão, e tornar-se-á
o caminho natural para a Itália; mas, em frente de tudo isto, a
França ainda não se preparou para essa enorme mudança física que
deve afectar os seus interesses internos.
II
O Simplon é o túnel mais extenso do mundo. Concluiu-se à custa de
tremendas dificuldades, a maior parte das quais eram inteiramente
inesperadas, e muitas que apresentavam problemas novos de
engenharia. Prolonga-se desde Brieg na Suíça até Isele na Itália,
sendo o comprimento total de doze milhas e um quarto – em números
precisos, 21,576 jardas ou 20,713 metros.

Para o confronto / 149 / com outros grandes túneis, é decerto
interessante o mapa seguinte:
|
Túnel do Simplon |
................ |
22 ½ quilómetros |
|
Túnel
de Saint Gothard
|
................ |
16 ½ “ |
|
Túnel
do Monte Cenis |
................ |
14
“ |
|
Túnel
do Arlberg |
................ |
12 ½ “ |
|
Túnel
de Hoosac (USA) |
................ |
8 ½
“ |
|
Túnel de Severn |
................ |
8
“ |
O Simplon fica um pouco a oeste da estrada Napoleónica. O preço do
contrato foi de 15.700 contos de reis, e a obra foi empreendida pela
firma de Brandt, Brandau & C.ª, formada em Winterhur. Eram sócios
desta importante organização os senhores AIfred Brandt, de Hamburgo;
Charles Brandau, de Cassel; o coronel Locher, de Zurique,
pertencente à firma de Sulzer, maquinistas em Winterhur; e o banco
de Winterhur. O corpo de engenheiros era composto de Alfonse
Zollinger, como chefe dos Caminhos de Ferro Federais; do barão Hugo
von Kager, como engenheiro pelo lado suíço; e de Konrad Pressel,
engenheiro pelo lado Italiano. Desgraçadamente, o senhor Brandt
perdeu a vida nesta grade obra, sucumbindo em 1899 a uma inflamação
pulmonar, causada pelo ar sobreaquecido dentro do túnel.

A empresa, organizada de uma forma esplêndida, excitou a admiração
do mundo científico – em primeiro lugar, pelos cuidados
filantrópicos dados ao bem-estar dos operários; e depois, pelos
extraordinários resultados obtidos pelas condições científicas de /
150 / cada exame e de cada polegada de avanço, e na rapidez da
brocagem, que foi de incalculável valor para determinar as condições
termais abaixo da crosta terrestre; visto que, embora o Simplon seja
uma excrescência anormal, a penetração no seu centro desenvolve os
mesmos caracteres obtidos abaixo do nível do mar. A mínima
profundidade do túnel abaixo da cumeada dos Alpes é de 7005 pés
(mais de 2100 metros), muito maior do que a atingida anteriormente.

Uma das primeiras surpresas produzidas pela rotação da broca
hidráulica consistiu na diferença entre as fases experimentais e
efectivas do avanço quotidiano. Ao formular-se o contrato, foi
levado para Winterhur um grande pedaço de rocha, que se mostrou
poder ser furada pela acção da broca à razão de uma jarda (0,m96)
por cada doze a quinze minutos; mas descobriu-se mais tarde que esta
proporção era diminuída pelo menos vinte por cento no trabalho
efectivo realizado sobre a pedra no interior do túnel,
demonstrando-se que a enorme pressão produzia um efeito que não se
previra e em que até então mal se poderia acreditar. Todavia, mesmo
assim, o avanço diário da broca foi durante meses de dezoito pés, e
esta proporção cessou apenas por um motivo absolutamente imprevisto,
de que a seu tempo trataremos.
Observaram-se curiosos fenómenos na distribuição da temperatura
dentro do túnel.
Quando se assentava nalguma lei definida, apareciam sempre muitos
factores que a perturbavam.
Dependia-se muito da inclinação da rocha, conforme fosse horizontal,
declivada ou vertical, sinclinal ou anticlinal. O túnel consiste em
duas galerias paralelas, e, à proporção que elas se adiantavam, a
temperatura da rocha verificava-se por meio de uma serie de
orifícios abertos aos lados, aos quais se adaptavam termómetros
permanentes. À medida que se atingiam maiores profundidades,
elevava-se a temperatura até se chegar ao grande jorro de água, sob
o qual, a 7005 pés abaixo da superfície, o termómetro marcou o
máximo de 1300 Fahrenheit (cerca de 54º centígrados). Depois disso,
a temperatura foi baixando gradualmente à proporção que os trabalhos
prosseguiam na direcção do sul.
