Henrique J. C. de Oliveira

III - REFLEXÕES CICLÍSTICAS E NÃO SÓ...
ou
DA DIALÉCTICA AMOROSA ENTRE UM MIÚDO E UMA BICICLETA

Ciclismo

Ao lado da casa onde morava, existia, mesmo à esquina do quarteirão, uma taberna. Era a casa mais frequentada nos dias de feira. Era a casa do Zé da Feira, um casal de gente honesta e trabalhadora, com três filhos de quem era amigo. 

O mais velho, o Barito, mais adiantado nos estudos, era como que o supervisor dos irmãos mais novos, o Cinto e o Locas, e também do filho do professor, companheiro inseparável de brincadeira dos dois irmãos. E se às segundas o trio não podia brincar, porque o Cinto e o Locas tinham de ajudar devido ao elevado afluxo de clientes, nos outros dias, em que a loja tinha menos frequentadores, o trio inseparável andava por ali, em correrias e brincadeiras, durante a maior parte do dia. Foi um corrupio permanente que só amainou quando os três começaram, sucessivamente, a frequentar a escola primária. Sucessivamente, porque, entre eles, havia a diferença de um ano de idade.

Mas o que é que tudo isto tem a ver com o ciclismo?

Tem! E muito, como já vão ver. Foi precisamente por esta altura que comecei a aprender a ciclar e a tomar-lhe o gosto.

Naquele tempo, possuir um automóvel era um luxo, só acessível aos bafejados pelo deus cifrão. A classe média e a mais desfavorecida, se queriam deslocar-se com maior rapidez, tinham de andar de comboio ou, então, na melhor das hipóteses, possuir uma bicicleta. E ter uma bicicleta era já uma marca de um certo poder económico ou, então, o fruto de algumas economias reservadas para o precioso biciclo.

Muitos dos clientes que frequentavam o Zé da Feira e que trabalhavam nas fábricas dos arredores deslocavam-se de bicicleta. Estacionavam-na na berma da rua, com o pedal apoiado no lancil do passeio. Estas bicicletas, quase todas iguais, umas pasteleiras pretas com pneus largos, eram demasiado grandes para miúdos pequenos como nós. Mas, nem assim, deixavam de ser a nossa tentação. Frequentemente, pedíamos aos donos que nos deixassem dar uma voltinha, enquanto permaneciam no estabelecimento. E era raríssimo levarmos com um não.

Se as bicicletas eram demasiado grandes para miúdos pequenos como nós, como é que fazíamos para ciclar pelas ruas da vila?

Ao princípio, usávamos as bicicletas como se fossem trotinetas. Precisamente do mesmo modo, apesar de totalmente diferentes!

Aprendi a andar de bicicleta em veículos que deviam ser da minha altura, se não maiores. Apoiava o pé direito no pedal esquerdo, segurava como podia o guiador esticando os braços ainda demasiado curtos, naquela época, para o tamanho do transporte, e dava o balanço dinâmico com o pé esquerdo.

Que me lembre, nunca dei nenhum trambolhão. Se do triciclo passei para a trotineta sem problemas, também não os ia ter ao aplicar os conhecimentos trotinéticos à bicicleta. O único problema que daí poderia advir era para o desequilíbrio no desgaste dos pneus individuais. E digo bem!  O desgaste era apenas para os pneus individuais, porque os meus pais, para reduzir as despesas frequentes com as solas dos sapatos, adoptaram uma excelente estratégia económica. No sapateiro onde éramos clientes frequentes, mandaram recauchutar as solas dos sapatos com uma sola de pneu, mais resistente às correrias e ao desgaste provocado pelos largos passeios de cimento. >>>

 

 

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