É esta uma secção permanente, aberta pelos Serões, onde terão cabimento todos os problemas de diversas índoles que possam exercitar as faculdades do raciocínio. Os Serões convidam os seus leitores para nela colaborarem com quaisquer problemas, enviando-nos desde logo as respectivas soluções, por isso que a redacção não aspira, por falta de tempo, ao justo orgulho de as encontrar. A fim de compreenderem bem a índole das questões que especialmente nos convêm, publicamos o seguinte interessante artigo sobre o que vulgarmente se chama perguntas de algibeira, muitas das quais são verdadeiramente intrincadas. E em seguida encetaremos os nossos apelos à inteligência dos leitores.

Fique bem assente no entretanto que não é propriamente com charadas, enigmas e logogrifos que pretendemos encher esta secção, embora um ou outro desses exercícios de raciocínio se possa impor à nossa atenção pela sua originalidade e pelo seu engenho. Pelo artigo que hoje ocupa esta secção perceberão melhor os leitores quais sejam os nossos desejos, conformes, queremos crer, aos seus interesses intelectuais.
 

Perguntas de algibeira

Há uma espécie de perguntas, do género das que nós costumamos chamar perguntas de algibeira, capazes de atrapalhar os miolos mais bem organizados, quando afinal a resposta é de uma simplicidade extrema, tendo apenas no inesperado a dificuldade. Está neste caso, por exemplo, o problema com que o rei de Inglaterra Jaime I atarantou os mais atilados espíritos do seu tempo. Era ele o seguinte: «Porque é que, quando se introduz um peixe dentro de um balde, cheio de água até à borda, a água não extravasa?»

Aventaram-se dezenas de teorias, qual delas a mais engenhosa, para explicar o extraordinário fenómeno. E afinal de contas os sábios do século XVII não atinaram com a verdadeira solução do problema, com que o rei inglês zombou deles. Porque o facto que serve de base à pergunta é absolutamente falso; a água do balde extravasa, no caso sujeito, como facilmente se pode verificar. Podiam-se apontar numerosos exemplos do mesmo género, de perguntas de armadilha, cuja resposta correcta é simplesmente:

«Não é Verdade.»

Outros problemas há, parecidos com este, que têm desorientado completamente indivíduos a quem não cabe a reputação de tolos. Apresentamos como exemplos os seguintes, talvez ainda não muito conhecidos:

«Uma peça de seda tem 20 metros de comprido. Cortando-se-lhe todos os dias um metro, em quantos dias ficará ela toda dividida em pedaços de um metro de comprido?»

«Um homem trepa por um mastro ensebado, de vinte metros de altura. Num minuto sobe dois metros, depois descansa no minuto seguinte, durante o qual escorrega três quartas partes da distância que venceu. Por este andar, quanto tempo levará ele a chegar ao cimo do mastro?»

A maior parte da gente responderá sem hesitação, 20 dias à primeira pergunta e 40 minutos à segunda. E no entanto as respostas correctas são 19 e 37. O homem que trepa pelo mastro vence meio metro em cada dois minutos. Portanto, no fim de 36 minutos, está ele a dois metros do extremo. No fim do 37.º minuto chega ao cimo e deixa-se ficar.

Aqui têm agora os leitores outro problema / 78 / que demanda noções elementares de geometria:

«Tinha no meu quarto uma pequena fresta com meio metro de altura e meio metro de largura, por onde entrava muito pouca luz. Em consequência de certos pormenores de construção, não me era possível aumentar-lhe a altura nem a largura. Apareceu-me nisto um amigo que me ensinou a maneira de lhe duplicar a área sem lhe alterar as dimensões. De que maneira foi?»

É simples, por mais complicado que pareça. A fresta era um quadrado com as diagonais nos sentidos horizontal e vertical. As linhas horizontais e verticais que passam pelos vértices formam um quadrado cuja área é dupla da primitiva fresta, sem lhe acrescentar nem a largura nem a altura.

 

PROBLEMAS DE SOLUÇÃO DUVIDOSA OU PARADOXAL

Para encontrar a solução exacta dos problemas precedentes basta apenas alguma reflexão. Outros existem contudo que são menos fáceis de deslindar e que deixam campo aberto à discussão. Por exemplo o seguinte:

«Suponham um homem a andar à roda de um mastro, no cimo do qual está sentado um macaco. À proporção que o homem anda, o macaco gira sobre si e vira constantemente o focinho para eIe. Quando o homem completou a volta à roda do mastro, deu ou não deu a volta à roda do macaco?»

