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ESTA COISA DE SER CONDE...
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Em 1964, por sugestão da Comissão de Melhoramentos de Taboeira, o Governo de
então, por diligência do Governador Civil, resolveu conceder o grau de
Grande-Oficial da Ordem de Benemerência à Sr.ª D. Arcelina Moreira, sobrinha
da Condessa de Taboeira e herdeira das suas propriedades aquando da sua morte.
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Embora
a Sr.ª D. Arcelina não herdasse o título de Condessa, nem alguma vez o
tivesse usado em vida, o certo é que o povo a tratava por Condessa de Taboeira,
tratamento que a Senhora não rejeitava e a que era afecta.
Dadas
as suas reais virtudes de caridade e bondade manifestadas a todos quantos
recorriam aos seus préstimos, aquela senhora era muito benquista na região e,
principalmente, no castiço povoado de Taboeira, onde tinha o seu Solar.
Não
é de espantar, portanto, que toda a povoação se engalanasse no dia em que as
autoridades, vindas de Aveiro, lhe foram prestar a solene homenagem da imposição
das insígnias de Grande-Oficial da Benemerência, acto realizado nos jardins do
Solar, à sombra de frondoso arvoredo.
O
povo, sempre grato a quem o trata bem, trouxe para a rua, nesse dia, todos os
vasos de flores que Taboeira tinha; e até os pobres, que aproveitam os penicos
furados e panelas velhas para os seus manjericos e cravos, ornamentaram em alas
floridas o trajecto por onde iria passar a comitiva oficial.
Eu,
que nessa altura era um assíduo colaborador do «Ecos de Cacia», sensibilizado
com estas manifestações de ternura, fiz naquele semanário um relato mais ou
menos lírico do acontecimento. E escrevi às tantas, mais ou menos isto: «Senhora,
quando um povo recebe assim os seus
convidados, é porque a senhora vive no coração desse povo!»
Fosse
por isso ou não — mas creio que foi por isso — a Sr.ª D.
Arcelina escreveu-me uma amável carta convidando-me a passar pelo seu
Solar, pois gostaria de me conhecer pessoalmente.
Não
corri ao convite, mas, passados alguns meses, por companhia que fiz a um amigo
que se ia avistar com a Condessa (sempre foi esse o tratamento) tive ocasião de
me apresentar àquela distinta dama.
Agradeceu-me
então o que a propósito da condecoração eu havia escrito no jornal de Cacia,
desviando-se depois a conversa
para assuntos triviais do quotidiano.
Durante
essa breve conversação sempre a tratei por Sr.ª Condessa, e ela, por sua vez,
chamando-me de Sr. Conde.
Não
dei conta, então, do caricato da situação: a Senhora, aceitando o título; eu
enfiado no meu fato domingueiro, um Conde por benefício do nome.
Acabada
a entrevista e já respirando o ar puro dos ciprestes do jardim do Solar, o meu
amigo dá uma sonora gargalhada:
—
Gaita!... Sr.ª Condessa para aqui, Sr. Conde para acolá, até me julguei na
Corte do Rei de Inglaterra...
Saímos
o portão da quinta, a rirmo-nos a bandeiras despregadas, Ainda hoje, quando
encontro esse amigo, a nossa conversa é precedida duma boa e saudável
gargalhada...
Fevereiro - 1984
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