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No campo das letras grandes escritores deixaram nos seus escritos estrofes lindíssimas sobre esta cidade da luz: Jaime de Magalhães Lima, Eça de Queirós, Egas Moniz, Miguel Torga, Frederico Moura, António Lobo Antunes, Raul Brandão, Homem Cristo, D. Evangelista de Lima Vidal, etc. Aveiro é o refúgio dos artistas e dos poetas! Aveiro, 8/4/2008
Apresentação da Antologia, 19 de Maio de 2008. Da esquerda para a direita: Rosa Maria Oliveira, Eugénio Beirão (João Rodrigues Gamboa), Idália Sá Chaves e Artur Fino.
Contemplação sonora O Outono entrara já por Novembro adentro e as suas cores mais características coalhavam-se, agora, nos tons de castanho, vermelho-ferrugem e amarelo. Uma suavidade dolente, uma paz dulcificadora inundava-me os olhos e poisava no meu interior, em fímbrias de felicidade. Foi assim, com a alma revestida de oiro, que entrei na Igreja da Misericórdia. Sentei-me. Progressivamente, a visão bela dos azulejos vai-se-me impondo, na semi-penumbra, com a frieza deslumbrante do seu azul, matizado de branco e amarelo-torrado. A luz coada das janelas começa a aquecer-me o olhar. E do coro alto, onde a luminosidade é mais intensa, saltam, abruptamente, e a galope, ondas sonoras que enchem o espaço. É o órgão de tubos restaurado que entra em festa. Surpreendido, concentro-me no seu apelo. Não são melodias comuns, construções harmónicas que todos ouvimos com frequências. São aglomerados sonoros que me entram pelos tímpanos e, arrebatando-me me sugerem manchas coloridas intensas, em tons de castanho doirado, vermelho-ferrugem, amarelo, verde com ouro…, como em quadro polifónico. Oiço e vejo ao mesmo tempo. E contemplo imóvel cerrados os olhos, o interior todo a vibrar… Abril 2008
Aveiro Aveiro é um hino à liberdade! São as pessoas – cagaréus, ceboleiros e bicudos – são as ruas que são gente que engrandeceu de prestígio esta terra dos congressos republicanos, dos injustiçados, da democracia. Aveiro é ria com a sua paisagem e emoções, são as aves nas suas danças ondulantes, é a luz que se espelha na água, são os moliceiros, as marinhas, os esteiros e o cheiro a maresia. Aveiro são as tradições, as festas, as procissões, a gastronomia e os Ovos-moles. Aveiro é a Modernidade!
A.
Carlos Souto
Sorria com a Ria Para dizer a verdade, não sei quem foi o padrinho que resolveu chamar à água salgada do atlântico que namora com a água doce dos rios Vouga, Águeda, Antuã, Cértima e Mau, Ria de Aveiro! Os entendidos dessas coisas de nomes esquisitos, subsidiências e outras ciências e distinguem uma deriva litoral, duma restinga ou de um delta, chamam-lhe outros nomes como Delta, Haff-Delta, Estuário e Laguna. Muito embora eu concorde com Estuário, prefiro Ria porque é feminino e é um namoro de muitos anos (Laguna também, mas…) e quem a navegar e se deixar abraçar por tantos braços, até mais do que a Deusa Chiva tem, fica com uma paixão e amor eternos. É uma “Deusa” enorme com os seus quarenta e sete quilómetros de comprimento e imensos alfinetes de peito com jóia a que os artistas deram o nome de Ilha dos Ovos, Monte de Farinha, Tostada Amorosa e outras pequenas missangas. Depois, aqueles brilhantes cristais que estão encastoados entre os caixilhos das marinhas e estas com as suas casinhas de brincar. E onde entre outros elementos está a bilha de barro que mata sedes ancestrais. Nos mencionados braços com nomes como Espinheiro, Cal do Ouro, Veia da Testada, Laranjo, Canal de Ovar, Canal de Mira, correm céleres as bateiras, os mercantéis e o símbolo mais belo que é o Moliceiro filho do casamento mar, ria. O mar queria tanto misturar-se com os doces rios que zangado rompia o hímen, ou seja, o cordão litoral, pois sabia que os homens e mulheres que labutavam pela sobrevivência dependiam física e economicamente desse casamento. Esse namoro prolongou-se ao longo dos séculos, pois em 1200 estendeu um frágil braço ali pela Torreira. Depois foi fazendo tentativas em 1500, 1584, 1643, 1737, 1756, 1762, 1778, 1802, 1838, até que o homem, munido de engenho e arte o ajudou definitivamente com proveito para as três partes. Finalmente, a 3 de Abril de 1808 celebrou-se o casamento indissolúvel e os burgos confinantes cresceram e olham fascinados os afilhamentos, produtos do matrimónio de uma “noiva” engrinaldada e um “noivo”, às vezes revoltado, mas que sem o seu trabalho incessante não lograria o sustento dos aveirenses, ilhavenses, vaguenses, murtoseiros e os outros mais pequenos irmãos nem permitiria rumar a outras paragens levando o que produziu e trazendo o que precisamos e, de há muito, desde o século XVI, o fiel amigo bacalhau. Por tudo isto, proclamo, declaro e grito: “Abençoada Ria!” Quem me dera que sejas o ataúde dos meus sonhos, pois amo-te para além do último sopro. 10-4-2008 Aveiro, Terra Salgada Quando se fala de Aveiro, uma tão velha quanto inadequada comparação é repetidamente evocada e que consiste em chamar-lhe Veneza portuguesa. Ora, a verdade é que não há proximidade alguma, quer estética, quer física, quer monumental entre estas duas cidades. Cada uma tem a sua personalidade e carácter próprios. Assim, desmistificada aquela ideia errática, é tempo de afirmar que, sem dúvida, Aveiro se apresenta como uma terra de água de singularidade única, com características próprias, bem vincadas, diferenciadas de todas as outras cidades deste nosso país. Considerados os dotes naturais,
intrínsecos, que possui, bem que Aveiro poderia e deveria constituir um
excelente exemplo de urbanismo de qualidade, respeitador do seu património
histórico construído, o que lamentavelmente, nem sempre tem acontecido. A par de
uma certa política do betão, a cidade tem sido atulhada de construções
incaracterísticas, algumas mesmo abomináveis, esquecendo a inadiável criação de
espaços urbanos de acordo com equilíbrios físico-ecológicos e,
concomitantemente, praças, parques, jardins, Por outro lado, temos algumas realizações muito positivas como são, entre muitos outros, os casos dos túneis rodoviários (para o trânsito), e das zonas pedonais (para as pessoas); aqui, o espaço onde um número assaz significativo de predadores-condutores-auto permanentemente circulam e/ou estacionam. Para além do facto abominável destes criminosos se manterem impunemente à solta, Aveiro é uma cidade bela em que, apesar de tudo, há uma certa qualidade de vida e é, pois, bom viver. É, por assim dizer, no contexto nacional, uma cidade diferente, que não fica a perder em confronto com algumas centenas de urbes de dimensão equivalente de outros países que já tivemos oportunidade de visitar e que, sem receio, testemunhamos. Maio de 2008
Nem as manhãs frescas e molhadas, nem a
noite escura e fria deixam a cidade 15/05/2008
15/05/2008
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A calçada azul e branca que pisamos diariamente, 15/05/2008 |
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