ALBERTO SOUTO, Ria de Aveiro. A estética dos seus barcos. In: "Pátria", Revista Portuguesa de Cultura, Vol. I, Nº 1-2, Gaia, 1931, pp. 30-35.

RIA DE AVEIRO

A estética dos seus barcos

Diz-se que foi Osoüs, salvando-se na água sobre um tronco flutuante do incêndio que devorava as florestas de Tiro, quem inventou o primeiro barco...

Transmitiu-nos esta lenda, recolhida dois mil anos antes de Cristo, o fenício Shanchoniaton que depois nos fala da jangada, essa engenhosa e elementar aliança de troncos, tão natural, tão útil e tão fácil, que atravessou os séculos, perdurando até nós. Não falando nas jangadas, que ainda hoje se formam nos rios para o cómodo transporte das madeiras que descem as correntes, como sucede no Neva e no Volga e, entre nós mesmos no portuguesíssimo Vouga, essa associação de lenhos tem na história trágico-marítima uma crónica de inúmeros salvatérios, infinitas emoções e não poucos horrores.

Quem não conhece o Radeau de la Méduse, o famoso quadro de  Géricault, que na parede da Salle des États do Museu do Louvre, clama o último socorro e vislumbra a última esperança daquele punhado de míseros?

Já na Odisseia, o grande Ulisses, arrolado sem barco nem companheiros à ilha da bela Calipso, encontrou na jangada, que a própria Ninfa, enamorada e triste, lhe ajudou a construir, o meio de continuar a sua viagem dos mares em demanda da Grécia, afrontando a cólera de Neptuno, e o ódio de Palas.

Perfeita, como no-la mostra o poema, fabricada com madeiras preciosas, afeiçoadas pelo ferro das alfaias pinheiro que tocava as nuvens, amieiro e choupo da floresta antiga, bem secas pelo calor do sol e pelo número dos anos − e seu aparelho complicado, a jangada, descrita por Homero, era um simples recurso de momento e não já a última palavra da construção nos tempos em que a arte naval se gloriava com as fortes e impávidas naus da expedição de Tróia e das navegações famosas dos Helenos. 

E quando o pio Eneias aporta às praias do Lácio e promove aquela regata que o estro de Vergílio tão vivamente nos pinta nos eternamente belos versos da sua Eneida, os navios eram já obra adiantada de navegantes cultos.

Quem sabe lá, pois, a vez primeira que o homem, deixando a caverna, a terra, a praia, atraído pelo correr da veia, pela serenidade do lago, pelo rolar da onda, se aventurou sobre as águas, agarrado a um pedaço de caule secular ou a um ramo gigantesco esgalhado pela tempestade e de pé, sobre o arremedo dum barco, descobriu a vara, ou maquinou o remo?

E quem sabe lá se foi a fascinação de um prazer, o aguilhão de uma desgraça, a simples imitação ou uma pura conveniência o que determinou a descoberta maravilhosa e o invento magnífico?...

A Ria de Aveiro, tal como hoje a conhecemos, pertence na história da Terra a uma época tão recente, tão nova é ainda, que não foi por certo no remanso dos seus canais, nem nas areias da sua costa que o homem soltou os voos às suas faculdades de marinheiro.

Mas os hallrirtnings da Suécia, monumentos pré-históricos da idade da pedra e da idade do ferro, os gaulos fenícios, os navios de bambu e junco dos egípcios, e outros tipos históricos dos gregos e dos romanos, mostram-nos os venerandos avós dos nossos barcos que, não / 31 / sei porque misteriosa reminiscência, nos lembram − como nos traços ancestrais das crianças as feições dos antepassados − essas formas caprichosas dos bateis que subiam o Nilo ou que por aqui traziam mercadores fenícios, colonos gregos ou piratas normandos.

Mas seja o que tiver sido! O caso é que os barcos da Ria têm hoje formas elegantes, características inconfundíveis, que demonstram ou uma adaptação feliz do talhe bizarro de navios que no alvorecer da nossa história por aqui passaram, ou uma criação pitoresca e hábil de construtores artistas que viveram e se sucederam nas margens deste estuário.

