Bartolomeu Conde, Escritos, Cacia, ed. da Portucel, 1985, 94 pp.

A moda e... a política


Em 1930 — ano a que se reporta esta história — Cacia era uma terra pacata e pobre de indústria, vivendo da lavoura e pouco mais.  

Havia, ao tempo, uma forçada poupança: o caldo e a boroa eram o prato forte das mesas pobres e, porque não dizer, até de alguns um pouco menos que pobres.  

Quanto a calçado e roupas, tá bem tá, iam até ao último: remen­dos a aguentar gáspeas puídas e chapões no rabo das calças! Ainda me lembro — até porque ainda conservo alguns — dos «tapetes» e «sacas» que a minha mãe fazia dos bocados de pano velho, emendados uns aos outros, de cores variadas, guerreando-se em inestéticos xadrezes.

Das ourelas e restos do corte, inaproveitáveis para outros deriva­tivos mais úteis, faziam-se tiras e com elas as pesadonas «cobertas», tão pesadas como ásperas, com que nos aconchegávamos no Inverno.

Era assim — sem saudades o digo.

Minha mãe vivia da costura. Era a «modista» mais procurada da época, fosse porque tivesse bom corte, fosse até porque era poupada na fazenda. A ela recorriam com muita frequência as cachopas (e as velhas também...) desse tempo.

Aconteceu — e aqui está a razão desta história — que uma freguesa mandou fazer um chambre (espécie de blusa), mas o pano era curto, pois a rapariga era farta de peitos e económica de dinheiros. Minha mãe deu volta ao pano, deu mil voltas vi eu, ao comprido e de través, mas nada — faltava-lhe sempre uma nesga, fosse para as mangas, fosse para as golas; e vai daí — chapa-lhe no peito, como enfeite plissado, uma tira de pano vermelho (dizia-­se ao tempo encar­nado) que tinha sobrado de outra obra. O vermelho, aliás o encar­nado, combinou bem com o azul da fazenda e a freguesa gostou imenso do arranjo.

Na romaria da Senhora das Dores (ainda hoje não sei por que razão esta Santa tinha tantas jovens devotas...) foi o chambre apal­pado, mexido e apreciado — e muito elogiado pelas cachopas das suas relações (e não só!)

Minha mãe, qual Cristian-Dior-de-aldeia viu-se inquietada, não tinha mãos a medir.

— Ti Laurinda, eu quero um chambre como o da Maria.

E assim nasceu uma moda.

Contei este passo, da vida da aldeia em 1930, porque pressinto que o «pacote 2» e seus complementos podem encurtar certas fazendas e... quem sabe, obrigar a inventar algumas modas furta-cores, já que o vermelho agora parece não combinar lá muito bem com o azul...

Outubro - 1977

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