A maior parte da gente será porventura de opinião que o homem não deu volta à roda do macaco, visto que o viu sempre de frente; mas não faltam indivíduos autorizados de parecer contrário. Entendem eles que o homem girando em redor do mastro, andou também necessariamente em volta do macaco.

«Como se demonstra que um navio de vela pode andar com velocidade superior à do vento que o impele?»

À primeira vista, o leitor circunspecto, mas pouco versado em assuntos náuticos, imaginará que a pergunta se funda num absurdo, como aquela com que Jaime I conseguiu atordoar os sábios do seu tempo. Mas para um marítimo, a pergunta tem toda a razão de ser. Um navio de vela pode realmente andar mais depressa do que o vento. Sucede, por exemplo, ele navegar à razão de quinze milhas por hora, ao passo que o vento não tem velocidade superior a dez milhas. É este um facto que todos os dias se prova na prática; mas, embora verdadeiro, não há muitos embarcadiços que tenham facilidade de lhe dar uma explicação clara. É evidente que, quando o navio vai de vento em popa, não é admissível que ele ande mais que o vento.

Nesse caso, seja qual for o motivo, a sua velocidade será sempre muito menor. Mas quando a sua derrota faz um ângulo com a direcção do vento, quando navega à bolina ou a um largo, por paradoxal que o facto se possa afigurar às pessoas alheias à náutica, a velocidade do navio excede, muitas vezes, a do vento.

A demonstração pode dar-se por analogia, em cima de um bilhar. Coloque-se a rabeca ao longo das tabelas. Suponham que essa rabeca movida pela força do braço representa o vento. Se nesse movimento, de um extremo a outro do bilhar, ela encontrar uma bola, é claro que a impelirá pelo tabuleiro fora, exactamente como o vento impeliria um navio adiante de si, na mesma direcção. A rabeca e a bola caminharão com velocidade perfeitamente idêntica.

Mas imaginem agora que de canto a canto do tabuleiro se abre um entalhe diagonal, onde a bola está colocada. Quando a rabeca nesse caso encontrar a bola, há de empurrá-la necessariamente, não no sentido do comprimento do tabuleiro, mas no sentido diagonal para a bolsa que fica no extremo do entalhe. Ora enquanto a rabeca percorre um caminho igual ao comprimento do tabuleiro, a bola percorrerá a diagonal traçada pelo entalhe, o que representa uma distância muito maior. É precisamente de uma maneira análoga que um navio de bolina ou a um largo, consegue ter uma velocidade superior à do vento.

 

PROBLEMAS DE CAMINHOS DE FERRO

Muitos problemas excelentes têm sugerido o caminho de ferro. Aqui têm um que não é tão fácil de resolver como à primeira vista se afigura:

«Às dez horas da manhã, sai um comboio de Lisboa para o Porto com a velocidade de cinquenta quilómetros por hora. Ao mesmo tempo sai do Porto para Lisboa outro comboio / 79 / com a velocidade de quarenta quilómetros por hora. Qual dos comboios estará mais perto de Lisboa quando os dois se encontrarem?»

A maior parte da gente a quem se dirige esta pergunta – e o leitor entra sem dúvida na minoria dos atilados – começará imediatamente a fazer cálculos sobre a distância a que cada um dos comboios estará do ponto de partida no momento em que se encontram. É evidente que o comboio mais rápido, o que sai de Lisboa, há de ter vencido muito mais do que metade da distância que separa os dois pontos extremos, no momento em que encontra o outro, mais vagaroso, que saiu do Porto. Mas afinal tudo isto é perder tempo. A velocidade dos dois comboios, assim como a hora a que eles partiram, são elementos absolutamente desnecessários para a resposta formal. Quando os comboios se encontram, é claro que eles não podem deixar de estar à mesma distância dos pontos de partida ou de chegada, qualquer que seja a sua velocidade. Basta que o leitor compreenda bem a pergunta para dar uma resposta satisfatória. E, por simples que o caso pareça, pode gabar-se da sua esperteza; porque não faltam pessoas de são juizo a quem este problema tem atrapalhado ignominiosamente.

De um carácter semelhante é outra interessante pergunta de algibeira.

«De hora em hora sai de Lisboa um comboio para Faro, e sai outro de Faro para Lisboa. A distância entre as duas cidades é percorrida em dez horas à justa. Quantos comboios encontrará no caminho um viajante que saia de Lisboa ao meio dia, antes de chegar ao seu destino?»