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As fisionomias dos barcos da Ria, apesar de diversas, como diversos são os fins a que se destinam e os trabalhos em que se empregam, têm um ar flagrante de família. As suas linhas são, em todos eles, harmónicas, proporcionais e delicadas. Um artista que fosse chamado para embelezar a obra do construtor, não delinearia melhor, nada teria a corrigir, porque nestes barcos não há que modificar, há apenas que copiar bem, sem alterar em coisa alguma, o seu perfil airoso, gracioso e cheio de carácter.

Desde pequeno que conheço esta Ria, os seus esteiros e as suas cales, as suas belezas e os seus perigos, desde a Vagueira à Bestida e ao Rio Novo do Príncipe, da ponte da Água Fria ao Eiró, da Malhada de S. Pedro à boca da Barra.

Os seus barcos, então, são-me familiares; conheço-lhes os nomes como os dos companheiros do colégio e amigos de infância; sei-lhes os destinos, as formas, os apetrechos; os remos, as velas, as figuras!

Quantas vezes, ao vê-los passar, eu tenho pensado porque é que são assim, porque é que assim se geraram no correr do tempo, vogando de um a outro extremo desta esplêndida bacia de águas bonançosas e dolentes. E muitas vezes pensei nas alterações que poderiam sofrer, sem lhes prejudicar nem a graça que os reveste nem a utilidade que os domina.

Em criança, desejava quebrar aos moliceiros a proa atrevida e provocante, arrancar-lhes aquele bico insolente que nos lança um desafio quando por nós passa, erguer-lhes o bordo quase submerso, baixar-lhes mais aquele leme tão alto.

Foram passando por mim os anos e eu conhecendo uma infinidade de modelos de barcos, do tronco cavado à gôndola, do Tabelo ao center-board; hoje cada vez me convenço / 32 / mais que os barcos da Ria de Aveiro são estes que a gente por aí vê, necessariamente, no seu talhe, nas suas formas, nas suas linhas, nas suas fisionomias, nas suas práticas aplicações. Pode introduzir-se aqui um barco de recreio exótico e estranho. Não se pode modificar de maneira nenhuma, nem substituir seja por que modelo for, o barco que a Ria gerou, impondo-lhe uma estética natural e inconfundível.

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É por isso que me revolta e irrita o barco mal feito que sulca, por excepção, as águas da Ria.

Mas neste ponto, a minha sensibilidade não é superior á do homem rude, pescador, mercantel ou moliceiro, que, ao ver um barco mal lançado, logo o condena e escarnece, anematisando o mestre que não soube dar a esse casco a expressiva elegância da sua espécie.

E entre as espécies não há confusão possível. Tenho visto no Tejo, no Douro, no Sado e no Mondego, nas margens da Galiza e nos abrigos do Cantábrico, no Adour, no Sena, no Reno, nos canais da França e nos lagos suíços embarcações de tráfego fluvial que são um misto de formas, anódinos, híbridos, vadios de mil profissões, mestiços de cem raças diferentes e inclassificáveis.

Na Ria de Aveiro, não. Cada profissão tem o seu tipo.

O arrancador  de  algas tem o moliceiro.

O que transporta o sal e os grandes carregamentos dos navios tem o saleiro ou barco mercantel.

Os mercanteis, que nas costas compram sardinha e negoceiam em pescado, os marnotos das marinhas, os berbigoeiros, os homens do junco, têm as bateiras mercanteis, filhas do saleiro.

O caçador e o moço de marinha têm a caçadeira, e até os fidalgos da cidade e os capitães de Ílhavo, a descanso e a banhos, têm a bateirinha de recreio − O Velho Portugal, A Gaivota, A Tricana, A Gaivina, A Beira-Mar – que sulca no verão as águas das Pirâmides, de latino puxado, de um alvo luxuoso, ou que vagueia a remos na Ria da Costa Nova, por onde enxameiam inúmeros barquitos dos mais diversos feitios, estrangeiros ou mal nacionalizados, em que brincam crianças, remam braços gentis de tricaninhas e vogam serenatas nas noites calmas e luarentas.

