O FIM DA GUERRA

VAI para ano e meio que dura a guerra e quase se pode dizer que nem um dia sequer a fortuna sorriu para as armas do Imperador Nicolau. As perdas que os japoneses experimentaram ainda agora na batalha naval foram tão insignificantes e tão desiguais, comparadas com as perdas russas, que não se pode deixar de admirar a superioridade de uns para deplorar a inabilidade dos outros.

Avisado o Almirante Togo, pelos seus cruzadores, de que a armada russa se aproximava, investindo o estreito da Coreia, a esquadra japonesa atacou-a com ímpeto pelo norte, por oeste, e pelo sul, dirigindo sobre ela um fogo bem sustentado e certeiro, e apertou-a contra a costa do Japão, de modo que o Almirante Rodjestvensky pouco espaço tinha para manobrar à vontade. Quis ele forçar a linha de aço que lhe opunham os navios japoneses, mas o fogo destes navios e a acção dos destroyers obrigaram-no a mudar de rumo mais uma vez. Pelas quatro horas da tarde do mesmo dia, afundavam-se os primeiros navios russos e outros se lhes foram seguindo até ao dia seguinte, durante o ataque sucessivo dos torpedeiros japoneses pela noite, e determinando a desordem na esquadra russa. Foi nessa noite que se afundaram os couraçados Alexandre III Navarino e Oslabya.

Continuou o combate no dia imediato, sendo aniquiladas inteiramente a segunda e terceira esquadras do Pacífico, e feitos prisioneiros dois almirantes da Rússia. O navio de Rodjestvensky, o couraçado Kniar Souvaroff, ficou também sepultado nas águas do Japão.

A acção começara no dia 27 de Maio, pelo fogo da artilharia pesando sobre uma parte da esquadra russa, depois das 8 horas da noite teve princípio o ataque dos torpedeiros protegidos pelos navios da esquadra, parecendo averiguado que o canhoneio durou até às 2 horas da madrugada de 28. Neste dia, em que foi a caça aos navios russos que pretendiam escapar-se para Vladivostock, serviram mais os cruzadores. Nenhuma unidade táctica foi desprezada. «É cedo – escreve um entendido cronista da guerra – para se dizer qual foi a arma que mais preponderância teve nos combates de 27 e 28 e quais os tipos e classes dos navios que melhor serviram; mas cremos que não nos enganamos dizendo que todos tiveram o seu papel, e todos foram utilizados inteligentemente na ocasião em que o deviam ser».

Desde esse momento, o Japão não tinha mais a recear pelo mar; as comunicações com os exércitos da Manchúria não seriam interrompidas; o seu comércio poderia fazer-se sem risco. E quanto estaria arrependido Rodjestvensky!

Nicolau lI, ao receber as primeiras comunicações respeitantes à derrota, ficou como aniquilado, pois sempre tivera a vitória por certa, e neste sentido preparara toda uma nova orientação. Depois de um acesso de tremor nervoso, desatou a chorar. Logo que pôde serenar um pouco, mandou chamar os ministros, e do conselho de todos logo se soube que resultara a deliberação de continuar a guerra. Entretanto, em todos os países do mundo se afigurava esse o momento propício para efectuar a paz.

Só depois de ter a certeza de que a sua intervenção a favor da paz seria bem recebida, é que Roosevelt, presidente da República dos Estados Unidos, enviou aos seus embaixadores em Petersburgo e em Tóquio uma nota em que, interpretando os sentimentos humanitários manifestados por todas as nações, dizia julgar chegado o momento de tentar pôr termo ao tremendo conflito; e que o melhor meio de as duas nações beligerantes chegarem a um acordo, seria o de iniciarem directamente as negociações, convocando-se para uma conferência plenipotenciários japoneses e russos sem nenhum intermediário. Para o fim de se regularem os / 86 / preliminares relativos ao lugar e ocasião dessa conferência, oferecia os seus serviços. A Rússia e o Japão aceitaram este oferecimento, e imediatamente começaram as negociações da paz. A situação revolucionária da Rússia, onde a exaltação popular chegou ao ponto de serem levantados vivas ao Almirante Togo nas ruas de Petersburgo e Moscovo, e outras razões provenientes do isolamento internacional em que se encontra o Império moscovita, determinam a urgência de levar a bom termo as negociações entabuladas.