À pergunta, na aparência simples, não há talvez muitos leitores que dêem de pronto a resposta correcta. Entre dez a quem o problema se proponha pela primeira vez, nove declararão sem hesitar que o número de comboios encontrados é doze. Ao décimo é que talvez ocorra a circunstância de que no momento de partir um comboio de Lisboa ao meio-dia, já estão em caminho doze que partiram de Faro, a começar pelo que saiu de lá à meia-noite. O viajante deve pois encontrar estes doze, além dos outros doze que hão de sair de Faro ao meio dia e de hora em hora daí por diante, até que ele chegue ao seu destino. Portanto, a resposta correcta é vinte e quatro e não doze.
 

Para cismar

Começamos a apelar, por meio dos problemas seguintes, para o engenho dos leitores dos Serões.

Toda a correspondência relativa a esta secção deve ser dirigida para o «Director do Quebra-cabeças dos Serões». É esta a forma prática de lhe dar mais rápido andamento.

E vamos agora a matutar.

UM PARADOXO ARITMÉTICO

Ora custa-nos a crer, por mais evidente que se nos afigure a demonstração, que a aritmética esteja desde o começo do mundo a enganar-nos, / 80 / dando-nos noções absolutamente inexactas sobre a diferenciação dos números. Portanto, devemos supor que algum artifício ou alguma inexactidão houve no decurso da demonstração acima desenvolvida. Vejam agora os leitores se descobrem onde está o busílis. Cá estão os Serões prestes a receber todas as respostas.
 

UM PARADOXO GEOMÉTRICO

Depois da aritmética, a geometria. Aqui têm uma nova demonstração de um princípio, evidentemente absurdo, segundo as noções científicas vindas de tempos imemoriais,

O princípio é o seguinte:

«Duas circunferências de raios diferentes e com centro comum têm uma extensão exactamente igual quando rectificadas».

Vamos agora à demonstração deste teorema original.

Suponhamos que os dois círculos da figura, formando sistema, rolam sobre a linha A a, como se fizessem parte de uma roda cujo eixo passa por C.

Quando o ponto A, depois de dar a volta completa toca de novo na linha de rolamento, em a, é claro que a distância A a, entre dois pontos de tangência, equivale à circunferência rectificada, Mas nesse momento o ponto B deu igualmente a volta completa e encontra-se agora em b. Semelhantemente, é pois a distância B b igual à circunferência interior rectificada. Ora, como essas distâncias são indubitavelmente iguais, segue-se daí a igualdade das duas circunferências.

Onde é que se encontra a falha do raciocínio? Saberão indicá-la os leitores matemáticos?

ONDE IRÁ PARAR?

Suponhamos – salvo seja! – que um novo dilúvio transforma o hemisfério norte num imenso Oceano. Nestas circunstâncias, sem ter terras nem baixos que lhe estorvem a derrota, um navio parte de um ponto qualquer do Equador, seguindo sempre com o rumo invariável de nordeste. Pergunta-se apenas:

qual será o termo da sua viagem? Isto agora é com os geógrafos.
 

ARTES MÁGICAS

Na maior parte das habilidades feitas com o auxílio de um compadre, o essencial é que esse compadre não se descubra. Mas aqui têm o exemplo de uma habilidade mágica, em que o compadrio se pode confessar à vontade. O ponto é descobrir-se como é que os cúmplices se entendem.

Suponhamos que um certo número de pessoas estão reunidas na casa de jantar com a mesa ainda posta. Sai uma delas, comprometendo-se a adivinhar qualquer número de três algarismos que as outras pensem, Quando ela volta, o compadre pega num talher por exemplo, e coloca de uma maneira misteriosa, em cima da mesa, a colher, o garfo e a faca, unidos por um dos extremos, como se fossem raios do mesmo círculo – e o bruxo declara imediatamente qual é o número combinado.

A solução é simples, embora um pouco difícil de descobrir. Os dois amigos imaginam que cada uma das peças do talher é o ponteiro de um relógio, apontando para o sítio onde deveria estar uma certa hora, e os três algarismos assim indicados formam o número requerido. Suponhamos que a ordem previamente combinada é a alfabética: colher, faca, garfo. A colher aponta para VI, a faca para III, o garfo para IX. O número é 639.

E assim se maravilha uma sociedade.

 
 

 

77-80