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O barco moliceiro é de todos o mais pitoresco. Veloz como nenhum outro, não há quem lhe passe avante e quem o vença a bolinar, fazendo bordos  magníficos.

A sua borda parece andar debaixo de água, os seus tripulantes puxando à vara, empurrando com o peito virado à ré, curvados, arqueados, quase deitados, andando da proa à tosta, parecem caminhar sobre um destroço de naufrágio, poisando nas águas.

Quando o vento ajuda, o fundo dá e a alga abunda, mastro arriba, vela no topo, caça-se escota, amura calcada, ancinhos a arrastar… E eles aí andam, aos bandos, aos cardumes como gaivotas de asas brancas que nadassem de dorso ao sabor do vento.

À proa e à ré, de um lado e do outro, os painéis com espantosas cercaduras policrómicas, flores e ramalhetes pintados em cores berrantes e estilizações bizarras, cheias de ingenuidade ou ingénuas de malícia.  / 33 /

Dentro de um pomposo escudo com coroa real no cimo, uma santa de mãos postas, vestes cintadas, largo manto caído: «Ora bamos lá com Deus!»  − reza a divisa. «Mestre José de Matos me fez.». Um figurão de grande decalitro na cabeça, muito delambido, gesto de muscadim, oferece uma rosa à dama inexpressiva: «Arreda que te ispeto!»  Uma nédia moça de enormes seios esféricos e sintomas de próxima maternidade: «As moIheres quer-se boas.». Um cavalheiro de chapéu fadista pedindo lume com o cigarro na mão a um velho ginja de grande cachimbo recurvo: «Ora banha de Iá eça fumaça.»

Frequentemente como se infere não há a menor relação entre a divisa e o figurão do painel.

Uma locomotiva marcha por sobre uma cercadura de flores variadas, o dístico grita: «Ora biba a rapaziada do moliço!»

Mas também aparece numa esmerada e galharda proa, por vezes, a nota política, e o sr. dr. Afonso Costa não escapou à consagração que o entusiasmo indígena lhe quis tributar, pintando-o na proa de um moliceiro que há dias vi, com túnica de imperador romano ou vestido de bailarina espanhola, não se sabe bem, tendo ao lado um marinheiro que lhe apresenta armas: «Viva o dr. Afonso Costa!»

Sidónio Pais, o rei D. Manuel, tiveram também as suas consagrações na iconografia dos   barcos moliceiros.

Tudo isto é feito por artistas de traço infantil, distribuindo as cores com uma riqueza e vivacidade singulares, disparatadas, berrantes, cheias de ingenuidade, que só podem ter rivais nos pintadores das alminhas que mãos piedosas colocam ao longo dos caminhos nos sítios ermos em que morreu gente.

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O barco saleiro ou grande barco mercantel, é o cargo-boat do complicado estuário do Vouga. É a grande tonelagem, a grande segurança, a grande comodidade.

Construção robusta, solidez a toda a prova, alto da borda, largo do bojo.

Calmo, respeitável, grave, pesado, vagaroso, tem uma proa espaçosa e alta, projectada para a frente, ao contrário do moliceiro que a curva para trás, como um bico revirado de abutre adormecido.

No mercantel, a ré, mais baixa do que a proa é também mais suave e equilibrada, menos caprichosa, menos atrevida, menos bizarra.

O moliceiro mais típico é feito de curvas muito pronunciadas; no mercantel rectificou-se mais. A proa termina num pequeno corte recto. O leme tem linhas rectas, nos bordos há quase que horizontalidade.

Para as mulheres timoratas que receiam as nortadas, para as excursões e passeios do povoléu irrequieto, o saleiro é o barco ideal, de estabilidade a toda a prova, indiferente aos vendavais e à marola agressiva  das cales profundas.  34 /

Contrastando com ele, parece brinquedo de criança, modelo de museu, a caçadeira.

Rente com a água, a sua borda tem um palmo de alto, a sua proa caminha como um homem que para surpreender a presa, rasteja sobre a terra.

