Em cima – A estátua de José Estêvão no átrio do Palácio de S. Bento
              Em baixo – Um aspecto da Rua José Estêvão

Estátua de José Estêvão no átrio do Palácio de S. BentoNISTO estamos, agora, ontem, amanhã decerto, piores que nos tempos do senhor Dom João o Sexto. A modos de mulatos com medo a «manipansos», jamais as artes plásticas floresceram entre nós. Em pintura, continuamos a discutir a personalidade do pintor e dos pintados nos painéis do presumível Nuno Gonçalves. Em estatuária, importamos mármore de Carrara ou Montelavar − tanto faz! − e os rasos artistas têm de fazer labor de pedreiro. Em arquitectura, reconstruímos a cidade à chibatada negreira e, com as sobras desse furor, erguemos três bisarmas colossais, mas idênticas no mau gosto, na inutilidade e nos rios de bom ouro do Brasil que custaram: − Mafra, imensa, fria e sem préstimo durante séculos; o aqueduto das Aguas Livres, porque elas nunca estiveram tão presas; e as linhas de Torres Vedras.

Um aspecto da Rua José Estêvão em LisboaMas não falemos mais. Estas três coisas constituem fronteiras naturais do mau gosto português a delimitar os séculos XVII e XVIII, até suas confluências com o precedente XIX. Assim pinceladas essas sinistras farcas caudinas, no estúpido e estéril clarear das caliças e paupérrimas charnecas circundantes − penetremos no motivo desta invectiva.

Escrevemos, em artigo anterior, do desamor em que é tida a memória de Consiglieri Pedroso nesta sua cidade natal. Desta feita, diremos que buscámos a estátua de José Estêvão, filho de Aveiro, em cujas cristalinas águas limpou e deu moderno brilho à oratória lusa.

E, com beneditina paciência, fomos ampliando o arco das nossas investigações. Qualquer zeloso guardião nos tomaria por um Sherlock-Holmes. Por fim, lembrámo-nos de uma hipótese.

− Talvez esteja lá dentro?

Entrámos, nas velhas Cortes, desembaraçadas de bulício e de «patuleias».

Ao fundo, uma escadaria trabalhada a ferro. Antes, no vazio, algo de grande e eloquente na sua mudez:

Era a estátua de José Estêvão Coelho de Magalhães!

Ali estava, afinal, engrandecido com o seu gesto amplo de «moliceiro», os lábios desfraldados em pavilhão de adamastoreanas rebeldias. Cheios de defeitos esses românticos lutadores da revolução de 1820? Sem dúvida? Tão depressa assinavam a convenção do botequim fronteiro ao ex-Arsenal como se dispersavam na Europa hostil, e buscavam a gélida acolhida da Grã-Bretanha «torie» e a podridão dos seus barracões de Plymouth.

Em tudo, no entanto, foram originais e nobres.

José Estêvão − já o teriam removido para outro escaninho? − perpetuou-se na imensidade simples e risonha da ria de Aveiro. Como não bastava, ergueram-lhe o monumento. E, ciosos dessa voz poderosa que enche todo o século XIX de um clarão victor-huguesco, pretenderam arrumá-lo nas Cortes. E ele, o orador do povo e dos municípios, em lugar de diminuído ficou ainda maior, amarfanhando, nessa penumbra de templo popular, no silêncio tonitroante da sua voz emudecida, o pasmo dos seus contempladores. Agora e então − entra-se em São Bento com a reverência de quem contempla, na sua férrea compostura, no seu arreganho indomável, aquele que viveu intensamente a sua época, o seu direito e o seu verbo.

Por tudo isto e ainda pela lembrança devotada de seu filho, o límpido doutor Luís de Magalhães e seus primos em mérito e saber e tolerância de almas nobres, pomos estas linhas sob a invocação deles e dos doutores Sebastião Magalhães Lima e Jaime Magalhães Lima.

Movendo-se em pólos opostos, guiados por diferentes místicas − eles comungavam por igual no respeito à soberania do povo e ao respeito por ela e por ele.
 

 

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