A umas quatro milhas da estrada de Iselle, descaiu até 550
Fahrenheit (12º a 13º centígrados), sob uma depressão de 2500 pés. /
151 / Muito desta rápida mudança foi devido a um grande manancial de
água fria, atingindo o jorro de água em duas cascatas 10.564 galões
(cerca de 48.000 litros) por minuto, à pressão de quase 300 quilos
por polegada quadrada.
Estes mananciais e o jorro de água quente (40º centígrados), mesmo
ao sul do lençol de água, foram dois incidentes seriíssimos na
construção do túnel; e tão prodigiosos foram os embaraços, tão
renhida se tornou a luta, que a obra quase esteve a pique de ser de
todo em todo abandonada.

Mas a vontade indómita, a perícia e a dedução científica dos
engenheiros levaram finalmente de vencida os obstáculos que se lhes
defrontavam. Nestas ocasiões fizeram-se algumas observações
interessantíssimas para o cálculo da temperatura da terra.
Verificou-se em geral que o acréscimo de calor importava num grau
Fahrenheit por 67 e meio pés, um pouco mais lento do que os cálculos
anteriores de um grau por 64 pés, conquanto em concordância com
observações feitas tanto no túnel do Monte Cenis
como no do Saint Gothard
(1).
Foi em Maio de 1904 que fontes quentes de enorme poder puseram em
risco a continuação dos trabalhos. Descobriu-se então que uma zona
extensíssima da montanha era quase uma massa líquida, uma espécie de
greda maleável, necessitando tremendos contrafortes de ferro e
carvalho, e uma estrutura interior especial para permitir o trabalho
dos operários, cuja luta persistente e heróica excitou a admiração
dos patrões. Neste período havia mais jorros de água, alguns
rebentando / 152 / do tecto, tão incómodos e custosos de vencer que
obrigavam a combates constantes, com intervalos de vinte ou trinta
minutos. Do lado norte, um pouco além do ponto mais alto, os
trabalhos foram interrompidos.
A água precipitava-se em catadupa
pelo declive que se dirigia para o sul, e as bombas não conseguiram
dar-lhe vencimento. Durante as semanas anteriores à abertura final,
mais de 1800 metros cúbicos de água foram impelidos para a curta
distância que mediava entre o ponto mais alto e o extremo da
galeria, e represos por uma enorme comporta de ferro. Por um
expediente engenhoso, esta água foi finalmente esgotada através do
túnel do sul. As galerias tinham sido levadas até um tal ou qual
adiantamento, uma por debaixo da outra. O cimo da galeria sul tocava
no pavimento da galeria norte; e assim, quando se disparou o último
tiro para comunicar as galerias, a água correu para um leito que do
lado sul haviam preparado expressamente para a receber. Tudo isto
ocasionou grandes transtornos, que os operários suportaram de ânimo
leve. Teve-se na máxima consideração a comodidade e a saúde de
todos; uma das secções mais dispendiosas da empresa foi a que dizia
respeito aos lavadouros e enxugadouros dos corpos e fatos. Durante
os seis anos e meio que durou a construção deram-se apenas vinte
óbitos entre os três mil homens empregados. Até Novembro de 1905,
tinha havido 1. 530.000 explosões de rocha, em que se tinham
empregado setenta e cinco toneladas de dinamite.

É interessante, a propósito, notar que se faziam, geralmente, oito
ou nove inserções de cartuchos de dinamite de cada vez. Quando se
deitava fogo ao rastilho, concediam-se dois minutos para se procurar
abrigo. Os trabalhadores inexperientes eram sobretudo Italianos, que
se mostraram mais aptos para / 153 / aquele
trabalho do que os camponeses suíços.(2)
O túnel acabado é um dos dois que estarão em serviço de futuro. O
segundo túnel está apenas feito em parte, e chamam-lhe «a galeria».
Não se completará para a segunda via senão quando o primeiro render
2000 francos por quilómetro. A galeria prestou um grande serviço
para facilitar a circulação do ar e para os
trabalhos hidráulicos do esgoto.(3)
Para aproveitamento imediato da linha férrea, há um grande desvio, a
meio do túnel pouco mais ou menos, para a passagem dos comboios.
