Bartolomeu Conde, Escritos, Cacia, ed. da Portucel, 1985, 94 pp.

AQUELE GATO PRETO DE OLHOS VERDES COR DE ESMERALDA... É MEU AMIGO!


Tudo o que nasce nas silvas é bravo. E aquele gato, de olhos verdes cor de esmeralda, nascido duma ninhada parida no silvado — era bravo.

Fugidio, travesso, sempre de olho vigilante, já me havia surripiado um carapau dos grandes! Carapau que me havia custado 15$00 depois de muito regateio com a peixeira que abastece o bairro. Que isto de carapaus, mesmo dos negrões, é peixe promovido a mar­mota do pobre.

E vai daí disse mal da vida, do governo e do gato...

E então o dianho do gato preto de olhos verdes cor de esmeralda não me largava a soleira da porta! Mas não era, como se possa supor, pela minha velha gata, pois essa, coitada, já há muito perdeu seus desejos amorosos. Não, o marmanjo rondava a porta por outros apetites, e ao estupor, nada biqueiro, tudo lhe servia: carne ou peixe, enxúndia ou espinhas chuchadas, lá estava ele — ala! — prazenteiro e rápido como uma gazela.

Por isso, danado com o gato e com o governo, arremessava-lhe o que tinha mais à mão, fosse a vassoura, um tacho velho, água ou pedras. Mas o gato, dextro como o vento, tinha sete fôlegos... e eu só tinha um. Estava francamente em desvantagem com ele.

Mudei de táctica: fazia-lhe caras feias, assoprava sanhas de fúrias a modos da gataria, assim como quem procura entender-se usando a mesma linguagem. Mas o raio do gato, com uma rapidez incrível, acostumou-se ao método, pelo que tive de abandonar aquele estratagema.

A partir daí odiávamo-nos um ao outro. Figadalmente. Permanentemente.

Outro dia, um puto meu vizinho, traquinas como o demo, atro­pelou-o com a bicicleta. Pelo meio, zás. O gato esticou-se de dores, miou compridamente, esperneou... e quedou-se mole, de olhos meio abertos, cor de esmeralda pálida.

Arrastei o bicho para minha casa, condoído, sem ódio e sem ran­cor. Olhou-me vaziamente, assim como quem diz: que bicho és tu? Vais bater-me, agora que estou tão maltratado?

Passei-lhe a mão pelo lombo, numa carícia fugaz. Carícia e res­posta. Esticou uma das patas e eu aceitei nesse gesto um agradecimento. Dialogámos amigavelmente — eu, paternalista; ele, colonizado, isto é, domesticado.  

Hoje entra na minha casa. É visita desde então. Chega à porta e pára. Bsss, bsss, vem cá. E vem.  

Bichos bravos — somos agora amigos. Eu até gosto da cor dos seus olhos, verde esmeralda...

Fevereiro - 1978

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