 

A SUÉCIA E A NORUEGA SEPARAM-SE 

A Suécia e a Noruega são dois reinos autónomos que há largos anos viviam unidos sob a dinastia Bernadote. Tinha cada qual suas leis, seu governo e seu parlamento especiais, mas os consulados eram comuns às duas nações. Ultimamente, porém, o Parlamento da Noruega votou por unanimidade uma lei criando consulados noruegueses no Estrangeiro, mas sendo a lei apresentada ao Rei Óscar II em conselho de Estado reunido em Estocolmo, o monarca declarou não poder aprová-la, dizendo que a comunidade consular não seria dissolvida sem assentimento dos dois países, conquanto fosse opinião geral que só aquele desdobramento é que conseguiria prolongar as boas relações de amizade e confiança entre a Noruega e a Suécia.

Os ministros insistiram perante o Rei para que reconsiderasse na sua recusa, ou lhes aceitasse a demissão. Recusando-se o Rei formalmente a uma e outra coisa, o ministério declarou que se considerava demitido, e as Câmaras norueguesas declararam dissolvida a União e findo o poder constitucional do Rei, elegendo um governo provisório presidido por Michelsen, um dos homens que mais honram o seu país, pela sua inteligência e pela têmpera de seu carácter.

O Rei Óscar, muito adiantado em anos, dedicou toda a sua vida à felicidade dos dois países, conservando-os sempre em paz, como os herdou de seus pai e avó.

Ainda os exércitos do primeiro Bonaparte percorriam a Europa, já essa paz existia na Suécia e Noruega, e não fora ainda interrompida. Entretanto a dinastia que deu tanta felicidade aos dois reinos durante noventa anos é deposta, porque a ambição dos políticos da Noruega exige independência, corte, reis e representação exclusivamente sua no Estrangeiro.

 

ATENTADO CONTRA O REI DE ESPANHA

Enquanto a França recebia com expressivas demonstrações de entusiasmo o seu régio hóspede Afonso XIII de Espanha, forjava-se contra o jovem rei e contra o presidente da República um tremendo plano criminoso.

Ao terminar a récita dada na Grande Ópera, e que fazia parte do excelente programa das festas com que Paris acolheu o soberano da nação amiga, Afonso XIII, acompanhado por Mr. Loubet, subiu para a carruagem presidencial, a caminho do Ministério dos Negócios Estrangeiros, onde fora alojado. Ao passar a carruagem pela Rua de Rohan, e em frente do Louvre, ouviu-se uma forte detonação, e porque a multidão de curiosos que aguardavam a passagem do rei era numerosa, o pânico foi tremendo. Os cavalos da Guarda empinavam-se, relinchando; de toda a parte partiam gritos e exclamações de terror, lamentos de criaturas feridas, e a confusão mais / 87 / aumentava pelo embate do povo que fugia desordenadamente. A polícia, após o primeiro abalo, começou logo a efectuar prisões entre as pessoas que se lhe afiguravam suspeitas, enquanto Afonso XIII e Mr. Loubet se punham de pé dentro da carruagem, procurando perceber o motivo do pânico, pois só mais tarde tiveram conhecimento exacto do acontecimento.

A bomba que deveria ter sido arremessada a uma distância de 60 metros, explodira sob a barriga de um cavalo da Guarda, perdendo assim a força expansiva, e não dando resultados tão funestos como seria de esperar. Foram feridas umas vinte pessoas. A bomba, que parece ter sido fabricada em Barcelona, carregada com muitos pregos, foi arremessada, segundo as suspeitas fundamentadas nas investigações da polícia, por um anarquista espanhol de nome Alexandre Ferras, achando-se também muito comprometido no crime o publicista Carlos Malato.

Afonso XIII conservou admiravelmente o sangue frio depois do atentado, e nas suas saudações à multidão, que redobrou de entusiasmo por ele, o moço rei, sempre risonho e gracioso, mostrou que andava muito longe de se sentir mal em Paris.

 
 

 

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