O eixo do túnel é quase uma recta. O declive é bastante doce. A
maior inclinação, e essa mesmo numa distância curtíssima, é apenas
de quarenta – muito inferior à dos túneis do Monte Cenis, do Saint
Gothard ou do Arlberg. Os acessos ao Simplon são extremamente
fáceis. O Caminho de ferro Federal da Suíça, que desde o lago de
Genebra atravessa o vale do Ródano, e que ali chega também do vale
de Zermatt, entra quase de nível no túnel em Briège. Os viajantes
que atravessam o Saint Gothard devem recordar-se da maravilhosa
ascensão serpentina do caminho-de-ferro antes de chegar a Geschenen.
Do lado italiano do Simplon, a Sociedacle Italo-Mediterrânea
construiu o entroncamento de Milão-Arona, DomodosolIa e IselIe.
Assim, o grande lago de Genebra fica directamente ligado a Placência
e Milão, e encurta-se o caminho da Itália para a França e a
Grã-Bretanha.
Antes de se abrir o túnel do Simplon ao tráfego ferroviário,(4)
são indispensáveis várias instalações.

A via férrea exigirá a colocação de cinco cabos para o serviço
telegráfico e para trens de balastro; o leito da via precisa ainda
de grandes trabalhos; e a aparição de novos mananciais ou de
movimentos do solo sob a pressão naturalmente exercida pela montanha
– transtorno que não é absolutamente inesperado / 154 / e exigirá
obras de reforço bastante dispendiosas.
lII
Fora do túnel, nos dois extremos, foi necessária uma enorme
acumulação de trabalhadores e de materiais para suprir as
necessidades do grande empreendimento. A força natural das águas foi
excelentemente aproveitada num e noutro extremo do túnel. A obra
exigiu a construção de gigantescos reforços, plantas de instalação,
maquinismo de secagem, dínamos eléctricos – em suma, uma aluvião
tremenda de máquinas para satisfazer às mais complexas necessidades.
Edificaram-se grandes depósitos para locomotivas e para a construção
de carruagens. Vinte e cinco comboios entravam e saíam cada dia pelo
túnel, simplesmente para transporte dos mineiros.
Depois, toda essa população de trabalhadores precisava de
acomodações: edificaram-se para eles e para as famílias centenas de
pequenas casas, e foi indispensável prover às necessidades do
seu viver. Brotaram do solo hotéis e salas de espectáculo, tal como
em casos análogos acontece na América.
E, como a maior parte desses
edifícios se erguiam em terrenos arrendados, foram sendo abandonados
à medida que diminuíam as exigências do trabalho do túnel. A 1 de
Fevereiro, a chusma de dois mil homens, recentemente empregados,
ficava reduzida a seiscentos, e no dia em que se operou a derradeira brocagem, esse número ficou ainda reduzido a metade. Finalmente,
houve um leilão em que as casas que eles haviam habitado foram
vendidas aí por uma libra cada uma! Mas os habitantes permanentes de
cada uma das povoações das entradas do túnel tinham ganho uma
pequena fortuna, por isso que o valor da propriedade imóvel dos
campónios tinha aumentado consideravelmente. Nesses dois pontos
estão agora surgindo novas povoações. Brieg nada perderá do seu
pitoresco; / 155 /
conservar-se-á o seu velho château. Foi
nesse solar histórico que o barão von Kager e alguns dos seus
auxiliares residiram durante a construção do túnel; e foi aí que em
1680 viveu o grande Kasper Stockalper, que em seus dias dirigiu o
tráfico do Simplon, protegido por uma importante guarda de homens
armados. Se ele pudesse contemplar a esplêndida estação nova do
caminho-de-ferro em Brieg, e ter conhecimento do túnel colossal,
ficaria verdadeiramente maravilhado.
O custo total do túnel do Simplon foi muito inferior ao de qualquer
dos outros túneis.
Com as despesas de instalação, foi de 3250 francos por metro. O
Monte Cenis custou 5878 francos por metro; o Saint Gothard, 3940; e
o Arlberg, 3975. O túnel do Saint Gothard desviou do Monte Cenis
para cima de 40 milhões de francos por ano. Sem dúvida que uma parte
considerável desta quantia reverterá doravante em favor do Simplon.
IV
O empreendimento do Simplon revestiu-se de um interesse poderoso
para o observador atento. Teve por momentos uma aparência deveras
teatral. Os despachos referentes à grande obra excitavam como lances
dramáticos os ânimos em todas as comarcas circunvizinhas. Quando de
um extremo ao outro do mundo foi telegrafada a perfuração definitiva
do gigantesco monte, os cidadãos da Itália e da Suíça não podiam
furtar-se a um estremeção de alvoroço à vista do boletineiro que
espalhava a grande notícia. O estalajadeiro Jean apertou
efusivamente as mãos do advogado Dufour, enquanto ambos iam lendo o
momentoso telegrama:
LA PERCÉE DU SIMPLON
Gonda, le 24 février
Rencontre effectuée 7 heures 20 minutes ce matin!
