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AQUELE GATO PRETO DE OLHOS VERDES COR DE
ESMERALDA... É MEU AMIGO!
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Tudo o que nasce nas silvas é bravo. E aquele gato, de olhos verdes cor de
esmeralda, nascido duma ninhada parida no silvado — era bravo.
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Fugidio,
travesso, sempre de olho vigilante, já me havia surripiado um carapau dos
grandes! Carapau que me havia custado 15$00 depois de muito regateio com a
peixeira que abastece o bairro. Que isto de carapaus, mesmo dos negrões, é
peixe promovido a marmota do pobre.
E
vai daí disse mal da vida, do governo e do gato...
E
então o dianho do gato preto de olhos verdes cor de esmeralda não me largava a
soleira da porta! Mas não era, como se possa supor, pela minha velha gata, pois
essa, coitada, já há muito perdeu seus desejos amorosos. Não, o marmanjo
rondava a porta por outros apetites, e ao estupor, nada biqueiro, tudo lhe
servia: carne ou peixe, enxúndia ou espinhas chuchadas, lá estava ele — ala!
— prazenteiro e rápido como uma gazela.
Por
isso, danado com o gato e com o governo, arremessava-lhe o que tinha mais à mão,
fosse a vassoura, um tacho velho, água ou pedras. Mas o gato, dextro como o
vento, tinha sete fôlegos... e eu só tinha um. Estava francamente em
desvantagem com ele.
Mudei
de táctica: fazia-lhe caras feias, assoprava sanhas de fúrias a modos da
gataria, assim como quem procura entender-se usando a mesma linguagem. Mas o
raio do gato, com uma rapidez incrível, acostumou-se ao método, pelo que tive
de abandonar aquele estratagema.
A
partir daí odiávamo-nos um ao outro. Figadalmente. Permanentemente.
Outro
dia, um puto meu vizinho, traquinas como o demo, atropelou-o com a bicicleta.
Pelo meio, zás. O gato esticou-se de dores, miou compridamente, esperneou... e
quedou-se mole, de olhos meio abertos, cor de esmeralda pálida.
Arrastei
o bicho para minha casa, condoído, sem ódio e sem rancor. Olhou-me
vaziamente, assim como quem diz: que bicho és tu? Vais bater-me, agora que
estou tão maltratado?
Passei-lhe
a mão pelo lombo, numa carícia fugaz. Carícia e resposta. Esticou uma das
patas e eu aceitei nesse gesto um agradecimento. Dialogámos amigavelmente —
eu, paternalista; ele, colonizado, isto é, domesticado.
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Hoje
entra na minha casa. É visita desde então. Chega à porta e pára. Bsss, bsss,
vem cá. E vem.
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Bichos
bravos — somos agora amigos. Eu até gosto da cor dos seus olhos, verde
esmeralda...
Fevereiro - 1978
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