Mais alta da ré, em muitos casos, porque é da ré que de ordinário se impele com a vara, parece um sapatinho de freira deslizando pelos claustros em silêncio, delicado, subtil, mignone, o barco mais pequeno que sulca a Ria de Aveiro.

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Num artigo, descritivo, muito consciencioso, e minucioso, publicado na “Portugália” pelo sr. conselheiro Luís de Magalhães e ilustrado com valiosos desenhos do sr. Francisco da Silva Rocha, enumeram-se outras espécies de barcos e bateiras usados na zona salgada da Ria, entre os quais sobressai o chinchorro, hoje raro já nas nossas águas, mas que é, sem dúvida, um dos mais pitorescos.

Neste meu artigo, porém, pretendo apenas dar a impressão das formas típicas a que se prendem e de onde derivam todas as outras e interpretar o significado dessas formas, simultaneamente subordinadas a urna utilidade prática e a uma estética nativa, de cujo conjunto e harmonia elas saem admiravelmente próprias para as funções a que se adaptam e indiscutivelmente belas na arte que à sua construção preside.

No estudo de etnografia ribeirinha, pois, os barcos ocupam um lugar primacial como documentação que não é possível esquecer.

E aqui quero notar desde já a diversidade que existe entre as formas e a estética dos barcos da zona salgada, propriamente beiramarinha, e as das águas doces, onde o meio e a diferenciação étnica não adoptaram nem os modelos nem a estética das populações que se fixaram junto à praia e têm exercido o seu trabalho sobre as águas vindas do mar.

Efectivamente, depois da zona salobra, nas ocupações já diferentes das das águas salgadas, as formas dos barcos modificam-se curiosamente, tornando-se vagas, incertas, anódinas, mestiças, deselegantes. Agarrados à margem, os barcos são pequeninos e incaracterísticos, descuidados de talhe, pelo menos.

Para lá da Vagueira, onde a ignorância dos fazedores de mapas ainda põe uma larga barra que em tempos existiu, ao norte da Murtosa e no Vouga, apenas se entra na água doce, onde vivem os pimpões  e já coaxam rãs, os barquitos ou são chatos ou parecem-se com alguns do Mondego, de duas proas, sem graça e sem carácter, bem diferentes das bateiras da zona salgada e dos barcos que nas campanhas do moliço fazem os demorados cruzeiros e as grandes travessias.

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E as velas? As velas dariam um capítulo longo, assunto mais propício para um pintor ou para um artista, do que para um simples comentador de coisas que eu sou. Mas os pintores deste país onde estão que não vêm pintar?  / 35 /

Teimam em encher-nos as exposições com retratos de snobs, naturezas mortas, batidos poentes, e deixam tantas maravilhas da terra, da natureza, da luz e da cor, a graça do povo, a vida que palpita, as divinas, belíssimas coisas que se não descrevem e que por aí há entregues à passageira admiração dos nossos olhos e à profana indiferença dos que não sabem sentir!

Senhores pintores do meu país, venham ver, venham pintar!

Vejam bem: as velas dos barcos são a alegria dos barcos e a alegria da Ria, irmãs gémeas ou rivais das asas das aves que aqui habitam e por aqui hibernam.

Dizem que as almas não têm forma.

Talvez tenham. Às vezes cismo que as velas dos nossos barcos, brancas como os montes de sal, as asas das gaivotas, os farrapos das nuvens e a espuma das ondas, são a forma das almas dos homens robustos que há tantos anos viveram e morreram trabalhando, sonhando e sofrendo nas águas da Ria…

Venham vê-las! Num dia de verão, quando a miragem enlouquece o horizonte, duplicando e espiritualizando as imagens, dá vontade de ajoelhar e erguer as mãos, vendo a estranha beleza das velas dos nossos barcos, brancas, adelgaçadas, esguias, vagueando pela planura, voltadas para o céu.

ALBERTO SOUTO

Director do Museu Nacional de Aveiro

Da Associação dos Arqueólogos

Do Instituto de Coimbra

Capa da revista onde o artigo foi publicado: ██

Fotocópia do original cedida por Diamantino Dias, colaborador deste espaço comunitário.

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6-7-2017