ENTREPRISE SIMPLON
O canhão troou pelos desfiladeiros e pelas quebradas; e quando os
últimos ranchos de / 156 / cabouqueiros saíram da enorme caverna e
esgazearam os olhos ao sol que nessa manhã dourava a cumeeira do
Simplon, as suas fisionomias ofereciam estudos para um quadro
alegórico sobre a apoteose do trabalho humano – realização das
bênçãos lançadas anos antes pelos bispos de Sion e de Iselle sobre a
primeira rotação da broca hidráulica.
Haviam batalhado valorosamente. Tinham escavado, martelado, brocado,
e tinham sofrido deveras. Ocasiões houve em que toda a substância
sólida da montanha, acima das suas cabeças, pareceu estar a pique de
se insinuar pelas fendas da abóbada e entulhar a obra penosamente
feita. A intrepidez desse exército de obreiros, a tenacidade
indómita dos engenheiros, constituíram o sumo do esforço que em
trabalhos destes o mundo tem até hoje presenciado. A construção das
Pirâmides do Egipto não exigiu maior coragem nem maior tensão
mental.
V
Mas a perfuração do Simplon trará infelizmente consigo a supressão
definitiva de um dos caminhos mais romanescos e mais ricos de
tradições históricas em todo o mundo – é um pano que desce sobre o
mais pitoresco espectáculo que a Europa tem oferecido. O drama
Napoleónico foi repleto de surpresas; o seu argumento narra as
complicações da sociedade e da guerra; as suas peripécias completas
patenteiam o prestígio do magnetismo e da força individual.
A magnífica estrada sobre os Alpes foi durante largo tempo das
diversões mais fascinantes du touriste pensador, e oferecia
os mais variados e memoráveis lances. Desde o momento de entrar na
diligência amarela, quando o chicote estalava sobre as cabeças dos
cavalos de posta em Brieg, até chegar à garganta do Gondo em Iselle,
era um panorama de grandeza e de encanto que se desdobrava de
contínuo. A sinfonia começara logo no vale do Ródano com os castelos
de Sion e Sierre, as torres de Louèche e Martigny, nas abas do
grande S. Bernardo. Mas quando principiava a ascensão do Simplon,
percorria-se uma série inúmera de voltas através de desfiladeiros
fortificados que rodeavam pavorosos abismos e através dos mais
selváticos recessos de serra. Ficava-se assombrado com o esplendor
do espectáculo e estimulado por emoções contraditórias. Havia, é
certo, ali um refúgio – o hospício dos frades Agostinhos. Quem
haverá que, depois de a experimentar, tenha esquecido a generosa
hospitalidade desses quatro monges, sequestrados naquele páramo
desolado?
_______________________________
(1)(1)
– É
bastante difícil certificar qual a temperatura que se presume
existir perto da superfície dos Altos Alpes. Nos sítios em que
prevalecem as neves perpétuas, elas têm sem dúvida uma acção
protectora e evitam a irradiação; e onde as neves duram os longos
meses de inverno, obtêm-se em menor grau idênticos resultados.
Provavelmente, a uma profundidade que varia entre vinte e trinta pés
abaixo da superfície, a temperatura mantém-se pouco mais ou menos
uniforme – provavelmente a 32° Farenheit (0° centígrados). É este o
parecer expresso por Francis Fox numa comunicação feita à Sociedade
Real de Londres.
(2)
– O último obstáculo de formidável espécie apareceu em 22 de
Dezembro de 1904.
(3)
– É interessante notar que a força motriz foi toda fornecida do lado
suíço pelo Ródano, do lado Italiano pelo rio Deveria.
(4)
– No domingo, 2 de Abril, o túnel foi aberto formalmente, embora não
estivesse pronto para o tráfico. Encontraram-se a meio do túnel
comboios partidos das entradas Suíça e Italiana; e depois de tirada
a porta de ferro que marcava a linha fronteiriça, dirigiram-se
juntos até Iselle, onde se realizaram as cerimónias inaugurais. O sr.
Zollinger espera que o túnel ficará aberto definitivamente para o
tráfico em Outubro próximo futuro.
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