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Vida na arte
ITÁLIA VITALIANI EM LISBOA
LISBOA é talvez a única capital da Europa que tem visto passar pelos
seus palcos todas as modernas notabilidades da arte dramática: Sarah
Bernhardt, os Coquelin, Eleonora Duse, Novelli, Le Bargy, Emanuel,
Zacconi, a Réjane e agora a Vitaliani.
Recente como era a impressão que tinham deixado nos espíritos a Duse
e a Réjane, aquelas a par de quem se deve colocar a muito notável
actriz italiana, só um talento muito extraordinário, vizinho do
sublime, poderia estimular os entusiasmos do público de Lisboa. Isto
conseguiu a actriz Vitaliani, que há poucos dias nos proporcionou
uma série de récitas no teatro de D. Maria II e no Real Teatro de S.
Carlos.
MOVIMENTO TEATRAL EM FRANÇA
Em Paris não houve ultimamente novidades teatrais de suma
importância. Eis as peças novas de maior tomo, representadas durante
o mês de Maio:
No Odéon, La Variation, comédia em 4 actos de Pierre Soulaine.
Em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão, é
provérbio que podia servir de epígrafe à peça. A protagonista é uma
linda dançarina que deixou um protector nobre e rico para casar com
um rapazote sem meios. A pobreza produz o descontentamento mútuo e
ameaça lançá-la de novo nos braços do protector. Análise miúda e
pouco teatral. Peça graciosa, segundo Brisson, maçadora, na opinião
de Faguet, interessante, no dizer de Arène.
No Teatro Antoine, La Race, comédia em 3 actos de Jean Thorel.
Ataca o prejuízo de raça. Acção complicada e um pouco confusa. Um
velho marquês, cheio de prosápia, vê-se por fim obrigado a confiar a
honrosa herança do seu nome a uma criança dupla ou triplamente
bastarda. Diálogo cénico, conciso, forte e espirituoso.
No mesmo teatro, Monsieur Lambert marchand de tableaux,
comédia em 2 actos de Max Maurey. Motivo de farsa já um pouco velho:
um credor que o devedor tenta internar num manicómio. Tipos
caricaturais, franca alegria no andamento da peça.
Na Ópera Cómica, La Cabrera, de G. Dupont, já conhecida pelo
seu êxito recente em S. Carlos. A protagonista foi Belincioni, que
foi bem acolhida.
Os críticos musicais são geralmente favoráveis à ópera, embora sem
excessos de entusiasmo.
No mesmo teatro, Chérubin, comédia cantada de Massenet.
Libreto duma peça de Fr. de Croisset, a qual fora há três anos
recusada na Comédie, depois de a começo admitida. Música em todos os
caracteres / 88 / de mestria e de encanto do ilustre compositor, se
bem que considerada por alguns críticos como um pouco frívola e
cheia de reminiscências mozartianas, o que não admira em vista do
assunto.
Alfred Capus, o autor da Castelã, e da Nossa Mocidade,
que tão notável êxito tiveram em Paris e em Lisboa, escreveu uma
outra peça, Monsieur Piégois, que foi agora representada no
teatro da Renaissance. Nesta a julgar por aquilo que dela dizem
alguns críticos franceses, não foi tão feliz como nas outras; não
foi mesmo nada feliz. Parece que é peça sem nenhuma ideia nova, sem
entrecho empolgante, sem diálogo vivo. Depois de se ter feito de
Capus o conceito que se chegou a fazer, é preciso que a sua nova
produção seja realmente muito má, para que dela se possa dizer o que
se tem dito.
Regina Paccini, que está cantando ópera italiana em Paris, no Teatro
do Ateneu, chama sobre si neste momento a atenção do mundo lírico.
Convidada a tomar parte em um concerto no salão do Figaro,
cantou ali a cavatina da Traviata, que teve um êxito ruidoso.
MOVIMENTO TEATRAL EM INGLATERRA
Em Londres, representaram ultimamente com êxito três companhias
estrangeiras: a da Duse, a da Réjane e a dos Coquelin. Poucas
novidades tinham no reportório, e essas mediocremente apreciáveis.
Shakespeare continua a figurar abundantemente nos cartazes ingleses.
Nada menos de três Hamlets surgiram ao mesmo tempo em três teatros
diferentes. Uma sociedade particular (Elisabethian) tentou o
interessante empreendimento de representar Shakespeare na íntegra e
sem cenário, como no tempo do grande dramaturgo. A tentativa gorou
diante da indiferença do público. O grande Irving reapareceu depois
de um largo período de retraimento, no Mercador de Veneza e
no Luís XI. Parece que nem a doença nem a velhice lhe têm
diminuído sensivelmente as poderosas faculdades.
Começaram no dia 15 de Junho em Londres as representações em
matinée de M.me Georgete Leblanc Maeterlinck, que o nosso
público teve já ensejo de admirar no D. Amélia.
Outra curiosidade: a estreia de M.me Simone Le Bargy, esposa do
insigne actor francês, representando na língua inglesa. A sua
estreia foi no Adversaire de Capus (The man of the moment
na versão inglesa). Havia interesse em avaliar como essa francesa
falaria uma língua estranha. O resultado foi óptimo… demais, segundo
afirma o Times, visto que sobretudo no começo da peça a
volubilidade da sua expressão era tal que aos próprios ingleses não
era muito fácil compreendê-la. De resto, o êxito foi grande para ela
e para o protagonista, o actor Alexander.
Os artistas franceses, como se vê, têm em Londres um grande campo de
exploração e grande número de admiradores. Aos que citámos, há a
acrescentar ainda, entre os universalmente conhecidos, a célebre
Yvette Guilbert, muito aplaudida nas suas matinés do Haymarket.
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