ERA uma vez um velho, que morava numa choupana, mais a sua velha e uma neta, ainda pequena, e o cão Fiel, mais pequeno ainda.

E uma noite passaram por ali os Papões, e um deles disse para os

outros:

– Manos Papões, fura-se o tecto, salta-se para dentro, papa-se o velho, papa-se a velha e leva-se a pequena!

Mas o cão Fiel sentiu-os e ladrou tanto que os Papões desataram a fugir.

E o velho, sem desconfiar o que era, disse para a velha:

– Maldito cachorro, que me acordou! Amanhã corto-lhe o rabo!

E de madrugada o velho levantou-se e cortou o rabo ao cão Fiel. Naquela noite os Papões voltaram e um deles disse para os outros:

– Manos Papões, fura-se o tecto, salta-se para dentro, papa-se o velho, papa-se a velha e leva-se a pequena!

Mas o cão Fiel sentiu-os e ladrou tanto que os Papões desataram a fugir.

E o velho, sem desconfiar do que era, disse para a velha:

– Maldito cachorro que me acordou! Amanhã corto-lhe uma perna! E de madrugada o velho levantou-se e cortou uma perna ao cão Fiel. Naquela noite os Papões voltaram e um deles disse para os outros:

– Manos Papões, fura-se o tecto, salta-se: para dentro, papa-se o velho, papa-se a velha e leva-se a pequena!

Mas o cão Fiel sentiu-os e ladrou tanto que os Papões desataram a fugir.

E o velho, sem desconfiar do que era, disse para a velha:

– Maldito cachorro que me acordou! Amanhã corto-lhe outra perna! E de madrugada o velho levantou-se e cortou outra perna ao cão Fiel.

Naquela noite os Papões voltaram e um deles disse para os outros:

– Manos Papões, fura-se o tecto, salta-se para dentro, papa-se o velho, papa-se a velha e leva-se a pequena!

Mas o cão Fiel sentiu-os e ladrou tanto que os Papões desataram a fugir.

E o velho, sem desconfiar do que era, disse para a velha:

– Maldito cachorro que me acordou: Amanhã corto-lhe outra perna! E de madrugada o velho levantou-se e cortou outra perna ao cão Fiel.

Naquela noite os Papões voltaram e um deles disse para os outros:

– Manos Papões, fura-se o tecto, salta-se para dentro, papa-se o velho, papa-se a velha e leva-se a pequena!

Mas o cão Fiel sentiu-os e ladrou tanto que os Papões desataram a fugir.

E o velho, sem desconfiar do que era, disse para a velha:

– Maldito cachorro que me acordou! Amanhã corto-lhe a última perna!

E de madrugada o velho levantou-se e cortou a última perna ao cão Fiel.

Naquela noite os Papões voltaram e um deles disse para os outros:

– Manos Papões, fura-se o tecto, salta-se para dentro, papa-se o velho, papa-se a velha e leva-se a pequena!

Mas o cão Fiel sentiu-os e ladrou tanto que os Papões desataram a fugir.

E o velho, sem desconfiar do que era, disse para a velha:

– Maldito cachorro que me acordou! Amanhã corto-lhe a cabeça!

E de madrugada o velho levantou-se e cortou a cabeça ao cão Fiel.

Naquela noite os Papões voltaram e um deles disse para os outros:

– Manos Papões, fura se o tecto, salta-se para dentro, papa-se o velho, papa-se a velha e leva-se a pequena!

Mas o cão Fiel que já não tinha cabeça, não os sentiu, nem ladrou, e os Papões abriram um buraco no restolho, saltaram para dentro da choupana, paparam o velho, paparam a velha e levaram a pequena fechada num saco.

E quando os Papões chegaram a casa, pousaram o saco no chão, e cada um deles bateu-lhe em cima, dizendo:     

– Ficas para logo! Ficas para logo!

E foram deitar-se e dormiram até à noite, porque os Papões só dormiam de dia.

A pequena ouviu-os ressonar, e tanto gritou, que lhe acudiu um homem, com um cão muito grande.

E ela disse como tinha ido ali parar, e o homem fechou o cão grande no saco e levou a pequena consigo.

À noite os Papões, acordaram, foram ao saco e cada um bateu em cima, dizendo:

– Agora é que é! Agora é que é!

Desataram o saco, e o cão grande saltou para fora, e papou os Papões desde o primeiro até ao último.

E nunca mais tornou a haver Papões.

 

 

72-76